O que move o aparelho psíquico? De onde vem a energia que faz o desejo nascer, repetir-se, adoecer? É por aí que esta aula começa.
A primeira aula contou como a Psicanálise nasceu. Esta vai abrir o motor — e mostrar a energia que faz esse aparelho funcionar.
Por que comemos demais quando estamos tristes? Por que voltamos a tropeçar nos mesmos relacionamentos? Por que algumas pessoas sentem prazer no que machuca, ou raiva no que deveria amar? O que está empurrando, lá embaixo, o nosso comportamento — mesmo quando a parte consciente da gente diz “eu não queria isso”?
Freud chamou essa força de pulsão. Não é instinto animal — é algo diferente. Não é vontade consciente — é algo mais profundo. É uma pressão constante, vinda de dentro do corpo, da qual não dá para fugir: o estímulo que vem de fora você pode evitar fechando a porta, mas o estímulo que vem de dentro, esse mora com você.
Esta aula é sobre essa pressão. Vai cobrir três coisas que conversam entre si:
A pulsão nunca age como uma força momentânea de impacto, mas sempre como uma força constante.Sobre a natureza da pulsão
Existe uma palavra que confunde tudo — instinto. Em alemão, Freud usou duas palavras distintas. A tradução juntou as duas. E ainda hoje pagamos esse preço.
Freud, através do estudo da neurofisiologia, aprendeu o conceito do modelo de arco-reflexo (mecanismo de feedback). Por exemplo: um “estímulo” interno detecta a diminuição de fornecimento de água externa para o organismo e lança mão de mecanismos para diminuir a excreção — através da diminuição da sudorese e da produção de urina. Por outro lado, após a ingestão de grande quantidade de água, o organismo aumenta a produção de urina (observado, por exemplo, nos bebedores de cerveja).
No arco-reflexo, um estímulo aplicado a um tecido vivo (substância nervosa) a partir de fora é descarregado por uma ação para fora. Essa ação é conveniente na medida em que, afastando a substância estimulada da influência do estímulo, remove-se o seu raio de ação. Isto ocorre quando um indivíduo caminhando descalço pisa em um “espinho”: este irá ferir seu pé ou causar um desconforto; através de mecanismo reflexo, o organismo evitará colocar os pés no mesmo local e retirará rapidamente o pé do local do estímulo.
Então, como se relaciona a pulsão com o estímulo? Nada nos impede de incluir o conceito de pulsão no de estímulo: a pulsão seria um estímulo para o psíquico. Mas somos imediatamente advertidos a não colocar como equivalentes pulsão e estímulo psíquico.
É evidente que existem para o psíquico, além dos estímulos pulsionais, outros estímulos que se comportam de maneira muito mais parecida com a dos estímulos fisiológicos. Por exemplo: uma luz forte que atinge o olho não é um estímulo pulsional. Estaremos diante de um estímulo pulsional quando algo como a secura da membrana mucosa da faringe ou a irritação da membrana mucosa do estômago se fizer perceptível.
O que distingue um estímulo pulsional dos outros estímulos:
A melhor denominação para o estímulo pulsional é o termo “necessidade” (Bedürfnis); a tudo aquilo que suspende essa necessidade denominamos “satisfação” (Befriedigung). Essa satisfação só pode ser alcançada por meio de uma alteração direcionada e específica — isto é, adequada — da fonte interna emissora de estímulos.
O termo instinto é usado para definir comportamentos bem mais rígidos dos animais, e que aparecem sob forma idêntica em todos os indivíduos de mesma espécie. Os indivíduos no estado de fome, por necessidade de alimentos, se alimentam até saciarem este estado.
Os comedores compulsivos apresentam um estado de descarga de energia no ato de se alimentarem — esta “sobra de energia” que é descarregada comendo-se compulsivamente. Freud denominou de Pulsão.
A palavra pulsão, empregada por Freud, designa as necessidades biológicas, com representações psicológicas, que urgem ser descarregadas. Na literatura psicanalítica, eventualmente a noção de “pulsão” pode aparecer com a terminologia de “impulsos” ou de “impulsos instintivos”.
Freud utiliza o termo pulsão como uma força impulsionante, relativamente indeterminada quanto ao comportamento e ao objeto. O termo instinto era usado para o comportamento bem mais rígido dos animais e que aparece sob a forma quase idêntica em todos os indivíduos da mesma espécie. Animais têm instinto. Humanos têm pulsão.
Em “Os Instintos e suas vicissitudes” (1915), Freud disseca uma pulsão. Quatro elementos. Toda pulsão tem todos.
Na publicação do trabalho metapsicológico “Os Instintos e suas vicissitudes”, Freud (1915) conceitua a pulsão como sendo “o representante psíquico dos estímulos somáticos”. Os elementos constituintes de uma pulsão são uma fonte, uma força, uma finalidade e um objeto.
Entende-se como processo somático que ocorre num órgão ou parte do corpo, e cujo estímulo é representado na vida psíquica. É ditado pela necessidade de sobrevivência (instintual) e diz respeito ao órgão ou zona erógena (pulsional), de onde provém o estímulo.
Não se sabe se esse processo é sempre de natureza química, ou se também pode corresponder à liberação de outras forças — por exemplo, mecânicas. Todavia, o estudo das fontes pulsionais já não compete à psicologia: embora o elemento mais decisivo para a pulsão seja sua origem na fonte somática, a pulsão só se faz conhecer na vida psíquica por suas metas. Muitas vezes, a partir das metas pulsionais, é possível inferir retroativamente quais são as fontes da pulsão.
Compreende-se como seu fator motor: a quantidade de força ou a medida da exigência do trabalho que ela representa. É o motor da atividade psíquica (quantidade / desejo) e determina o aspecto quantitativo da pulsão, que visa a descarga de energia. Este aspecto da pulsão é o que fundamenta o ponto de vista “econômico”.
