Neuroses, psicoses, perversões — as três grandes estruturas clínicas. De Charcot e Anna O. ao Homem dos Ratos, de Schreber ao luto e à melancolia. Como a psicanálise pensa o sofrimento.
A psicanálise pensa o sofrimento de modo radicalmente diferente da psiquiatria descritiva. Onde o DSM enumera sintomas e cria categorias, a psicanálise busca a estrutura subjetiva subjacente — o modo singular como cada um responde ao impossível da castração.
A psicanálise não aborda os fenômenos tal como a psiquiatria. Na psiquiatria, há psicose caso se observem delírios ou alucinações. Na psicanálise, o diagnóstico se faz na transferência — construindo o caso clínico, considerando os fenômenos de linguagem e a estrutura do discurso. Serve de exemplo a típica certeza psicótica, inabalável, indicando que o psicótico não supõe saber ao outro.
Não é louco quem quer — para ser louco é necessário ter certo tipo de estruturação psíquica, a estrutura psicótica. Dizemos a psicose, e não as psicoses — acentuando que se trata de uma estrutura.
Jacques Lacan · sobre o diagnóstico estrutural
Isso muda tudo. Significa que duas pessoas com sintomas idênticos podem pertencer a estruturas diferentes — e merecem, portanto, manejos clínicos diferentes. Significa também que a estrutura é estável: alguém com estrutura neurótica não vira psicótico sob estresse, e vice-versa. O que muda são as manifestações sintomáticas; a estrutura permanece.
Considerar a psicose como uma ordem do sujeito tem implicações clínicas: trabalhar com o sujeito e sua história singular, enfocando não a doença, mas a totalidade de sua existência. Escutar o psicótico como sujeito de seu discurso, e acolhê-lo como portador de um sentido sobre a vida do sujeito.
Lacan destacou a importância, para o psicanalista, de ocupar o lugar de "secretário do alienado" — escutar o que o psicótico fala, não passivamente, mas no sentido de testemunhar uma narrativa desde a posição de quem sabe que, talvez, se trate de um discurso que porta uma verdade que conta do sujeito, e que deve ser escutado ao pé da letra.
Real, Simbólico e Imaginário se entrelaçam para dar consistência ao psiquismo. As três formas como esses registros podem se compor diante do trauma e do gozo geram três estruturas distintas — cada uma com sua modalidade de falta e seu mecanismo de defesa específico.
Estas três subestruturas clínicas referem-se às três formas diversas de defesa contra o trauma, contra o gozo. São elas: a neurose (resultante do recalque); a psicose (resultante da forclusão); e a perversão (resultante do desmentido). Para cada uma delas, há uma modalidade distinta de falta: respectivamente, a castração, a privação e a frustração.
A castração — que é a Lei, o que interdita o incesto, ou a ilusão de completude imaginária entre mãe e bebê — fundamenta-se pela falta de um objeto Imaginário. É uma ação Simbólica que rompe com a ilusão de uma satisfação plena e de um par complementar. O agente que opera esse corte é um agente Real, encarnado pela mãe que introduz à criança outro elemento (além deles dois): o significante Nome-do-Pai.
Desse corte resultam a neurose e suas três derivações:
Para a psicose, há a privação: a ausência do objeto Simbólico, sobre a qual o Simbólico não tem efeito, deixando exposta a ferida de um furo aberto. Para a perversão, há a frustração: o sujeito sente imaginariamente que sofreu um dano, que algo lhe foi devido e não foi dado.
A palavra grega histeria significa "colo" ou "útero". Por séculos, acreditava-se que somente as mulheres mostravam sintomas histéricos. Antigamente, as histéricas eram perseguidas como bruxas. Foi pelo estudo da histeria que Freud construiu a psicanálise.
Por séculos, acreditava-se que somente as mulheres mostravam sintomas histéricos — paralisia, espasmos, sonambulismo, alucinações, perda da fala, dos sentidos, da memória. Os especialistas da época observavam a histeria sob dois pontos de vista:
Em sua primeira permanência na França (1885-1886), Freud se impressionou com as últimas investigações de Jean-Martin Charcot sobre a histeria — em particular sobre a autenticidade das manifestações histéricas; a ocorrência frequente da histeria em homens, e não somente nas mulheres como se acreditava; e a produção de contraturas e paralisias histéricas por sugestão hipnótica.
A personalidade de Charcot foi determinante para Freud. Ao escrever para Martha, sua noiva, comentou: "Minhas metas e opiniões estão sendo abaladas por Charcot, que tem um toque de gênio; estou mudando muito. Ele me transfere uma nova ideia de perfeição; meus trabalhos já não me interessam; ninguém jamais me afetou dessa forma."
O passo decisivo foi este: Freud queria demonstrar que, na histeria, as paralisias e as anestesias das várias partes do corpo se achavam demarcadas de acordo com a ideia popular dos seus limites — e não em conformidade com os anatômicos. Charcot concordou com esse ponto de vista — mas não demonstrou interesse em aprofundar a origem psíquica das neuroses.
Sobre a psicanálise, o que se pode dizer, antes de tudo, é que pôde considerar a existência de um saber no sintoma. O discurso freudiano, desde os seus primórdios, considerou o sintoma como um enigma — em que o sujeito diz alguma coisa sobre o que lhe ocorre, mas o faz de forma indireta e velada.
