Do inconsciente, pré-consciente e consciente ao Id, Ego e Superego — a arquitetura da mente segundo Freud.
A mente é abstrata, não palpável do ponto de vista físico. Para estudá-la com seriedade, é preciso construir uma representação dela — uma maquete teórica, uma maneira de pensar em algo que não se vê.
Para melhor compreensão do aparelho psíquico, é necessário o estudo de alguns aspectos teóricos. A teoria psicanalítica deve ser vista numa dimensão onde se elaboram diversos modelos conceituais que explicam os dados empíricos transmitidos pela experiência clínica. Freud se mostrou muito interessado na construção de uma teoria global do psiquismo — um modelo onde estão estabelecidos os alicerces necessários que permitem compreender determinados quadros desses fenômenos. Ao mesmo tempo, os modelos criados possibilitam ampliar o horizonte, muito restrito, da Psicologia clássica, entre o que é saudável e o que é doente.
Em todos os setores da ciência é habitual o uso e o estudo de modelos. Essencialmente, um modelo é uma simplificação — um estudo simplificado dos caracteres genéricos de uma realidade qualquer. Essa simplificação é uma ferramenta que o cientista utiliza para ordenar suas descobertas e formalizar a correspondência e a articulação existente entre o real-empírico e o que se pensa sobre ele.
Falar de um modelo é falar de uma metáfora. Um sentido que exprimiria mais adequadamente o termo seria o de maquete ou protótipo reduzido — como quem diz: “Observei e tive uma ideia da casa porque me foi oferecido um modelo em escala feito de madeira e cartolina”. Outro sentido muito comum é o que serve como exemplo: “Quando eu crescer quero ser como meu pai”.
O sentido de modelo que melhor se adapta aos esquemas psicanalíticos é o da analogia. Entende-se como modelo qualquer tipo de construção destinada a reproduzir, o mais fielmente possível, a trama das relações psíquicas — porém de forma comparativa, estabelecendo relações de igualdade ou de correspondência entre o que se está querendo dar a conhecer e outras estruturas já conhecidas, tomadas como parâmetro.
Não interessa aos modelos psicanalíticos a imitação ponto a ponto. Pelo contrário, o que interessa no modelo analógico psicanalítico é uma finalidade mais abstrata: a apresentação de uma estrutura interligada de funções — principalmente porque a mente é abstrata e não palpável do ponto de vista físico. Sendo analógico, atua por plausibilidade em relação aos fatos, nunca por demonstrações. Ao conceber a abstração de um modelo, este adquire possibilidades infinitas — o que torna seu estudo fascinante.
A função da abstração se torna importante na medida em que cada indivíduo apresenta seu senso comum e, portanto, sua maneira de entendimento e relacionamento com o cotidiano.Sobre a necessidade do modelo
Freud não pretendia desenhar a anatomia da mente. Pretendia construir um modelo funcional — uma maquete que descrevesse como as forças psíquicas se relacionam, entram em conflito e produzem o que chamamos vida.
A teoria do trauma, em seus primeiros passos, não foi muito aceita — não conseguiam entendê-la nem explicar sua complexidade. Para maior entendimento, Freud postulou a existência de dois princípios fundamentais: o da multideterminação e o da existência de um inconsciente. A partir desses pilares, deu forma à concepção da existência de um aparelho psíquico — que estruturou tanto do ponto de vista da economia das energias psíquicas quanto por meio de modelos: o tópico e o estrutural.
O funcionamento psíquico é concebido a partir de três pontos de vista. Compreender os processos e fenômenos psíquicos é considerar os três simultaneamente:
O aparelho psíquico, na concepção freudiana, teria a função de manter o nível de energia interna do indivíduo o mais baixo possível, através de sua capacidade de transmitir e transformar determinadas energias psíquicas, pela diferenciação dos impulsos desses sistemas.
Freud não inventou um modelo. Inventou dois — e o segundo não substitui o primeiro: ele o reorganiza, o complica, o coloca em movimento.
Em 1900, no livro A interpretação dos sonhos, Freud apresentou a primeira concepção sobre a estrutura e o funcionamento da personalidade. Foi aperfeiçoando esse modelo, reformulando sua modelística inicial, até desenvolver, entre 1920 e 1923, a segunda teoria. Os dois modelos coexistem na obra freudiana — não como contradições, mas como camadas complementares de descrição de uma mesma realidade.