Esse caráter de exercer pressão é uma propriedade universal das pulsões — na verdade, sua própria essência. Toda pulsão é uma parcela de atividade; assim, quando, de maneira menos rigorosa, falamos de pulsões passivas, estamos nos referindo a pulsões cuja meta é passiva.
É sempre a satisfação — que originalmente só pode ser obtida por meio de uma eliminação ou descarga da excitação procedente de uma fonte, na tentativa de conseguir equilíbrio psíquico.
A finalidade ou meta de uma pulsão é sempre a satisfação, que só pode ser obtida quando o estado de estimulação presente na fonte pulsional é suspenso. Embora a meta final de toda pulsão seja sempre a mesma, são diversos os caminhos que podem conduzir a essa meta.
A noção de “objeto” não deve ficar restrita à presença de algo ou de alguém que está alheio ao indivíduo; assim o próprio corpo pode servir ao mesmo tempo como uma “fonte” e como um “objeto” da finalidade pulsional.
Uma ligação particularmente estreita da pulsão com o seu objeto se distingue pelo termo “fixação”, e geralmente ocorre intensa oposição ao desligamento. Pode-se interpretar como uma energia obsessiva em direção a determinado objeto (um pensamento fixo, obsessão).
A pulsão é o representante psíquico dos estímulos somáticos. Toda pulsão é uma parcela de atividade. Embora a meta final de toda pulsão seja sempre a mesma — a satisfação — são diversos os caminhos que podem conduzir a essa meta.
Sigmund Freud · Os Instintos e suas Vicissitudes, 1915
A primeira classificação de Freud distinguiu pulsões do Ego e pulsões sexuais. Mais tarde, ele unificou tudo: vida.
A primeira classificação que Freud fez foi a distinção entre as pulsões do Ego ou de “auto-conservação”, cujo protótipo é o da fome — e as pulsões sexuais ou de “preservação da espécie”, as quais mais tarde unificou como pulsão única, chamando-a de pulsão de vida, ou Eros (deus grego do amor).
Para Freud, as pulsões representam um conjunto das necessidades e exigências ligadas às funções corporais, indispensáveis à conservação, desenvolvimento, crescimento e aos auto-interesses do Ego. Ele costumava referir-se a essas pulsões com a terminologia “interesses do Ego”.
Em sua publicação “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905), Freud mostra que no início da vida as pulsões são de auto-conservação: visam fundamentalmente assegurar a vida do lactente, impulsionando-o à busca de um objeto — a mãe — que lhe proporcione a satisfação de suas necessidades essenciais: cuidados com o corpo, amparo, calor, amor, e um leite nutridor.
Inicialmente, as pulsões sexuais estão ligadas àquelas de auto-conservação. Em um segundo momento, elas se tornam independentes e se determinam primordialmente a satisfazer os desejos libidinais — a erotização do seio produtor do leite.
O chuparo-do-dedo aparece na primeira infância e não há dúvidas de que a finalidade desse procedimento é conseguir substituir a nutrição. Uma parte do próprio lábio, a língua ou qualquer outra parte da pele ao alcance pode ser tomada como objeto sobre o qual este sugar se realiza. No autoerotismo, o instinto não é dirigido para outra pessoa, mas encontra satisfação no corpo do próprio indivíduo. (...) Ninguém que já tenha visto um bebê reclinar-se saciado do seio e dormir com a face corada e um sorriso feliz pode fugir à reflexão de que este quadro persiste como protótipo da expressão da satisfação sexual na vida adulta.
Sigmund Freud · Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, 1905
A necessidade de repetir a satisfação sexual desliga-se agora da necessidade de nutrir-se — uma separação que se torna inevitável quando aparecem os dentes e o alimento não é mais ingerido pela sucção, mas é também mastigado.
Primeiro momento — pulsão de auto-conservação:
Segundo momento — a fome já está saciada, mas o bebê continua sugando:
Em 1920, Freud introduz uma virada perturbadora: existe em nós uma força que não busca o prazer. Uma força que quer voltar ao estado anterior. Ao silêncio.
Em “Além do princípio do prazer” (1920), Freud estabelece uma nova teoria pulsional: a dualidade entre pulsões sexuais (Eros, ou pulsões de vida) e pulsões de morte (Tanatos, pulsão de destruição). Introduz, assim, a noção de pulsão de morte — mantendo o caráter dualista das pulsões.
Para Freud, o conceito de pulsão de morte tem como finalidade uma redução de toda carga de tensão orgânica e psíquica — logo, uma volta ao estado inorgânico. Esta pulsão tende a permanecer dentro do indivíduo sob a forma de fortes angústias e tendências para a autodestruição, ou se exterioriza na forma de pulsões agressivas ou destrutivas.
A pulsão de destruição é uma das denominações usadas por Freud para designar as pulsões de morte numa perspectiva mais próxima da experiência biológica e psicológica. Às vezes, sua extensão é a mesma da expressão pulsão de morte — mas na maior parte dos casos qualifica a pulsão de morte enquanto orientada para o mundo exterior. Neste sentido mais específico, Freud usa também a expressão pulsão de agressão.
Como as pulsões de morte operam “essencialmente em silêncio”, só podem, de certo modo, ser reconhecidas quando agem no mundo externo. Compreende-se que a expressão pulsão de destruição qualifique os seus efeitos mais acessíveis, mais manifestos.
A pulsão de morte desvia-se da própria pessoa devido ao investimento desta pela libido narcísica, e volta-se para o mundo exterior por intermédio da musculatura. Ela “…manifestar-se-ia agora — sem dúvida de forma parcial — como compulsão de destruição dirigida contra o mundo e contra todos os seres vivos”.
