Teoria Psicanalítica · Curso completo
Aula sete de doze
Tema Família Subtemas Vínculo Sexualidade Função materna Função paterna Objeto
Aula VII
VII

Família, vínculos & sexualidade

O grupo familiar como matriz do psiquismo, as funções materna e paterna, o vínculo amoroso e o conflito neurótico no casamento — da fusão à interdição, do desejo à escolha.

Capítulos 6 e 7 · IPP 19 a 27 Duração estimada: 90 min
Abertura · O lugar de origem

A família como matriz do psiquismo

Nenhum psiquismo se forma no vácuo. Ele se forma num triângulo — a princípio mãe-bebê-pai — que vai progressivamente se complicando até abranger todo o tecido humano em volta. É lá, e só lá, que se aprende a desejar, a amar, a odiar e a perder.

Na atualidade, é consensual entre todos os seres humanos — independentemente de sua orientação conceitual — o fato de que o grupo familiar exerce uma profunda e decisiva importância na estruturação do psiquismo da criança, logo, na formação da personalidade do adulto. Não há saída para essa constatação: toda história individual começa numa história familiar, e a marca dessa história permanece, para o bem e para o mal, por toda a vida.

O termo grupo familiar designa não unicamente a influência exercida pela mãe — mas também pelo pai, irmãos e seus relacionamentos, bem como pelas demais pessoas que se relacionam direta ou indiretamente com o bebê e a criança: babás, avós, vizinhos, professores, amigos. Os conceitos e preconceitos individuais são constituídos a partir da interpretação pessoal do meio em que se vive, marcadamente o ambiente familiar e a educação que cada um recebe.

É necessário o conhecimento da dinâmica familiar na estruturação individual — bem como perceber e entender as fantasias criadas na infância. Porque uma família não é só o que ela é objetivamente: ela é, sobretudo, o que cada criança fez dela em sua imaginação. E essas fantasias permanecem operantes por toda a vida.

Psiquicamente, o bebê recebe de um seio que faz parte dele mesmo — e a mãe dá o leite a um bebê que faz parte dela mesma. Esse mecanismo baseia-se numa ilusão que é uma raiz natural do agrupamento entre os seres humanos. D. W. Winnicott
Antropologia · Morgan, 1818-1881

A família ao longo da história

A família monogâmica, modelo dominante há séculos, é apenas a última de uma longa série. As pesquisas do antropólogo americano L. H. Morgan mostraram que a humanidade já experimentou várias formas de organização familiar — todas elas legítimas em seu tempo.

Para entendermos as mudanças na concepção de família, a função social desta instituição (a família é uma instituição social) e a produção de subjetividade que ocorre em seu interior, é necessário recorrer à história. A família monogâmica é um ponto de partida histórico — sempre precisamos partir de um ponto — embora devamos considerá-la como produto de muitas e diversificadas formas anteriores de o homem organizar-se para dar conta da sua reprodução e da sobrevivência da espécie.

As cinco formas históricas de família (segundo Morgan)
Consanguínea
Intercasamento de irmãos e irmãs carnais e colaterais no interior de um grupo. A forma mais arcaica documentada.
Punaluana
Casamento de várias irmãs, carnais e colaterais, com os maridos de cada uma das outras; e os irmãos também se casavam com as esposas de cada um dos irmãos. O grupo de homens era conjuntamente casado com o grupo de mulheres.
Sindiásmica
Família de casal — o casamento entre casais, mas sem obrigação de morarem juntos. O casamento existia enquanto ambos desejassem. Forma transitória, sem laços jurídicos rígidos.
Patriarcal
O casamento de um só homem com diversas mulheres. Aparição do controle masculino centralizado, da propriedade privada e da descendência por linha paterna.
Monogâmica
Fundada sobre o casamento de duas pessoas, com obrigação de coabitação exclusiva, a fidelidade, o controle do homem sobre a esposa e os filhos, a garantia de descendência por consanguinidade — e, portanto, a garantia do direito de herança aos filhos legítimos. Isto é: a garantia da propriedade privada.

Este percurso é fundamental para retirar do conceito de "família tradicional" o ar de naturalidade que ele costuma carregar. A família monogâmica não é mais natural do que as anteriores — é apenas a forma historicamente vencedora numa determinada configuração econômica e social, ligada ao surgimento da propriedade privada.

19
IPP 19 · O grupo familiar
Família… o que está acontecendo com ela?

O modelo "pai-mãe-prole" deixou de ser hegemônico. Hoje convivem inúmeras configurações familiares, e a clínica psicanalítica precisa lidar com todas elas sem cair no julgamento moralista do passado.

Até um tempo atrás — não faz muito tempo — o modelo de família consistia em pai e mãe-prole. Esse modelo de estrutura familiar era considerado ideal pelo modo dominante de pensar na sociedade e, por isso, bastante usado para classificar todos os outros modos de organização familiar como desestruturados, desorganizados e problemáticos.

Nesta compreensão de família há, sem dúvida, um julgamento que não é científico, mas moralista. Pois utiliza um padrão como referência e considera os outros inadequados. A psicanálise atual recusa esse julgamento: ela observa, descreve, interpreta — mas não condena formas alternativas de arranjo familiar enquanto formas. O que importa, clinicamente, é se aquela configuração específica produz ou não as funções psíquicas necessárias para o desenvolvimento do sujeito.

