Teoria Psicanalítica · Curso completo
Aula onze de doze
Tema Psicopatologia psicanalítica Subtemas Neurose Perversão Psicose Lacan Freud
Aula XI
XI

A psicopatologia psicanalítica

Neuroses, psicoses, perversões — as três grandes estruturas clínicas. De Charcot e Anna O. ao Homem dos Ratos, de Schreber ao luto e à melancolia. Como a psicanálise pensa o sofrimento.

IPP 07 · Histeria, neurose, psicose Duração estimada: 110 min
Abertura · O diagnóstico psicanalítico

Estrutura, não rótulo

A psicanálise pensa o sofrimento de modo radicalmente diferente da psiquiatria descritiva. Onde o DSM enumera sintomas e cria categorias, a psicanálise busca a estrutura subjetiva subjacente — o modo singular como cada um responde ao impossível da castração.

A psicanálise não aborda os fenômenos tal como a psiquiatria. Na psiquiatria, há psicose caso se observem delírios ou alucinações. Na psicanálise, o diagnóstico se faz na transferência — construindo o caso clínico, considerando os fenômenos de linguagem e a estrutura do discurso. Serve de exemplo a típica certeza psicótica, inabalável, indicando que o psicótico não supõe saber ao outro.

Não é louco quem quer — para ser louco é necessário ter certo tipo de estruturação psíquica, a estrutura psicótica. Dizemos a psicose, e não as psicoses — acentuando que se trata de uma estrutura.

Jacques Lacan · sobre o diagnóstico estrutural

Isso muda tudo. Significa que duas pessoas com sintomas idênticos podem pertencer a estruturas diferentes — e merecem, portanto, manejos clínicos diferentes. Significa também que a estrutura é estável: alguém com estrutura neurótica não vira psicótico sob estresse, e vice-versa. O que muda são as manifestações sintomáticas; a estrutura permanece.

Considerar a psicose como uma ordem do sujeito tem implicações clínicas: trabalhar com o sujeito e sua história singular, enfocando não a doença, mas a totalidade de sua existência. Escutar o psicótico como sujeito de seu discurso, e acolhê-lo como portador de um sentido sobre a vida do sujeito.

Lacan destacou a importância, para o psicanalista, de ocupar o lugar de "secretário do alienado" — escutar o que o psicótico fala, não passivamente, mas no sentido de testemunhar uma narrativa desde a posição de quem sabe que, talvez, se trate de um discurso que porta uma verdade que conta do sujeito, e que deve ser escutado ao pé da letra.

Lacan · as três subestruturas clínicas

As três estruturas clínicas

Real, Simbólico e Imaginário se entrelaçam para dar consistência ao psiquismo. As três formas como esses registros podem se compor diante do trauma e do gozo geram três estruturas distintas — cada uma com sua modalidade de falta e seu mecanismo de defesa específico.

Estas três subestruturas clínicas referem-se às três formas diversas de defesa contra o trauma, contra o gozo. São elas: a neurose (resultante do recalque); a psicose (resultante da forclusão); e a perversão (resultante do desmentido). Para cada uma delas, há uma modalidade distinta de falta: respectivamente, a castração, a privação e a frustração.

α
Estrutura i
Neurose
Mecanismo recalque
Modalidade de falta castração
Subtipos histeria · neurose obsessiva · fobia
β
Estrutura ii
Psicose
Mecanismo forclusão
Modalidade de falta privação
Subtipos paranoia · esquizofrenia · maníaco-depressiva
γ
Estrutura iii
Perversão
Mecanismo desmentido
Modalidade de falta frustração
Características recusa da castração · fixação de uma cena · fetiche

A castração como Lei

A castração — que é a Lei, o que interdita o incesto, ou a ilusão de completude imaginária entre mãe e bebê — fundamenta-se pela falta de um objeto Imaginário. É uma ação Simbólica que rompe com a ilusão de uma satisfação plena e de um par complementar. O agente que opera esse corte é um agente Real, encarnado pela mãe que introduz à criança outro elemento (além deles dois): o significante Nome-do-Pai.

Desse corte resultam a neurose e suas três derivações:

Para a psicose, há a privação: a ausência do objeto Simbólico, sobre a qual o Simbólico não tem efeito, deixando exposta a ferida de um furo aberto. Para a perversão, há a frustração: o sujeito sente imaginariamente que sofreu um dano, que algo lhe foi devido e não foi dado.

07
IPP 07 · A doença fundadora
A histeria

A palavra grega histeria significa "colo" ou "útero". Por séculos, acreditava-se que somente as mulheres mostravam sintomas histéricos. Antigamente, as histéricas eram perseguidas como bruxas. Foi pelo estudo da histeria que Freud construiu a psicanálise.

Por séculos, acreditava-se que somente as mulheres mostravam sintomas histéricos — paralisia, espasmos, sonambulismo, alucinações, perda da fala, dos sentidos, da memória. Os especialistas da época observavam a histeria sob dois pontos de vista:

Charcot e a virada de Freud

Em sua primeira permanência na França (1885-1886), Freud se impressionou com as últimas investigações de Jean-Martin Charcot sobre a histeria — em particular sobre a autenticidade das manifestações histéricas; a ocorrência frequente da histeria em homens, e não somente nas mulheres como se acreditava; e a produção de contraturas e paralisias histéricas por sugestão hipnótica.

A personalidade de Charcot foi determinante para Freud. Ao escrever para Martha, sua noiva, comentou: "Minhas metas e opiniões estão sendo abaladas por Charcot, que tem um toque de gênio; estou mudando muito. Ele me transfere uma nova ideia de perfeição; meus trabalhos já não me interessam; ninguém jamais me afetou dessa forma."