As histéricas sofrem, principalmente, de reminiscências. Não podendo lembrar, elas constroem um sintoma no corpo. O que está velado são representações psíquicas. O sofrimento histérico e seus sintomas associados provêm da lembrança — sobretudo da lembrança — de um acontecimento traumático associado ao afeto.
Sigmund Freud · Estudos sobre a Histeria, 1895
As lembranças subjacentes aos ataques histéricos relacionam-se com traumas psíquicos que não foram eliminados pela ab-reação ou pela atividade associativa do pensamento. Há uma representação psíquica (ou um conjunto de representações) que não tem livre acesso à consciência. Essas representações ficam dissociadas; porém, o afeto a elas associado ganha nova forma de expressão: converge para o corpo, na criação de um sintoma. É a famosa conversão histérica.
A operação do método catártico — ainda não nomeado de psicanalítico — consistia justamente em promover a recondução da excitação da esfera somática para a psíquica e, assim, a resolução da contradição por meio da atividade de pensamento e da descarga da excitação por meio da fala. É a "cura pela fala", expressão criada pela paciente Anna O.
O caso paradigmático da psicanálise. Bertha Pappenheim — codinome Anna O. — foi tratada pelo médico vienense Josef Breuer entre 1880 e 1882. As observações de Breuer foram o ponto de partida para tudo o que veio depois.
Devido à sua severa educação, a Srta. Anna reprimia diversos desejos. Durante uma discussão, reprimiu uma resposta à altura — e a raiva contida foi tão intensa que lhe provocou um espasmo de glote. Isso se repetia em todas as ocasiões semelhantes.
Perdeu a capacidade de falar — como resultado do medo — após sua primeira alucinação à noite, reprimindo uma observação. Em outra ocasião, ao se sentir culpada, voltou a ter o sintoma. Começou a tossir pela primeira vez quando, certa vez, sentada à cabeceira do pai doente, ouviu o som de uma música para dançar vinda de uma casa vizinha — sentiu um forte desejo de estar lá, foi dominada por impulsos de autorrecriminação, e a partir de então, durante toda sua doença, reagia a qualquer música acentuadamente ritmada com uma tosse nervosa.
Depois de uma série de hipnoses com o exercício da fala, a própria paciente formou o firme propósito de que todo o tratamento deveria terminar no dia em que fizesse um ano da data que foi levada para o campo. No começo de junho, ela iniciou "a cura pela fala" — expressão que ela mesma criou — com maior disposição.
No último dia em que Breuer esteve com Anna O., recorrendo a uma nova arrumação do quarto a fim de assemelhá-lo ao quarto do pai doente, por meio da hipnose, ela reproduziu as aterrorizantes alucinações que constituíam a raiz de toda a sua doença. Libertou-se de inúmeras preocupações que exibira antes. Depois disso, passou a gozar de perfeita saúde.
Mas há também o lado dramático do caso. Breuer havia criado uma forte transferência terapêutica com a paciente, e diminuiu a frequência de suas visitas para encerrar o tratamento. Foi chamado com urgência e encontrou a Srta. Anna novamente com quadro de alucinações — afirmando estar grávida, e que o filho era de Breuer. A histeria havia tomado forças, criando sintomas de gravidez: produção de leite materno, inchaço no abdômen, contrações de parto.
Breuer, não sabendo lidar com essa situação, ficou extremamente chocado e afastou-se do caso por algum tempo. Viajou com sua esposa, justificando como uma segunda lua-de-mel. Foi Freud, ouvindo o relato desse episódio anos depois, que entendeu o que ali se passara — e construiu, sobre essa experiência, a noção de transferência que se tornaria central na clínica psicanalítica.
Se a histeria converte o conflito em sintoma corporal, a neurose obsessiva o desloca para o pensamento. Onde a histérica grita pelo corpo, o obsessivo rumina em silêncio. Onde a histérica esquece, o obsessivo lembra demais — e ritualiza.
A linguagem de uma neurose obsessiva — ou seja, os meios pelos quais ela expressa seus pensamentos secretos — presume-se ser apenas um dialeto da linguagem da histeria, escreveu Freud em 1909. A terminologia "ob-stinere" já mostra a situação de ambiguidade e ambivalência no sujeito obsessivo: luta-se contra si mesmo.
O DSM-IV define obsessões como pensamentos impulsivos ou imagens recorrentes e persistentes — experimentados como intrusivos, inadequados, causando acentuado sofrimento e ansiedade. O sujeito reconhece as obsessões como produto de sua própria mente. Define compulsões como comportamentos repetitivos ou atos mentais que a pessoa se sente compelida a executar em resposta a uma obsessão — para prevenir ou reduzir sofrimento ou evitar algum evento temido.
Os sintomas se manifestam em três níveis:
— Conteúdo das ideias: hesitação, dúvida, indecisão. Severidade consigo mesmo, perfeição, escrúpulos conscientes, preocupação com detalhes, regras e formalidades.
— Pensamento: ruminação mental. Orientação para temas acerca dos quais toda a humanidade está incerta — paternidade, duração da vida, vida após a morte, memória.
