Teoria Psicanalítica · Curso completo
Aula cinco de doze
Tema Narcisismo Subtemas Objeto Identificação Klein Lacan Narcisista
Aula V
V

O narcisismo, a relação de objeto & as identificações

Como o eu é construído — pelo olhar da mãe, pela imagem no espelho, pelos objetos que se incorporam e se projetam. De Freud a Klein, Lacan e Winnicott.

O eu não é inato Duração estimada: 90 min
Abertura · A construção do sujeito

O eu não nasce — ele se constrói

Esta é uma das descobertas mais profundas da psicanálise: aquilo que chamamos de "eu" não vem ao mundo pronto. É fabricado lentamente, através do olhar do outro, da imagem no espelho, dos objetos que tomamos para dentro de nós.

Em 1914, Freud escreveu uma frase que mudou tudo: "o eu não é inato". Ele resulta de uma nova ação psíquica que se faz como um acréscimo ao autoerotismo. Essa nova ação psíquica é o narcisismo. Narcisismo não é igual a autoerotismo — porque uma unidade comparável ao ego não existe desde o início: ela tem que ser desenvolvida. Os instintos autoeróticos se encontram desde o início, mas o eu, como instância organizada, é uma construção.

Para entender essa construção, é preciso atravessar quatro conceitos profundamente entrelaçados: narcisismo, relação de objeto, identificação e reconhecimento. Cada um é uma peça do quebra-cabeça que responde à pergunta: como é que um bebê, no início caótico e indiferenciado, se torna alguém que diz "eu"?

Os autores em diálogo

Esta aula é necessariamente coral. Freud lança o conceito de narcisismo em 1914, mas a história não para aí. Klein refuta o narcisismo primário e coloca as relações de objeto desde o início da vida. Anna Freud descreve a identificação com o agressor. Bion distingue identificação projetiva normal e patológica. Lacan inventa o estágio do espelho. Winnicott, Kohut e Zimerman falam sobre o vínculo do reconhecimento. São visões diferentes da mesma questão fundamental — e cada uma ilumina uma parte do problema.

O eu se constitui através de um ato pelo qual ele se identifica com a imagem de seu corpo — imagem que assume como sua, e mais ainda, como sendo ele próprio. Sobre a constituição do eu
A origem do termo

Narciso e a flor à beira d'água

Antes de virar conceito psicanalítico, narcisismo era um nome de perversão. Antes disso, era um mito grego. O caminho do termo até Freud passa por médicos do século XIX, por uma nota de rodapé de 1910, e finalmente por um texto seminal de 1914.

O mito · tradição grega
Aquele que se afogou na própria imagem

Narciso, herói de extraordinária beleza, é amaldiçoado por ter rejeitado a ninfa Eco. Curvado sobre a água de uma fonte, vê seu próprio reflexo — e se apaixona por essa imagem que não é outra senão ele mesmo. Devorado de amor por um objeto que não pode possuir, definha à beira d'água até morrer.

Quando vieram instalar o corpo de Narciso numa pira, constataram que ele havia se transformado numa flor.

É a saga de um herói devorado de amor por um objeto que não é outro senão ele próprio — uma relação imatura, autocentrada, erotizada mais que sexualizada, detida em uma contemplação especular do idêntico ao "si mesmo" do sujeito.

O percurso do conceito

Até o fim do século XIX, o termo narcisismo foi utilizado pelos sexólogos para designar seletivamente uma perversão sexual caracterizada pelo amor dedicado pelo sujeito a si mesmo:

1914 · Sobre a introdução do conceito de narcisismo

O texto que refunda a psicanálise

É um dos trabalhos mais importantes de Freud — pode ser considerado um dos fatores centrais na evolução de seus conceitos. Tudo o que vem depois (a segunda tópica, o ideal do eu, o superego) está, em germe, nesse texto.

Nesse artigo é traçada uma nova distinção entre libido do eu e libido objetal — e são introduzidos os conceitos de ideal do eu e do agente autoobservador (que constitui a base do que viria a ser descrito como Superego em O Eu e o Isso, de 1923).

De onde veio a necessidade do conceito

Freud diz que a necessidade de discutir sobre um narcisismo primário normal surgiu quando se fez a tentativa de incluir o que era conhecido como demência precoce (Kraepelin) ou esquizofrenia (Bleuler) na hipótese da teoria da libido — quadros que Freud denominou de parafrênicos.

A observação do delírio de grandeza no psicótico levou Freud a definir o narcisismo como a atitude resultante da transposição, para o eu do sujeito, dos investimentos libidinais antes feitos nos objetos do mundo externo. Foram as psicoses que produziram a teoria do sujeito implicada na teoria do narcisismo.

Freud observou então que esse movimento de retirada só pode produzir-se num segundo tempo — precedido de um investimento dos objetos externos por uma libido proveniente do eu. Assim, podemos falar de um narcisismo primário, infantil, que a observação das crianças (bem como a dos "povos primitivos", ambos caracterizados por sua crença na magia das palavras e na onipotência do pensamento) viria confirmar.

O grande encanto de uma criança reside, em grande medida, em seu narcisismo, seu autocontentamento e inacessibilidade.

Sigmund Freud, 1914

i.
Conceito · Freud 1914
O narcisismo primário

Antes de amar o outro, a criança ama a si mesma. É o tempo de "sua majestade, o bebê" — em que toda a libido está concentrada no próprio corpo, e o mundo é uma extensão do eu.

Designa um estado precoce em que a criança investe toda a sua libido em si mesma. O narcisismo primário diz respeito à criança e à escolha que ela faz de sua pessoa como objeto de amor — numa etapa precedente à plena capacidade de se voltar para objetos externos.

Freud postula que um ser humano tem originalmente dois objetos sexuais: ele próprio e a mulher que cuida dele. Isso leva a considerações de um narcisismo primário em todos os indivíduos, o qual, em alguns casos, pode manifestar-se de forma dominante na escolha objetal adulta.

