Por que o homem troca prazer por segurança — a tese radical de Freud em Totem e Tabu e O Mal-Estar na Civilização, e o que sobra dela no nosso tempo.
A psicanálise não é apenas uma teoria do indivíduo. Desde Freud, ela é, ao mesmo tempo, uma teoria da civilização — uma das poucas que ousou perguntar: a que preço o homem se tornou um animal social?
Quando Freud, em 1912, escreve Totem e Tabu, e em 1930 publica O Mal-Estar na Civilização, ele já não está mais falando apenas de seus pacientes. Está fazendo algo muito mais ousado: está aplicando as descobertas da clínica ao corpo da humanidade. E o que descobre é incômodo: a civilização não é apenas o progresso da espécie. É também uma operação de repressão — sem a qual a vida coletiva seria impossível, mas que cobra, do sujeito, um preço que ele paga em sintomas, em culpa, em mal-estar.
Esta aula percorre essa dimensão sociocultural da psicanálise. Vamos ver como Freud pensa a relação entre indivíduo e sociedade, como ele constrói uma teoria das origens da cultura através do mito da horda primitiva, e como, depois dele, autores como Marcuse e Norbert Elias estenderam a crítica para entender a sociedade contemporânea. É uma aula menos técnica — mas talvez a mais filosófica de todas — porque coloca em jogo o que a psicanálise tem a dizer sobre como nós vivemos juntos.
Inclinamo-nos a considerar como algo que acontece por acaso aquilo que acrescenta, como uma sobrecarga, às dificuldades que o ser humano tem pela sua natureza para substituir.
Sigmund Freud · sobre o mal-estar
Freud usa as duas palavras quase como sinônimos — mas há uma distinção sutil que vale a pena marcar. A cultura é o sistema interno de crenças e regras. A civilização é o conjunto de meios materiais e técnicos que permitem dominar a natureza.
Para Freud, "a organização do aparelho anímico (psíquico-espiritual) do indivíduo desenvolve-se através do esforço por descobrir o mundo exterior". Na cultura entendem-se os elementos essenciais da relação indivíduo-sociedade. A civilização compreende o saber e o poder conquistados pelo indivíduo para dominar as forças da natureza — e para extrair os bens materiais que satisfazem as necessidades instintivas.
O saber e o poder conquistados pelo indivíduo para dominar as forças da Natureza e para extrair os bens materiais necessários à satisfação das necessidades instintivas.
É a face externa: ferramentas, máquinas, ciência, tecnologia. É o que permite à espécie sobreviver sem ser apenas mais um animal da natureza.
Toda uma organização necessária para regular as relações dos indivíduos entre si — formando um conjunto de crenças, valores e princípios.
É a face interna: leis, religião, arte, costumes, tabus. É o que permite aos indivíduos viverem juntos sem se destruírem mutuamente. É o tecido invisível que torna possível a vida em sociedade.
No desenvolvimento das civilizações, a relação indivíduo-sociedade está enraizada em crenças, valores e princípios. O conhecimento (criação) requer a perda (destruição) de antigos valores dessa mesma sociedade — e essa ocorrência está diretamente ligada à coragem de crescimento individual de cada um.
Para o sociólogo Norbert Elias, toda sociedade grande e complexa tem suas qualidades, é "muito firme e muito elástica" — pois em seu interior se abre um espaço para as decisões individuais, mas as oportunidades, entre as quais a pessoa se vê forçada a optar ou não, são prescritas e limitadas pela estrutura específica de sua sociedade e pela natureza das funções que as pessoas exercem dentro dela.
A psicanálise se formula em quatro vértices quando se trata da relação entre o indivíduo e a sociedade. Os três primeiros são frentes de combate — o quarto é, talvez, a única saída possível.