— Atos: compulsão. Condutas que o sujeito é levado a realizar por imposição interna.
Em Notas sobre um Caso de Neurose Obsessiva (1909) — o famoso "Homem dos Ratos" — Freud reconhece pela primeira vez o conflito entre amor e ódio como uma possível base para a neurose. Esse estabelecimento do conceito de ambivalência psíquica foi um grande passo: reconhecer o conflito interno em sua origem, e não apenas em seu desenvolvimento.
No texto de 1913, Freud descreveu uma organização primitiva pré-genital da libido — caracterizada por uma preponderância de componentes pulsionais anais-sádicos, apreendendo que os sintomas da obsessão eram resultado da regressão da libido a esse estágio anal como forma de evitação à angústia de castração.
Zimerman aponta como principais fatores etiológicos a existência de:
Em Inibições, Sintomas e Angústia (1925), Freud diz que no obsessivo-compulsivo, mesmo onde a repressão não usurpou o conteúdo do impulso agressivo, ela por certo se livrou de seu caráter afetivo concomitante. O ego fica cônscio de um sentimento de culpa e a arcar com uma responsabilidade pela qual não pode responder.
O obsessivo se esforça em dissipar com um sopro não meramente as consequências de um evento, mas o próprio evento.Sobre a anulação retroativa
A fobia é a terceira derivação da neurose. Onde a histérica converte e a obsessiva ritualiza, o fóbico evita. A angústia, que na neurose obsessiva se descarrega em rituais, na fobia se ancora num objeto-fora — um objeto que deve ser evitado a todo custo.
Para a leitura lacaniana, a fobia é a evitação do desejo — por conta da emergência da angústia resultante do confronto com o objeto do desejo do Outro. Em Inibições, Sintomas e Angústia (1925), Freud retoma o Homem dos Lobos (1916) e estabelece a estreita relação entre os sintomas fóbicos e obsessivos e a angústia de castração.
O mecanismo da fobia é o deslocamento da angústia: a ansiedade gerada por um conflito interno é deslocada para um objeto externo específico — uma aranha, um elevador, um espaço aberto, um cachorro. Esse objeto é então sistematicamente evitado, e a evitação produz a ilusão de controle: enquanto evito o objeto fóbico, evito a angústia.
Mas a manobra tem um custo: a vida do fóbico vai progressivamente se reduzindo. Cada nova evitação restringe um pouco mais o espaço possível de circulação. O caso clássico é o Pequeno Hans de Freud — uma criança que desenvolveu medo de cavalos, que Freud relacionou ao medo do pai e à angústia de castração edípica.
O psicanalista alemão Karl Abraham e, depois, Anna Freud trabalharam a fobia como uma defesa que funciona enquanto funciona — mas que, quando o objeto evitado começa a se multiplicar (como na agorafobia que vai limitando cada vez mais a vida do sujeito), torna-se ela própria o problema. O trabalho analítico, nesses casos, busca devolver ao sintoma fóbico seu sentido — entender de que conflito interno o objeto fóbico é representante deslocado.
Freud tentou, durante toda sua obra, dar conta da psicose — mas reconheceu não ter um modelo plenamente satisfatório. Lacan retomou o problema e propôs a forclusão do Nome-do-Pai como mecanismo específico — uma das maiores contribuições da psicanálise no século XX.
Após trilhar o caminho percorrido por Freud, é possível pensar que ele esteve, por toda a sua obra, inquieto com a questão da psicose — e que parecia não se acomodar com suas descobertas. Embora inaugure um olhar perante esses sujeitos e esses fenômenos, parece não acreditar em uma clínica possível ao sujeito psicótico. Mas afirma que há um modo peculiar de funcionamento, ao contrário do que a ciência postulava até a sua época.
A loucura, até o aparecimento de Freud, era vista como desrazão, desorganização, falta de sentido. Freud reconhece o sentido da experiência psicótica e dá voz à palavra do alienado — legitimando essa experiência. O saber psicanalítico restabelece o sujeito como portador de um saber e de uma história. Freud nos convida a escutar o delírio como ponto de partida para a compreensão.
Freud tentou explicar a formação do delírio utilizando a teoria da projeção — o que não se mostrou satisfatório. Como ele mesmo afirmou, a projeção não é específica da paranoia e não tem a mesma função em todas as paranoias, podendo ainda ser observada na vida cotidiana dos neuróticos. Nessa época, Freud tentava usar mecanismos neuróticos para explicar a psicose.
Uma das maiores contribuições de Lacan à teoria das psicoses veio preencher essa lacuna: o conceito de forclusão — uma hipótese sobre o mecanismo psíquico de defesa presente na origem da psicose. Lacan afirmou que não existe recalque na psicose. A forclusão não é um fenômeno observável, mas um mecanismo específico — muito mais radical que a projeção pensada por Freud.
"Forclusão" é um termo de origem jurídica — refere-se à cessação de um direito quando não exercido no devido prazo. Na psicanálise, denota um determinado tipo de incidência da função paterna na relação mãe-bebê. Lacan acentuou assim a importância da função paterna na estruturação do aparelho psíquico.