Devido às necessidades impostas pelas próprias características dos pacientes observados, ocorreu o desenvolvimento da Psicanálise com outros autores e outros modelos — destacando-se entre eles Melanie Klein, Carl Gustav Jung, Jacques Lacan e Wilfred Bion. Mas o ponto de partida — e o ponto de retorno obrigatório — continuam sendo as duas tópicas freudianas.
A descoberta mais radical de Freud. Aquilo que governa a maior parte do que somos — e que, justamente por isso, nunca conseguimos ver diretamente.
O ato da Consciência é temporal e momentâneo — significa que há elementos que, nesse momento, se encontram fora da Consciência. Deduz-se daí que aquilo que está fora da Consciência, fenomenologicamente, é chamado de Inconsciente. Esses determinados conteúdos podem ser pré-conscientes (se forem acessíveis por um ato de vontade) ou pertencer ao Inconsciente propriamente dito (se não forem recuperáveis voluntariamente).
O Sistema Inconsciente é um conceito meramente teórico: nunca foi observado diretamente. É constituído de algo cuja natureza se desconhece intimamente, e o seu conhecimento só é obtido com dados colhidos de forma indireta, em experiência clínica. Esses dados indiretos são fornecidos pelos sonhos e pelos atos falhos do indivíduo.
Através dos estudos dos pacientes com histeria submetidos a experiências hipnóticas, Freud observou que os indivíduos são capazes de mobilizar sentimentos, emoções e alterar suas personalidades sem que percebam a origem de suas decisões e sentimentos.
Embora as representações simbólicas se refiram aos sentidos auditivo, gustativo, olfativo, tátil e visual, é este último quem exerce uma clara predominância sobre o restante — daí que os conjuntos de representações inconscientes formam verdadeiras fantasias na psique do ser humano.
Freud admitiu a existência de uma parte do inconsciente constituída por fantasias primitivas ou originárias. Sendo estas constituídas por devaneios e transmitidas à consciência, elas podem não ser consequência de experiências reais vividas pelo indivíduo na infância. Descreveu também que esses conteúdos poderiam ter sido passados por uma herança filogenética — entretanto, hoje, com estudos mais avançados, sabe-se que estas podem estar ligadas às experiências vivenciadas na vida intrauterina e no relacionamento com o meio familiar na infância.
Além das representações de coisas, o inconsciente é constituído por energia proveniente dos desejos inconscientes (pulsões). Funcionalmente, representações de coisas e desejos inconscientes operam em conjunto.
Devem-se considerar alguns mecanismos que reagem no inconsciente, que existem em seu Processo Primário (Princípio do Prazer). Através destes mecanismos, o psiquismo tenta diminuir o estado de tensão, criando representações:
Como o inconsciente funciona:
Um quarto de espera entre dois mundos. Não é o profundo do inconsciente, não é o brilho da consciência — é o que pode ser lembrado se procurarmos com cuidado.
O Pré-consciente designa um sistema, dentro do aparelho psíquico, claramente distinto do Sistema Inconsciente — mas que, de modo funcional, está articulado ao Sistema Consciente. Situa-se entre o consciente e o inconsciente, apresentando-se como um elemento de trânsito: do inconsciente para o consciente, e do consciente para o inconsciente.
Diferentemente dos conteúdos do inconsciente — que possuem elementos deformados — o pré-consciente seleciona as excitações do indivíduo. Também evita que as preocupações perturbadoras venham à tona indiscriminadamente. Contém informações não atualizadas, mas que podem ser evocadas. Está implícito na atividade mental.
O Pré-Consciente está separado do Inconsciente pela Censura (repressão) — responsável pela “interdição” (bloqueio) sofrida pelos conteúdos e processos inconscientes em sua intenção de entrar no campo da consciência. Ou seja, os desejos são mantidos no inconsciente por aquilo que Freud denominou de processo de recalque.
Sua localização é próxima do campo Consciente: seus conteúdos podem ser recuperados por um ato de vontade do indivíduo — até então, esse conteúdo estava no reprimido. Por outro lado, quando não é possível recuperar determinado conteúdo por um ato de vontade, este fica localizado no Inconsciente — mais especificamente no recalcado — devido à descarga de energia psíquica de resistência.