As descobertas essenciais da psicanálise — a importância da afetividade, sexualidade e do inconsciente — constituem a plataforma para a análise da cultura. Essa análise se formula em quatro vértices:
Esses aspectos oferecem duas críticas — uma da cultura, outra do indivíduo:
É essa ambivalência — a civilização nos protege e nos mutila ao mesmo tempo — que está no centro do projeto freudiano de pensar a cultura. Não há saída fácil para esse conflito. Mas há, segundo a psicanálise, um caminho: o autoconhecimento. É essa, em última instância, a aposta política da psicanálise.
Em Totem e Tabu, Freud realizou estudos a partir da análise da vida dos povos primitivos — principalmente os aborígines da Austrália. O que ele encontrou ali, para sua surpresa, foi a estrutura mesma da neurose obsessiva ocidental.
Em 1912, Freud mostrou-se interessado pela Psicologia das Religiões. Partiu das experiências analíticas nos tratamentos das neuroses para procurar desvendar os problemas das origens da cultura e da religião — em especial, a relação entre os rituais religiosos e o ritual que o indivíduo neurótico se vê motivado a cumprir.
O totemismo representa um conjunto de crenças, valores e princípios que representam costumes, práticas e comportamentos comuns. Formam vínculos simbólicos na base da organização de determinado povo ou sociedade primitiva. Entre certos povos da América, Austrália e África, o totemismo ocupava o lugar da religião.
O Totem, na maioria das vezes, representava o espírito guardião e auxiliar que reconhecia, protegia e poupava os próprios filhos vinculados ao clã — embora perigoso para indivíduos de outro clã. Em compensação, os integrantes do clã tinham obrigações "sagradas" para com o Totem. O exemplo mais comum é o Totem Animal — cuja crença é a de ser um ancestral comum do indivíduo ou do clã.
A principal obrigação do povo totêmico incluía:
Do termo polinésio, "tabu" significa sagrado, intocável, misterioso, perigoso, impuro. Em certos povos e sociedades, significa proibição ou restrição de natureza ritual, que determina que certos objetos, indivíduos, lugares ou atos — por serem considerados sagrados, espirituais, impuros ou perigosos — devem ser evitados.
Wilhelm Wundt descreveu o tabu como "o código de leis não escrito mais antigo do homem. Remonta a um período anterior à existência de qualquer religião". Originalmente, o tabu nada mais era do que a crença dos povos primitivos no temor do "demoníaco" que se acreditava estar oculto em um objeto. Posteriormente libertou-se dessa raiz e continuou sendo um poder — simplesmente porque era um poder, seja para a destruição ou para a proteção.
O paralelo com a neurose obsessiva. Analisando a prática do tabu e o comportamento do neurótico obsessivo (pudor e evitações) pelo ângulo da psicanálise, é fácil reconhecer que estes fenômenos estão longe de serem estranhos no cotidiano analítico: o pudor é igualmente destituído de qualquer motivo consciente atribuível; o desejo é mantido por uma necessidade interna instintiva em conflito com a proibição; pode ser deslocado para pessoas, objetos, locais ou outro item simbólico; há o risco de que a violação cause um medo irresistível. Em outras palavras: o tabu primitivo e o sintoma obsessivo são duas formas da mesma operação psíquica.
Uma forma sintética de entender Totem e Tabu — a cadeia que vai do caos primitivo até o pudor neurótico contemporâneo. Sete elos sucessivos que descrevem, em miniatura, toda a saída do homem do estado natural.
Essa sequência tem uma consequência clínica e ética importante. Se curarmos apenas as patologias relacionadas às castrações primitivas, voltaremos à libertinagem destrutiva. O pudor não é apenas repressão a ser desfeita — ele é também o que evita o retorno ao caos. Mas o pudor excessivo, rígido, neurótico, também adoece o sujeito. A psicanálise não está nem do lado da total liberação dos instintos, nem do lado da repressão moralista. Está num terceiro lugar — o da elaboração simbólica, que permite ao sujeito escolher conscientemente quais castrações aceitar e quais recusar.