As pulsões de vida e de morte coexistem fundidas — sendo que, muitas vezes, aparecem separadas e de formas completamente distintas. Outras tantas vezes, confundem-se nas finalidades, como pode ser exemplificado com o sadismo, no qual a pulsão de morte pode ligar-se às pulsões eróticas.
Outro exemplo é a distinção que deve ser feita entre agressividade construtiva e agressão destrutiva. A primeira representa uma defesa contra os predadores externos e como motor de uma saudável ambição.
Por meio de uma energia de coesão, a pulsão de vida visa juntar, ligar, tudo aquilo que estiver separado no indivíduo e na espécie humana, enquanto a pulsão de morte, pela força de repulsão e ruptura, tende a destruir as ligações.Sobre Eros e Tanatos
Freud escreve que “as modificações nas proporções da fusão entre os instintos apresentam os resultados mais tangíveis. Um excesso de agressividade afetiva transformará um amante num criminoso passional, enquanto que uma diminuição excessiva no fator agressivo torná-lo-ia acanhado ou impotente”.
Como toda matéria viva é formada por matérias não-vivas e não orgânicas, há talvez, para além do “princípio do prazer”, um instinto cujo objetivo é recuperar o estado de inércia inorgânica. A “compulsão à repetição” é um princípio instintivo regressivo, que aspira a um estado de completa ausência de energia: a morte.
Richard von Krafft-Ebing, psicólogo alemão, realizou um estudo sobre o comportamento sexual em 1886, resultando na publicação do livro “A psicopatologia da Sexualidade”. Ele identificou o desejo pervertido de infligir dor ou humilhação sobre o objeto do desejo sexual e o seu lado oposto — o prazer sexual decorrente do sofrimento pessoal — e aplicou os nomes sadismo e masoquismo para as formas ativa e passiva, respectivamente.
Por que voltamos sempre aos mesmos lugares — mesmo os que doem? Por que sonhamos de novo com o que nos traumatizou? Freud descobriu uma força que vai além do prazer.
Freud, em seus estudos e observações em análise clínica, baseados no comportamento dos homens e mulheres, supôs que realmente existe na psique uma “compulsão à repetição” que vai além do princípio do prazer. Está relacionada com os sonhos que ocorrem nas neuroses traumáticas e nos impulsos que levam a criança a brincar.
Somente em casos raros é que vai se notar a “compulsão à repetição” por motivos puros, desapoiados por outros motivos. A compulsão é uma satisfação instintual que parece convergir em associação íntima com o ser. Os fenômenos de transferência e suporte são obviamente explorados pela resistência que o Ego mantém em sua persistência na “repressão”. Nos casos das brincadeiras de crianças, os relatos de estórias são uma tentativa de elaborar ativamente aquilo que elas sofreram passivamente: como algum forte susto traumático, a perda de alguma coisa ou pessoa importante.
Sigmund Freud · 1900
Para Freud, explica-se satisfatoriamente o “princípio do prazer” pelos fenômenos psíquicos repetitivos de natureza não prazerosa, que ele observava com frequência nos casos de sonhos angustiosos e nos atos sintomáticos masoquistas nas neuroses traumáticas.
Assim, constatou que esta compulsão repetitiva procedia de uma intensa força provinda do interior do indivíduo, e que estava situada além do princípio do prazer.
Uma surpresa desagradável sempre precede a necessidade de repetir. Normalmente, a ansiedade é que prepara o indivíduo diante da expectativa de perigo. Algumas vezes, a psique sofre um choque ou é ameaçada por um acontecimento para o qual não estava preparada. Em tais casos, a ansiedade ou medo não provoca uma neurose traumática — ao contrário, o medo é que normalmente protege contra um susto ou uma neurose que ele pode provocar.
O segredo da compulsão à repetição: ela cria uma ansiedade retroativa na psique. Em outras palavras: a recordação dolorosa é sempre revivida até que seja constituído posteriormente um mecanismo de defesa adequado.
Freud chamou esta confusa disposição de rever acontecimentos desagradáveis de Compulsão à Repetição. A pessoa repete não porque ama o que sofreu — repete porque, no momento original, não houve tempo de elaborar. A repetição é a tentativa tardia, e desesperada, de digerir.
É por isso que brincar de “me machuquei” ajuda uma criança a processar o tombo; por que conversamos compulsivamente sobre o término horrível por meses; por que voltamos ao analista para falar dos mesmos pais já mortos há décadas. A repetição é trabalho psíquico — incompleto, mas real.
O termo “princípio” é muito usado por Freud — designa um ponto de partida para a construção de um modelo psíquico. Vários princípios agem ao mesmo tempo, interagindo entre si.
Pode-se depreender a existência de vários e distintos princípios que estejam agindo simultaneamente e interagindo entre si, embora cada um deles mantenha uma autonomia conceitual com regras e leis específicas.
Originalmente, o “princípio do prazer” era denominado por Freud como “princípio do prazer-desprazer”, pelo fato de que significava que o primitivo aparelho psíquico tendia a livrar-se, descarregando todo e qualquer estímulo que provocasse desprazer, visando reduzir ao mínimo a tensão energética. Posteriormente, Freud descreveu que o aumento da tensão psíquica poderia ser prazeroso — como no acúmulo de uma retenção temporária da excitação afetiva.
Essa “satisfação mágica e ilusória” sempre acaba sendo frustrante e decepcionante, porque o sujeito não suporta as exigências e necessidades da realidade que a vida lhe impõe. O caso de uma fome real que fatalmente não se satisfará com a substituta sucção do polegar é o que vem a determinar uma insatisfação perante a realidade dos fatos.
É um processo secundário, caracterizado pelo pensamento. Ele possibilita, em certa medida, a suspensão dos impulsos afetivos e desvia sua energia para o pensamento, para o trabalho e para a diversão. Ao contrário do que parece, não consiste em uma repressão dos impulsos afetivos, mas em um encaminhamento da energia libidinal e uma adequação necessária à realidade.