O passo decisivo foi este: Freud queria demonstrar que, na histeria, as paralisias e as anestesias das várias partes do corpo se achavam demarcadas de acordo com a ideia popular dos seus limites — e não em conformidade com os anatômicos. Charcot concordou com esse ponto de vista — mas não demonstrou interesse em aprofundar a origem psíquica das neuroses.

O sintoma como linguagem

Sobre a psicanálise, o que se pode dizer, antes de tudo, é que pôde considerar a existência de um saber no sintoma. O discurso freudiano, desde os seus primórdios, considerou o sintoma como um enigma — em que o sujeito diz alguma coisa sobre o que lhe ocorre, mas o faz de forma indireta e velada.

As histéricas sofrem, principalmente, de reminiscências. Não podendo lembrar, elas constroem um sintoma no corpo. O que está velado são representações psíquicas. O sofrimento histérico e seus sintomas associados provêm da lembrança — sobretudo da lembrança — de um acontecimento traumático associado ao afeto.

Sigmund Freud · Estudos sobre a Histeria, 1895

As lembranças subjacentes aos ataques histéricos relacionam-se com traumas psíquicos que não foram eliminados pela ab-reação ou pela atividade associativa do pensamento. Há uma representação psíquica (ou um conjunto de representações) que não tem livre acesso à consciência. Essas representações ficam dissociadas; porém, o afeto a elas associado ganha nova forma de expressão: converge para o corpo, na criação de um sintoma. É a famosa conversão histérica.

A operação do método catártico — ainda não nomeado de psicanalítico — consistia justamente em promover a recondução da excitação da esfera somática para a psíquica e, assim, a resolução da contradição por meio da atividade de pensamento e da descarga da excitação por meio da fala. É a "cura pela fala", expressão criada pela paciente Anna O.

O caso fundador

Anna O. & a cura pela fala

O caso paradigmático da psicanálise. Bertha Pappenheim — codinome Anna O. — foi tratada pelo médico vienense Josef Breuer entre 1880 e 1882. As observações de Breuer foram o ponto de partida para tudo o que veio depois.

Caso fundador · Breuer, Viena, 1880-1882

A Senhorita Anna O.

Bertha Pappenheim · 21 anos · sintomatologia múltipla

Devido à sua severa educação, a Srta. Anna reprimia diversos desejos. Durante uma discussão, reprimiu uma resposta à altura — e a raiva contida foi tão intensa que lhe provocou um espasmo de glote. Isso se repetia em todas as ocasiões semelhantes.

Perdeu a capacidade de falar — como resultado do medo — após sua primeira alucinação à noite, reprimindo uma observação. Em outra ocasião, ao se sentir culpada, voltou a ter o sintoma. Começou a tossir pela primeira vez quando, certa vez, sentada à cabeceira do pai doente, ouviu o som de uma música para dançar vinda de uma casa vizinha — sentiu um forte desejo de estar lá, foi dominada por impulsos de autorrecriminação, e a partir de então, durante toda sua doença, reagia a qualquer música acentuadamente ritmada com uma tosse nervosa.

Depois de uma série de hipnoses com o exercício da fala, a própria paciente formou o firme propósito de que todo o tratamento deveria terminar no dia em que fizesse um ano da data que foi levada para o campo. No começo de junho, ela iniciou "a cura pela fala" — expressão que ela mesma criou — com maior disposição.

No último dia em que Breuer esteve com Anna O., recorrendo a uma nova arrumação do quarto a fim de assemelhá-lo ao quarto do pai doente, por meio da hipnose, ela reproduziu as aterrorizantes alucinações que constituíam a raiz de toda a sua doença. Libertou-se de inúmeras preocupações que exibira antes. Depois disso, passou a gozar de perfeita saúde.

Mas há também o lado dramático do caso. Breuer havia criado uma forte transferência terapêutica com a paciente, e diminuiu a frequência de suas visitas para encerrar o tratamento. Foi chamado com urgência e encontrou a Srta. Anna novamente com quadro de alucinações — afirmando estar grávida, e que o filho era de Breuer. A histeria havia tomado forças, criando sintomas de gravidez: produção de leite materno, inchaço no abdômen, contrações de parto.

Breuer, não sabendo lidar com essa situação, ficou extremamente chocado e afastou-se do caso por algum tempo. Viajou com sua esposa, justificando como uma segunda lua-de-mel. Foi Freud, ouvindo o relato desse episódio anos depois, que entendeu o que ali se passara — e construiu, sobre essa experiência, a noção de transferência que se tornaria central na clínica psicanalítica.

A segunda grande neurose

A neurose obsessiva

Se a histeria converte o conflito em sintoma corporal, a neurose obsessiva o desloca para o pensamento. Onde a histérica grita pelo corpo, o obsessivo rumina em silêncio. Onde a histérica esquece, o obsessivo lembra demais — e ritualiza.

DSM-IV · CID-10 · Transtorno Obsessivo-Compulsivo
A neurose obsessiva
do latim ob-stinere · "manter-se contra, opor-se a si mesmo"

A linguagem de uma neurose obsessiva — ou seja, os meios pelos quais ela expressa seus pensamentos secretos — presume-se ser apenas um dialeto da linguagem da histeria, escreveu Freud em 1909. A terminologia "ob-stinere" já mostra a situação de ambiguidade e ambivalência no sujeito obsessivo: luta-se contra si mesmo.

O DSM-IV define obsessões como pensamentos impulsivos ou imagens recorrentes e persistentes — experimentados como intrusivos, inadequados, causando acentuado sofrimento e ansiedade. O sujeito reconhece as obsessões como produto de sua própria mente. Define compulsões como comportamentos repetitivos ou atos mentais que a pessoa se sente compelida a executar em resposta a uma obsessão — para prevenir ou reduzir sofrimento ou evitar algum evento temido.

Os sintomas se manifestam em três níveis:

— Conteúdo das ideias: hesitação, dúvida, indecisão. Severidade consigo mesmo, perfeição, escrúpulos conscientes, preocupação com detalhes, regras e formalidades.