A família é a maior e mais bem-sucedida instituição da terra sobre a escolha consciente de castrações.Sobre a renúncia voluntária
A teoria mais ousada — e mais controversa — de Freud sobre a origem da civilização. Um crime fundador, do qual toda a cultura humana seria, até hoje, a tentativa de expiação.
As crenças, valores e princípios dos povos primitivos — aliados às teorias de Darwin sobre os gorilas e as hordas primitivas — forneceram a Freud os elementos para formular a teoria sobre as origens da civilização.
A teoria darwiniana, em relação ao próprio ancestral primitivo do homem, afirma:
— A existência de um pai violento e ciumento que reserva para si todas as fêmeas e expulsa os filhos conforme vão crescendo.
— Os filhos expulsos reuniram-se um dia, mataram o pai e o devoraram, o cadáver pondo fim à existência da horda paterna.
— O violento e tirânico pai constituía seguramente o modelo temido da sociedade. Ao devorá-lo, os filhos identificavam-se com ele, apropriando-se de uma parte de sua força.
— Tratando-se de selvagens canibais, era natural que devorassem o cadáver. A refeição totêmica, talvez a primeira festa da humanidade, seria a reprodução comemorativa daquele ato criminoso e memorável — que constituiu o ponto de partida das organizações sociais, das restrições morais e das concepções religiosas.
— Essa nova ordem das coisas inspirou um sentimento de superioridade, levando ao progresso da civilização — ao se dispor de novas armas: a morte e a culpabilidade.
Para Freud, não só a morte real do pai, como também a morte desejada desse mesmo pai, produziu no inconsciente do indivíduo um sentimento de culpa — que o levaria a temer inconscientemente. Por causa disso, expusera-se a si próprio a uma vida de expiação e penitência.
O pai morto assume importância ainda maior do que a que tinha em vida: os filhos impõem-se uma obediência retrospectiva às leis, e um respeito ao objeto totêmico — símbolo do pai morto — que se transforma em pudor.
A religião totêmica surgiu da consciência de culpa dos filhos — como uma tentativa de apaziguar o sentimento de culpa e se reconciliar por meio da ambivalência retrospectiva. A sociedade repousa na responsabilidade comum do crime coletivo; a religião, na consciência da culpa e arrependimento; a moral, nas necessidades de nova sociedade de expiação e penitência exigidas pela consciência de culpa.
Sigmund Freud · Totem e Tabu, 1913
Esses são, portanto, os elementos necessários para a interpretação da cultura:
Para Freud, a evolução da civilização tem uma marca essencial: a transformação paulatina da repressão externa em repressão interna — através do Superego, que incorpora as leis sociais como se fossem leis próprias.
Freud observou os mecanismos de defesa na relação existente entre o psiquismo do indivíduo, o mundo exterior, a cultura e a sociedade. Considerou que uma das características da evolução é a transformação paulatina da repressão externa em repressão interna — através da instância psíquica do Superego, que incorpora a repressão externa às suas "leis": crenças, valores e princípios.
A Psicanálise formulou o conceito de resistência (mecanismo de defesa) como a estrutura-força que mantém a repressão no indivíduo. A Sociologia aproveitou o conceito de preconceito e o adotou como termo técnico — usando-o extensamente na interpretação dos fatos sociais. E o senso comum chamou de pudor. Os três marcam, do ponto de vista psicanalítico, os limites de ação tanto social como individual:
Sob esse vértice, ambos impedem a experiência — e assim têm a capacidade de eternizar as meias-funções que desempenham, enraizando inúmeros tabus e críticas.
O que é a resistência, o preconceito e o pudor:
— Tudo aquilo que o indivíduo, na primeira infância, apreendeu do que lhe foi imposto no convívio com instâncias modeladoras do comportamento: os pais, educadores, amigos, parentes, vizinhos, e os outros — como também os criados pelo próprio indivíduo.
— Tudo o que é "normal" para um dado mundo: isto é, todas as crenças, valores e princípios a respeito de como o indivíduo deve ou não deve ser, deve ou não se relacionar — e como fazê-lo.