O eu é uma construção

Em 1914, Freud diz que o "eu" não é inato e que resulta de uma nova ação psíquica que se faz como um acréscimo ao autoerotismo. Essa nova ação psíquica é o narcisismo. Antes da introdução do narcisismo, para Freud o eu estava situado diante dos investimentos pulsionais — defendendo-se, recalcando, produzindo e administrando conflitos — mas não entrava enquanto instância subjetiva, como efeito do circuito pulsional. Com o conceito de narcisismo, Freud propõe a constituição do eu a partir de ser ele o objeto da pulsão.

Para Freud, o desenvolvimento do ego consiste em um afastamento do narcisismo primário — e dá margem a uma vigorosa tentativa de recuperação desse estado. Esse afastamento é ocasionado pelo deslocamento da libido em direção a um ideal do ego imposto de fora, sendo a satisfação provocada pela realização desse ideal.

Le Poulichet diz que o que vem a perturbar o narcisismo primário é o Complexo de Castração. É através dele que se opera o reconhecimento de uma incompletude que desperta o desejo de recuperar a perfeição narcisista.

A mãe ama incondicionalmente e se oferece por inteiro para libidinizar, narcisizar, erotizar seu bebê. Ele é "sua majestade, o bebê" — projeção do narcisismo materno, a quem nada deve faltar.

Sobre o narcisismo primário do bebê

ii.
Conceito · Freud 1914
O narcisismo secundário

Quando a libido, depois de ter se voltado para o mundo, retorna ao eu — não como retorno ao narcisismo primário, mas trazendo consigo as marcas dos objetos. É o narcisismo da clínica das psicoses.

O narcisismo secundário se define como o investimento libidinal da imagem do eu — sendo essa imagem constituída pelas identificações do eu com as imagens dos objetos.

O narcisismo secundário (ou narcisismo do eu) mantém-se, no início da década de 1920, como o resultado — manifesto na clínica da psicose — da retirada da libido de todos os objetos externos. Freud acreditava que, na esquizofrenia, a libido afastada do mundo externo é dirigida para o ego, dando margem a uma atitude que pode ser denominada de narcisismo. Mas esse seria um narcisismo secundário, superposto a um narcisismo primário.

Freud propõe que há uma catexia libidinal original do ego, parte da qual é posteriormente transmitida aos objetos — mas que fundamentalmente persiste e está relacionada com as catexias objetais.

1º
Narcisismo primário
Libido do eu
Estado precoce em que a criança investe toda a sua libido em si mesma. Precede a plena capacidade de voltar-se para objetos externos. É o tempo da onipotência infantil, da "sua majestade, o bebê" — quando o sujeito é seu próprio ideal.
2º
Narcisismo secundário
Libido objetal retornada
Investimento libidinal da imagem do eu, sendo essa imagem constituída pelas identificações do eu com as imagens dos objetos. Manifesta-se especialmente na psicose, onde a libido retirada do mundo externo retorna ao ego — mas também coexiste, em todo ser humano, com os investimentos objetais.

O narcisismo secundário não se limita aos casos extremos da psicose: o investimento libidinal do eu coexiste, em todo ser humano, com os investimentos objetais. Freud postulou a existência de um processo de equilíbrio energético entre as duas formas de investimento que participam de Eros — a pulsão de vida — e de seu combate contra as pulsões de morte. Não há uma só libido com dois polos de investimento; há duas libidos: o eu, de um lado, constituindo a libido narcísica; e os outros objetos, do outro, constituindo a libido objetal.

Os dois ideais

Ideal do eu & eu ideal

Dois conceitos que se parecem mas não são iguais — e cuja distinção é decisiva para entender a clínica do narcisismo e da melancolia.

Em Sobre o Narcisismo: Uma Introdução, Freud utiliza a expressão ideal do eu para descrever uma instância que tem uma origem narcisística, em que o homem projeta como seu ideal o substituto do estado de onipotência do narcisismo perdido da sua infância — no qual era seu próprio ideal (eu ideal).

Eu ideal
Corresponde aos ideais dos pais — a criança acredita na sua onipotência porque se considera amada incondicionalmente. É a imagem mítica, narcisista, do que o sujeito gostaria de continuar sendo, perpetuação do narcisismo primário.
Ideal do eu
É o substituto do narcisismo perdido da infância. Surge depois — quando o sujeito, confrontado com a perda da onipotência infantil, projeta para fora um ideal que tentará alcançar. É a base do que viria a se transformar no Superego.

O narcisismo constitui, desde o texto de 1914, o primeiro esboço do que viria a se transformar no ideal do eu. E o ideal do eu, por sua vez, será o núcleo a partir do qual Freud, em 1923, construirá a noção de Superego — herdeiro do complexo de Édipo. Toda a segunda tópica está, em germe, no texto de 1914 sobre o narcisismo.

O luto, a melancolia e o narcisismo

Em Luto e Melancolia, Freud compara o melancólico ao enlutado. Na melancolia há uma regressão da libido: a libido livre é deslocada do objeto perdido para o ego, de forma que parte do ego assume o lugar do objeto abandonado — identificando-se com ele e tornando-o objeto a ser criticado. Como consequência, surgem as autorrecriminações:

Assim a sombra do objeto caiu sobre o ego... dessa forma, uma perda objetal se transformou numa perda do objeto. Freud · Luto e Melancolia

A regressão da libido só é possível porque toda escolha objetal possui, segundo Freud, uma base narcisista. Diante das dificuldades, a catexia objetal pode retroceder para o ego. É por isso que os pacientes melancólicos apresentam um predomínio do narcisismo — e Freud acreditava que, justamente por isso, esses pacientes não seriam capazes de estabelecer transferência.