Nas neuroses, em que o recalque opera como um dos principais mecanismos de defesa, observamos o seu contraponto, o retorno do recalcado. Nas psicoses, encontramos o retorno do forcluído: o que é forcluído do Simbólico retorna no Real — como delírios e alucinações, sintomas clássicos das psicoses.
Jacques Lacan · sobre a operação da forclusão
Com o fracasso da metáfora paterna, o acesso ao registro simbólico é comprometido — e, consequentemente, toda a relação do psicótico com a linguagem. Vai faltar a referência central, que é dada pelo Nome-do-Pai. Na psicose, o sujeito não está organizado por esse referencial.
A estrutura psicótica seria, então, um dos resultados possíveis na constituição do psiquismo — apontando para outra concepção de loucura: a psicose não é considerada um déficit, mas uma ordem diferente, uma outra organização. Isso implica que estamos tratando de um sujeito. Considerar o psicótico como sujeito de seu discurso implica, ainda, uma postura política de contraposição à sua exclusão social.
Lacan utilizava a paranoia como paradigma da psicose — e pouco se referiu à esquizofrenia. O caso de Daniel Paul Schreber, magistrado alemão que escreveu suas próprias memórias delirantes, foi o material a partir do qual tanto Freud (em 1911) quanto Lacan (em 1956) construíram suas teorias.
Na paranoia, o sujeito consegue circunscrever o gozo do Outro. O gozo é concentrado — por exemplo, no perseguidor, como no exemplo de Schreber. A paranoia é caracterizada pelo delírio de grandeza e de perseguição e pela erotomania — ambos utilizados para tentar reinvestir os objetos e dar-lhes o contorno que o simbólico não deu.
Freud também já havia dito que o delírio é restitutivo. Lacan propõe que a criação de uma metáfora delirante poderia estabilizar um psicótico — na medida em que a construção de um delírio dê conta de circunscrever o gozo do grande Outro, promovendo uma suplência, uma espécie de remendo que tente consertar a falta produzida pela forclusão do Nome-do-Pai.
Um exemplo de metáfora delirante, no caso Schreber, apresenta-se quando ele construiu a ideia delirante de ser a mulher de Deus. Ou seja, erigiu um remendo que funcionou como referencial — que pôde barrar o gozo do Outro e permitir-lhe existir como sujeito. Schreber, o louco místico, transforma-se em mulher para se submeter ao coito com Deus.
Em "A coisa freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psicanálise" (1955), Lacan definiu o Outro como o lugar onde se constitui o sujeito. Em maio de 1956, em seu seminário sobre as psicoses, Lacan falou do "Outro absoluto" como sendo aquele de quem "nunca podemos saber se não está nos enganando". A questão era mostrar de que forma Deus é interpelado no discurso delirante de Daniel Paul Schreber.
Através de sua história, vemos que, na loucura, a relação extasiada com o Outro só é possível, segundo Lacan, mediante um auto-aniquilamento do sujeito e um surgimento da heterogeneidade radical de um Outro absoluto — na figura de um Deus apavorante.
Onde na paranoia o sujeito consegue circunscrever o gozo num perseguidor, na esquizofrenia o gozo permanece sem localização. O Outro não está constituído como exterior — e o sujeito é invadido por dentro.
Na esquizofrenia, seria impossível localizar o gozo — já que o grande Outro não se encontra constituído fora do sujeito. Não há, como na paranoia, o recurso do delírio organizado. Os objetos de perseguição são multifragmentados, invadindo maciçamente o indivíduo.
Na psicose, frequentemente observamos delírios e alucinações de despedaçamento corporal — que apontam para a existência de problemas no estádio do espelho, na constituição da noção de unidade corporal. Antes do estádio do espelho, a criança vive a sensação de esfacelamento corporal. Na esquizofrenia, essa sensação de esfacelamento retorna.
Freud denominou os esquizofrênicos de parafrênicos e acreditava que, na esquizofrenia, a libido afastada do mundo externo é dirigida para o ego — dando margem a uma atitude que pode ser denominada de narcisismo secundário, superposto a um narcisismo primário.
É importante notar a perspectiva contemporânea: a maioria dos psicanalistas hoje reconhece que, embora a estrutura psicótica explique o modo de funcionamento, existem componentes neurobiológicos importantes na esquizofrenia — e o tratamento medicamentoso, junto com o trabalho de escuta, é parte essencial do manejo clínico. A psicanálise não é o único recurso, nem se opõe à medicação — ela oferece, complementarmente, uma escuta que considera o sujeito por trás do diagnóstico psiquiátrico.
A psicose maníaco-depressiva — hoje chamada Transtorno Bipolar do Humor — apresenta, na leitura lacaniana, uma confusão indissociável entre desejo e gozo. Os polos da mania e da depressão são duas faces do mesmo abismo estrutural.
O Transtorno Bipolar do Humor (TBH) — também conhecido como psicose ou doença maníaco-depressiva — é uma doença psiquiátrica caracterizada por oscilações ou mudanças de humor e comportamento que variam em intensidade. As oscilações vão desde mudanças normais, como nos estados de alegria ou tristeza, até mudanças acentuadas: mania e depressão.