O pré-consciente é regido pelo Processo Secundário (Princípio da Realidade):
A janela para o mundo. E também — o que talvez surpreenda — uma janela para o interior. Mas uma janela que não guarda nada do que vê.
O Sistema Consciente tem a função de recepcionar as informações provenientes das excitações vindas do exterior e do interior do indivíduo — que ficam registradas de acordo com o prazer ou o desprazer que elas causam. Mas sem conservar nenhum traço, nenhuma marca duradoura nessas informações.
A consciência será um fato fugaz: ela não retém esses registros e representações como depósito ou arquivo. Essas informações excitarão, no sistema consciente, uma espécie de registro qualitativo sensível ao prazer e ao desprazer.
Na consciência destaca-se o fenômeno da percepção — e principalmente a percepção do mundo exterior. A maior parte das funções perceptivo-cognitivas e motoras do Ego — percepção, pensamento, juízo crítico, evocação, antecipação, atividade motora — processam-se no sistema consciente, embora esse funcione intimamente conjugado com o sistema inconsciente, com o qual está quase sempre em oposição.
A consciência é um fato fugaz. Não retém registros. É a porta — não o cofre.Sobre o sistema consciente
A parte obscura e inacessível da personalidade. Não tem organização. Não conhece o bem nem o mal. Quer apenas — e quer agora.
Do ponto de vista topográfico, o inconsciente — como instância psíquica — virtualmente coincide com o Id. Ele é considerado o pólo psicobiológico da personalidade, fundamentalmente constituído pelas pulsões. Sob o ponto de vista econômico, o Id é, a um só tempo, um reservatório e uma fonte de energia psíquica. Do ponto de vista funcional, é regido pelo princípio do prazer — logo, pelo processo primário.
O Id é o representante psíquico de forças e necessidades que vêm dos instintos (pulsões). Essa parte é hereditária, inata — o indivíduo nasce com várias pulsões que vão colocá-lo em movimento. A outra parte do Id é o recalcado, que contém principalmente as fantasias criadas durante a infância da pessoa — portanto, adquirida durante a vida.
O Id é a parte obscura e inacessível de nossa personalidade. Está repleto de energias que a ele chegam dos instintos; porém, não possui organização, não expressa uma vontade coletiva, mas somente uma luta pela consecução da satisfação das necessidades instintuais, sujeitas à observância do princípio do prazer.
Sigmund Freud
O Id está integrado pela totalidade dos impulsos instintivos. Tem conexão íntima com o biológico, de onde extrai as energias instintivas que, por intermédio dessa instância, adquirem sua exteriorização psíquica. As tendências do Id coexistem de forma independente e não estão regidas por nenhuma organização unitária. Tudo que se desenvolve no Id está submetido ao processo primário.
O mediador. O equilibrista. A parte do psiquismo que dá conta da realidade — sustentando, ao mesmo tempo, três frentes de pressão.
O Ego forma uma parte muito específica do Id em contato com a realidade. Desempenha as funções de relação do organismo com o meio ambiente circundante — quer dizer, com a realidade social e cultural. Procura canalizar o impulso primordial do Id e dar satisfação às necessidades que este formula, harmonizando-se entre si e com a realidade circundante. Controla as funções da memória e o pensamento; é capaz de adiar a satisfação das necessidades formuladas no Id de acordo com as possibilidades reais — substituindo o princípio do prazer pelo princípio da realidade. Tendo o Ego contato com o mundo externo e interno, ele possui aspectos conscientes e inconscientes.
Pode ser útil ver como a noção opera segundo o registro em que é utilizada — teoria do tratamento, modelo do conflito defensivo, metapsicologia do aparelho psíquico:
Freud formulou inicialmente a ideia de que o Ego origina-se após o nascimento, quando a criança começa a sofrer influências do mundo externo. Mais tarde, reformulou esta teoria, considerando que o Ego faz parte da herança filogenética. A Psicanálise atual, por estudos clínicos, comprova que o Ego é inato: todo indivíduo, ao nascer, já possui um Ego rudimentar. A Psicanálise moderna vai ainda mais longe, considerando que o bebê, dentro do ventre materno, já percebe o mundo ao mesmo tempo em que interage com a mãe.