O famoso mecanismo de sublimação depende do princípio da realidade.
Tente se concentrar, feche os olhos e pense onde realmente gostaria de estar, o que realmente gostaria de estar fazendo neste exato momento. Se as imagens que apareceram em sua mente foram do tipo praia, chupando sorvete, dormindo quentinho e confortável — este é o princípio do prazer.
Pergunte agora por que não está fazendo essas coisas? Se a resposta for “pois tenho que trabalhar”, “não dá tempo” e coisas do tipo — esse, então, será o princípio da realidade.
Freud reconheceu que o princípio do prazer e o princípio da realidade não são verdadeiramente opostos, pois os dois realizam uma diminuição das tensões. O prazer é o resultado psíquico do descarregamento de uma determinada “quantidade” de excitação produzida no organismo; o princípio da realidade chega ao mesmo resultado, com a ajuda de um processo de adiamento e refreamento do prazer.
Freud descreveu o surgimento de ambos os princípios de forma sucessiva e sequencial; porém na atualidade considera-se que, de alguma forma, os princípios do prazer e da realidade estão sempre presentes simultaneamente e interagem ao longo de toda a vida, mesmo que, no adulto, as demandas imediatistas do princípio do prazer estejam ocultas.
Também conhecido como princípio da homeostase biológica. Antes de qualquer coisa psíquica, o organismo está empenhado em uma única coisa: continuar vivo.
Para se compreender os significados de Instintos e Pulsões em Psicanálise, é necessário entender os mecanismos biológicos envolvidos num dos princípios fundamentais para manutenção da vida e do equilíbrio do organismo: o Princípio da Manutenção da Vida ou da Homeostase Biológica.
Conforme demonstrou Cannon, os organismos vivos, para se manterem com vida, buscam um equilíbrio interior, que ele denominou de Homeostase. Nesta concepção, qualquer modificação neste equilíbrio será sentida como uma ameaça à sua vida, e desencadeará toda uma situação de alarme e preparação para fazer face ao perigo.
À percepção de qualquer ameaça (real ou imaginária), o cérebro emitirá ordens para a mobilização de defesa e, uma vez ativadas, o organismo se preparará como um todo. Através de inúmeras alterações no sistema nervoso e suas conexões com os órgãos envolvidos, o organismo reagirá e se alterará sempre com o objetivo de preservar a vida.
Imagine-se uma cena de um rato sendo perseguido por um gato. Ao se dar conta do perigo, todo o organismo do rato, em resposta à descarga de adrenalina ordenada pelo cérebro através do sistema nervoso simpático, prepara-se para se proteger da ameaça:
Todas essas alterações caracterizam o estresse, ou a tensão, a que o organismo do rato está submetido naquele momento. Neste exemplo, toda a tensão gerada no animal encontrará uma resposta global no organismo: ele utilizará a musculatura que ficará tensa (fugir ou lutar) — involuntariamente (sistema nervoso autônomo), porém pode responder à sua vontade (sistema nervoso central).
O mecanismo ligado ao Princípio de Manutenção da Vida causará no organismo um aumento de energia de tensão psíquica. A diminuição desta tensão somente ocorrerá após a descarga desta energia ao nível do corpo somático.
Quando a porta do prazer original está fechada, a psique encontra uma fresta lateral. Pequena. Mas que rende uma “bonificação de incentivo”.
Uma outra possibilidade de gerar prazer ocorre quando a situação em que a possibilidade primeira de prazer está obstruída — de modo que, nesta última, isoladamente, nenhum prazer é gerado. O resultado é uma busca e concretização de prazer “substituto” ao prazer primário obstruído.
Esta fantasia age como se fosse uma “bonificação de incentivo”: com a colaboração da oferta de uma pequena taxa de prazer, obtém-se um montante de prazer que de outra forma teria sido bastante difícil de conseguir. A isto chamamos de ganho secundário.
Um indivíduo adulto que deseja inconscientemente estar ao lado de sua mãe, mesmo após seu casamento. Pela impossibilidade real desta situação, este, inconscientemente, irá reproduzir situações que, de um modo analógico, serão semelhantes às da sua infância: “comidinha da mamãe”, um cantinho da casa com a mesma “decoração” da casa da mãe — situações que representam um ganho secundário de prazer.
O ser humano aprende desde a infância o que vivencia. Os aprendizados positivos e negativos correm em paralelo:
Esses aprendizados são os ganhos primários e os ganhos secundários da infância. Eles se imprimem nos neurônios, viram traços de memória, e a vida adulta vai reproduzir — em mil formas distintas — esse vocabulário emocional aprendido cedo.
A psicanálise nasceu no consultório, mas Freud nunca esqueceu que era médico do cérebro. Aqui ele explica como uma experiência se imprime, fisicamente, no sistema nervoso.
Uma das principais características do sistema nervoso é a memória — isto é, a capacidade de ser permanentemente alterado por simples ocorrências. Depois de cessar a excitação, os neurônios ficam permanentemente modificados em relação ao estado anterior. Por outro lado, não se pode negar que as novas excitações, em geral, encontrem as mesmas condições de recepção que encontraram as excitações precedentes.
Assim, distinguem-se dois tipos de neurônios:
Catexia. Freud denominou que o neurônio de memória se encontra “catexizado”: está cheio de energia psíquica interna (intracelular) devido à primeira estimulação. O termo Catexia (Cathexis) refere-se ao fato de uma determinada energia psíquica se encontrar ligada a uma representação ou grupo de representações de uma parte do corpo, a um objeto. Esta energia se encontra no neurônio sob forma de traços de memória ou mnêmicos.