Na perspectiva lacaniana, a psicose maníaco-depressiva é caracterizada pela confusão indissociável entre desejo e gozo. O sujeito não tem, como na neurose, a possibilidade de separar o que deseja do que goza — e os dois polos extremos (mania e depressão) refletem essa impossibilidade estrutural.
No primeiro contato, a aparência chama a atenção. Normalmente, o paciente apresenta-se excessivamente vestido, com roupas chamativas e coloridas, muitos acessórios, adornos, maquiagem exagerada ou vestimenta estranha. O quadro é de excitação psíquica: aumento da atividade motora, gestos exagerados, disposição e energia excessivas.
Otto Fenichel (1966) traça um paralelo entre os episódios de mania e os festivais — como o carnaval — em que as proibições do superego são suspensas e as tendências hostis às instituições vigentes represadas são extravasadas. "Na mania, uma vez abandonadas as inibições, todas as atividades são intensificadas; impulsos agressivos, sensuais ou de ternura transbordariam para a consciência, já que, desimpedidos, buscariam toda possibilidade de descarga — como se um dique houvesse sido rompido".
O modelo é o freudiano clássico: os sintomas maníacos seriam a resultante de um jogo de forças entre ego, id e superego. O próprio Freud afirmou que, no estado maníaco, aparentemente desapareceria a diferença entre o ego e o superego — levando a um aumento da autoestima (inflação) e uma diminuição do grau de consciência (embriaguez).
Segundo essa perspectiva, na mania o ego celebra o triunfo da recuperação de sua onipotência narcísica graças ao alívio repentino da pressão exercida pelo superego — emergindo então no polo oposto de sua ambivalência: o extremado amor a si mesmo. Em seguida, advêm a culpa e a depressão, após a liberação. Sob essa óptica, o triunfo narcísico do maníaco é ilusório: a mania surge meramente como decorrência da descarga da energia que antes estava sendo empregada na luta depressiva.
Em um dos seus textos mais belos e mais influentes, Freud distingue o luto normal — trabalho de elaboração diante da perda — da melancolia, um luto que não consegue se completar porque o sujeito se identifica com o objeto perdido. Toda depressão profunda carrega algo dessa estrutura melancólica.
Em Luto e Melancolia (1917), Freud compara o melancólico ao enlutado. No luto existe um trabalho de elaboração que é normal — em oposição ao patológico da melancolia. Tanto no luto quanto na melancolia ocorre um estado de desânimo e falta de interesse pelo mundo externo. Mas é notadamente na melancolia que a diminuição da autoestima está presente.
Corresponde a um período necessário para a elaboração da perda real de um objeto amado que foi introjetado no Ego — sem maiores conflitos.
O objeto perdido é conhecido. O enlutado sabe o que perdeu. Há tristeza, retirada temporária de investimento no mundo externo, lentidão. Mas o processo tem fim. Pouco a pouco, a libido se desinveste do objeto perdido e se torna disponível para novos investimentos.
O tempo cura o luto — não porque o objeto deixe de importar, mas porque o trabalho psíquico de desligamento se completa.
Designa que a introjeção do objeto perdido (por morte, abandono, falência, etc.) processou-se de forma muito ambivalente e conflituosa.
O melancólico não sabe o que perdeu — a perda é de natureza mais ideal. Há uma perda de si, do eu; um profundo sofrimento e, como consequência, um esvaziamento do sujeito.
Há uma regressão da libido: a libido livre é deslocada do objeto perdido para o ego — de forma que parte do ego assume o lugar do objeto abandonado, identificando-se com ele e tornando-o objeto a ser criticado. Todo indivíduo, em grau maior ou menor, é portador de núcleos melancólicos da personalidade.
Na melancolia, o ego se identifica com o objeto perdido e busca incorporá-lo dentro de seu eu. À pressão psicológica, segue-se uma clivagem e os ataques e autorreprovações de um superego sádico — como se o próprio eu fosse o objeto perdido. Como consequência desse processo, surgem as autorrecriminações: "se recrimina como recriminaria o que foi perdido".
Assim a sombra do objeto caiu sobre o ego — dessa forma, uma perda objetal se transformou numa perda do eu.
Sigmund Freud · Luto e Melancolia, 1917
Dessa forma, pode-se compreender a extrema baixa autoestima presente na melancolia, em uma situação na qual o paciente se encontra inteiramente impotente — subjugado diante do superego e massacrado com a sombra e a hostilidade do objeto perdido dirigida contra seu próprio eu.
Na clínica contemporânea, é indispensável que se reconheça a distinção de sentimentos que há entre:
Nota: este tópico é sensível. Se você ou alguém próximo estiver enfrentando pensamentos de autoagressão ou sofrimento intenso, é fundamental buscar apoio profissional. No Brasil, o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece atendimento gratuito 24 horas pelo telefone 188.
Onde o neurótico aceita a castração e o psicótico a forclui, o perverso a desmente. Não a nega — ele sabe que ela existe — mas sustenta, ao mesmo tempo, uma fantasia que a recusa. É a posição estrutural mais difícil de pensar — e a que mais resiste à clínica analítica.