Relativamente à Primeira Teoria do Aparelho Psíquico, o Ego é mais vasto do que o sistema pré-consciente–consciente — na medida em que suas operações defensivas são, em grande parte, inconscientes. Em Estudos sobre a Histeria, no capítulo intitulado “Psicoterapia da Histeria”, Freud mostra como o material patogênico inconsciente só pode ser reconhecido e conquistado progressivamente. A consciência (ou “consciência do Ego”) é comparada a um desfiladeiro que só deixa passar uma recordação patogênica de cada vez, e que pode ser bloqueada enquanto a perturbação não tiver vencido as resistências.
O juiz. O legislador. A voz que herdamos antes de aprender a falar — e que, mesmo quando ninguém está nos vendo, continua nos olhando.
O Superego é uma instância psíquica que representa as exigências éticas e morais do homem — sendo que sua maior parte encontra-se no inconsciente. Atua de uma maneira implacável como um juiz, um legislador e um proibidor das transgressões dessas leis. O superego se forma por meio da interiorização da figura dos pais.
Como todos sabem, as crianças de pouca idade são amorais e não possuem inibições internas contra seus impulsos que buscam o prazer. O papel que mais tarde é assumido pelo superego é desempenhado, no início, por um poder externo — pela autoridade dos pais. Apenas posteriormente, quando a coerção externa é internalizada, o superego assume o lugar da instância parental e observa, dirige e ameaça o Ego, exatamente da mesma forma como anteriormente os pais faziam.
Sigmund Freud
No decurso do desenvolvimento, o superego também assimila as influências de outras figuras importantes interiorizadas, além dos pais: educadores, professores, tios, avós, parentes, vizinhos, pessoas escolhidas como modelos ideais. Normalmente, o superego se afasta cada vez mais das figuras originais — torna-se, digamos, mais impessoal.
A severidade e o caráter repressivo do superego não são uma pura repetição das características dos pais. A severidade do superego provém também da própria destrutividade da criança, voltada contra si mesma. Isto explicaria, por exemplo, por que crianças criadas por pais benevolentes — com uma educação sem qualquer tipo de brutalidade — podem conter um superego extremamente severo e agressivo.
O superego é o principal agente que promove o sentimento de culpa, que age de uma forma inconsciente. De acordo com a sua severidade, ele também determina a punição: o próprio indivíduo encontrará uma maneira de se autopunir. Freud fez uma consideração importante: o indivíduo sofre uma ação destrutiva vinda de duas direções — uma da própria autopunição determinada pelo superego, e outra do instinto de morte, que age de forma silenciosa e sinistra contra o indivíduo.
Apesar de toda sua severidade, o superego possui diversos aspectos positivos: proteger o indivíduo (funciona, por exemplo, como um freio para os impulsos agressivos) e determinar o seu caráter. O superego tem a capacidade de dominar o Ego — este possui uma antiga lembrança de uma fraqueza e dependência do superego, e quando adulto, permanece sujeito à sua dominação, tal como uma criança esteve um dia sob a compulsão de obedecer aos pais.
São várias as vertentes conceituais que se completaram para o entendimento da formação dessa instância:
Graças ao Superego, o indivíduo é sempre culpado — não só do que pode fazer contra a norma social, mas também do que o Id desejou, embora não o fizesse.Sobre o sentimento inconsciente de culpa
Em 1933, nas Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise, Freud desenhou este esquema. É a melhor síntese visual já feita das duas tópicas — porque mostra como elas se sobrepõem, em vez de se substituírem.
O óvulo representa a psique inteira. Olhando o desenho, percebemos que as duas tópicas não se opõem — elas se sobrepõem. A primeira leitura (consciente / pré-consciente / inconsciente) atravessa a segunda (Id / Ego / Superego) por planos diferentes.
No alto, a pcpt-cs. — sistema percepção-consciência. Logo abaixo, a faixa do pré-consciente. Mais abaixo, o vasto território do inconsciente, dentro do qual há ainda o reprimido: aquilo que foi ativamente empurrado para fora da consciência.
Atravessando esses três níveis verticalmente, vemos as três instâncias da segunda tópica. O Superego está acima e atrás, presente tanto no consciente quanto no inconsciente. O Ego ocupa a maior parte central — quase todo o consciente e parte do inconsciente. O Id fica na base, totalmente submerso no inconsciente.