Com este mecanismo, o indivíduo toma como suas próprias as restrições que lhe impõe a sociedade em que vive — impondo-as a si mesmo e aos outros. O que o torna incapaz de criticar a mesma sociedade — tornando-o passivo às normas que lhe foram impostas.
No entanto, a análise de Freud evidencia que a repressão que a sociedade exerce sobre os indivíduos deixa neles a marca do medo de ser feliz. Isto origina, por seu turno, desejos de agressão que a sociedade tem de conter — através das leis, do policiamento e das críticas.
Perante a sociedade, o indivíduo reprime, em grande parte, a satisfação dos desejos. Mas isto resulta na difícil tarefa de dominar a existência destes mesmos desejos no inconsciente — o simples desejo de amar. Este seria o ponto fraco da sociedade, acima de tudo, se este defeito se manifestar na injustiça social.
A psicanálise demonstra que são inúmeros os mecanismos de defesa que, na relação indivíduo-sociedade, servem para reprimir a força agressiva do oprimido — quer se trate de um indivíduo, quer de uma determinada classe social.Sobre a dimensão política da repressão
A evolução da cultura é um processo conflituoso entre o desejo de satisfação individual e as imposições do grupo social. É também a luta entre os dois instintos — Eros, com ânsia de unidade e coerência; Tanatos, com um desejo de destruição. Onde está o equilíbrio?
Há possibilidade de encontrar o equilíbrio às custas do esforço individual contínuo. Mas e o equilíbrio social? Está na medida da repressão necessária para manutenção de uma cultura. Freud analisou as possibilidades de achar o equilíbrio individual — avaliando várias saídas humanas para o conflito entre indivíduo e cultura. Nenhuma delas é perfeita; cada uma tem um custo.
Freud fez uma avaliação do ser humano sem a concepção romântica da bondade natural — tentando esclarecer a dualidade do "amor e da hostilidade". O homem inclui em seus instintos o "instinto de agressão": o "próximo" não é somente um objeto de amor, mas também um motivo para satisfazer a agressividade. Daí o pessimismo essencial freudiano sobre a possibilidade de uma sociedade plenamente harmoniosa.
Entretanto, os mecanismos de defesa podem ser utilizados pelo Ego para atingir o próprio equilíbrio pessoal. Em tal sentido, num trabalho sobre Leonardo da Vinci, Freud apresentou uma profunda análise dos instintos afetivos reprimidos: aparentemente anulados, podem chegar — pelo mecanismo de sublimação — a manifestarem-se através de grandes criações científicas e artísticas. É a saída por excelência, a única que produz algo positivamente útil para a civilização.
Religião deriva do termo latino re-ligare — que significa "religação" com o divino. Para Freud, ela é uma das grandes instituições de manejo coletivo do mal-estar — e, ao mesmo tempo, uma das suas mais eficazes formas de produção.
Religião — definição etimológica. Deriva do termo latino re-ligare, que significa "religação" com o divino. Essa definição engloba necessariamente qualquer forma de aspecto místico e religioso, abrangendo seitas, mitologias e quaisquer outras doutrinas ou formas de pensamento que tenham como característica fundamental um conteúdo metafísico — ou seja, de além do mundo físico.
Não há registro em qualquer estudo — por parte da História, Antropologia, Sociologia ou qualquer outra ciência social — de um grupamento humano em qualquer época que não tenha professado algum tipo de crença religiosa. As religiões são, então, um fenômeno inerente à cultura humana — assim como as artes e técnicas.
Grande parte de todos os movimentos humanos significativos teve a religião como impulsor. Diversas guerras, geralmente as mais terríveis, tiveram legitimação religiosa; estruturas sociais foram definidas com base em religiões; e grande parte do conhecimento científico, filosófico e artístico teve como vetores os grupos religiosos — que durante a maior parte da história da humanidade estiveram vinculados ao poder político e social.