Para além de Freud

A relação de objeto

Freud só se interessou pelo objeto no contexto da teoria das pulsões. Coube a seus sucessores — Abraham, Klein, Fairbairn, Winnicott, Lacan — reformular a psicanálise em torno da relação com o objeto.

"Relação de objeto" é uma expressão empregada pelos sucessores de Freud para designar as modalidades fantasísticas da relação do sujeito com o mundo externo, tal como se apresentam nas escolhas de objeto que esse sujeito efetua. Para Freud, não existe como tal nenhuma conceituação da relação — a questão da relação do sujeito com o objeto é pensada sob a categoria dos estádios, no sentido evolucionista e biológico do termo.

A revolução de Abraham

Em 1924, Karl Abraham reviu essa teoria, dividindo os diferentes estádios até lhes atribuir uma posição (estrutural) em vez de um encaminhamento biológico — e introduzindo a ideia de que as atividades do sujeito são moldadas pelos próprios objetos, ou, mais precisamente, pela maneira como o sujeito se constrói numa relação com objetos parciais.

Abriu-se assim caminho para uma inversão radical da perspectiva freudiana. Em vez de pensar a evolução do sujeito de acordo com os sucessivos rearranjos da relação pulsional e sexual com o objeto, passou-se a procurar mostrar como se organiza estruturalmente a atividade fantasística precoce, conforme os tipos de relações objetais.

Abraham desmembrou a noção clássica de objeto e de estádio e substituiu o objeto total pelo objeto parcial. Nos Três Ensaios, Freud já havia mostrado a importância disso ao sublinhar a existência não de objetos parciais, mas de pulsões parciais. Estas, segundo ele, tomam por objeto algumas partes do corpo ou matérias desligadas do corpo: o seio, as fezes, o fetiche.

A inversão kleiniana

Em 1934, partindo da revisão de Abraham, Melanie Klein abandonou a noção de estádio em favor da de posição — e, ao mesmo tempo, inventou o conceito de objeto bom e mau. A ênfase foi então colocada na clivagem do objeto (e não mais do eu).

Tanto num caso como no outro — Klein e mais tarde Lacan — tratou-se, para o movimento psicanalítico, de explorar as bases da personalidade humana: o si mesmo (self) como imagem ou relação com outrem (o outro); o objeto como incorporado, introjetado, projetado, persecutório ou, ao contrário, gratificante.

iii.
Conceito · Klein, 1934
O objeto bom & o objeto mau

A primeira clivagem da vida psíquica não é entre eu e mundo — é entre o que dá prazer e o que dá desprazer. E o primeiro objeto a ser clivado é o seio materno.

O termo foi introduzido por Melanie Klein, em 1934, para designar uma modalidade da relação de objeto tal como aparece na vida fantasística da criança — e que remete a uma clivagem do objeto em bom e mau. Por exemplo: mãe boa / mãe má, conforme esse objeto seja sentido como frustrante ou gratificante.

O objeto parcial, tal como o seio, foi então clivado num seio ideal, objeto do desejo da criança (objeto bom) — e num seio persecutório, objeto de ódio e de medo, percebido como fragmentado.

O mundo fantástico do bebê é bivalente. Ele organiza suas percepções sentindo que existem alguns objetos que lhe dão prazer e satisfação — e outros, radicalmente distintos, que lhe causam desprazer e insatisfação.

Objeto bom · gratificante
O seio ideal
O objeto do desejo da criança. Aquilo que alimenta, acolhe, alivia a tensão — o seio cheio, presente no momento da fome, fonte de calor e satisfação. O bebê o introjeta como núcleo positivo de seu mundo interno.
Objeto mau · persecutório
O seio persecutório
Objeto de ódio e de medo, percebido como fragmentado — o seio ausente quando o bebê tem fome, a tensão que não cessa, a primeira frustração. É vivenciado como ataque, como agente destrutivo que persegue. Também é introjetado, mas como núcleo persecutório.

Esses qualificativos não têm nada a ver com valorização de ordem moral no que diz respeito aos objetos. O máximo que se pode dizer é que o bebê, neste período, construirá seu mundo interior com aquilo que está lhe proporcionando a primeira experiência. As situações que causam desgosto — como a tensão da fome, o incômodo da irritação na pele provocada pelo retardamento na troca de fraldas, a ausência prolongada da mãe — serão vivenciadas como provenientes de objetos maus, destrutivos, persecutórios.

Os objetos internos: um teatro

Klein escreve: "Essas imagos, que são uma imagem distorcida de forma fantástica dos objetos reais em que estão baseadas, se instalam não só no mundo externo, mas também dentro do ego, através do processo de incorporação."

Um objeto interno — conceito dos mais centrais e misteriosos do sistema kleiniano — é uma espécie de cidadão do mundo interno, uma representação figurativa capaz de evocar afetos como se tivesse uma vida própria. A mãe, ou sua representação parcial como seio alimentador, se constitui no primeiro objeto interno do bebê.

Progressivamente, esses objetos internos representantes do mundo externo — associados a moções pulsionais agressivas ou amorosas — se organizam em núcleos e vão constituir uma espécie de teatro interno, onde os significados para as experiências vividas são gerados e passam a dar sentido às ações, crenças e percepções. Esses "climas" emocionais são expressos e evocados através das fantasias inconscientes.

Mais adiante, particularmente a partir do segundo semestre do primeiro ano de vida, o mundo começa a ser sentido como ambivalente — a criança começará a compreender que, quase sempre, um mesmo objeto é origem das duas sensações opostas. Sobre a integração do objeto
As duas posições

Esquizoparanoide & depressiva

Para Klein, o desenvolvimento não se faz por estádios biológicos, mas por posições — combinações de ansiedade e defesa que se sucedem (e que voltam, ao longo da vida, sempre que a perda do amor está em jogo).