Isto importa muitíssimo para entender a clínica: quando você revive uma experiência intensa anos depois — a sensação física do beijo de um ex, o cheiro do hospital onde alguém morreu — não é “lembrança” no sentido frio do termo. É o neurônio re-energizando o traço que ficou ali, esperando. O passado não passa. Ele se acumula em forma de carga elétrica esperando o gatilho.
O aparelho psíquico, como qualquer sistema vivo, busca o repouso. A tensão é desconfortável. Ele faz o que pode para se livrar dela.
O Princípio da Constância deriva diretamente das observações clínicas das doenças, especialmente no que diz respeito a ideias excessivamente intensas — na histeria e nas neuroses obsessivas — nas quais a característica quantitativa da energia emerge com mais clareza do que seria normal.
Princípio da Constância: os neurônios tendem a se livrar da energia excitatória externa (Q), que causam o aumento de tensão no sistema psíquico, através do aumento da quantidade de energia interna (Qn) que causa o desprazer psíquico. No modelo psicanalítico freudiano, a estrutura, o desenvolvimento e as funções dos neurônios devem ser compreendidos com base nisto.
O Princípio da Constância explica estruturalmente a função dos neurônios sensoriais (percepção) e motores (que levam a uma resposta no órgão), como um dispositivo destinado a neutralizar a recepção e o aumento da quantidade de energia intracelular provindo de vias sensitivas, e descarregados pelas vias neuronais motoras, formando o que chamamos de movimento reflexo.
O Movimento Reflexo torna-se compreensivo como uma forma estabelecida pelo organismo de efetuar essa descarga energética: a origem da ação fornece o motivo para o movimento reflexo. O sistema nervoso se vale da quantidade de energia interna (Qn), adquirida através dos neurônios de percepção, para descarregá-la nos neurônios motores e mecanismos musculares.
Pode-se vincular o Sistema Nervoso como um Herdeiro da Irritabilidade Geral do Organismo, com a superfície externa do organismo irritável e constituída pelos órgãos sensoriais — e que, para se livrar dessa irritabilidade, utiliza-se dos órgãos motores (musculares e glandulares). Por este motivo observa-se indiretamente o aumento da tensão interna através dos efeitos no comportamento do indivíduo e no aparecimento de doenças psicossomáticas.
O aumento desta tensão interna deslocará a energia psíquica no sentido de produzir alterações no comportamento e na personalidade, de modo compulsivo e repetitivo — ou esta energia se manifestará nos órgãos sob a forma de doenças.
À proporção que aumenta a complexidade interior do organismo, o sistema nervoso recebe estímulos do próprio elemento somático — os estímulos endógenos — que também têm de ser descarregados. Esses estímulos se originam nas células do corpo e criam energias para a realização das grandes necessidades, como respiração e sexualidade.
Nos estímulos internos, ao contrário do que se faz com os estímulos externos, o organismo não pode esquivar-se: não pode empregar a quantidade de energia externa (Q) para a fuga do estímulo. Eles cessam apenas mediante certas condições que devem ser realizadas no mundo externo (por exemplo, a necessidade de nutrição), e que podem ser descritas como as exigências da vida.
O “princípio da constância” é também conhecido como “princípio de Nirvana”. No entanto, cabe apontar uma pequena diferença entre o que ambos designam: enquanto o primeiro faz referência a uma simples diminuição da tensão psíquica, o princípio de Nirvana refere-se a uma diminuição de toda excitação ao zero absoluto, que de fato venha a confirmar a “pulsão de morte”, segundo a concepção original de Freud — que mais precisamente refere-se a uma volta da célula viva ao estado inorgânico interior e, portanto, a um estado de morte.
A finalidade da atividade psíquica consiste em diminuir as tensões que foram provocadas por uma agitação externa ou instintiva.Síntese da constância
Um instinto é, consequentemente, a necessidade inerente em toda vida orgânica de produzir um “estado de coisas anterior”. Toda pulsão é, em alguma medida, uma força regressiva — quer voltar a uma calma que existiu antes.
A fome chega. A tensão sobe. O bebê chora. Vem o seio. A tensão baixa. Isso é satisfação. E é o protótipo de todo prazer.
Em uma pessoa com fome, por necessidades biológicas, o desconforto ocasionado pelo Desprazer da Fome levará a um aumento de energia e consequente tensão psíquica, criada por um estímulo endógeno (mecanismo de fome) e não por um objeto externo.
Porém, nenhuma descarga desta tensão pode ser concretizada somente criando-se uma imagem de alimentos no psiquismo (exemplo: sonhar com o alimento) — isso não produz um resultado aliviante, visto que o estímulo interno continua a ser recebido, levando à manutenção da tensão interna.
Nesse caso, o estímulo só é passível de ser abolido por meio de uma intervenção que suspenda provisoriamente a descarga de energia interna no interior do corpo — e isto só ocorre se houver uma alteração no mundo externo: o fornecimento do alimento.
No caso dos “desejos afetivos” (a carência afetiva, o desejo de amar e ser amado), também é gerada uma tensão psíquica. A urgência do organismo na descarga desta energia poderá ser suspensa provisoriamente com a aproximação do objeto desejado, ou então ser descarregada no próprio organismo sob forma de doenças orgânicas (doenças psicossomáticas).
Assim sendo, o psiquismo humano é incapaz de promover uma ação específica de descarga de energia psíquica, efetuando-se geralmente por meio de ajuda externa. Quando outra pessoa ou um objeto auxilia a executar o trabalho da ação específica no mundo externo para o indivíduo necessitado de afeto, este último fica em posição — por meios de dispositivos reflexos — de executar imediatamente no interior de seu corpo a atividade necessária para remover o estímulo interno.
Efetua-se assim uma descarga de energia, elimina-se a urgência que causou o desprazer, levando a uma Experiência de Satisfação (prazer).