— Pensamento: ruminação mental. Orientação para temas acerca dos quais toda a humanidade está incerta — paternidade, duração da vida, vida após a morte, memória.

— Atos: compulsão. Condutas que o sujeito é levado a realizar por imposição interna.

Mecanismos de defesa típicos: formação reativa (desejo da morte de alguém → ações de proteção compulsiva), anulação retroativa (tentativa mágica de fazer com que o passado não tenha acontecido), isolamento (separar afeto da ideia), deslocamento (substituir a representação central por detalhes sem importância). Traços de caráter: ordem, parcimônia (que pode virar avareza), obstinação (que pode virar cólera). A agressividade reprimida vaza nesses traços.

O Homem dos Ratos · 1909

Em Notas sobre um Caso de Neurose Obsessiva (1909) — o famoso "Homem dos Ratos" — Freud reconhece pela primeira vez o conflito entre amor e ódio como uma possível base para a neurose. Esse estabelecimento do conceito de ambivalência psíquica foi um grande passo: reconhecer o conflito interno em sua origem, e não apenas em seu desenvolvimento.

No texto de 1913, Freud descreveu uma organização primitiva pré-genital da libido — caracterizada por uma preponderância de componentes pulsionais anais-sádicos, apreendendo que os sintomas da obsessão eram resultado da regressão da libido a esse estágio anal como forma de evitação à angústia de castração.

Zimerman aponta como principais fatores etiológicos a existência de:

Em Inibições, Sintomas e Angústia (1925), Freud diz que no obsessivo-compulsivo, mesmo onde a repressão não usurpou o conteúdo do impulso agressivo, ela por certo se livrou de seu caráter afetivo concomitante. O ego fica cônscio de um sentimento de culpa e a arcar com uma responsabilidade pela qual não pode responder.

O obsessivo se esforça em dissipar com um sopro não meramente as consequências de um evento, mas o próprio evento. Sobre a anulação retroativa
A terceira derivação da neurose

A fobia

A fobia é a terceira derivação da neurose. Onde a histérica converte e a obsessiva ritualiza, o fóbico evita. A angústia, que na neurose obsessiva se descarrega em rituais, na fobia se ancora num objeto-fora — um objeto que deve ser evitado a todo custo.

Estrutura neurótica · derivação fóbica
A fobia
do grego phóbos · "medo, fuga, terror"

Para a leitura lacaniana, a fobia é a evitação do desejo — por conta da emergência da angústia resultante do confronto com o objeto do desejo do Outro. Em Inibições, Sintomas e Angústia (1925), Freud retoma o Homem dos Lobos (1916) e estabelece a estreita relação entre os sintomas fóbicos e obsessivos e a angústia de castração.

O mecanismo da fobia é o deslocamento da angústia: a ansiedade gerada por um conflito interno é deslocada para um objeto externo específico — uma aranha, um elevador, um espaço aberto, um cachorro. Esse objeto é então sistematicamente evitado, e a evitação produz a ilusão de controle: enquanto evito o objeto fóbico, evito a angústia.

Mas a manobra tem um custo: a vida do fóbico vai progressivamente se reduzindo. Cada nova evitação restringe um pouco mais o espaço possível de circulação. O caso clássico é o Pequeno Hans de Freud — uma criança que desenvolveu medo de cavalos, que Freud relacionou ao medo do pai e à angústia de castração edípica.

Formas comuns: agorafobia (medo de espaços abertos ou multidões), fobia social (medo de avaliação pelos outros), fobia específica (animais, alturas, sangue, voos), claustrofobia (espaços fechados), fobia escolar em crianças. O ataque de pânico é frequentemente o ponto culminante de uma estrutura fóbica que não consegue mais conter a angústia pela evitação.

O psicanalista alemão Karl Abraham e, depois, Anna Freud trabalharam a fobia como uma defesa que funciona enquanto funciona — mas que, quando o objeto evitado começa a se multiplicar (como na agorafobia que vai limitando cada vez mais a vida do sujeito), torna-se ela própria o problema. O trabalho analítico, nesses casos, busca devolver ao sintoma fóbico seu sentido — entender de que conflito interno o objeto fóbico é representante deslocado.

A segunda grande estrutura

As psicoses

Freud tentou, durante toda sua obra, dar conta da psicose — mas reconheceu não ter um modelo plenamente satisfatório. Lacan retomou o problema e propôs a forclusão do Nome-do-Pai como mecanismo específico — uma das maiores contribuições da psicanálise no século XX.

Após trilhar o caminho percorrido por Freud, é possível pensar que ele esteve, por toda a sua obra, inquieto com a questão da psicose — e que parecia não se acomodar com suas descobertas. Embora inaugure um olhar perante esses sujeitos e esses fenômenos, parece não acreditar em uma clínica possível ao sujeito psicótico. Mas afirma que há um modo peculiar de funcionamento, ao contrário do que a ciência postulava até a sua época.

A loucura, até o aparecimento de Freud, era vista como desrazão, desorganização, falta de sentido. Freud reconhece o sentido da experiência psicótica e dá voz à palavra do alienado — legitimando essa experiência. O saber psicanalítico restabelece o sujeito como portador de um saber e de uma história. Freud nos convida a escutar o delírio como ponto de partida para a compreensão.

Lacan e a forclusão

Freud tentou explicar a formação do delírio utilizando a teoria da projeção — o que não se mostrou satisfatório. Como ele mesmo afirmou, a projeção não é específica da paranoia e não tem a mesma função em todas as paranoias, podendo ainda ser observada na vida cotidiana dos neuróticos. Nessa época, Freud tentava usar mecanismos neuróticos para explicar a psicose.