Klein denomina posição — outro dos seus conceitos-chave — esta combinação constituída pelo tipo de ansiedade e os modos de defesa mobilizados pelo ego para dela se defender. Posições definem uma espécie de óptica mental. E são duas:

Posição i · primeiros meses de vida
Esquizoparanoide
A ameaça é a destruição do eu

Ansiedade paranoide é aquela que é vivida como uma ameaça à sobrevivência, à integridade do ego. O ego é tomado pela ameaça de destruição, vivido por seus sentimentos, descontextualizado de qualquer contexto histórico. Não há a presença do tempo — não existe antes nem depois, não há história no espaço interno dominado por esta destrutividade.

Ansiedade central
De aniquilamento
Defesa principal
Cisão (seio bom / mau)
Percepção do objeto
Parcial, fragmentado
Tempo
Atemporal
Posição ii · a partir dos 6 meses
Depressiva
A ameaça é perder o objeto amado

Esta posição é dominada por uma ansiedade de perda do objeto de seu amor, e se organiza para proteger desta experiência dolorosa — mobilizando defesas de natureza diferente do caráter paranoide. Aqui o bebê começa a perceber que o objeto bom e o objeto mau são uma única pessoa, e que ele próprio amou e odiou esse mesmo objeto. Surgem a culpa, a preocupação, a reparação.

Ansiedade central
De perda do objeto amado
Defesa principal
Integração, reparação
Percepção do objeto
Total, ambivalente
Tempo
Histórico, com antes e depois

Não são fases — são posições

A grande diferença em relação às fases freudianas: posições não são fases que se ultrapassam. São combinações que retornam ao longo da vida. A perda do objeto amado pelo adulto faz reviver a posição depressiva. Em momentos de fragilidade, qualquer pessoa pode recuar para a posição esquizoparanoide — viver o mundo em preto e branco, perseguidores e aliados, objetos parciais.

Para Klein, duas polaridades regem a vida psíquica: a pulsão de vida é a tendência que conduz a uma maior integração do aparelho psíquico, e a pulsão de morte é tendência à desintegração e à desorganização através da destrutividade. A passagem da posição esquizoparanoide para a depressiva é, em última instância, a vitória progressiva de Eros sobre Tanatos — vitória sempre parcial, sempre reversível.

Como o eu se constrói

As identificações

A personalidade constitui-se e diferencia-se por uma série de identificações. Mas o que é, exatamente, identificar-se? E quantos modos diferentes existem desse processo?

O termo identificação deve ser diferenciado de termos próximos como incorporação, introjeção e interiorização. Incorporação e introjeção são protótipos da identificação — ou pelo menos de algumas modalidades em que o processo mental é vivido e simbolizado como uma operação corporal (ingerir, devorar, guardar dentro de si).

Entre identificação e interiorização, a distinção é mais complexa. De um ponto de vista puramente conceitual, podemos dizer que a identificação se faz com objetos — pessoa, características de uma pessoa, objetos parciais; enquanto a interiorização é a de uma relação intersubjetiva.

Identificação i · A mais arcaica
Identificação primária

É o modo primitivo de constituição do sujeito segundo o modelo do outro — não é secundário a uma relação previamente estabelecida em que o objeto seria inicialmente colocado como independente. A identificação primária está em estreita correlação com a chamada relação de incorporação oral.

Opõe-se às identificações secundárias que vêm se sobrepor a ela, não apenas na medida em que é a primeira cronologicamente, mas também na medida em que não se teria estabelecido consecutivamente a uma relação de objeto propriamente dita. É a forma mais originária do laço afetivo com um objeto: "logo no início da fase oral primitiva do indivíduo, o investimento de objeto e a identificação talvez não se devam distinguir uma da outra".

Essa modalidade do laço da criança com outra pessoa foi descrita principalmente como primeira relação com a mãe, antes da diferenciação entre ego e alter-ego estabelecer-se solidamente.

Identificação ii · Anna Freud, 1936
Identificação com o agressor

A expressão não figura nos escritos de Freud — mas houve quem observasse que ele descreveu o seu mecanismo, particularmente a propósito de certas brincadeiras de criança, no capítulo III de Além do Princípio do Prazer. É um mecanismo de defesa isolado e descrito por Anna Freud em 1936.

O sujeito, confrontado com um perigo exterior — representado tipicamente por uma crítica emanada de uma autoridade — identifica-se com o seu agressor, ou assumindo por sua própria conta a agressão enquanto tal, ou imitando física ou moralmente a pessoa do agressor, ou adotando certos símbolos de poder que o caracterizam.

Daniel Lagache prefere situar a identificação com o agressor na origem da formação do ego ideal: no quadro do conflito de demandas entre a criança e o adulto, o sujeito identifica-se com o adulto dotado de onipotência — o que implica o desconhecimento do outro, a sua submissão, até mesmo a sua abolição.

Identificação iii · Klein
Identificação projetiva

É o protótipo do relacionamento objetal agressivo — representando um ataque anal a um objeto, ao forçar "partes do ego" neste a fim de apoderar-se de seus conteúdos ou controlá-lo. Ocorre na posição esquizoparanoide, a partir do nascimento.

Trata-se de uma fantasia distanciada da consciência, que traz consigo uma crença de que certos aspectos do self acham-se situados alhures — com um consequente esvaziamento e senso enfraquecido do self e da identidade, chegando ao ponto da despersonalização. Sentimentos profundos de estar perdido ou um senso de aprisionamento podem dela resultar.

Sem uma introjeção concomitante por parte do objeto em que se projeta, tentativas cada vez mais forçadas de intrusão resultam em formas extremadas de identificação projetiva — que conduzem a distorções graves de identidade e às experiências perturbadas do esquizofrênico.

Projeção ≠ identificação projetiva

O uso inicial que Freud fez do termo "projeção" referia-se a um abuso do mecanismo de projeção para fins de defesa, descrevendo como as ideias de determinada pessoa podem ser atribuídas a alguém mais, criando assim um estado de paranoia.