A grande lição visual deste desenho é a seguinte: nenhuma das três instâncias da segunda tópica é totalmente consciente, e nenhuma é totalmente inconsciente. O Id é o único que está inteiramente abaixo da linha de água — mas Ego e Superego têm partes em todos os níveis. Por isso é tão difícil, na clínica, simplesmente “tornar consciente o inconsciente”: as próprias defesas do Ego, que produzem o sintoma, operam de modo inconsciente, sem que o paciente saiba que está se defendendo.
Por isso também a noção freudiana de que o Ego é, em grande parte, inconsciente — quando age para reprimir, censurar, deslocar, deformar, ele não nos avisa. Trabalha em silêncio. E é precisamente esse silêncio que o tratamento psicanalítico tenta interromper.
O Id constitui o reservatório da energia psíquica — é onde se “localizam” as pulsões: a de vida e a de morte. As características atribuídas ao sistema inconsciente, na primeira teoria, são, nesta teoria, atribuídas ao Id. É regido pelo princípio do prazer.
O Ego é o sistema que estabelece o equilíbrio entre as exigências do Id, as exigências da realidade e as “ordens” do Superego. É regido pelo princípio da realidade — que, com o princípio do prazer, rege o funcionamento psíquico. As funções básicas do Ego são: percepção, memória, sentimentos, pensamento.
O Superego origina-se com o complexo de Édipo, a partir da internalização das proibições, dos limites e da autoridade. A moral e os ideais são funções do Superego. Seu conteúdo refere-se a exigências sociais e culturais. O Ego e, posteriormente, o Superego são diferenciações do Id — o que demonstra uma interdependência entre esses três sistemas, retirando a ideia de sistemas separados.
Em uma frase. O Id refere-se ao inconsciente, mas o Ego e o Superego têm, também, aspectos ou “partes” inconscientes. Esses sistemas não existem enquanto uma estrutura vazia — são sempre habitados pelo conjunto de experiências pessoais e particulares de cada um, que se constitui como sujeito em sua relação com o outro e em determinadas circunstâncias sociais. Para compreender alguém, é necessário resgatar sua história pessoal.
O homem tenta, então, realizar-se através de uma autoconsciência muito limitada e de um equilíbrio constantemente ameaçado que sustenta o Ego, no seu esforço para sobreviver e acatar, ao mesmo tempo, o desejo e a lei.
O Ego não é senhor em sua própria casa.Sigmund Freud
O aparelho psíquico não se decora peça por peça. Ele se lê por andares: achada a linha que divide o desenho, cada instância herda a lei do lugar onde está.
O primeiro movimento diante do desenho é achar a linha tracejada que corta o ego. Ela é a divisa. Do tracejado para baixo é o inconsciente. Do tracejado para cima é o pré-consciente. A voltinha no alto, marcada Cs, é o consciente. O superego fica ao lado, o recalcado ao lado, o id embaixo. Quem procura a figura sem esse cuidado acaba encontrando o aparelho da primeira tópica, que tem outro formato e outra distribuição. O desenho que interessa aqui é o último, o da segunda tópica.
A regra parece pequena e decide o resto. Tudo o que está abaixo do tracejado obedece às leis do inconsciente. Tudo o que está acima obedece às leis do pré-consciente. A consequência é imediata e verificável: o ego inconsciente é atemporal, não entra em contradição lógica e funciona por prazer e desprazer imediatos. Não por ser ego, mas por estar no inconsciente. Os mecanismos de defesa, que são produtos dele, também são atemporais pela mesma razão.
É uma regra de dedução. Em vez de decorar propriedade por propriedade de cada instância, decoram-se as leis de cada andar e aplicam-se a todos os moradores daquele andar. É por isso que estudar as leis do inconsciente rende tanto: elas se propagam para tudo o que mora ali.
O ego inconsciente está no inconsciente. Se ele está no inconsciente, ele vai seguir que regras? Do inconsciente. Parece idiota dizer isso, mas às vezes a gente não entende essa coisa óbvia.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 1, aula 09 “Inconsciente” · 25/03/2024
O que o senso comum chama de consciente é, no aparelho, o pré-consciente. O consciente propriamente dito é aquela voltinha no alto do desenho, e corresponde só às percepções dos cinco sentidos: o que se está vendo, ouvindo, cheirando, tocando e saboreando agora. É a porta de entrada da informação, nada além disso. O toque que a mão tem neste instante é consciente. A partir do momento em que a informação entra, ela já está no inconsciente e já virou representação e associação.