Os Desejos Inconscientes são as principais fontes de tensão psíquica. Estes desejos inconscientes estão guardados nos neurônios (catexizados) sob forma de traços de memória (traços mnêmicos) — ou seja, sob forma de lembranças, percepções, sentimentos não associados a palavras ou a uma imagem específica.
A simples percepção de um objeto externo que tenha alguma correspondência ou semelhança com o traço mnêmico guardado no sistema nervoso é o suficiente para que ocorra um aumento de tensão de energia psíquica.
Um indivíduo apaixonado que se encontra com a namorada desejada, ao mesmo tempo em que realiza um prazer muito grande, tem um desconforto proporcionalmente grande — que se exterioriza no corpo somático na forma de aumento de batimentos cardíacos, sudorese e tremores. Desta forma, a simples visão do traço mnêmico desejado leva a uma descarga de energia tensional no corpo somático, levando a uma experiência de satisfação.
Na Experiência de Satisfação ocorre uma facilitação de descarga de energia tensional psíquica por um aumento do estímulo ocasionado pela imagem mnêmica externa. Em outras palavras, a imagem mnêmica externa leva a um aumento de tensão no sistema de neurônios já marcados com traços mnêmicos (neurônios catexizados) desde a vida psíquica intrauterina e infância, e que se encontram em estado de urgência de descarga.
O encontro de duas imagens mnêmicas — interna e externa — leva, assim, a um rápido aumento da tensão psíquica, ultrapassando as barreiras da repressão e do recalque que impediam o aparecimento dos sintomas psíquicos. Isso favorece a descarga e o alívio dos traços mnêmicos internos.
Com o reaparecimento do desejo inconsciente, ocorre novamente a reativação do estímulo para o aumento de tensão no sistema psíquico. Na primeira instância, essa ativação do desejo produz algo idêntico a uma percepção — a saber, uma alucinação.
Se a satisfação é a descarga prazerosa, a dor é o seu negativo: um excesso de tensão que rompe as defesas. E deixa marcas.
O sistema psíquico está exposto a estímulos externos que aumentam a tensão no sistema. A quantidade de energias externas excessivamente grande rompe os dispositivos de “defesa” — isto ocorre nos casos de dor.
A dor produz no sistema grande aumento de tensão, que é sentido como desprazer ao nível da percepção, levando a uma propensão à descarga, que pode ser determinada e direcionada a vários sentidos: uma facilitação de descarga em direção à imagem mnêmica que provoca dor (desprazer), ou fuga.
Este direcionamento pode ser exemplificado como o aparecimento de:
Nas lembranças dolorosas, o desprazer é liberado no interior do corpo e de novo transmitido, aumentando a tensão psíquica. Assim, a simples imagem mnêmica do objeto hostil realiza uma facilitação excelente para os neurônios liberarem o desprazer do “afeto”, e assim determinar uma experiência negativa de satisfação.
Por isso, encontrar um lugar, uma pessoa, um cheiro que lembra algo dolorido — pode reativar a dor de modo intenso, ainda que o evento original já tenha terminado há muito tempo. O traço mnêmico hostil continua catexizado.
Toda emoção é, antes de qualquer coisa, um movimento de energia. Aumento súbito ou crônico de tensão.
Os Afetos (emoções positivas ou negativas) e Estado de Desejos têm em comum o fato de que ambos envolvem um aumento de tensão de energia psíquica (excitação).
O Desejo resulta numa atração positiva para uma imagem mnêmica do objeto desejado. A Experiência de Dor leva à repulsa — a repulsa leva à aversão por manter na memória a imagem mnêmica hostil. As Experiências de Dor foram eliminadas da consciência (não atingem o estado de consciência) pela “Defesa Reflexa” (recalque), com o objetivo de proteção do Ego para não recordar as experiências dolorosas.
Assim, a simples percepção de um traço mnêmico agradável favorece a facilitação particularmente boa para a liberação de energia psíquica e a diminuição da tensão emocional. É por isso que voltamos repetidamente aos mesmos lugares, pessoas, gestos, comidas e cheiros que nos lembram momentos de prazer — é alívio de tensão garantido.
Para fechar esta aula, vale recolher a síntese dos impulsos e pulsões:
Toda pulsão é uma parcela de atividade. A meta final é sempre a mesma — a satisfação — mas são diversos os caminhos.Fecho da Aula II
Toda pulsão sai de algum lugar. Na clínica esse lugar tem nome: falta. E o movimento que se faz para cobri-la tem outro: desejo.
Um pai que rejeitou. Que não aplaudiu, não parabenizou, disputou com o filho a vida inteira por causa de uma transferência mal resolvida com a própria mãe. O filho cresce com um buraco de reconhecimento do tamanho desse pai. Esse buraco é o que a psicanálise chama de falta, e é ele que se investiga o tempo todo.
A falta não fica quieta no lugar onde nasceu. Ela pede para ser coberta, pede para ser resolvida. O movimento que se faz atrás dessa resolução é o desejo.
O filho compra a BMW. Mostra o carro. Estaciona na porta dos lugares para que todo mundo veja. O que ele tenta cobrir não é falta de carro. É a falta de reconhecimento do pai, transferida do pai para a sociedade inteira.
E o reconhecimento vem. Alguém diz “parabéns, você é o máximo”, e há um pico. Esse pico não dura um dia: ele já começa a descer no instante em que chega. Cumprir a pulsão e alcançar o objeto não elimina a falta. Nada do que se conquista entra na conta.