Para Klein, a identificação projetiva constitui uma visão mais radical da projeção: parte do self é atribuída a um objeto. Parte do ego — um estado mental, como uma raiva indesejada, ódio ou outro sentimento mau — é vista em outra pessoa e completamente repudiada, negada. Partes do ego/self são projetadas como objeto interno.

Identificação iv · Bion
Identificação projetiva normal & anormal

Bion estabeleceu ser complexa a diferença entre a identificação projetiva normal e anormal — dependendo do grau de violência na execução do mecanismo.

Um dos objetivos alternativos da identificação projetiva é evacuar de modo violento um estado mental penoso, conduzindo a um ingresso forçado em um objeto, na fantasia, para alcançar alívio imediato — amiúde com o objetivo de um controle intimidador do objeto. Essa é a forma anormal.

O outro objetivo é introduzir no objeto um estado mental, como meio de comunicar-se com ele a respeito desse estado. Essa é a forma normal — fundamental, segundo Bion, para o desenvolvimento da capacidade de pensar e para a relação mãe-bebê saudável.

Lacan · uma releitura radical

O estágio do espelho

Lacan propõe uma fórmula vertiginosa: o eu não é descoberto, é construído de fora para dentro. O bebê só sabe que é "um" porque vê isso refletido. E aquilo com que se identifica não é ele — é uma imagem.

O narcisismo, em Lacan, corresponde ao investimento do eu pela libido — que, neste ato, constitui-se como libido narcísica. Lacan assinala que este investimento se faz sobre a imago do corpo próprio, no que ele concebeu como estágio do espelho. Esta imago não pode ser da mesma ordem da imagem dos objetos a serem investidos pela outra libido. Para Lacan, na anterioridade lógica do narcisismo não há investimento objetal possível: não há relação de objeto que não pressuponha o narcisismo.

ESPELHO imagem do corpo unificado bebê (6-18 meses)
O estágio do espelho · Lacan
Lacan · 1949 e seguintes

A imagem antecipa o que o corpo ainda não é

Por volta dos seis meses de idade, o bebê reage jubilosamente diante da percepção de sua própria imagem no espelho. Para Lacan, o bebê tem antes uma representação fantasmática do corpo fragmentado (imago que continua a se expressar durante a vida adulta nos sonhos, delírios e processos alucinatórios).

A imagem no espelho antecipa para o lactante a coordenação e integridade que ainda não possui naquela etapa da vida. Embora o bebê humano não tenha condições neurológicas para dominar a organização de seu esquema corporal — ainda não pode coordenar seus movimentos — pode reconhecer-se no espelho. O conhecimento, a organização do próprio corpo, vem do exterior.

Na experiência do espelho, o sujeito se identifica com algo que não é ele. Acreditando ser o que o espelho lhe reflete, acaba se identificando com um fantasma — uma ilusão da qual procurará se aproximar pela vida toda.

Eu ideal & ideal do eu, em Lacan

Em Lacan, o estágio do espelho não é apenas um momento no desenvolvimento do ser humano — é uma estrutura, um modelo de vínculo que operará durante toda a vida. O espelho situa a instância do eu, ainda antes de sua determinação social, numa linha de ficção. O eu aí constituído é o eu ideal, diferente do ideal do eu: o eu ideal é uma imago antecipatória prévia — o que o sujeito não é mas deseja ser, imagem mítica, narcisista, incessantemente perseguida pelo homem. O ideal do eu surge depois, da inclusão do sujeito no registro simbólico.

Na conferência A agressividade em Psicanálise, Lacan enuncia que a agressividade, como vivência essencialmente subjetiva, surge do encontro entre a identificação narcisista da qual o indivíduo é portador e as fraturas às quais essa imago está submetida. O estágio do espelho traz a reflexão sobre a intersubjetividade humana: o olhar do outro produz no sujeito sua identidade por reflexo. Através do olhar do outro, o sujeito sabe quem ele é — e nesse jogo narcisista, se constitui a partir de fora.

Por meio deste outro, sei o que sou, quem sou, como sou e quem devo vir a ser.

A fórmula lacaniana do reconhecimento

Klein e Lacan: a recusa do narcisismo primário freudiano

Para Klein, as relações de objeto existem desde o início da vida — refutando a ideia de narcisismo primário de Freud, pois ela não considera processos anobjetais. No vínculo narcisista, há uma identificação do ego com o objeto idealizado interno, o que permite dissociar e negar o objeto persecutório externo. Na teoria kleiniana, o interesse puramente narcisista é uma atitude agressiva em relação ao objeto. Quando o sujeito é narcisista em seus interesses, sempre haverá alguém que sofrerá com isso.

Lacan considera a pulsão de morte como expressão do narcisismo. Em A Dialética do Senhor e do Escravo: "Nada irrita mais do que a intenção do outro de sair do jogo, pois tropeça no que sou". Tanto Klein quanto Lacan compartilham a recusa do solipsismo narcisista freudiano — ambos veem o eu como, desde sempre, constituído na e pela relação com o outro.

61
IPP 61 · A pedra fundamental
O vínculo do reconhecimento

É indispensável para o crescimento psíquico que o sujeito desenvolva um tipo de vínculo no qual reconheça que o outro não é um espelho seu — que é um ser individualizado, com ideias, valores e capacidades distintas. Sem isso, não há sujeito.

No início da vida, o bebê não tem consciência de si, não tem consciência da existência de outro, nem do que é dentro ou do que é fora; tampouco discrimina o que é eu do não-eu. O que existe é um estado caótico, composto unicamente por sensações que são "agradáveis" ou "desagradáveis". Nesse estado narcisista, o outro é representado como sendo não mais do que uma posse ou extensão dele próprio — e que deve estar permanentemente à sua disposição para prover todas as necessidades.