Uma das maiores contribuições de Lacan à teoria das psicoses veio preencher essa lacuna: o conceito de forclusão — uma hipótese sobre o mecanismo psíquico de defesa presente na origem da psicose. Lacan afirmou que não existe recalque na psicose. A forclusão não é um fenômeno observável, mas um mecanismo específico — muito mais radical que a projeção pensada por Freud.

"Forclusão" é um termo de origem jurídica — refere-se à cessação de um direito quando não exercido no devido prazo. Na psicanálise, denota um determinado tipo de incidência da função paterna na relação mãe-bebê. Lacan acentuou assim a importância da função paterna na estruturação do aparelho psíquico.

Nas neuroses, em que o recalque opera como um dos principais mecanismos de defesa, observamos o seu contraponto, o retorno do recalcado. Nas psicoses, encontramos o retorno do forcluído: o que é forcluído do Simbólico retorna no Real — como delírios e alucinações, sintomas clássicos das psicoses.

Jacques Lacan · sobre a operação da forclusão

Com o fracasso da metáfora paterna, o acesso ao registro simbólico é comprometido — e, consequentemente, toda a relação do psicótico com a linguagem. Vai faltar a referência central, que é dada pelo Nome-do-Pai. Na psicose, o sujeito não está organizado por esse referencial.

A estrutura psicótica seria, então, um dos resultados possíveis na constituição do psiquismo — apontando para outra concepção de loucura: a psicose não é considerada um déficit, mas uma ordem diferente, uma outra organização. Isso implica que estamos tratando de um sujeito. Considerar o psicótico como sujeito de seu discurso implica, ainda, uma postura política de contraposição à sua exclusão social.

O caso Schreber · paradigma da psicose

A paranoia

Lacan utilizava a paranoia como paradigma da psicose — e pouco se referiu à esquizofrenia. O caso de Daniel Paul Schreber, magistrado alemão que escreveu suas próprias memórias delirantes, foi o material a partir do qual tanto Freud (em 1911) quanto Lacan (em 1956) construíram suas teorias.

subestrutura psicótica · com delírio circunscrito
A paranoia
do grego para-noia · "fora-da-mente, ao lado do pensamento"

Na paranoia, o sujeito consegue circunscrever o gozo do Outro. O gozo é concentrado — por exemplo, no perseguidor, como no exemplo de Schreber. A paranoia é caracterizada pelo delírio de grandeza e de perseguição e pela erotomania — ambos utilizados para tentar reinvestir os objetos e dar-lhes o contorno que o simbólico não deu.

Freud também já havia dito que o delírio é restitutivo. Lacan propõe que a criação de uma metáfora delirante poderia estabilizar um psicótico — na medida em que a construção de um delírio dê conta de circunscrever o gozo do grande Outro, promovendo uma suplência, uma espécie de remendo que tente consertar a falta produzida pela forclusão do Nome-do-Pai.

Um exemplo de metáfora delirante, no caso Schreber, apresenta-se quando ele construiu a ideia delirante de ser a mulher de Deus. Ou seja, erigiu um remendo que funcionou como referencial — que pôde barrar o gozo do Outro e permitir-lhe existir como sujeito. Schreber, o louco místico, transforma-se em mulher para se submeter ao coito com Deus.

Sintomas característicos: delírio sistematizado (organizado, com lógica interna), delírio de perseguição (alguém ou alguma força quer prejudicar o sujeito), delírio de grandeza (o sujeito tem missão excepcional), erotomania (delírio de ser amado por figura inacessível). O sujeito mantém o pensamento organizado e a personalidade relativamente preservada — o delírio circunscreve o gozo.

Em "A coisa freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psicanálise" (1955), Lacan definiu o Outro como o lugar onde se constitui o sujeito. Em maio de 1956, em seu seminário sobre as psicoses, Lacan falou do "Outro absoluto" como sendo aquele de quem "nunca podemos saber se não está nos enganando". A questão era mostrar de que forma Deus é interpelado no discurso delirante de Daniel Paul Schreber.

Através de sua história, vemos que, na loucura, a relação extasiada com o Outro só é possível, segundo Lacan, mediante um auto-aniquilamento do sujeito e um surgimento da heterogeneidade radical de um Outro absoluto — na figura de um Deus apavorante.

A psicose mais radical

A esquizofrenia

Onde na paranoia o sujeito consegue circunscrever o gozo num perseguidor, na esquizofrenia o gozo permanece sem localização. O Outro não está constituído como exterior — e o sujeito é invadido por dentro.

subestrutura psicótica · sem recurso ao delírio organizado
A esquizofrenia
do grego skhizein + phren · "fragmentar a mente"

Na esquizofrenia, seria impossível localizar o gozo — já que o grande Outro não se encontra constituído fora do sujeito. Não há, como na paranoia, o recurso do delírio organizado. Os objetos de perseguição são multifragmentados, invadindo maciçamente o indivíduo.

Na psicose, frequentemente observamos delírios e alucinações de despedaçamento corporal — que apontam para a existência de problemas no estádio do espelho, na constituição da noção de unidade corporal. Antes do estádio do espelho, a criança vive a sensação de esfacelamento corporal. Na esquizofrenia, essa sensação de esfacelamento retorna.

Freud denominou os esquizofrênicos de parafrênicos e acreditava que, na esquizofrenia, a libido afastada do mundo externo é dirigida para o ego — dando margem a uma atitude que pode ser denominada de narcisismo secundário, superposto a um narcisismo primário.

Sintomas característicos: alucinações auditivas (vozes que comentam, que dão ordens, que conversam entre si), pensamento desorganizado, neologismos, esquizofasia (fala desorganizada), retração social, embotamento afetivo, ambivalência (sentimentos opostos coexistindo sem conflito), autismo (retirada do mundo). A consciência da própria identidade pode ser afetada — o sujeito pode duvidar de ser quem é, sentir que partes do corpo não lhe pertencem.