Não dá para cobrir faltas. Primeira regra que você tem que entender.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Módulo 1 · 26/02/2024
Isso reposiciona os quatro elementos da pulsão. A fonte vem da falta, e o par vale como bordão: fonte, falta. O objeto é sempre alguma coisa que representa simbolicamente aquilo que falta, e pode ser um bem, um comportamento, um elogio, uma palavra ou um cargo. A finalidade é sempre a satisfação, e o que interessa clinicamente é o que aparece quando ela não vem: frustração. A força é o tamanho da pressão que aquele desejo exerce dentro do sistema, e ela é proporcional ao tamanho da falta.
Há desejos que dominam uma vida inteira. O sujeito que conquistou o cargo e não falta à reunião nem para cuidar do filho está sob uma pressão maior que a das próprias necessidades. Gente que não come, não dorme e não cuida do corpo por causa de uma pulsão.
O desejo rouba da realidade. Existe uma realidade ali: uma casa, um filho, um trabalho, um corpo que precisa de coisas concretas. O desejo tira o sujeito de tudo isso. Ele deixa de ver onde mora, como vive e quem está do lado, porque está inteiro dentro do movimento de cobrir a falta.
O inconsciente é atemporal. Enquanto o funcionamento é inconsciente, não existe ontem, hoje e amanhã. Nada ali tem data marcada. Por isso o inconsciente acha que um movimento feito hoje cobre uma falta de lá atrás. Esse é o processo neurótico: sujar a realidade de hoje com uma fila de buscas e comportamentos que tentam resolver o que ficou para trás.
A transferência é esse erro de data em ato. O sujeito cobra amor da esposa sem parar. Ela dá, dá, dá, e ele continua dizendo que ela não dá. O que ele cobra dela é o que o pai e a mãe não deram. E como transferência não contabiliza, nada do que ela faz entra na conta. Do outro lado fica alguém dizendo “mas eu dou, ele está falando de coisas que eu não fiz”. Os dois estão numa relação fantasma: quem está do outro lado não entende nada do que se passa.
Catarse é trazer um conteúdo inconsciente para a consciência. É o instante em que o sujeito liga os pontos: não sabia que estava buscando aprovação paterna, não sabia que a BMW era isso, agora sabe.
Por muito tempo esse foi tratado como o ponto final do tratamento, e gerações de analistas foram atrás disso. Catarse, catarse, catarse. Só que o inconsciente não para de produzir, e a falta não vai embora porque foi nomeada. Saber de onde ela vem, sozinho, não muda o funcionamento.
O resultado tem nome: pessoas terapeutizadas. Seguem neuróticas, agora com consciência da origem, capazes de explicar cada sintoma com precisão e de produzir sintomas novos ao mesmo tempo. A catarse é um processo, não é o fim dele. É o começo.
Fechado o circuito, o desejo tem dois destinos, e nenhum dos dois resolve a falta.
Quando o objeto se realiza, ele não cobre a falta, e logo aparece outro objeto no lugar. O sujeito não consegue enxergar o que de fato precisa, porque quem escolhe não é a necessidade, é a falta. Dá para ter o carro X, mas o desejo pede o carro Y.
Quando o objeto não se realiza, entra a sequência emocional: frustração, ódio, destruição, culpa, autossabotagem, reparação. É a espinha dorsal de todo comportamento neurótico, e ela tem uma aula inteira adiante.
Daí o objetivo do trabalho. Não é ajudar o paciente a conquistar o objeto. É tirá-lo da falta, fazer com que ele pare de funcionar a partir dela. Enquanto não aceitar a própria falta, ele vai continuar querendo realizar o desejo, e a realização não realiza nada: vem outro, e outro, e outro.
Nem tudo que se quer é desejo. Confundir demanda do corpo com movimento simbólico é o erro que faz a análise começar torta.
Necessidade é demanda do corpo. Quinze horas de trabalho, meia-noite, sono. Ninguém deseja dormir ali: o corpo está mandando dormir. A escala de necessidades humanas tem quase quarenta itens, e tudo que está dentro dela não é desejo. Conforto é necessidade. Necessidade pode ser suprida, e está tudo bem que seja.
Desejo é movimento simbólico para cobrir falta. Não se supre, porque não é do corpo que ele fala.
E existe a forma mista, que é a mais comum de todas. Oito horas sem comer e fome de camarão. A fome é necessidade real. O camarão é desejo, é a forma simbólica, e a pergunta é o que aquele camarão representa para aquela pessoa. Status, festa, um domingo da infância.
Grávida com vontade de comer telha, de morder tijolinho de barro. Aquilo é desejo? Não. É o mineral que está faltando, e é o corpo avisando do jeito que sabe avisar.
O critério aqui é técnico, não é intuição. A associação vem sempre da experiência. Ela comeu telha alguma vez na vida? Não. Sem experiência não há associação, e sem associação não há objeto simbólico. Quando não se acha a associação, começa a desconfiar da necessidade.
Em Matrix, há uma cidade bonita, um bife com gosto de bife e um café com sabor de café. Fora da simulação, a mesma comida desce por um cano, cinza, numa lata, num lugar sujo. As duas cenas são a mesma refeição. Uma é o mundo simbólico, a outra é o real.
O marketing entendeu isso antes e deu a esse mecanismo o nome de experiência. Um vinho de cinco mil reais servido em ambiente classudo, com o ritual completo: sentar, cheirar, girar a taça. Quando o vinho chega à boca, o que se sente é só o sabor? A psicanálise traduz o que a publicidade utiliza para vender. Em consultoria de loja se trabalha o cheiro do ambiente, o piso e a textura dos objetos, tudo para colocar o cliente, simbolicamente, onde se quer que ele esteja.
Vale fazer o experimento mental: desligar toda a relação simbólica da própria vida e ver o que sobra de fato para sobreviver, ter saúde e ter conforto. Sobra muito pouco. Esse é o critério de triagem para as buscas de carreira, de objeto e de posição, tanto do paciente quanto do terapeuta. Isso aqui é simbólico ou é real?