Na relação mãe-bebê forma-se um natural vínculo de descobertas durante o qual, por meio do olhar reconhecedor, ambos são reciprocamente um a imagem do outro — cada um o objeto do outro, sempre configurando a díade desejante-desejado.

Winnicott

Há vários estudos de bebês que têm longa experiência de não receber de volta o que estão dando. Não há experiência mais penosa e terrível do que a de ver e não ser visto — de não ser refletido no embaçado, distorcido ou opaco da mãe.

Zimerman

Acerca do "seio bom" e do "seio mau" de Klein, creio ser justificado propor a concepção do "olhar bom" e do "olhar mau" da mãe. A criança olha para ver como está sendo vista pela mãe — e isso remete a outra conhecida frase de Winnicott: "ocultar-se é prazer, porém não ser encontrado é uma catástrofe". Este aspecto denota a necessidade do indivíduo ser reconhecido e o terror de que isso não aconteça.

Kohut

É necessário para a estruturação do psiquismo da criança que os pais aceitem temporariamente e incentivem a instalação de um Ego seguro na mente do filho — através de manifestações de reconhecimento, elogios pelas aquisições de capacidade e de criatividade por parte da criança.

Lacan

Em condições normais, a criancinha tem uma necessidade absoluta e imprescindível da presença de uma outra pessoa — a mãe — para conseguir a unidade e a fusão da imagem corporal, da identidade. Nesse estágio, o indivíduo reconhece seu Ego no outro e por meio do outro, como se pensasse: "Por meio deste outro, sei o que sou, quem sou, como sou e quem devo vir a ser".

O reconhecimento como pré-requisito psíquico

É indispensável para o crescimento psíquico do indivíduo que ele desenvolva relacionamento com os outros — um tipo de vínculo no qual reconheça que:

Pode-se dizer, com essa fundamentação teórica, que os primeiros vínculos da criança com o mundo formam-se a partir dos laços afetivos ligados ao lugar que a criança veio a ocupar na estrutura familiar — bem como se o desempenho de seus papéis será reconhecido, ou não, pelos outros que habitam fora ou dentro dela.

Em uma frase. O eu não nasce, ele se faz. E se faz no encontro com o olhar do outro — um olhar que precisa ver, reconhecer, refletir. Quando esse olhar falha, o bebê não tem como se constituir como sujeito: fica refém de um narcisismo que não pode jamais se completar, porque o outro que poderia ter dito "tu existes" se calou.

Ocultar-se é um prazer, porém não ser encontrado é uma catástrofe. D. W. Winnicott
Diagnóstico diferencial

O narcisista e o orgulhoso

Estrelismo, vaidade e ausência de autocrítica aparecem nos dois quadros. É por isso que um é tomado pelo outro com tanta frequência. O que os separa é outra coisa: a manipulação, e o reconhecimento de que existe alguém além de si.

Antes do diferencial, uma definição de trabalho. Transtorno de personalidade é um exagero de personalidade que vem defender alguma coisa. A personalidade inteira se mobiliza em defesa do ego, e um traço cresce até ocupar o lugar de todos os outros. Quem é dependente fica muito dependente. Quem é de controle e de limpeza fica muito controlador. O critério de corte é funcional: há transtorno quando aquele traço impede a pessoa de andar, como na dependente que passa mal na hora de decidir sozinha.

Orgulho
Tem estrelismo e vaidade. É inflexível e não faz autocrítica. Não manipula e não se faz de coitado. Enxerga o outro: entende que outras pessoas existem e têm vida própria. Encurralado, permanece inflexível.
Narcisismo
Tem estrelismo e vaidade. É inflexível e não faz autocrítica. Manipula, faz-se de coitado, de santo, de quem não sabe de nada. Não enxerga o outro: só ele pode existir. Encurralado, pega os piores defeitos de quem está na frente e destrói a pessoa com eles.

O quadro de orgulho tem uma origem que o mapa clínico costuma revelar: uma defesa do ego que virou personalidade. A pessoa se defendeu tanto, foi tão ameaçada, usou tanta defesa, que a defesa passou a ser parte de quem ela é. Só essa parte aparece.

Orgulho e culpa têm a mesma raiz

O indivíduo orgulhoso não reconhece o outro. É a mesma estrutura descrita no vínculo do reconhecimento, agora no adulto: o mundo gira em torno de um só e não existe nada além dele. A consequência é direta. Se algo não aconteceu, a causa foi ele. Se algo bom aconteceu, também foi ele. Daí nasce a culpa que não se sustenta em nenhum fato, e daí vem a regra de tratamento: sair da culpa exige assumir responsabilidade e abandonar a posição de criança desejante, que culpa o mundo, o outro e Deus.

Quer entender culpa de verdade? É entender orgulho. Se algo não aconteceu, de quem foi a culpa? É sua. Não existe mais ninguém no mundo, só você. O indivíduo orgulhoso não reconhece o outro. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise · Módulo 1 · Culpa · 29/04/2024

O manejo do narcisista

A única forma de lidar com o narcisista é não lidando. A técnica é de limite, não de convencimento: no máximo duas horas de conversa útil, apenas sobre assuntos neutros, e nenhuma informação sua. Nada sobre a sua vida, os seus planos, as suas conquistas. Passou de duas horas, saia.

Não lidar não é abandonar. Numa formação em virtudes não se aprende o abandono. Também não se aprende a conviver na loucura. O trabalho é achar o limite aceitável, continuar cuidando e continuar tentando levar tratamento, sem entrar no jogo, sem projetar e sem comprar culpa imposta. Honrar a família significa não abandoná-la. Não significa seguir as crenças, os valores e os princípios dela, nem depender da sua aprovação.

O êxito diante de um pai ou de uma mãe narcisista

Com um pai ou uma mãe narcisista, o êxito do filho fica impossível de mostrar. O êxito humilha quem precisa ser o centro, e o narcisista converte a conquista alheia em obra própria: olha o que eu fiz, você tem que ser grata. O filho aprende que crescer custa caro.