A confusão de nomes tem explicação simples: não havia normatização de linguagem entre os autores. Cada um batizou a mesma peça com um nome diferente — ego, self, eu. O que Jung chama de consciência, com as funções endopsíquicas e ectopsíquicas, corresponde ao pré-consciente de Freud.
O próprio nome dá a ordem. O desejo começa no processo primário. O processo secundário entra depois, para colocar aquele desejo dentro de uma realidade. Quero comer um chocolate, quero sair sem roupa, quero ir para a praia agora — e o secundário responde que agora é hora de trabalhar. Nunca se raciocina começando pelo pré-consciente. Ao escutar o paciente, o analista vai do primário para o secundário, nunca ao contrário.
Da mesma regra sai outra dedução, na direção inversa. O inconsciente não manda na vontade, não manda no movimento e não manda na linguagem. Quem responde por isso está acima do tracejado: é o ego consciente. O processo primário só sai direto para o mundo externo quando há perda do ego.
Três demandas batem no vidro ao mesmo tempo e uma só instância atende todas. É desse atendimento que se mede a força do ego — função por função, como quem abre um motor.
Imagine uma cabine de atendimento com vidro. Do lado de fora, batendo ao mesmo tempo, estão três demandas. O id: eu quero, e quero agora. O superego: isso é proibido, sua família vai te expulsar. E a realidade externa, que chega pelo pré-consciente: tem hora para chegar no serviço, tem conta para pagar, tem filho para buscar. Dentro da cabine está o ego, pedindo calma e organizando o atendimento.
A função geral do ego é essa: adaptar as demandas do inconsciente ao consciente, e as do mundo externo ao inconsciente. Uma solução bem-sucedida atende todo mundo. O desejo de fumar um charuto, o superego que proíbe a ostentação e o horário de trabalho se conciliam numa saída concreta: um charuto num café no fim de semana. Ninguém saiu do guichê sem resposta.
A variável não é consciência. É competência. O ego pode estar mais consciente ou mais inconsciente, mais forte ou mais fraco, e o que o define é a personalidade e a competência que ele acumulou. Ego forte é o que bate a mão na mesa, diz ao id que ali não é ele quem manda e ao superego que quem decide é o próprio ego — e decide a partir dos próprios valores, com brandura, aceitação, humildade, responsabilidade e perseverança. Ego fraco é o funcionário que pega o processo que não sabe resolver e esconde na gaveta, fingindo que ele não existe. Esconder na gaveta é exatamente recalcar.
O ego não é a consciência. Ele pode estar mais inconsciente e ele pode estar mais consciente, mais forte ou mais fraco, com mais competência ou menos competência. Mas ele não é a consciência.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 1, aula 13 “Ego Consciente e Inconsciente” · 08/04/2024
São nove: controle da mobilidade, percepção, raciocínio, juízo crítico, capacidade de sintetizar, ordenação temporal dos processos, adaptação, linguagem e comunicação, conhecimento.
O método é de mecânico: abre-se o motor e vê-se o que está funcionando e o que não está. Quando uma função falha, o ego está fraco naquele momento, porque o id e o superego dominaram.
Nem todo desvio é falha. O excesso de formalidade e as palavras corretas demais não indicam função quebrada: indicam excesso de controle da linguagem. E quem controla é o superego.
Inibição não é vergonha nem timidez. É restrição de uma função normal. Falar é função normal; não conseguir falar é inibição. Andar, movimentar-se, pedir uma informação, perceber a realidade — todas funções normais. Como as funções normais estão listadas no ego consciente, é ali que a inibição sempre aparece.
A contraprova fecha a definição: mecanismo de defesa não é função normal, é função neurótica. Entrar em negação, portanto, não é inibição. E uma das funções da lista costuma ser mal lida: sintetizar não é resumir. Sintetizar é pegar A e B, cruzar, e produzir C — uma terceira ideia. Por isso essa função é vizinha do raciocínio e do pensar, e por isso obedece à lei do pré-consciente, que é encontrar correlação lógica.