Hoje em dia, apesar de todo o avanço científico, o fenômeno religioso sobrevive e cresce — desafiando previsões que anteviram seu fim. A grande maioria da humanidade professa alguma crença religiosa, direta ou indiretamente — e a religião continua a promover diversos movimentos humanos e a manter estatutos políticos e sociais. Tal como a ciência, a arte e a filosofia, a religião é parte integrante e inseparável da cultura humana — e muito provavelmente sempre continuará sendo.
Para Freud, a religião desempenha papel funcional análogo ao da neurose obsessiva. Os rituais religiosos têm estrutura análoga aos rituais que o neurótico obsessivo se vê motivado a cumprir. Em O Futuro de uma Ilusão (1927) e O Mal-Estar na Civilização (1930), Freud chega a declarar que a religião é uma neurose obsessiva universal — e a neurose obsessiva, uma religião em particular.
Mas vale lembrar a ressalva: tratar a religião como neurose universal é uma leitura, não um julgamento de valor. Freud nunca defendeu que a religião deveria ser abolida. Pelo contrário, reconhecia sua função civilizatória — a religião contém a agressividade, organiza a culpa, oferece um sentido para o sofrimento, dá forma simbólica à perda. Para a maior parte dos humanos, ao longo da história, ela tem sido a forma mais eficaz de lidar com o mal-estar inerente à civilização.
Décadas depois de Freud, Herbert Marcuse pegou a teoria do mal-estar e a aplicou ao capitalismo do século XX. Sua conclusão: além da repressão necessária para a civilização, há uma "mais repressão" — uma repressão excedente, ditada não pela natureza humana, mas pelos interesses econômicos.
Para Freud, "o homem, em determinado momento da sua história enquanto espécie, trocou o prazer pela segurança". A energia sexual — para a psicanálise, a energia que utilizamos para tudo (para trabalhar, ligar-nos às outras pessoas, divertir-nos, produzir conhecimentos, enfim, a energia responsável pela criação do que conhecemos como a civilização humana) — precisa ser parcialmente desviada de seus fins diretamente sexuais para ser empregada na produção da cultura. A civilização, criada pelo homem para garantir sua sobrevivência, impõe a ele restrições na utilização de sua energia sexual.
A civilização consegue essa façanha impondo normas e proibições. O casamento monogâmico, a restrição na escolha dos parceiros, as restrições sexuais impostas às crianças são exemplos dos mecanismos que a civilização criou para obter energia para se manter enquanto civilização. A esse mecanismo de desvio da energia sexual para fins não sexuais, mas importantes do ponto de vista social, chamamos de sublimação.
Herbert Marcuse, teórico alemão da Escola de Frankfurt, considera que em nossa sociedade capitalista — baseada na exploração do trabalho humano — há uma repressão da energia sexual que vai além do necessário para nossa sobrevivência. Para que o capital pudesse desenvolver-se, foi necessário desviar um quantum (quantidade) de energia sexual muito grande. A sociedade capitalista "dessexualizou" o homem — reprimiu sua libido e a utilizou para a produção de riquezas, de acordo com o interesse de um grupo dominante na sociedade: os capitalistas.
A tese da "mais repressão". Para manter a civilização com todas as garantias de sobrevivência para os seres humanos, é preciso reprimir energia sexual. A dominação social e a exploração levaram essa repressão a um nível mais elevado do que o necessário — a esse fenômeno Marcuse dá o nome de mais repressão. Assim, nossa sociedade tem uma moral sexual repressiva — não pela necessidade civilizatória em si, mas pelos interesses específicos do modo de produção capitalista.
Quando, no decorrer de nossa socialização, internalizamos as normas e regras sociais, estamos tornando nossa essa moral sexual — com todos os seus tabus, necessários à manutenção da sociedade capitalista de exploração da força de trabalho humana, ou seja, à exploração da sexualidade. Internalizados os valores: o jovem rapaz será pressionado a ser forte, sensual, potente e experimentado; a garota viverá o drama da virgindade, o medo da gravidez, as consequências da inexperiência sexual. Infelizes sexualmente, nossos cidadãos poderão dedicar-se, com todo vigor, ao trabalho.