Há um marcador clínico que costuma vir junto. Pânico que aparece exatamente quando a carreira começa a estourar, no grande projeto, na prosperidade, na exposição. Taquicardia, pronto-socorro, exames normais, sempre no momento do crescimento. Quando o sintoma nasce ali, investigue pai e mãe narcisistas antes de qualquer outra hipótese.

A relação de objeto na clínica

Transferência: a necessidade de repetir

A primeira regra da transferência tem uma formulação curta. Transferência é necessidade de repetir. A cena volta igual porque existe uma esperança inconsciente de que, desta vez, ela termine diferente.

Por que repetir a cena exatamente igual? Para ver se agora eu arrumo. Se eu caso com alguém igual ao meu pai, agora ele vai me dar o que aquele não deu, agora ele não vai me castrar, agora eu conserto aquela relação. O problema está na própria escolha: como se arranjou alguém igual, acontece a mesma coisa.

O cálculo 50/50

Quando a mulher casou com o pai, ela vê no marido metade marido e metade pai. Isso muda o que acontece na perda. Quando esse marido morre, morrem duas pessoas: o marido de fato e a esperança de consertar o pai, que estava depositada naquela transferência. O luto que não anda costuma ser um luto de duas figuras tratado como se fosse de uma.

Daí a regra de consultório: são duas aceitações. Toda frustração atual está vinculada a um ponto de fixação do passado, e é preciso trabalhar a aceitação dos dois desejos. Tratar só o do passado não melhora o presente. Tratar só o de hoje não resolve nada. E, ao mesmo tempo, não são dois objetos: é um só. Como um já é transferência do outro, tratar a proibição de sair da infância e a proibição de sair dentro do casamento é tratar o mesmo objeto.

A falta não se preenche pela entrega do objeto atual.

Mesmo que o outro entregue exatamente o que faltou, o mimo, o café da manhã, o afeto pela manhã, aquilo não acaba. A falta é um buraco sem fundo porque é atemporal. Ela não está aqui, está lá. Por isso a saída não é conseguir hoje o que não veio ontem.

Essas memórias não são ressignificáveis. Elas não se alteram. A única via é aceitar que a vida foi aquilo e não querer mais mudar aquilo. É nesse ponto que o perdão entra no trabalho clínico, e ele não tem a forma que o senso comum lhe dá.

A gente tem que lembrar que o perdão nunca é para uma pessoa: é para uma memória. […] Eu aceito que isso foi assim e não quero mais mudar isso — e isso não determina quem eu sou nem o amor que eu mereço. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise · Módulo 1 · Mapa de Identificação · 06/05/2024

Antes da aceitação, a verdade sobre o desejo

Enquanto a pessoa está em negação do próprio desejo, a terapia ainda não começou. Eu amo ficar em casa, nunca tive necessidade de sair é uma frase que fecha o caminho. A terapia começa a partir do momento em que a verdade é revelada.

A técnica é perguntar pela cena, nunca pela opinião de hoje. Duas perguntas que fazem esse trabalho:

Só depois de a verdade sobre o desejo ser dita é que aquele desejo pode ser aceito, eliminado ou reelaborado. Antes disso, o que se trabalha é a defesa.

Instrumento clínico

O Mapa de Identificação

Um instrumento de desenho que responde a uma pergunta única: de quem eu copiei cada traço da minha personalidade, e por quê. Identificação não é onde eu me identifico. É o que eu estou copiando.

Estatuto do instrumento.

O mapa não é fonte da verdade sobre o paciente. Ele é material de discussão em sessão, ferramenta de enriquecimento da sessão. Nada que apareça nele vale como conclusão sobre alguém.

A autoavaliação é tendenciosa e cega. O que está fora do lugar costuma ser justamente aquilo que a pessoa considera normal, e por isso não descreve como problema. Quem preenche não enxerga o próprio ponto cego: enxerga o que já sabe dizer de si.

O melhor é responder em sessão, com o terapeuta presente. Quando o mapa chega respondido sozinho, o trabalho é conversar, estranhar e investigar antes de qualquer conclusão. Estranhar significa perguntar por tudo que ficou liso demais, por tudo que veio rápido demais e por tudo que não veio.

Toda crítica à precisão ou à utilidade do instrumento se avalia a partir daí. Ele não foi feito para dizer a verdade sobre alguém. Foi feito para abrir conversa sobre o que a pessoa não conseguiria trazer sozinha.

O que o mapa mostra

A personalidade é uma colcha de retalhos montada a partir das relações observadas no grupo familiar. Ninguém copia uma pessoa inteira. Copiam-se traços soltos, de origens diferentes, por motivos diferentes. O mapa também torna visíveis os objetos internos e o teatro interno: as figuras internalizadas que têm opinião e influenciam medos, ansiedades e decisões sem que o sujeito perceba, inclusive as figuras ameaçadoras e castradoras.

É também o que explica por que alguém é uma pessoa em cada ambiente. A cada situação nova, o sujeito identifica quem é aquela figura dentro do próprio mapa e escolhe quem vai imitar para conseguir o que quer.

Você não copia uma pessoa. A gente copia vários traços, de vários porquês, de vários movimentos — de defesa ou de busca de aprovação e aceitação. Quem vai responder isso é o mapa. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise · Módulo 1 · Mapa de Identificação · 06/05/2024

Como se aplica

O mapa entra depois do cálculo edípico e da linha do tempo da história, já com a pré-transferência da primeira sessão limpa. Ele cobre todo o grupo familiar até a adolescência, dos 16 aos 18 anos como limite, com ênfase na infância e na primeira adolescência.