Na frustração — modalidade de falta específica da perversão — o sujeito se sente lesado por não lhe ter sido dado, por "direito" incontestável, um objeto precioso e Real. Nesse plano, a reivindicação pelo "direito" não tem fim — e não respeita leis e interdições. O agente Simbólico fica atado, sem ação efetiva que possibilite ao sujeito suportar a falta imposta pelo Real.
Lacan refere que "no nível da fantasia perversa, todos os elementos estão lá, mas tudo o que é significação está perdido — a saber, a relação intersubjetiva, esvaziada de seu sujeito".
A ilusão, como recurso psíquico para a castração, surge igualmente na relação amorosa — seja em relação ao lugar do objeto, seja na posição ocupada pelo sujeito em questão. Segundo Quinet (2002), ao ocupar a posição daquele que tudo sabe, "o perverso se põe diante do outro respondendo à questão do desejo e colocando-se nessa posição de ser seu falo".
Nesse sentido, essa valorização do falo entra em jogo para "tapear" o outro a respeito da castração — desmentindo-a. Uma vez que o perverso faz crer que é o outro que possui a falta, e ele é quem poderá oferecer o gozo e a completude.
Em Fetichismo (1927), Freud descreveu o mecanismo: a criança, diante da diferença anatômica entre os sexos, recusa-se a aceitar a "ausência do pênis na mãe" — e, ao mesmo tempo, sabe que ela falta. Constrói, então, um objeto que vela e revela essa falta — o fetiche. A famosa fórmula é: "eu sei muito bem, mas mesmo assim...".
Esse mecanismo é o protótipo do desmentido (em alemão, Verleugnung) — distinto do recalque neurótico (em que algo é esquecido) e da forclusão psicótica (em que algo nunca foi inscrito). No desmentido, o sujeito sabe e ao mesmo tempo não quer saber. Mantém os dois saberes simultaneamente, e essa simultaneidade é o que estrutura a perversão.
Na clínica, a perversão implica o analista em uma escuta um tanto diversa daquela do neurótico — já que o mecanismo de recusa sustenta uma defesa intensa e enérgica do sujeito contra o horror da falta e o risco de ver ruir a onipotência.
Talvez seja por essa via que o perverso chegue à clínica. Em geral, a ameaça a essa espécie de construção ilusória — que o sustenta no lugar de sujeito — constitui o mote para buscar ajuda. Muito mais do que as práticas sexuais específicas e singulares.
O nascimento de um sujeito é algo datável — mas a constituição do sujeito se dá por um conjunto de fatores, numa dada composição, que permitem o seu surgimento. Isto é, é estrutural.Sobre o diagnóstico psicanalítico
É essa, em última instância, a aposta da psicopatologia psicanalítica: onde a psiquiatria descritiva vê três fenômenos — alucinação, compulsão, fetiche — a psicanálise vê três estruturas — forclusão, recalque, desmentido. E o diagnóstico estrutural orienta o que é possível esperar do tratamento, qual o lugar a ocupar como analista, e como se posicionar diante do sofrimento do sujeito. Não para colá-lo num rótulo — mas para escutar, em cada caso, a singularidade do modo como aquele sujeito respondeu, à sua maneira, ao impossível de viver.
A compulsão é o que aparece primeiro, e é por ela que se começa. Atrás dela há sempre a mesma palavra — errado — e o castigo que o sujeito espera por tê-lo cometido. O que define o quadro não é o erro. É a distância entre o erro e o castigo esperado.
A primeira explicação que o paciente recebe é a decomposição da própria palavra, e ela não se improvisa. Transtorno é um excesso de defesa dentro da personalidade, uma couraça de caráter montada contra ameaças. O tipo de defesa é o que determina o transtorno: quem foi dominado toda vez que tomou uma iniciativa se defende de um jeito; quem recebeu promessas e foi abandonado se defende de outro. Obsessivo são os pensamentos que invadem e aumentam a ansiedade. Compulsivo é a ação feita para baixar essa ansiedade.
O passo seguinte é perceber que as três coisas falam do mesmo assunto. A defesa, o pensamento que invade e a ação que alivia orbitam um único conteúdo. Achar esse conteúdo é achar contra o que aquela criança se defendeu.
Começa-se pelo fim, pelo sintoma, porque é ali que o quadro aparece. As compulsões são de limpeza, simetria, organização e verificação. Todas giram em torno de uma palavra só: errado. Quadro reto ou torto, simétrico ou assimétrico, organizado ou desorganizado, limpo ou sujo, fechei a porta ou não fechei, deixei o fogão ligado ou não. Cada par é a mesma pergunta: fiz certo ou fiz errado?
E depois do erro vem a punição. Deixei a porta aberta e entrou um ladrão: o assalto é a forma de me punir por ter feito errado. Encostei a mão no lugar sujo e a bactéria me mata: a morte é o castigo. Daí o eixo do quadro: errado e punição, contra a tolerância. Errar, todo mundo vai errar a vida inteira. A diferença entre quem tem o quadro e quem não tem está na tolerância a esse erro e na vigilância sobre ele.
Duas cenas mostram como essa medida se instala. Na primeira, a criança dá um tapa na cara da avó, e o pai e a mãe apenas dizem "não faz assim com a avó". Nenhum limite foi posto. Na segunda, a família está toda sentada no sofá, a avó chega e o menino não levanta. Ninguém tinha pedido que ele levantasse. O pai o chama, pergunta por que não se levanta para os mais velhos e lhe dá uma surra de cinta de tirar sangue.