Mas não é verdade que sejamos tão reprimidos. O que ocorre em nossa era é uma programação da utilização da libido: as casas de massagem, as ginásticas, a "curtição do corpo", a possibilidade de mantermos relações sexuais antes ou fora do casamento — não significam liberdade sexual, e sim que estamos nos comportando sexualmente exatamente da forma como a sociedade permite.
A sociedade capitalista foi capaz de ajustar também o nosso prazer. E esta é uma das armas mais poderosas para se exercer o poder. Temos, assim, uma consciência feliz — o que não significa liberdade. Como diz Michel Foucault, filósofo francês, o domínio do discurso é também uma forma de poder: domina-se a fala da sexualidade hoje em dia, mas, quanto à prática da sexualidade, esta é tão reprimida (ou tão "liberada") quanto no século passado.
A possibilidade de uma sexualidade que corresponda aos nossos desejos — mesmo considerando que, para haver civilização, deva haver um nível de controle e repressão — dependerá de uma luta que o jovem deve travar.Sobre a liberdade sexual real
Há várias décadas, os psicanalistas estão voltados para entender os novos modos de subjetivação e existir — as novas expressões que o sofrimento psíquico assume na civilização contemporânea. Esta é, talvez, a herança mais viva do projeto freudiano de pensar a cultura.
Em várias de suas obras — O Mal-Estar na Civilização, Reflexões para o Tempo de Guerra e Morte — o próprio Freud coloca questões sociais ainda atuais como objeto de reflexão. Ou seja, nos faz pensar e ver o que mais nos incomoda: a possibilidade constante de dissociação dos vínculos sociais.
Os psicanalistas contemporâneos procuram compreender os novos modos de subjetivação — as novas expressões que o sofrimento psíquico assume. A partir dessa compreensão e de suas observações, tentam criar modalidades de intervenção no social que visam superar o mal-estar na civilização. Entre os fenômenos que mais ocupam a clínica atual:
Atualmente — e inclusive no Brasil — os psicanalistas estão debatendo o alcance social da prática clínica, visando torná-la acessível a amplos setores da sociedade. Eles também estão voltados para a pesquisa e produção de conhecimentos que possam ser úteis na compreensão de fenômenos sociais graves.
Não é por acaso que essa preocupação social existe desde sempre na psicanálise. Historicamente, é importante lembrar a contribuição de D. W. Winnicott — cujos programas radiofônicos transmitidos na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial, orientavam os pais na criação dos filhos. Ou a contribuição de Anna Freud para a Educação. Ou, mais recentemente, as contribuições de Françoise Dolto e Maud Mannoni para o trabalho com crianças e adolescentes em instituições — hospitais, creches, abrigos.
A psicanálise não é apenas uma terapia. É também uma teoria da civilização e do mal-estar — uma ferramenta para entender por que vivemos como vivemos, e para imaginar como poderíamos viver de outro modo.
Sobre a vocação política da psicanálise
A grande aposta final da psicanálise sobre a cultura é, ao mesmo tempo, modesta e ambiciosa: não há saída coletiva sem trabalho individual de autoconhecimento. Mas o trabalho individual de autoconhecimento, quando levado a sério, tem consequências coletivas. Cada sujeito que consegue, em análise, deslocar suas culpas inúteis, identificar suas projeções, recolher suas identificações com o agressor, sublimar suas frustrações — esse sujeito devolve, à sociedade, alguém menos disposto à crueldade, menos refém da repetição. É essa, em última instância, a contribuição política da psicanálise: ela não promete revolução, mas promete, a cada um, uma maior margem de liberdade interior — e, com ela, uma maior capacidade de viver junto com os outros sem destruí-los.