Atualmente, é impossível não enxergar — vários estudos antropológicos e mesmo reportagens em revistas, jornais e TV mostram — que existem muitas e inúmeras formas de estrutura familiar:

Isso sem considerarmos culturas bastante diferentes, como os grupos indígenas, por exemplo. Há também o crescente índice de divórcios e recasamentos; um número cada vez maior de mães adolescentes e solteiras; uma crescente mentalidade consumista — em grande parte ditada pela mídia, que também exerce uma influência na formação de valores ideológicos. A angustiante necessidade de ter que conviver com a violência urbana, e uma generalização da angústia de ordem econômica são alguns de outros inúmeros fatores que contribuem e afetam na formação da personalidade individual, que tem o seu início na vida infantil.

20
IPP 20 · Dinâmica do grupo familiar
Como o grupo familiar funciona

A família é um campo dinâmico onde circulam — em todos os níveis — necessidades, desejos, demandas, frustrações, ansiedades, mecanismos defensivos, mal-entendidos de comunicação, segredos ocultos ou compartilhados, afetos contraditórios.

O ambiente familiar sofre contínuas transformações e comporta-se como um campo grupal dinâmico. Há três aspectos essenciais a destacar:

i. Expectativas pessoais
As expectativas do pai e da mãe separadamente — e em especial as do relacionamento do casal. É essencialmente importante a imagem que cada um deles tem em relação ao outro, pelo fato de que essa imagem é que contribuirá nas representações internas que o filho terá de cada um dos pais — e, por conseguinte, de si mesmo.
ii. Identificações
Este fenômeno dinâmico está diretamente conectado com as identificações realizadas no meio em que se vive — principais matérias-primas para a formação das fantasias, do sentimento de identidade e da autoestima. Ou seja: com a formação da personalidade.
iii. Designação de papéis
A designação e a definição de papéis — o lugar que a criança ocupará. Por exemplo: "bode expiatório", "orgulho da mãe", "doente da família" — papéis a serem cumpridos dentro da família e fora dela. Esses papéis, muitas vezes, são designados sem que ninguém perceba.

Os "perfis" das famílias

De acordo com todos os aspectos referidos, as famílias estruturam-se com perfil variável de uma para outra — porém com uma característica típica de cada uma delas. Pode ser de natureza predominantemente narcisista, paranoide, fóbica, depressiva, sadomasoquista. Caso predomine um uso exagerado de identificações de uns nos outros, haverá o grave risco de que se percam os necessários limites, direitos, deveres, privilégios e o reconhecimento das limitações de cada um. Os lugares que cabem a um pai, mãe ou filho podem ficar borrados, confusos ou trocados.

Uma família naturalmente bem estruturada apresenta-se como uma família saudável. Isto requer algumas condições básicas — como a necessidade de que haja uma hierarquia na distribuição de papéis, lugares, posições e atribuições — com a manutenção de um clima de liberdade e de respeito recíproco entre os membros.

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IPP 23 · O primeiro espelho
A função materna

A mãe é o primeiro mundo. Antes mesmo de a criança saber que ela é alguém, a mãe já está fazendo com que ela se torne alguém — através do olhar, do toque, da voz, da nomeação.

Função estruturante · O modelo de identificação
A mãe
o primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe

A mãe é o modelo de identificação para seu filho. A criança repete, com frequência, os comportamentos da mãe — assim como seu humor do dia a dia e as formas de lidar com as situações da vida. A mãe representa para a criança um espelho, como aparece na frase de Winnicott: "o primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe, seu olhar, sorriso e expressões faciais".

O que a função materna faz

A função materna inclui muito mais do que cuidar fisicamente do bebê. Inclui:

Quando a função materna falha

Algumas falhas na função materna podem proporcionar um distúrbio no equilíbrio psíquico da criança:

Falta de contato físico
Aumenta a sensação de abandono e de não ser amada. Não havendo contato (amor manifesto) nos momentos de presença, aumentarão as sensações de desproteção, vazio e solidão.
Não compreensão
Da necessidades e ansiedades — cria um forte sentimento de insegurança, e de que a mãe é indiferente. Resulta num sentimento de total desconfiança. O mesmo ocorre quando a mãe fala uma coisa e faz outra.
Imposição de desejos
Quando a mãe impõe seus desejos sobre o filho, determinando quem ele deve ser, como deve agir e quem ele deve amar — desvalorizando a função paterna — impede que a criança tenha uma imagem real do pai e de si mesma, chegando a anular sua própria personalidade.
Preocupação rigorosa
Quando a mãe tenta resolver rapidamente todas as necessidades da criança, esta reprime sua capacidade de pensar e de tomar decisões. A onipotência da mãe pode chegar a um nível que anula a personalidade da criança.
Síndrome de Peter Pan
Certas mães tendem a cuidar dos filhos com desejos inconscientes de que eles sejam eternas crianças. Isso ocorre quando a mãe não deixa o filho fazer suas tarefas sozinho, rebaixa suas capacidades para que ele se sinta dependente — ou faz chantagens emocionais para mantê-lo junto.
Frustrações excessivas
Geram na criança raiva, rancor — com a consequente culpa e a necessidade de sofrer algum tipo de autopunição. As frustrações incoerentes provocam confusão, instabilidade, sobressalto permanente quanto à reação dessa mãe desconhecida.