Nada disso é isso mesmo, tudo é outra coisa. Café não quer café, camarão não quer camarão. Eu quero um carro, não quer carro. Aquilo é outra coisa.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Módulo 1 · 04/03/2024
Duas coisas diferentes montam o objeto, e confundi-las estraga a leitura.
A representação é coletiva. Vale para todo mundo e não precisa vir de experiência nenhuma. O guarda-chuva representa proteção. É por isso que Mary Poppins desce do céu segurando um guarda-chuva, e é por isso que o filme inteiro fala de uma relação materna perfeita de proteção.
A associação é individual e vem sempre da experiência. Quem apanhou de guarda-chuva da mãe na infância tem, no guarda-chuva, uma associação de punição. Essa associação é sua e de mais ninguém. Associação é minha, representação é de todo mundo.
A associação é também o que o vocabulário popular chama de gatilho. Bater o carro numa esquina em que tocava uma música. Meses depois a música toca de novo, e vem junto a lembrança do acidente, a dor que continua sem solução, e a crise.
Duas pessoas com a mesma falta, o pai que não reconheceu, escolhem coisas diferentes. Uma vai atrás de uma BMW. A outra decide ser médica. O que decide é o conjunto particular de representações e associações da experiência de cada uma. Se naquela família se dava muito valor a diploma, ou se o único sujeito a quem o pai dava ouvidos era um médico, a associação empurra para a medicina. E a medicina, nesse caso, ainda não é dela: ainda é simbólica, ainda é meio para conseguir outra coisa.
Quando várias lembranças com pontos em comum se juntam e viram uma memória só, o nome disso é condensação. Ela volta com força no estudo dos sonhos, e aparece na clínica toda vez que uma lembrança pequena carrega mais de uma cena dentro dela.
Um recorte pequeno de sessão, com roteiro fixo, que mostra a pulsão funcionando em tempo real. Serve para treinar o ouvido antes de servir para tratar.
O enunciado é curto: pense agora numa comida. A primeira que vier à cabeça. Não pense na segunda. Uma variante funciona igual: imagine um lugar onde você gostaria de estar agora.
Tecnicamente, aquela comida é o objeto, um dos quatro elementos da pulsão. O que se quer descobrir é o que está atrás dele: qual é a associação e qual é a falta.
Depois disso, é surfar dentro das lembranças. Há uma regra de forma, e ela pesa tanto quanto o roteiro: a condução não pode ser formal. O formal afasta e desconecta. Para entrar, o tom é informal, e é dentro dessa informalidade que o terapeuta mantém o roteiro inteiro na cabeça.
A aluna diz “tomate”, sem gostar especialmente de tomate. A primeira lembrança que vem: o irmão não gostava, a mãe o forçava a comer, ele vomitou, e a mãe o fez comer o tomate assim mesmo.
Pergunta seguinte: atualmente você está sendo forçada a fazer alguma coisa que não quer? Ela conta que não consegue dizer não. E conta o caso concreto: a mãe pressionando para que ela use o drone que ganhou de presente para filmar casamentos na pousada dela, passando por cima das prioridades da filha.
Leitura: o tomate tem relação com a mãe, porque foi a mãe quem mandou comer o tomate. Várias cenas se juntaram numa lembrança só. O que aparece hoje é a mesma coisa de antes, não conseguir sair do controle daquela mãe, não conseguir dizer não para ela.
A lembrança é o pai fazendo o lanche. Pergunta: hoje, como está a sua questão financeira? Resposta: confusa.
Leitura: quando a lembrança que vem é paterna, o que está em jogo costuma ser proteção financeira. Dinheiro é fase anal, é lembrança paterna. O lanche de linguiça não é lanche de linguiça: é esse pai sendo chamado para tirar alguém de uma situação. Perguntado quem resolve isso, quem pode salvar, o cérebro responde com o pai.
A aluna não pensou numa comida que ela comeria. Pensou no macarrão de que a filha gosta, e disse: “ela faz macarrão sozinha”.
A palavra estava ali, inteira, na frase dela. Sozinha. Pergunta: o que te falta? Resposta: independência.
A regra que esse caso ensina vale para a formação toda: a interpretação sai do discurso do paciente, nunca da imaginação do terapeuta. Não se inventa história para o paciente e não se fica adivinhando. Lacan insiste que não há nada além da palavra, e o mérito dele está exatamente aí. Onde Freud traduz o que aquilo quis dizer, Lacan devolve o que a pessoa disse.
Uma associação verdadeira é certeira e não deixa margem. Uma lembrança do tamanho da do tomate, a mãe forçando, o vômito, a comida de volta no prato, batendo com exatidão no que está acontecendo hoje na vida da pessoa, é relação direta entre o discurso do desejo e o discurso da falta. Não há discussão sobre isso.
E existe uma razão para o terapeuta ver o que o paciente não vê. Ele está de fora, analisando o discurso. É dessa exterioridade que vem a leitura, e não de talento.
Não é tratamento. É um item da sessão, um recorte de dez minutos dentro de duas horas de trabalho. Depois dele viriam o Édipo, o superego, a relação paterna, a estrutura familiar inteira. Às vezes o que impede a resolução daquele ponto é uma outra neurose, que ainda nem apareceu.
O que o exercício treina é o ouvido. Um psicanalista não escuta realidade, escuta discurso. Óculos não é óculos, macarrão não é macarrão, e tudo que se ouve e se vê passa a ser lido de forma simbólica. Quem analisa o mundo como se ele fosse consciente erra na base, porque o mundo está funcionando de forma inconsciente. Velocidade nisso não é dom, é hora de voo, e hora de voo se ganha em supervisão.
O objeto que a pessoa nomeia não é o assunto. O assunto é a falta que ele cobre, e ela costuma estar na frase que a pessoa acabou de dizer.Síntese da aula