É importante notar a perspectiva contemporânea: a maioria dos psicanalistas hoje reconhece que, embora a estrutura psicótica explique o modo de funcionamento, existem componentes neurobiológicos importantes na esquizofrenia — e o tratamento medicamentoso, junto com o trabalho de escuta, é parte essencial do manejo clínico. A psicanálise não é o único recurso, nem se opõe à medicação — ela oferece, complementarmente, uma escuta que considera o sujeito por trás do diagnóstico psiquiátrico.

A terceira via psicótica

O transtorno bipolar

A psicose maníaco-depressiva — hoje chamada Transtorno Bipolar do Humor — apresenta, na leitura lacaniana, uma confusão indissociável entre desejo e gozo. Os polos da mania e da depressão são duas faces do mesmo abismo estrutural.

O Transtorno Bipolar do Humor (TBH) — também conhecido como psicose ou doença maníaco-depressiva — é uma doença psiquiátrica caracterizada por oscilações ou mudanças de humor e comportamento que variam em intensidade. As oscilações vão desde mudanças normais, como nos estados de alegria ou tristeza, até mudanças acentuadas: mania e depressão.

Na perspectiva lacaniana, a psicose maníaco-depressiva é caracterizada pela confusão indissociável entre desejo e gozo. O sujeito não tem, como na neurose, a possibilidade de separar o que deseja do que goza — e os dois polos extremos (mania e depressão) refletem essa impossibilidade estrutural.

A fase maníaca

No primeiro contato, a aparência chama a atenção. Normalmente, o paciente apresenta-se excessivamente vestido, com roupas chamativas e coloridas, muitos acessórios, adornos, maquiagem exagerada ou vestimenta estranha. O quadro é de excitação psíquica: aumento da atividade motora, gestos exagerados, disposição e energia excessivas.

Otto Fenichel (1966) traça um paralelo entre os episódios de mania e os festivais — como o carnaval — em que as proibições do superego são suspensas e as tendências hostis às instituições vigentes represadas são extravasadas. "Na mania, uma vez abandonadas as inibições, todas as atividades são intensificadas; impulsos agressivos, sensuais ou de ternura transbordariam para a consciência, já que, desimpedidos, buscariam toda possibilidade de descarga — como se um dique houvesse sido rompido".

O modelo freudiano

O modelo é o freudiano clássico: os sintomas maníacos seriam a resultante de um jogo de forças entre ego, id e superego. O próprio Freud afirmou que, no estado maníaco, aparentemente desapareceria a diferença entre o ego e o superego — levando a um aumento da autoestima (inflação) e uma diminuição do grau de consciência (embriaguez).

Segundo essa perspectiva, na mania o ego celebra o triunfo da recuperação de sua onipotência narcísica graças ao alívio repentino da pressão exercida pelo superego — emergindo então no polo oposto de sua ambivalência: o extremado amor a si mesmo. Em seguida, advêm a culpa e a depressão, após a liberação. Sob essa óptica, o triunfo narcísico do maníaco é ilusório: a mania surge meramente como decorrência da descarga da energia que antes estava sendo empregada na luta depressiva.

Freud · 1917 · Luto e Melancolia

Luto & melancolia

Em um dos seus textos mais belos e mais influentes, Freud distingue o luto normal — trabalho de elaboração diante da perda — da melancolia, um luto que não consegue se completar porque o sujeito se identifica com o objeto perdido. Toda depressão profunda carrega algo dessa estrutura melancólica.

Em Luto e Melancolia (1917), Freud compara o melancólico ao enlutado. No luto existe um trabalho de elaboração que é normal — em oposição ao patológico da melancolia. Tanto no luto quanto na melancolia ocorre um estado de desânimo e falta de interesse pelo mundo externo. Mas é notadamente na melancolia que a diminuição da autoestima está presente.

Processo normal de elaboração
O luto

Corresponde a um período necessário para a elaboração da perda real de um objeto amado que foi introjetado no Ego — sem maiores conflitos.

O objeto perdido é conhecido. O enlutado sabe o que perdeu. Há tristeza, retirada temporária de investimento no mundo externo, lentidão. Mas o processo tem fim. Pouco a pouco, a libido se desinveste do objeto perdido e se torna disponível para novos investimentos.

O tempo cura o luto — não porque o objeto deixe de importar, mas porque o trabalho psíquico de desligamento se completa.

Processo patológico
A melancolia

Designa que a introjeção do objeto perdido (por morte, abandono, falência, etc.) processou-se de forma muito ambivalente e conflituosa.

O melancólico não sabe o que perdeu — a perda é de natureza mais ideal. Há uma perda de si, do eu; um profundo sofrimento e, como consequência, um esvaziamento do sujeito.

Há uma regressão da libido: a libido livre é deslocada do objeto perdido para o ego — de forma que parte do ego assume o lugar do objeto abandonado, identificando-se com ele e tornando-o objeto a ser criticado. Todo indivíduo, em grau maior ou menor, é portador de núcleos melancólicos da personalidade.

A sombra do objeto

Na melancolia, o ego se identifica com o objeto perdido e busca incorporá-lo dentro de seu eu. À pressão psicológica, segue-se uma clivagem e os ataques e autorreprovações de um superego sádico — como se o próprio eu fosse o objeto perdido. Como consequência desse processo, surgem as autorrecriminações: "se recrimina como recriminaria o que foi perdido".

Assim a sombra do objeto caiu sobre o ego — dessa forma, uma perda objetal se transformou numa perda do eu.

Sigmund Freud · Luto e Melancolia, 1917

Dessa forma, pode-se compreender a extrema baixa autoestima presente na melancolia, em uma situação na qual o paciente se encontra inteiramente impotente — subjugado diante do superego e massacrado com a sombra e a hostilidade do objeto perdido dirigida contra seu próprio eu.