Os métodos patogênicos de educação

Cabe equacionar a existência de alguns tipos principais de métodos patogênicos de educação:

No caso de aplicação exagerada de "limites" por parte dos pais, uma provável consequência nas crianças será a formação de um senso crítico de características muito severas e rígidas — o que, na adultez, se traduzirá em um superego tirânico que dificultará toda a vida psíquica posterior.

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IPP 24 · O terceiro estruturante
A função paterna

O pai não é apenas o segundo. É o terceiro — aquele que, ao se interpor entre a mãe e o bebê, abre o espaço para que o sujeito exista. Em Lacan, o nome dessa função é "metáfora paterna". Sem ela, a estruturação psíquica simplesmente não ocorre.

Função estruturante · O introdutor da lei
O pai
não é uma pessoa — é uma função simbólica

Na literatura psicanalítica, a figura do pai ocupa um importantíssimo papel — e um relevo extraordinário na obra de Freud. Na atualidade, a Psicanálise continua dando importância ao lugar do pai, com os papéis e funções pertinentes a ele.

O reconhecimento intrauterino

Já na vida intrauterina é reconhecida a influência da função paterna. Um relato clínico ilustra: "Estava fazendo um exame ultrassom numa paciente com aproximadamente seis meses de gravidez, e estávamos olhando o rostinho do bebê que dormia. Tentei acordar o bebê, mas foi impossível. O pai, que estava sentado na cadeira ao lado, chegou bem perto da barriga da mãe e falou: 'Onde está a filhinha do papai?' Foi imediato, e assistido por todas as pessoas que estavam na sala — a bebezinha fez um movimento muscular como se fosse um sorriso e passou a se mexer. Ela claramente reconheceu a voz dos pais."

O que a função paterna faz

A função do terceiro

A ênfase que merece ser dada ao papel do pai incide no fato de que sua presença — física e afetiva — é fundamental no processo de separação-individuação entre mãe e filho. Em outras palavras: é o pai que, no papel de terceiro, interpondo-se como uma cunha normatizadora e delimitadora entre a mãe e o bebê, irá propiciar a necessária formação da personalidade da criança.

Uma vez ultrapassada a ligação simbiótica com a mãe — graças à necessária presença e à função castradora da figura paterna — a criança, mais segura em sua identidade, vai poder "renunciar" à mãe como seu interesse exclusivo e abrir-se para uma socialização com o pai, irmãos, parentes, amigos.

Lacan: o Nome-do-Pai

A relação do bebê com a mãe é do tipo fusional, de indistinção. A criança busca identificar-se com o que supõe ser o objeto de desejo da mãe — colocando-se assim como falo, único objeto capaz de satisfazer a mãe. Na vivência do bebê, a mãe (ou o Outro materno) é onipotente, e o bebê fica completamente sujeitado a ela. O pai é um estranho, inicialmente.

A intervenção paterna — ou de um terceiro — vem abalar essa identificação imaginária da criança com o falo, conforme a criança associe gradualmente a ausência da mãe à presença do pai. Quando o pai aparece em cena, a criança começa a questionar sua posição de único objeto de desejo da mãe.

Vale lembrar: a função paterna é uma função simbólica, não se refere a uma pessoa, a um pai encarnado. Não é necessário um pai concreto — basta um terceiro que faça a mediação com o desejo da mãe. Pode ser a avó, o irmão mais velho, a comunidade, a lei. Mas algum terceiro tem que existir, sob pena de a criança ficar capturada na relação dual com a mãe e não conseguir constituir-se como sujeito autônomo.

O recalque do significante Nome-do-Pai — que caracteriza a metáfora paterna — e seu correlato, o recalque originário, permitem o acesso ao Simbólico: inauguram a castração simbólica e estabelecem a Lei. A perda do lugar privilegiado (o de falo da mãe) provoca o confronto com a própria castração — além de evidenciar a castração da mãe. Isto é: o Outro também passa a ser barrado, deixa de ser onipotente.

A função paterna confere então um ponto de referência pelo qual o neurótico se norteia, indicando que há uma Lei em operação. A função paterna define também a sexuação (que independe da anatomia) e a filiação. Dependemos dessa função para estruturar como sujeitos.

Sobre a função simbólica do pai

Capítulo 7 · sexualidade humana

A sexualidade humana adulta

No homem, a sexualidade não é instinto puro. Pouca coisa resta de caráter instintivo — e a escolha sexual é feita mais pelo prazer que ela nos dá do que pela pressão da necessidade de reproduzir a espécie.

Essa tão singela e inocente descoberta será fundamental para que a criança percorra o caminho que a levará à busca do prazer sexual — que também está desvinculado de suas finalidades, já que a relação sexual se dá pelo prazer que ela oferece ao indivíduo, e não por um reflexo da espécie.