No surto psicótico há perda do ego consciente. Perdem-se linguagem, comunicação, juízo crítico e temporalidade. O que sai é processo primário puro, sem o filtro que adaptaria a fala para uma forma aceitável. Um paciente diz que precisa matar a mulher porque é ela que não deixa ele ser presidente: a lógica inconsciente está inteira e explícita. É assim que se treina o ouvido para reconhecê-la nos outros pacientes, onde ela vem disfarçada.
Do outro lado do tracejado, o ego inconsciente tem três funções: mecanismos de defesa, identificação e geração de angústia e sintoma. A terceira é a mais esquecida e a mais operatória. Quando o ego não sabe lidar com o que chegou, ele sinaliza para fora que ali não está dando conta. Essa sinalização é a angústia, é o ataque, é o desmaio, é o sintoma. É um alarme.
E quem faz o mecanismo de defesa é o ego inconsciente, não o ego em geral. Daí a defesa ser sempre desastrada: ela obedece às leis do andar de baixo. Na consciência, uma ameaça se resolve — é uma conversa, é a polícia, é um advogado. No inconsciente não existe grau de realidade, e o que sai é ansiedade. A finalidade dos mecanismos é uma só: evitar dor, sofrimento e angústia.
Na linguagem corrente, identificar-se com alguém é reconhecer no outro algo que já existe em mim. Em psicanálise é o contrário. Eu não tenho aquilo, vejo que aquilo dá aprovação, e copio para me adaptar. Alguém ficou elegante de óculos; eu vou comprar um óculos.
O modelo original é o cuidador. A criança observa como o pai reagiu ao atraso, à cobrança da mãe, ao conflito — e registra que é assim que se resolve aquela situação. Sem juízo de valor, porque o ego inconsciente não entra em contradição lógica. Não é raciocínio, é imitação. E dura enquanto durar o inconsciente: quanto mais consciente o sujeito, menos identificação ele faz. Para quem cria filhos, a consequência é direta: forma-se o outro pelo que se é, não pelo que se manda fazer. Mandar o filho organizar a casa com a própria xícara jogada no sofá não gera identificação nenhuma.
O inconsciente não pede uma caneta, um cargo nem um carro. Ele pede a fonte. Os objetos são fabricados um andar acima — e é por isso que nenhum deles fecha o buraco.
O inconsciente não deseja objetos. Ele deseja a fonte. Quem transforma essa fonte num objeto disponível no mundo externo é o pré-consciente. Aparece a caneta cara, aparece o cargo, aparece o dinheiro — e nenhum deles era o pedido original.
O inconsciente não desejou a Montblanc. O inconsciente desejou reconhecimento. Quem adaptou como receber esse reconhecimento dentro da realidade do mundo externo foi o pré-consciente. Então, quem produz os objetos? A pré-consciência.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 1, aula 11 “Pré-consciente” · 01/04/2024
A mesma operação aparece em cenas menores. Quero minha mãe e não posso ligar para pedir colo; monto então um cantinho de escrever igual ao da casa dela e escrevo ali. Quero a colega de trabalho e não posso; invento uma comissão interna que me dá um lugar de comando sobre ela e realizo simbolicamente a dominância. Conscientemente, não sei nada disso.
Como o objeto produzido nunca é a fonte, ele não fecha o buraco. Compro a caneta, faço coleção de canetas, quero o carro, e não fecha. Daí a compulsão: o pedido volta, e o pré-consciente fabrica outro objeto. No fim das contas, o pré-consciente é um adaptador. É por isso que ele vive cheio de ganhos secundários e terciários — fica tentando responder a um pedido que não é dele. Ele atrasa a vida mais do que a adianta.
A advertência vale para os três. Nada disso é fingimento nem esperteza. A pessoa não sabe o que está fazendo. Se fosse consciente, não seria mecanismo.
O pré-consciente freudiano não é consciência. Para Freud não existe um ser consciente: existe um ser que está sempre inconsciente. Mesmo as atitudes que parecem realistas e ponderadas vêm de associação, de representação, de demanda, do recalcado, da falta e do desejo. Enquanto se estuda Freud, é assim que o aparelho funciona, e é assim que ele se lê — sem misturar o vocabulário de outros autores.