As distinções clínicas

Na clínica contemporânea, é indispensável que se reconheça a distinção de sentimentos que há entre:

Nota: este tópico é sensível. Se você ou alguém próximo estiver enfrentando pensamentos de autoagressão ou sofrimento intenso, é fundamental buscar apoio profissional. No Brasil, o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece atendimento gratuito 24 horas pelo telefone 188.

A terceira grande estrutura

A perversão

Onde o neurótico aceita a castração e o psicótico a forclui, o perverso a desmente. Não a nega — ele sabe que ela existe — mas sustenta, ao mesmo tempo, uma fantasia que a recusa. É a posição estrutural mais difícil de pensar — e a que mais resiste à clínica analítica.

Estrutura iii · mecanismo do desmentido
A perversão
do latim per-vertere · "voltar contra, desviar"

Na frustração — modalidade de falta específica da perversão — o sujeito se sente lesado por não lhe ter sido dado, por "direito" incontestável, um objeto precioso e Real. Nesse plano, a reivindicação pelo "direito" não tem fim — e não respeita leis e interdições. O agente Simbólico fica atado, sem ação efetiva que possibilite ao sujeito suportar a falta imposta pelo Real.

Lacan refere que "no nível da fantasia perversa, todos os elementos estão lá, mas tudo o que é significação está perdido — a saber, a relação intersubjetiva, esvaziada de seu sujeito".

A ilusão, como recurso psíquico para a castração, surge igualmente na relação amorosa — seja em relação ao lugar do objeto, seja na posição ocupada pelo sujeito em questão. Segundo Quinet (2002), ao ocupar a posição daquele que tudo sabe, "o perverso se põe diante do outro respondendo à questão do desejo e colocando-se nessa posição de ser seu falo".

Nesse sentido, essa valorização do falo entra em jogo para "tapear" o outro a respeito da castração — desmentindo-a. Uma vez que o perverso faz crer que é o outro que possui a falta, e ele é quem poderá oferecer o gozo e a completude.

Formas clássicas: fetichismo (Freud, 1927 — o fetiche como objeto que vela e ao mesmo tempo revela a castração materna), sadismo, masoquismo (Freud, 1924 — "O problema econômico do masoquismo"), exibicionismo, voyeurismo. Atenção: a categoria psicanalítica de "perversão" como estrutura é distinta dos comportamentos sexuais não convencionais consensuais entre adultos — refere-se ao mecanismo psíquico de desmentido da castração, não a práticas sexuais específicas.

O fetichismo e o desmentido

Em Fetichismo (1927), Freud descreveu o mecanismo: a criança, diante da diferença anatômica entre os sexos, recusa-se a aceitar a "ausência do pênis na mãe" — e, ao mesmo tempo, sabe que ela falta. Constrói, então, um objeto que vela e revela essa falta — o fetiche. A famosa fórmula é: "eu sei muito bem, mas mesmo assim...".

Esse mecanismo é o protótipo do desmentido (em alemão, Verleugnung) — distinto do recalque neurótico (em que algo é esquecido) e da forclusão psicótica (em que algo nunca foi inscrito). No desmentido, o sujeito sabe e ao mesmo tempo não quer saber. Mantém os dois saberes simultaneamente, e essa simultaneidade é o que estrutura a perversão.

A clínica da perversão

Na clínica, a perversão implica o analista em uma escuta um tanto diversa daquela do neurótico — já que o mecanismo de recusa sustenta uma defesa intensa e enérgica do sujeito contra o horror da falta e o risco de ver ruir a onipotência.

Talvez seja por essa via que o perverso chegue à clínica. Em geral, a ameaça a essa espécie de construção ilusória — que o sustenta no lugar de sujeito — constitui o mote para buscar ajuda. Muito mais do que as práticas sexuais específicas e singulares.

O nascimento de um sujeito é algo datável — mas a constituição do sujeito se dá por um conjunto de fatores, numa dada composição, que permitem o seu surgimento. Isto é, é estrutural. Sobre o diagnóstico psicanalítico

É essa, em última instância, a aposta da psicopatologia psicanalítica: onde a psiquiatria descritiva vê três fenômenos — alucinação, compulsão, fetiche — a psicanálise vê três estruturas — forclusão, recalque, desmentido. E o diagnóstico estrutural orienta o que é possível esperar do tratamento, qual o lugar a ocupar como analista, e como se posicionar diante do sofrimento do sujeito. Não para colá-lo num rótulo — mas para escutar, em cada caso, a singularidade do modo como aquele sujeito respondeu, à sua maneira, ao impossível de viver.

O eixo do quadro obsessivo

Errado, punição e tolerância

A compulsão é o que aparece primeiro, e é por ela que se começa. Atrás dela há sempre a mesma palavra — errado — e o castigo que o sujeito espera por tê-lo cometido. O que define o quadro não é o erro. É a distância entre o erro e o castigo esperado.

A primeira explicação que o paciente recebe é a decomposição da própria palavra, e ela não se improvisa. Transtorno é um excesso de defesa dentro da personalidade, uma couraça de caráter montada contra ameaças. O tipo de defesa é o que determina o transtorno: quem foi dominado toda vez que tomou uma iniciativa se defende de um jeito; quem recebeu promessas e foi abandonado se defende de outro. Obsessivo são os pensamentos que invadem e aumentam a ansiedade. Compulsivo é a ação feita para baixar essa ansiedade.

O passo seguinte é perceber que as três coisas falam do mesmo assunto. A defesa, o pensamento que invade e a ação que alivia orbitam um único conteúdo. Achar esse conteúdo é achar contra o que aquela criança se defendeu.

Começa-se pelo fim, pelo sintoma, porque é ali que o quadro aparece. As compulsões são de limpeza, simetria, organização e verificação. Todas giram em torno de uma palavra só: errado. Quadro reto ou torto, simétrico ou assimétrico, organizado ou desorganizado, limpo ou sujo, fechei a porta ou não fechei, deixei o fogão ligado ou não. Cada par é a mesma pergunta: fiz certo ou fiz errado?