Quando sentimos um forte desejo sexual, tendemos a associá-lo a uma justificativa muito comum: "isso é natural, pois temos um instinto sexual". É como se fosse uma coisa animal e devesse estar ligado à preservação da espécie. Não é bem assim que a coisa se dá.

A diferença em relação aos animais

É verdade que existe um instinto sexual entre os animais. Quando uma cadela se encontra no cio, um cão não poderá recusá-la. Ele lutará com outros pretendentes e, vencendo a luta, será o candidato escolhido. A cadela também não poderá recusar — ela apenas espera a definição do mais apto. Nenhum cachorro pensará em abandonar a luta porque a cadelinha não é muito simpática.

Com o homem ocorre um fenômeno diferente. O homem difere dos outros animais pela consciência. Isso significa que a escolha do parceiro sexual, no caso da nossa espécie, não é feita instintivamente — mas tem um componente racional que avalia a escolha. Pouca coisa resta no homem de caráter instintivo, e a escolha sexual é feita mais pelo prazer que ela nos dá individualmente do que pela pressão da necessidade de reproduzir a espécie. O prazer passa a ser o dado fundamental para a sexualidade humana.

Não é só genitalidade

Para Freud, sexualidade está longe de ser sinônimo de genitalidade. Apresenta-se desde muito cedo nas relações com os objetos primordiais — e é marcada pela ambivalência: o amor e o ódio estão presentes na relação antes mesmo de qualquer discriminação.

Demonstra-se que a sexualidade aparece no ser humano desde muito cedo, e que as suas primeiras manifestações não têm caráter genital. Trata-se mais da organização do impulso da libido — que, mais tarde, será fundamental na busca do prazer sexual. É por isso que costumamos denominar "sexualidade" esse processo, para dar-lhe um conteúdo mais amplo que "sexo", no sentido mais estrito do termo.

O prazer passa a ser o dado fundamental para a sexualidade humana. Sobre a sexualidade não-instintiva
67
IPP 67 · O conceito de vínculo
O vínculo amoroso

A palavra "vínculo" vem do latim vinculum: uma ligadura. É essa ligadura específica entre duas pessoas — claramente delimitadas entre si, mas unidas — que organiza a vida amorosa adulta.

O termo vínculo tem sua origem no étimo latino vinculum, que significa uma união com as características de uma ligadura, uma atadura de características duradouras. Da mesma forma, vínculo provém da mesma raiz que a palavra "vinco" — como em "vinco" das calças, ou de rugas. Ou seja: alguma forma de ligação entre as partes que estão unidas e inseparáveis, embora elas permaneçam claramente delimitadas entre si.

Trata-se, portanto, de um estado mental que pode ser expresso por meio de distintos modelos e com variados vértices de abordagem. Vejamos como os principais autores trabalharam com essa noção:

Freud
Em diversos trabalhos, deixou claramente implícita a importância que atribuía aos vínculos — embora utilizasse termos correlatos: os que se estabelecem entre o indivíduo e seus semelhantes; entre a criança e a mãe; entre os indivíduos e as massas.
Klein
Em 1930, remeteu diretamente à noção de vínculo — como se pode observar no relato de análise do menino Dick, no trecho "a análise desta criança tinha que começar pelo estabelecimento de um contato com ele".
Bowlby
Psicanalista britânico, durante mais de quarenta anos estudou a "teoria do vínculo" — sob a denominação original de attachment, conceituando-o como o vínculo afetivo primário da relação mãe-filho. Considerava que a principal função do vínculo é proteger a sobrevivência do indivíduo contra agentes predadores externos.
Bateson · Palo Alto
Em 1956, no estudo sobre a teoria da comunicação humana, descreveu a importante conceituação de "duplo vínculo" — que consiste em uma patologia da relação entre pais e filhos, por meio de mensagens contraditórias do tipo: "Eu te ordeno que não recebas ordens de ninguém"; "Faça o que eu mando, não o que eu faço".

A escolha do objeto

No decorrer de nossas vidas investimos energia sexual ou libido em diferentes objetos que nos dão prazer. O outro, a quem amamos, é um objeto no qual investimos libido.

Por que investimos naquele objeto e não em outro? A resposta não pode ser dada como uma regra — pois os fatores inconscientes envolvidos nessa escolha são muitos e diferem de pessoa para pessoa. O objeto amado pode ser:

O objeto do desejo é algo tão difícil que não é todo dia que encontramos aquilo que é a imagem exata de nosso desejo. Mas quando encontramos, sabemos identificar.

Jacques Lacan

Assim, nós temos uma imagem formada de nosso objeto de desejo — e procuramos nos objetos do mundo algo que se assemelhe a ela. Quando o identificamos, investimos libido nele. Nós o amamos.

Os dois modos de amar

Paixão & amor maduro

Há um estado do estar amando que conhecemos como paixão — e que é, do ponto de vista psicanalítico, profundamente diferente do amor maduro. Na paixão, o eu se empobrece. No amor maduro, ele se enriquece.

A paixão é o extremo do investimento libidinal no outro. Ou seja: o indivíduo investe tanta libido no outro — objeto de desejo — que seu eu fica empobrecido e enfraquecido, a ponto de seguir e fazer tudo o que o outro desejar. É a entrega total ao outro.