Não há religião sem mitos, mas podem existir mitos que não participem de uma religião — e talvez seja preciso, hoje, inventar novos mitos para viver.Sobre a função do simbólico na civilização
Uma proibição nunca fica sozinha. Tudo o que lembra o proibido também passa a ser proibido, sem que ninguém precise dizer. É assim que uma regra vira uma rede — e é dessa rede que nascem o pudor e o preconceito.
A proibição do incesto é a regra fundadora, e é também o exemplo mais claro do que acontece depois dela. Se não posso transar com a mãe, então também não posso abraçar, também não posso tocar, porque o toque lembra o sexo. Ninguém enunciou essas proibições secundárias. Elas se formam sozinhas em volta do proibido verdadeiro e se sustentam pelo mesmo medo de punição.
A operação é idêntica quando o conteúdo é social. "Meu pai disse que eu não posso casar com branco" produz, sem uma única frase adicional, "não posso falar com branco, não posso abraçar branco, não posso estar onde eles estão". É essa multiplicação que produz o preconceito. E ela explica um traço que costuma parecer desproporcional: o preconceito quase sempre vem acompanhado de agressividade. Quem ataca não está atacando o outro. Está se defendendo da punição do próprio totem.
Boa parte do proibido nunca é dita como proibição. Chega como afirmação do que é certo, e quase sempre pela boca de alguém amoroso e admirado. "O certo é ter carteira assinada." "Uma boa mulher escuta o marido." "É tão bonito quando a pessoa se porta assim." Toda definição do certo instala automaticamente o errado correspondente, e o errado instalado desse jeito é o mais difícil de localizar, porque veio embrulhado em cuidado. As falas mais afetuosas e mais sábias de uma família são, com frequência, as que armam a rede mais extensa de proibições.
Pudor. A expressão das evitações dos tabus que os seus totens proibiram.
A definição tem alcance maior do que se costuma supor: pudor não é só sobre sexo. É sobre tudo o que foi proibido. Numa família inteira de funcionários públicos, empreender pode ser um pudor. O mesmo vale para tipos de relação, de trabalho, de profissão e de lugar. Onde há evitação sem motivo consciente, há tabu; onde há tabu, houve um totem.
Existe um sinal que localiza o proibido de uma pessoa sem precisar perguntar por ele: o horror. O escândalo, o "que absurdo", a crítica imediata, a agressividade diante de um assunto que não diz respeito a quem reage. Onde há horror, está aparecendo o proibido do totem daquela pessoa.
A pergunta clínica não é sobre o conteúdo que provocou a reação. É sobre a reação: por que essa fala produziu horror? A resposta é sempre da mesma ordem. Porque produziu pavor da punição.
O pudor é exatamente a expressão das evitações dos tabus que os seus totens proibiram. Pudor não tem a ver só com sexo — pudor tem a ver com tudo que é proibido.Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Módulo 2 · 26/08/2024
A obrigação com o totem não termina em não fazer. Ela exige também não ser conivente com quem faz. Esse segundo dever explica comportamentos que costumam ser tratados isoladamente: a fofoca, a crítica, a vigilância sobre a vida alheia.
A regra é antiga e é simples. Se eu vejo alguém transgredindo a regra do meu totem e não denuncio, não critico e não puno, eu serei punido no lugar dele. A omissão me torna cúmplice. Para não ser punido, preciso anunciar, de preferência aos quatro ventos, que não concordo com aquilo.
Várias condutas se reorganizam sob essa regra:
Se o conteúdo é do ego, não produz sintoma nem horror. É uma opinião, um valor diferente, uma preferência. O sujeito convive com quem pensa o contrário sem perder a estabilidade, e não precisa converter ninguém.
Se produz horror, sintoma, agressividade ou crítica, é do superego. O que opera ali é medo de punição do totem. E isso autoriza uma devolução precisa ao paciente: aquilo não é dele. Ele não pensa assim, ele obedece assim.
O teste tem uma consequência estrutural. Totem e tabu não são um paralelo do superego, nem uma analogia útil entre a antropologia e a metapsicologia. São a mesma coisa: a genealogia do superego dentro do aparelho psíquico. Entender um é entender o outro.