Grupo familiar tem uma definição operacional própria aqui: todas as pessoas que exerceram algum tipo de autoridade na sua família. Todo mundo que dava pitaco, que participava da dinâmica da casa, das decisões, das regras, do que era certo e do que era errado. Isso inclui:

O desenho segue cinco passos:

  1. Você no centro, dentro de um círculo, com a sua idade.
  2. Ao redor, cada figura do grupo familiar. Escreva o nome real da pessoa, nunca o parentesco. Armelindo, irmão da minha mãe, e não tio.
  3. Sob cada figura, anote a personalidade dela.
  4. Puxe setas entre todos, e não apenas de você para os outros. Mãe e tio. Pai e tio. Pai e avô. Avó e avô. Mãe e pai. Todos entre todos.
  5. Sobre cada seta, anote a relação.

Para cada figura, sempre as mesmas duas perguntas, com estas palavras:

1. Qual era a personalidade dessa pessoa?

2. Qual era a relação dela com cada uma das outras?

No mapa vai só o ponto principal de cada relação. O detalhamento vai na ficha, fora do desenho, porque o mapa precisa continuar legível como estrutura. O trabalho custa de três a quatro horas, às vezes dias. Feito direito, ele substitui anos de espera pela história que o paciente traria aos poucos, e traz as histórias que nunca viriam.

O que cada elemento significa na leitura

A chave é uma pergunta dupla, e ela é sempre a mesma: como eu era escolhido e aprovado, e como eu me protegia? Todo traço copiado responde a uma das duas. A partir daí, duas regras de leitura.

Regra 1. Imito quem vencia quem me causava dor. Você é a primeira filha e tem conflito com a sua mãe. Sua mãe é a segunda filha e sempre perdeu o jogo com o pai dela para a irmã mais velha, que é a sua tia. O cálculo é grosseiro e automático: para se defender da mãe, procura-se dentro do mapa a figura que conseguia vencê-la. A resposta é a tia. E é a tia que será imitada. As figuras fortes de um mapa são as que usaram os melhores mecanismos nas dinâmicas, e é delas que se copia.

Regra 2. Imito quem era o escolhido. Se o avô tinha um neto preferido e você é o quinto, você vai imitar aquele primo em algumas coisas, porque foi ele quem teve aprovação.

As duas regras só funcionam porque as setas ligam terceiros entre si. É a relação entre a mãe e a tia, que não passa por você, que explica o seu traço. Sem essa malha, o mapa não diz nada.

A transferência de volta. O mesmo caso continua: a mãe, que disputou com aquela tia e se sentiu desbancada por ela, olha para a filha imitando a tia. Quem ela enxerga? A tia. É essa a origem da crítica diária que a filha recebe desde criança sem entender de onde vem.

Mortos e nunca conhecidos. Anote a personalidade como ela foi descrita por quem falava dela, e anote como você acredita que ela se relacionaria com as outras figuras. Isso está no imaginário e por isso conta. Há quem construa a personalidade inteira a partir de um morto que nunca viu. A mãe que idolatra o próprio pai falecido repete meu pai era assim, se ele estivesse aqui ele faria isso, e o filho, buscando a aprovação dessa mãe, se torna a fala dela sobre o avô. O mesmo mecanismo aparece na escolha amorosa: casa-se com a avó forte que mandava na família inteira e que nunca se conheceu.

O que o mapa não é

Não é constelação familiar. A constelação aplica regras fixas de posição: se a mãe não se colocar de tal jeito, o filho será de tal jeito. O mapa não tem nenhuma regra desse tipo. Operam nele duas regras, e só duas: evitar a dor e buscar ser aprovado e aceito.

Não é pré-transferência. Identificação é copiar o traço para dentro da minha personalidade, venha ele da convivência, de uma fala ou de uma imaginação. É isso que o mapa captura. Pré-transferência é buscar aquela figura em outra pessoa. Procurar o avô dentro do marido já é outra operação.

Os erros de leitura

Erro 1. Buscar informação fora da própria cabeça. Não se pergunta à mãe, ao irmão, à tia. O que não se sabe entra como não sei, e o que entra sobre a figura desconhecida é o que se falava dela dentro de casa.

A gente quer saber o que está na sua cabeça. Se você perguntar alguma coisa que não está na sua cabeça, você está colocando no seu mapa coisas que não são suas, que não estão no seu imaginário. A gente está desenhando o seu imaginário. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise · Módulo 1 · Mapa de Identificação · 06/05/2024

Erro 2. Usar a visão de hoje. O paciente anota a visão que tinha na infância e na adolescência, não a que tem agora. Foi aquela visão que montou a personalidade. Hoje se enxerga que o tio não era nada daquilo e que o pai não era nada daquilo, e essa correção é verdadeira, mas ela é posterior. A identificação não é de hoje.

Há um erro de aplicação que acompanha os dois: preencher sozinho e entregar pronto. O mapa feito em silêncio vira retrato do que a pessoa já aceita saber sobre si. O material que interessa aparece na conversa sobre o desenho.

O que se faz com o resultado em sessão

O instrumento irmão: a linha do tempo

A linha do tempo se passa junto com o mapa e tem uma regra que muda tudo: nunca se anota o ano, anota-se a idade. Meu pai morreu em 1999 não é dado. Eu tinha quinze anos quando meu pai morreu é dado. Morte, casamento, separação, mudança, cada uma com a idade.

A linha do tempo da sexualidade e dos relacionamentos marca, também por idade: quando a sexualidade começou; qual foi a primeira proibição ligada a ela; o amor platônico; a primeira masturbação; o primeiro beijo; a perda da virgindade; todos os namoros, mesmo os de uma semana; os casamentos e as separações. Para cada parceiro, as mesmas duas perguntas do mapa: a personalidade da pessoa e como era a relação.

Vale para a linha do tempo a mesma orientação do mapa. É melhor ser conduzido do que conduzir a si mesmo, porque quem conduz não fica livre para pensar.

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