Estado extremo · investimento total
A paixão
Na paixão, ao contrário da identificação, o eu do indivíduo empobrece-se e torna-se fraco, cego. Toda a libido é deslocada para o objeto amado — e o sujeito perde a capacidade de avaliar criticamente, de manter seus próprios interesses, de preservar sua independência. É um estado próximo da fusão. Pode ser intensamente prazeroso, mas é instável: quando o objeto frustra, a queda é abissal.
Estado maduro · investimento parcial
O amor maduro
No amor maduro há investimento libidinal no outro — mas sem que isso esvazie o sujeito. O eu permanece consigo mesmo, conserva seus interesses, sua capacidade crítica. Pode haver desejo intenso, mas há também reconhecimento da alteridade — do fato de que o outro é outro, e tem seus próprios desejos, contradições, limites. É o amor que tolera a frustração sem desmoronar.

Casamento e expectativas

Pesquisas mostram que as pessoas casadas são geralmente mais felizes, mais saudáveis e vivem mais tempo. Mas isso não quer dizer que o casamento, por si só, garanta o bem-estar. Pelo contrário: quando o casal não consegue elaborar suas expectativas inconscientes, o casamento se torna o lugar privilegiado do conflito neurótico.

Cada um teve uma educação (cultura) familiar, religiosa e social sobre o que é um relacionamento — assim montando em sua mente um modelo do que seria um relacionamento. A vida inteira o indivíduo escutou, presenciou e fantasiou sobre o que é certo e o que é errado no casamento, qual a forma de agir, e até mesmo do que se queixar.

A maioria das pessoas leva essas interpretações inconscientemente como expectativas para o seu casamento. Sendo assim, pode-se dizer que todo ser humano sofrerá as influências desse meio e crescerá tomando decisões de acordo com aquilo que aprende a ser certo ou errado — moral ou imoral — dentro dos padrões e das leis estabelecidos por aquela sociedade específica.

Pode-se dizer que um dos grupos que mais influencia é o familiar. Saber o que os pais aprovam ou desaprovam, muitas vezes de formas indiretas — comentários em forma de críticas ou elogios para certas pessoas ou situações. Desta maneira, o filho forma sua ideia do que seus pais aprovam ou não. Não raro, ele e ela não tiveram os mesmos modelos — assim levando para o casamento expectativas diferentes, originando-se os conflitos entre o casal.

Lacan · sobre o acúmulo de expectativas

O conflito neurótico no casamento

Segundo Lacan, é o acúmulo de pequenas expectativas que leva aos conflitos — e consequentemente ao desgaste do relacionamento. O problema não é a expectativa grande e óbvia: é a pequena, silenciosa, não verbalizada.

Um exemplo clássico sobre um conflito neurótico é a não verbalização de uma expectativa específica. Vejamos:

Exemplo i · A expectativa silenciosa
É o caso do marido que chega em casa depois de um dia duro de trabalho — e em sua mente espera que sua mulher o receba com carinhos, tire seus sapatos e coisas do tipo. Mas não fala isso a ela. Apenas espera. Como ela vai adivinhar? Fim da história: ele se frustra e, inconscientemente, se vinga dela, não fazendo algo para ela.
Exemplo ii · A não percepção do outro
Outro caso muito comum é o de não enxergar a realidade do outro. É o caso da mulher que diz ao marido "amor, vamos ao shopping comer" — e não percebe que o marido está estressado e esgotado do trabalho. Quando ele diz que está cansado, não sendo apenas uma desculpa, ela verbaliza: "você nunca me leva para sair". Surge então um sentimento de culpa no marido — e o conflito.
Exemplo iii · As mensagens introjetadas
É o caso da mulher que escutou a vida toda que "homem só pensa em sexo" — e não contabiliza as demonstrações de afeto do marido. Assim, reclama que seu marido só a procura para sexo. A expectativa herdada do meio familiar e cultural contamina a leitura do parceiro real, e o que poderia ser visto como carinho passa a ser visto como predação.

O sentimento de culpa no relacionamento

Um indivíduo que se culpa por tudo ter dado errado — sem nenhum motivo aparente, sem causa definida — vai contaminar o casamento. É o caso do indivíduo depressivo com a finalidade de dominar e impedir a liberdade de outrem, perdendo, com isso, a possibilidade de desfrutar de uma boa relação afetiva. Cria distúrbios para si mesmo e para outrem, levando ambas as partes a, inúmeras vezes, ter sentimentos de culpa — por se sentirem responsáveis pelas situações fracassadas.

A intolerância a perdas e frustrações

A descoberta da infidelidade

Poucas situações afetam tanto a tranquilidade doméstica como a descoberta de um caso extraconjugal — seja do homem ou da mulher. Neste caso, o sintoma depressivo familiar e a sua recuperação são lentos. Aquilo que era contado como certo não é mais; a confiança que se tinha estremece; os filhos questionam as ausências do infiel em casa.

Filhos e cônjuge se amedrontam com uma possível perda do ser amado e, mais ainda, com as falsidades do outro. A confiança não é reconstituída com facilidade — e em alguns casos nunca se reconstituirá. O poder de perdoar pode ser grande, mas o de esquecer normalmente não é. Mesmo o outro entendendo o motivo da traição — muitas vezes vendo até sua própria contribuição involuntária para o ocorrido — não se esquece logo.