Daí decorre também o horizonte do trabalho analítico. Um ego maduro não precisa mais do superego para se conduzir. Ele não age por medo de punição, não sustenta evitações herdadas e não carrega pudor, porque tem valores próprios, examinados e assumidos como seus. Enquanto isso não acontece, quem conduz a vida é a rede de proibições que outra pessoa instalou antes.
Totem e Tabu inteiro está dentro do superego. Entender Totem e Tabu e entender superego é quase a mesma coisa.Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Módulo 2 · 26/08/2024
A evitação não se anuncia. Ela é justamente aquilo que não está na vida da pessoa sem que ela tenha notado a ausência. Por isso o trabalho começa pelo que falta e sobe a cadeia até chegar em quem proibiu.
O método é direto: pergunte o que não está ali. Uma festa de família com duzentas pessoas, todas brancas, todas da mesma faixa de renda, todas no mesmo arranjo conjugal. A evitação é o que não se vê naquele ambiente. Da ausência sobe-se ao tabu, do tabu ao proibido, do proibido ao totem que proibiu.
O mesmo método se aplica à vida do paciente. Que tipo de pessoa não está na vida dele? Que tipo de lugar ele nunca frequentou? Que assunto nunca aparece? Nenhuma dessas ausências foi decidida.
O trabalho tem uma ordem, e ela começa pelo ensinamento. O paciente precisa entender totem e tabu antes de conseguir olhar para os seus. Depois vem o exercício.
O exercício não é rápido nem confortável. Ele exige desconectar-se do que sustenta a própria conduta há décadas, e o efeito se parece com desconstruir uma vida antes de reconstruí-la.
Há um erro previsível no meio do caminho, que é acreditar que trocar de crença desfaz a rede. "Não sou mais católico, agora sou budista" não apaga vinte anos de proibições instaladas. O teste é objetivo: a nova crença tem essa mesma proibição? tem esse mesmo ritual? Se não tem, e a evitação continua de pé, a estrutura antiga segue operando por baixo.
Estar sob um totem é confortável, e o conforto é o de não responder por nada. O rei das tribos que Freud examinou respondia pela chuva, pela colheita e pelo gado; quando a colheita falhava, matavam o rei e escolhiam outro, e o escolhido fugia para o mato. Quem está embaixo não tem esse problema. Sob um totem, o sujeito fica alheio ao mal que faz e ao bem que deixa de fazer. A conta continua a mesma hoje, quando a culpa é sempre do presidente, do governador ou de Deus.
Daí uma assimetria contraintuitiva no consultório. Falar de totem e tabu com quem ocupa o lugar de totem, quem chefia, quem lidera, quem decide, costuma ser fácil, porque essa pessoa já sente o peso de responder por todos. Quem segue um totem resiste muito mais. Ele está no lugar do protegido, e sair de protegido para responsável é a mudança difícil.
O arranjo aparece também dentro do casal, quando um dos dois elege o outro como totem. O quadro costuma se organizar em dependência e submissão, e a origem quase sempre está em pais controladores e frios.
O paciente vai tentar colocar o analista no lugar de totem. Vai pedir a regra, o veredito, a ordem — aquilo que Lacan nomeia como sujeito suposto saber. Responder a essa demanda é querer poder sobre o outro, e quem responde é o terapeuta que precisa desse poder. A mesma advertência vale para o professor, para o líder e para o mestre espiritual.
O manejo maduro é uma linha estreita. Os elementos de autoridade têm função, porque quem precisa de totem não escuta quem se apresenta sem nenhum. Mas usar esses elementos para ser escutado é uma coisa e responder ao totemismo é outra. A devolução é sempre da mesma ordem, em variações: eu posso dizer o que penso, mas quem sabe é você. A responsabilidade volta para quem tentou entregá-la.
Todo indivíduo que ainda não assumiu sua responsabilidade vai colocar alguém para assumir a responsabilidade por ele.Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Módulo 2 · 26/08/2024