E depois do erro vem a punição. Deixei a porta aberta e entrou um ladrão: o assalto é a forma de me punir por ter feito errado. Encostei a mão no lugar sujo e a bactéria me mata: a morte é o castigo. Daí o eixo do quadro: errado e punição, contra a tolerância. Errar, todo mundo vai errar a vida inteira. A diferença entre quem tem o quadro e quem não tem está na tolerância a esse erro e na vigilância sobre ele.

A linha de comando

Duas cenas mostram como essa medida se instala. Na primeira, a criança dá um tapa na cara da avó, e o pai e a mãe apenas dizem "não faz assim com a avó". Nenhum limite foi posto. Na segunda, a família está toda sentada no sofá, a avó chega e o menino não levanta. Ninguém tinha pedido que ele levantasse. O pai o chama, pergunta por que não se levanta para os mais velhos e lhe dá uma surra de cinta de tirar sangue.

Seria bom levantar para os mais velhos. A pergunta é outra: o tamanho do erro, que foi nem ter percebido, era proporcional a uma surra de cinta? O cérebro monta ali um caminho neural com o limite do erro daquele tamanho. Não sobre o que se pode errar. Sobre o quanto se pode errar. Se não levantei e já apanhei, se cheguei dez minutos atrasado e fiquei dois meses de castigo, a conta está feita.

Junto com o limite do erro, o cérebro calcula o tamanho da vigilância que foi exercida sobre ele e passa a funcionar naquele mesmo nível. Um pai pergunta "foi tudo bem na escola?" e se satisfaz com "foi". Outro quer saber como foi a prova, quantas questões caíram, quantas o filho acha que acertou, com quem ele saiu, o que comeu na festa. Aquele cérebro entende o nível de controle que existe sobre ele e conclui que a vida é assim.

O pensamento de catástrofe

A partir daí, amígdala e hipocampo passam a fazer projeção de futuro o tempo todo: prever todo tipo de erro possível para ver se dá para evitar. É por isso que o obsessivo só pensa em catástrofe. O sapato ficou no chão, alguém pode tropeçar, bater a cabeça, rachar a cabeça, e a cena roda inteira. Uma mosca passou, eu poderia engolir a mosca, a mosca entra e me mata. A mente não para.

A distorção da realidade é de proporção, não de conteúdo. Uma louça de quinze dias numa pia traz barata e rato. Isso é real. Uma louça de duas horas numa casa impecável não traz nada. Mas as duas produzem, naquela cabeça, a mesma catástrofe e a mesma punição. Um travesseiro fora do lugar vale o nível de castigo que ele conheceu. Todo esse pensamento aumenta a ansiedade, e a compulsão entra como controle: verificar a porta, alinhar a casa, lavar a louça agora. Exercer controle sobre tudo para que nada saia errado.

Acumular, colecionar, aperfeiçoar

O acumulador olha para um objeto sem uso e pensa: isso pode servir para alguma coisa, vai que um dia eu preciso e não tenho. O colecionador pensa: se eu tiver todos da mesma coisa, estou protegido, vai que falta um. Nos dois, a pilha e a coleção são formas de proteção. Hipervigilância pura.

O perfeccionismo sai do mesmo lugar, porque é a evitação do erro: não posso errar, senão serei punido. Mas perfeccionismo sozinho não fecha o quadro. É preciso mais sintomas, excesso de controle em mais coisas, mais compulsões.

Vale a mesma régua para a hipervigilância isolada. Uma pessoa que vive achando que vai ser assaltada, que alguma coisa vai acontecer na rua, e que não leva essa vigilância a nenhum outro domínio, não fecha o quadro. Para fechar, a hipervigilância precisa estar espalhada: no trânsito e também na limpeza, na organização, na verificação. Um único domínio, por mais intenso, não basta.

Todo TOC gira em torno da palavra errado, punição, versus a tolerância. Se alterar a tolerância, acabou o TOC. Porque errado todos vamos fazer a vida toda. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 3, aula 18 · 14/04/2025
Um subtipo do mesmo quadro

O TOC inverso

Mesma estrutura, mesma origem, mesmo excesso de controle de pai e mãe, mesmo processo obsessivo. O que muda é a compulsão, que vem invertida. Onde o quadro clássico organiza, este desorganiza, e pela mesma razão.

O quadro sempre existiu, e a esses pacientes se chamava de bagunceiros. É o mesmo transtorno: a mesma defesa, o mesmo lugar de origem, a mesma cobrança de pais controladores, a mesma projeção de catástrofe. A diferença está só na compulsão, e ela é uma formação reativa.

Diante do mesmo excesso de controle, o cérebro faz um de dois cálculos. O primeiro: se eu exercer o mesmo nível de controle que exerceram sobre mim, estou protegido. Esse é o quadro clássico. O segundo: se foi esse nível de controle que produziu toda essa dor, então eu tenho que evitar o controle. Esse é o inverso. E aí a compulsão é desorganizar.

Como se reconhece

A pessoa é extremamente controladora e desorganizada ao mesmo tempo. É despudorada: escatológica, gosta de palavrão, fala de pum, não tem pudor com o próprio corpo. Inverso outra vez, porque o controlador clássico tem pudor.

Ela se irrita quando lhe propõem organizar. Fazer uma planilha de contas, marcar um horário, arrumar a casa. É sempre uma latida. E é exatamente a mesma latida que se ouve do obsessivo clássico quando se pede que ele deixe a louça suja na pia: deixa aí, eu já lavo rápido. Não é questão de trabalho. É a mesma reação.