Muitas vezes, após o ocorrido, é comum os relacionamentos se estabilizarem depois da crise. Muitos casais conseguem crescer com a crise — e, às vezes, um relacionamento que era insatisfatório melhora porque os parceiros, durante a crise, conseguem se comunicar e estabelecer o "ficar juntos" como prioridade.

Caso o casal não consiga deixar o que se passou de lado e continuar o relacionamento, então deve-se considerar seriamente uma separação — pois um estado de stress e conflito psicoemocional constante não deve ser mantido em hipótese alguma, já que o risco de conflito neurótico e problemas mais sérios é muito grande.

O motivo recorrente da infidelidade. Um dos motivos mais frequentes da infidelidade conjugal ocorre em função de um conflito neurótico muito intenso — como se alguns momentos passados longe dos problemas familiares pudessem trazer certo alívio para o stress constante no relacionamento. A traição é, muitas vezes, um sintoma — não a causa do problema.

É no desempenho de seus papéis que a criança será reconhecida — ou não — pelos outros que habitam fora ou dentro desta família. Sobre o vínculo familiar
Educação · o manejo dos pais

Da autoridade ao senso de comunidade

"Você lava a louça porque eu mando e eu pago as contas desta casa." A frase funciona enquanto a autoridade existir. No dia em que o filho pagar a própria conta, ela deixa de valer, e ele vira as costas.

Essa frase ensina ao filho que ele não está ali por amor nem por pertencimento. Ele está ali porque alguém paga. É a pior relação possível com a autoridade, e foi a relação em que se criou boa parte das gerações anteriores.

O efeito seguinte é pendular. A geração que apanhou de autoridade demais produz a geração que não coloca autoridade nenhuma. A proposta não é nenhum dos dois extremos. No lugar da autoridade entra o senso de comunidade: a consciência de que o que eu faço e o que eu deixo de fazer tem impacto na comunidade onde eu vivo. Se não recolho o copo, alguém fica sem copo. Se não recolho o cocô do cachorro, sujei o quintal de todos. Se jogo papel na rua, entupo o bueiro e alago o bairro.

Regra clara, escrita e acordada

Nada de adivinhação. As regras são claras, definidas, verbalizadas e escritas, e nascem de uma conversa em que a mudança é nomeada: "você percebeu que cresceu? Então as regras aqui também mudam". Tabela na geladeira, dias da semana, X no que não foi feito.

A divisão das tarefas é obrigatória e tem proporção. Cerca de metade é responsabilidade sobre si mesmo: mochila, cama, dentes. A outra metade envolve o grupo: louça, cocô do cachorro, o que for da casa. Só o primeiro bloco não constrói senso de grupo nenhum.

Não se avisa. Dado o compromisso, ninguém lembra. Quem é avisado é executor, não responsável.

Não se premia. Nada de festa, bolo, presente ou dinheiro por tarefa cumprida. Prêmio ensina a agir por interesse, e o filho passa a não fazer no dia em que não houver ganho. Reconhecer é outra coisa, e reconhecer não é dar parabéns: reconhece-se o papel que a pessoa cumpre na casa. "É muito legal você fazer o seu papel aqui." Isso não é celebração, é nomeação.

A punição tem duas condições

Vem antes e é transitória. A punição é acordada com antecedência e tem tamanho definido: cinco dias com X, dez dias sem videogame. Ela serve apenas para mover um cérebro que ainda funciona a prazer e desprazer, enquanto o hábito de cumprir a agenda não se instalou. Por volta do quarto ou quinto mês, retira-se, e a retirada também é verbalizada: "estou tirando porque você já tem consciência do impacto do que faz".

Punição que vem do nada, no tamanho que o adulto decidiu naquela hora, produz raiva e sensação de injustiça. Cronificada, produz outra coisa: o filho passa a viver em estado de alerta contra uma ameaça fantasma, sem saber de onde vem o tiro nem qual será o tamanho da bronca. É uma das origens educativas do transtorno de ansiedade, e a profilaxia é literal. Não dar susto. Não ser esse fantasma. Acordar e cumprir o que foi acordado.

Retirar o controle sem verbalizar é abandono

Excesso de controle produz dependência. E essa dependência é sentida como proteção e acolhimento. Quem retira o controle sem mais nada retira junto a proteção e o acolhimento, e a criança vive isso como abandono: você me abandonou. Por isso toda mudança de contrato com o filho precisa ser falada. "Eu te controlei demais, vamos mudar isso. Agora você escolhe assim e assim." Verbaliza-se o jogo; não se troca a regra em silêncio.

Vale a mesma lógica para a função que falta. Quando um dos pais não faz a parte dele, o outro tende a entrar com excesso para compensar, e o excesso é o segundo erro. Mãe solo faz as duas funções, e ponto. Mas pai que existe e está ausente é outro caso: a criança está pedindo aquela presença específica, e presença não se substitui. Cobra-se a entrada dele no jogo.