Seria bom levantar para os mais velhos. A pergunta é outra: o tamanho do erro, que foi nem ter percebido, era proporcional a uma surra de cinta? O cérebro monta ali um caminho neural com o limite do erro daquele tamanho. Não sobre o que se pode errar. Sobre o quanto se pode errar. Se não levantei e já apanhei, se cheguei dez minutos atrasado e fiquei dois meses de castigo, a conta está feita.
Junto com o limite do erro, o cérebro calcula o tamanho da vigilância que foi exercida sobre ele e passa a funcionar naquele mesmo nível. Um pai pergunta "foi tudo bem na escola?" e se satisfaz com "foi". Outro quer saber como foi a prova, quantas questões caíram, quantas o filho acha que acertou, com quem ele saiu, o que comeu na festa. Aquele cérebro entende o nível de controle que existe sobre ele e conclui que a vida é assim.
A partir daí, amígdala e hipocampo passam a fazer projeção de futuro o tempo todo: prever todo tipo de erro possível para ver se dá para evitar. É por isso que o obsessivo só pensa em catástrofe. O sapato ficou no chão, alguém pode tropeçar, bater a cabeça, rachar a cabeça, e a cena roda inteira. Uma mosca passou, eu poderia engolir a mosca, a mosca entra e me mata. A mente não para.
A distorção da realidade é de proporção, não de conteúdo. Uma louça de quinze dias numa pia traz barata e rato. Isso é real. Uma louça de duas horas numa casa impecável não traz nada. Mas as duas produzem, naquela cabeça, a mesma catástrofe e a mesma punição. Um travesseiro fora do lugar vale o nível de castigo que ele conheceu. Todo esse pensamento aumenta a ansiedade, e a compulsão entra como controle: verificar a porta, alinhar a casa, lavar a louça agora. Exercer controle sobre tudo para que nada saia errado.
O acumulador olha para um objeto sem uso e pensa: isso pode servir para alguma coisa, vai que um dia eu preciso e não tenho. O colecionador pensa: se eu tiver todos da mesma coisa, estou protegido, vai que falta um. Nos dois, a pilha e a coleção são formas de proteção. Hipervigilância pura.
O perfeccionismo sai do mesmo lugar, porque é a evitação do erro: não posso errar, senão serei punido. Mas perfeccionismo sozinho não fecha o quadro. É preciso mais sintomas, excesso de controle em mais coisas, mais compulsões.
Vale a mesma régua para a hipervigilância isolada. Uma pessoa que vive achando que vai ser assaltada, que alguma coisa vai acontecer na rua, e que não leva essa vigilância a nenhum outro domínio, não fecha o quadro. Para fechar, a hipervigilância precisa estar espalhada: no trânsito e também na limpeza, na organização, na verificação. Um único domínio, por mais intenso, não basta.
Todo TOC gira em torno da palavra errado, punição, versus a tolerância. Se alterar a tolerância, acabou o TOC. Porque errado todos vamos fazer a vida toda.Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 3, aula 18 · 14/04/2025
Mesma estrutura, mesma origem, mesmo excesso de controle de pai e mãe, mesmo processo obsessivo. O que muda é a compulsão, que vem invertida. Onde o quadro clássico organiza, este desorganiza, e pela mesma razão.
O quadro sempre existiu, e a esses pacientes se chamava de bagunceiros. É o mesmo transtorno: a mesma defesa, o mesmo lugar de origem, a mesma cobrança de pais controladores, a mesma projeção de catástrofe. A diferença está só na compulsão, e ela é uma formação reativa.
Diante do mesmo excesso de controle, o cérebro faz um de dois cálculos. O primeiro: se eu exercer o mesmo nível de controle que exerceram sobre mim, estou protegido. Esse é o quadro clássico. O segundo: se foi esse nível de controle que produziu toda essa dor, então eu tenho que evitar o controle. Esse é o inverso. E aí a compulsão é desorganizar.
A pessoa é extremamente controladora e desorganizada ao mesmo tempo. É despudorada: escatológica, gosta de palavrão, fala de pum, não tem pudor com o próprio corpo. Inverso outra vez, porque o controlador clássico tem pudor.
Ela se irrita quando lhe propõem organizar. Fazer uma planilha de contas, marcar um horário, arrumar a casa. É sempre uma latida. E é exatamente a mesma latida que se ouve do obsessivo clássico quando se pede que ele deixe a louça suja na pia: deixa aí, eu já lavo rápido. Não é questão de trabalho. É a mesma reação.
Há um teste simples. Leve alguém assim a uma casa arrumada, simétrica, de arquitetura bonita. A resposta vem como irritação: que casa de frescura. Aquela simetria funciona como se estivessem controlando a pessoa de novo.
Uma cena de consultório fecha o desenho. Uma mãe controlava a filha ao extremo: horário para tomar banho, horário para lavar o cabelo, e passado o horário não podia mais lavar. A casa dela era um caos, com comida no banheiro e roupa na cozinha. Quando a filha tentava arrumar, a mãe brigava.