Há um teste simples. Leve alguém assim a uma casa arrumada, simétrica, de arquitetura bonita. A resposta vem como irritação: que casa de frescura. Aquela simetria funciona como se estivessem controlando a pessoa de novo.

Uma cena de consultório fecha o desenho. Uma mãe controlava a filha ao extremo: horário para tomar banho, horário para lavar o cabelo, e passado o horário não podia mais lavar. A casa dela era um caos, com comida no banheiro e roupa na cozinha. Quando a filha tentava arrumar, a mãe brigava.

Quem desenvolve qual, dentro da mesma casa

O quadro inverso costuma ser o do rebelde, e o rebelde costuma ser o primeiro filho, do sexo que enfrenta o progenitor controlador. Se quem controla é a mãe, é comum que seja a filha mais velha. Se é o pai, o filho. A revolta se organiza pela via edípica. O segundo filho recebe o mesmo excesso e não consegue enfrentar, e é ele quem costuma desenvolver o quadro clássico.

Existe também o desenho misto: o quarto bagunçado, mas nada podia estar torto. Aqui são sintomas cada um no seu lugar. Organiza-se onde houve controle. E onde aquele pai ou aquela mãe não controlou, há permissão para descontrolar. Pode haver desafio na conta: controlo num ponto por busca de amor e descontrolo no outro por rebeldia.

O que não se via, antes de separar os dois subtipos, é que a mesma hipervigilância mora dos dois lados. Ela está na simetria e na pilha alinhada. Está também na bagunça, no desarrumado, no assimétrico.

O TOC inverso é exatamente igual ao TOC: a mesma estrutura, vem do mesmo lugar. Porém, na compulsão, é uma formação reativa. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 3, aula 18 · 14/04/2025
O tratamento

Exposição, dose e ruptura

O tratamento corre em duas frentes ao mesmo tempo. De um lado, a exposição ao erro temido, em dose calculada. Do outro, a ruptura com quem exerceu o controle. A régua de todo exercício é uma só: aumentar a tolerância ao erro.

O urso branco

Um grupo vai escalar uma montanha. Antes da subida, os guias avisam: cuidado com o urso branco, fiquem espertos com qualquer barulho, porque correr do urso polar não adianta, ele corre mais que você, te alcança e te mata. O grupo começa a subir. Um barulho numa árvore, um esquilo correndo, e todo mundo se apavora. O urso branco nunca apareceu.

Cada vez que o grupo se defendeu do barulho e correu, ninguém foi pego. Ninguém sabia se era esquilo; sabia-se que era um barulho. E o cérebro gravou: escapei do urso branco. O esquilo virou urso. O vento virou urso.

É esse o mecanismo do sintoma. Se eu não toco no copo, é porque acho que há bactéria ali. Cada vez que não toco e não fico doente, o cérebro entende que não tocar me protegeu. A ameaça, que era fantasia, ganha corpo, e só aumenta, porque ele acredita ter se defendido de algo real.

A exposição desfaz exatamente isso. Põe-se a mão na privada, põe-se a mão no lixo, e o sujeito não morre nem adoece. O cérebro recebe uma informação nova e a fantasia se quebra. A atitude a instalar cabe numa frase: pare e olhe para ver se é um esquilo.

A dose

Uma senhora ia ao cabeleireiro todos os dias. Não por vaidade: para não ter nenhum fio de cabelo no chão do banheiro. Tinha perdido a convivência inteira, não saía mais de casa porque precisava estar perfeita, e envelheceu. Na igreja, achava que todos olhavam as rugas dela porque não estava perfeita. A missa era a coisa de que mais gostava. Parou de ir, montou um altar em casa e comprou hóstia para não precisar sair.

A prescrição não foi deixar a louça toda na pia. Foi uma xícara: o café da noite, só aquela xícara, fica para o dia seguinte. O resto pode lavar à vontade. Uma semana depois ela viu que nada aconteceu com a xícara, e o cérebro ganhou uma permissão. Então vai a louça toda. Depois vai o cabelo. Na igreja, o mesmo passo curto: primeiro ir num horário em que não haja ninguém.

Ler o resultado faz parte da técnica. Quando ela diz que já está lavando o cabelo em casa e que deixou a louça de um dia para o outro, aquilo não é pouco. É uma vitória de tamanho considerável, e precisa ser lida como tal. Esticar o elástico além da conta faz o paciente desistir da sessão. Minimizar é pior ainda. Dizer "mas é só uma xícara" entrega uma única mensagem: você não me entende, você não está sentindo o que eu sinto. A língua a falar é outra: eu sei que é difícil. Para quem tem o quadro, aquilo é apavorante, pelo nível de punição que ele carrega na cabeça.

A régua e a ruptura

Todo exercício prescrito serve a uma finalidade única: aumentar a tolerância ao erro. E a direção é sempre retirar controle, nunca acrescentar. O filho chegou da escola? Pergunte apenas se está tudo bem. Não é preciso saber como foi, com quantos amigos ele saiu, o que comeu na festa, cada centímetro do que aconteceu. Cada pergunta a menos é um ponto a mais de tolerância.

O que sustenta o erro proibido não é só a punição. É também a crítica, o rebaixamento, a má avaliação, a exclusão, a perda do pertencimento. Quem não pode ser mal avaliado não pode errar de jeito nenhum.

Por isso a análise vai à infância e ao nível de controle que foi exercido, em paralelo à exposição. A linha de comando dos pais costuma ser esta: eu te dou amor desde que você faça tudo do meu jeito, pelas minhas regras. Daí o impasse que trava o tratamento. Se eu ainda preciso cobrir a falta de amor da minha mãe, e ela exerceu um controle enorme, sair desse controle significa perder o amor dela, porque o amor veio com condição. O quadro cede na medida em que essa condição é rompida.

Você não trata esse cara que tem TOC se ele não romper com o controlador. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 3, aula 18 · 14/04/2025
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