O filho devolve o que o adulto recalcou

A criança e o adolescente realizam o desejo e o medo dos pais. O filho sente o recalcado do adulto e o devolve em comportamento. A mãe que teve anos de pânico e evita relação com o outro terá o filho que não quer fazer amizade. Forçar esse filho a socializar não muda nada. O que muda o filho é equalizar a relação do adulto com o outro.

Na mesma direção: a família adoece e um dos membros expressa o sintoma. Um estoura, um entra em pânico, um deprime. Esse um não é o problema da família. Ele é o herói da família, porque carrega no corpo o que o grupo inteiro não consegue dizer. É por isso que se olha a família como um todo, e é por isso que a conversa com os pais é sobre o comportamento deles.

Não é um adolescente problema, é um adulto que não sabe o que fazer. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise · Instituto Virtudes · Módulo 1, aula 22 · 13/05/2024
Clínica · manejo com adolescentes

O manejo do adolescente é o inverso do manejo do adulto

A couraça de caráter nasce da dor. Cada angústia acrescenta uma camada, e as camadas engrossam com a idade. O adulto de cinquenta chega coberto delas. O adolescente, não, e isso muda tudo o que o terapeuta faz.

Com o adulto, a resistência está lá em cima e o terapeuta precisa driblar. Com o adolescente, o drible tem efeito contrário. Ele tem pouca couraça, enxerga a manobra e sai da cena como quem é jogado para fora de um filme mal feito. Com adolescente, papo reto.

Um exemplo de como isso se faz. Uma menina de dez anos passou a dormir entre a mãe e o padrasto. Em poucos segundos, diz-se a ela o que está em jogo: ela nunca teve pai; esse homem está ocupando o lugar paterno; a mãe nunca a desvinculou; agora alguém tomou o lugar dela na cama; e é normal estar apaixonada por ele, porque essa é a idade do amor platônico. A partir daí ela começa a elaborar. O papo reto não a quebrou. Ele deu nome ao que ela já sentia.

Calibragem · sentar na cadeira do paciente
Antes de aplicar qualquer manejo, o terapeuta se senta na cadeira do paciente e responde como ele: "se eu estivesse com essa angústia e me manejassem assim, eu estaria furiosa ou tranquila? Do que eu precisaria agora?" Isso não é contratransferência. Vira contratransferência apenas quando o caso do paciente é igual ao seu.

O contrato de sigilo

Sem contrato explícito de sigilo não há processo com adolescente. Ele se faz na abertura da primeira sessão, e é simples: o que combinarmos, falo com seu pai e sua mãe; o que não combinarmos, não sai daqui. Ninguém chega ao lugar mais íntimo, o da maior verdade, com alguém que prometeu relatar tudo.

Quando algo precisa ser levado aos pais, a fórmula é "vamos pensar juntos". O adolescente participa da decisão e nunca é objeto dela. Ele já passa o dia inteiro recebendo ordem.

Nunca dedurar. Falar com os pais é falar do comportamento deles que está prejudicando a criança, e não relatar o que o filho contou. A posição de delator encerra a confiança, e depois dela o adolescente não entrega mais nada.

Pais que ameaçam "vou contar tudo para a sua psicóloga" estão transferindo a própria responsabilidade. É sinal de uma personalidade que não assume responsabilidade em nada, provavelmente nem no relacionamento do casal, e é neles que esse trabalho começa. Há um diagnóstico rápido do discurso dos pais: eles falam de problema, passado e coisa ruim, ou de solução, futuro e coisa boa? Quem fala só do primeiro grupo está em mar de culpa, culpando o outro e culpando a si, e é dali que precisa sair.

Onde o brincar está hoje

Tabuleiro, quadro branco e "vou desenhar" não alcançam uma pré-adolescente de dez anos. Ela quer falar de menino, de treta com a amiga, de palavrão. O brincar dessa idade está em Roblox, Fortnite e anime, e isso não entra na sessão como concessão simpática. Entra como instrumento de leitura.

Jogando com o paciente, lê-se a personalidade pela estratégia. Quem fica escondido atrás da moita o jogo inteiro não arrisca na vida. Quem sai correndo matando todo mundo e comemora cada morte não está matando adversário: está matando alguém. É a leitura kleiniana atualizada. Melanie Klein observava o objeto e o brinquedo destruídos e o modo como a criança lidava com aquela destruição. Ali aparecem a falta, o desejo frustrado, o ódio de destruição e os medos.

Uma ressalva de indicação: o jogo propriamente dito se usa quando não há concentração. Ele é a via do hiperfoco, e é assim que entra com pacientes de TDAH grave.

Dissimbiotização fora de hora

Criança que dorme na cama do casal sai da cama. Não é "vamos separar aos poucos" nem "pode assistir filme aqui". O quarto do casal é de adulto, e filme se assiste junto, no sofá. A razão é que, para ela, a cama já tem representação de sexo, e ela sabe disso.

A previsão precisa ser dita aos pais com honestidade: ela vai ficar mais furiosa por um tempo, porque perdeu os dois de uma vez. E é exatamente isso que precisa acontecer, porque ali se constrói caráter. O ego tem que passar pela experiência de que esse homem não é meu e essa mãe não é minha. A dissimbiotização que não foi feita na hora certa vai ser feita agora, com o custo de agora.