O quadro inverso costuma ser o do rebelde, e o rebelde costuma ser o primeiro filho, do sexo que enfrenta o progenitor controlador. Se quem controla é a mãe, é comum que seja a filha mais velha. Se é o pai, o filho. A revolta se organiza pela via edípica. O segundo filho recebe o mesmo excesso e não consegue enfrentar, e é ele quem costuma desenvolver o quadro clássico.
Existe também o desenho misto: o quarto bagunçado, mas nada podia estar torto. Aqui são sintomas cada um no seu lugar. Organiza-se onde houve controle. E onde aquele pai ou aquela mãe não controlou, há permissão para descontrolar. Pode haver desafio na conta: controlo num ponto por busca de amor e descontrolo no outro por rebeldia.
O que não se via, antes de separar os dois subtipos, é que a mesma hipervigilância mora dos dois lados. Ela está na simetria e na pilha alinhada. Está também na bagunça, no desarrumado, no assimétrico.
O TOC inverso é exatamente igual ao TOC: a mesma estrutura, vem do mesmo lugar. Porém, na compulsão, é uma formação reativa.Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 3, aula 18 · 14/04/2025
O tratamento corre em duas frentes ao mesmo tempo. De um lado, a exposição ao erro temido, em dose calculada. Do outro, a ruptura com quem exerceu o controle. A régua de todo exercício é uma só: aumentar a tolerância ao erro.
Um grupo vai escalar uma montanha. Antes da subida, os guias avisam: cuidado com o urso branco, fiquem espertos com qualquer barulho, porque correr do urso polar não adianta, ele corre mais que você, te alcança e te mata. O grupo começa a subir. Um barulho numa árvore, um esquilo correndo, e todo mundo se apavora. O urso branco nunca apareceu.
Cada vez que o grupo se defendeu do barulho e correu, ninguém foi pego. Ninguém sabia se era esquilo; sabia-se que era um barulho. E o cérebro gravou: escapei do urso branco. O esquilo virou urso. O vento virou urso.
É esse o mecanismo do sintoma. Se eu não toco no copo, é porque acho que há bactéria ali. Cada vez que não toco e não fico doente, o cérebro entende que não tocar me protegeu. A ameaça, que era fantasia, ganha corpo, e só aumenta, porque ele acredita ter se defendido de algo real.
A exposição desfaz exatamente isso. Põe-se a mão na privada, põe-se a mão no lixo, e o sujeito não morre nem adoece. O cérebro recebe uma informação nova e a fantasia se quebra. A atitude a instalar cabe numa frase: pare e olhe para ver se é um esquilo.
Uma senhora ia ao cabeleireiro todos os dias. Não por vaidade: para não ter nenhum fio de cabelo no chão do banheiro. Tinha perdido a convivência inteira, não saía mais de casa porque precisava estar perfeita, e envelheceu. Na igreja, achava que todos olhavam as rugas dela porque não estava perfeita. A missa era a coisa de que mais gostava. Parou de ir, montou um altar em casa e comprou hóstia para não precisar sair.
A prescrição não foi deixar a louça toda na pia. Foi uma xícara: o café da noite, só aquela xícara, fica para o dia seguinte. O resto pode lavar à vontade. Uma semana depois ela viu que nada aconteceu com a xícara, e o cérebro ganhou uma permissão. Então vai a louça toda. Depois vai o cabelo. Na igreja, o mesmo passo curto: primeiro ir num horário em que não haja ninguém.
Ler o resultado faz parte da técnica. Quando ela diz que já está lavando o cabelo em casa e que deixou a louça de um dia para o outro, aquilo não é pouco. É uma vitória de tamanho considerável, e precisa ser lida como tal. Esticar o elástico além da conta faz o paciente desistir da sessão. Minimizar é pior ainda. Dizer "mas é só uma xícara" entrega uma única mensagem: você não me entende, você não está sentindo o que eu sinto. A língua a falar é outra: eu sei que é difícil. Para quem tem o quadro, aquilo é apavorante, pelo nível de punição que ele carrega na cabeça.
Todo exercício prescrito serve a uma finalidade única: aumentar a tolerância ao erro. E a direção é sempre retirar controle, nunca acrescentar. O filho chegou da escola? Pergunte apenas se está tudo bem. Não é preciso saber como foi, com quantos amigos ele saiu, o que comeu na festa, cada centímetro do que aconteceu. Cada pergunta a menos é um ponto a mais de tolerância.
O que sustenta o erro proibido não é só a punição. É também a crítica, o rebaixamento, a má avaliação, a exclusão, a perda do pertencimento. Quem não pode ser mal avaliado não pode errar de jeito nenhum.
Por isso a análise vai à infância e ao nível de controle que foi exercido, em paralelo à exposição. A linha de comando dos pais costuma ser esta: eu te dou amor desde que você faça tudo do meu jeito, pelas minhas regras. Daí o impasse que trava o tratamento. Se eu ainda preciso cobrir a falta de amor da minha mãe, e ela exerceu um controle enorme, sair desse controle significa perder o amor dela, porque o amor veio com condição. O quadro cede na medida em que essa condição é rompida.
Você não trata esse cara que tem TOC se ele não romper com o controlador.Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 3, aula 18 · 14/04/2025