O adolescente tem quanto de couraça perto de um adulto? Bem menos. O papo é mais reto, você não precisa driblar tanto. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise · Instituto Virtudes · Módulo 2, aula 11 · 21/10/2024
Sexualidade infantil · manejo e trauma

Castrar é diferente de orientar

Pais que flagram a sexualidade infantil costumam ter duas saídas na cabeça: proibir ou fingir que não viram. Existe uma terceira, e é a única que constrói alguma coisa.

Irmãos que brincam de injeção, criança que se esfrega no brinquedo, exploração com o primo. Nunca proibir. "Isso não pode, isso é proibido" marca a sexualidade como coisa interditada, e a pessoa carrega essa marca a vida inteira. A repreensão severa é o que de fato traumatiza, porque acopla sexualidade e punição no mesmo circuito. O pai que não foi severo diante de uma cena dessas acertou.

A fórmula do "pode"

Orientar é dar o "pode" com lugar, hora e limite. "Pode se esfregar no macaquinho, pode. No menino da escola, não. Na frente de todo mundo, não. E sem se machucar." A orientação inclui o concreto: onde e como, para não machucar.

Até os nove ou dez anos, a cognição é prática e não conceitual. Exemplo conceitual não é compreendido; exemplo visual é. Blusa de frio a quarenta graus. Calda de chocolate na picanha. Cada coisa tem seu lugar e sua hora, e é assim que a criança entende.

A normalização fecha o manejo: "a mamãe também se esfrega no macaquinho, mas no lugar certo e na hora certa". Quando os pais plantam que não transam, o filho constrói nojo. Há quem chegue à vida adulta apontando como maior trauma ter escutado a mãe transando, justamente pelo tanto que a própria sexualidade havia sido podada.

E há um efeito colateral do "pode" que o manejo aproveita: quando se libera, a fritação diminui. É a proibição que mantém a curiosidade acesa.

A culpa adulta não vem do ato
Um homem que aos seis ou sete anos explorava o corpo com um adulto que permitia hoje não se autoriza a tocar em criança nenhuma. O superego que não o deixa olhar outro pênis se traduziu em não abraçar criança. A culpa não vem do ato da infância. Vem do simbólico aprendido depois. Não existe culpado ali, muito menos o de seis anos, e o alvo do trabalho é o desejo recalcado, não o episódio.

O que traumatiza no abuso

O trauma sexual se separa em dois blocos independentes, e confundir um com o outro inviabiliza o tratamento.

O primeiro é a linha da perversão. Trata-se da antecipação de experiências sexuais fora da fase de desenvolvimento correspondente. Uma criança de seis anos estaria descobrindo o próprio corpo. Colocá-la diante de pênis adulto e de penetração é passar a linha na hora errada, e isso distorce a construção da personalidade. Depois de saber o que é penetração, não se volta a brincar de boneca. Esse bloco é o mais prejudicial dos dois, porque o segundo é tratável e este não retrocede.

O segundo é o simbólico da figura que fez. O que traumatiza não é o sexo, é o contexto: a quebra da proteção por quem deveria proteger, a ameaça e a imposição. Por isso o cálculo muda inteiramente conforme a figura. O abuso por desconhecido registra-se como assalto: fragilidade, impotência, a sensação de ter sido roubado. O abuso por padrasto, pai ou avô é outra coisa. Ali há figura transferencial e símbolo de proteção, e o que se quebra é o senso de proteção e o próprio ego. Além de não ser protegido, o sujeito é atacado por quem protegia. É o lugar mais grave a que esse cálculo chega. E o corpo fica marcado: as zonas tocadas guardam aquela desproteção, aquela decepção, aquela autoridade.

Duas saídas são possíveis, e o terapeuta precisa saber que existem as duas. Uma é a repulsa total. A outra é a inversão: o sujeito passa a buscar sexo mais violento, mais forçado, mais autoritário, porque ainda precisa daquela figura paterna e vai buscá-la por essa via.

Há também abusos prolongados por anos sem ameaça nenhuma, em que a criança está recebendo algum tipo de aprovação, carinho ou proteção naquilo. Nesses casos o trauma se instala mais tarde, no momento em que ela simboliza: conversa com as amigas e entende que aquilo estava errado.

O que impede essa leitura, na maior parte das vezes, é o pudor do superego do terapeuta. Dizer que o sexo não traumatiza não minimiza o abuso. É a indicação de onde tratar.

O sexo não traumatiza. O que traumatiza é o contexto. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise · Instituto Virtudes · Módulo 2, aula 11 · 21/10/2024

A linha não retrocede

O que excitava aos doze ou catorze anos, um peito, um menino sem camisa, não excita mais aos cinquenta. A linha foi subindo. É exatamente por isso que a pornografia é prejudicial: ela escala a fantasia degrau a degrau, e a linha não volta. Ela apenas se adapta.

A analogia é a da droga. O primeiro trabalho em clínica é fazer o paciente aceitar que aquele nível de prazer não voltará. Com a sexualidade funciona igual. Quem viveu tudo e agora quer construir família precisa aprender a lidar com essa falta, e o caminho não é reencenar o que já foi vivido. É dominar o desejo em vez de ser dominado por ele.

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