Teoria Psicanalítica · Curso completo
Aula um de doze
Tema Nascimento da Psicanálise Subtemas Freud Inconsciente Aparelho Psíquico Ego Psicanálise
Aula I
I

Fundamentos & o nascimento da Psicanálise

Do desamparo humano à descoberta do inconsciente: como uma jovem chamada Anna O. ajudou a inaugurar uma nova ciência da alma.

Introdução · IPP 01 ao IPP 09 Duração estimada: 90 min
Abertura · Sobre a condição humana

O desamparo

Antes da teoria, antes de Freud, antes da técnica: a ferida de fundo que torna a psicanálise possível.

O desamparo é característico da condição humana. A consciência da própria mortalidade parece ser exclusividade nossa — nenhuma outra espécie precisa conviver com a dor de saber-se um ser mortal. Ser humano já parece trazer em si o estigma da angústia. Conhecemos parte do mundo, temos uma consciência parcial, que nos trouxe talvez mais dúvidas do que proteção. Somos seres em eterna indagação. E, ainda quando tentamos construir certezas, elas não costumam durar muito.

Nosso ritmo como descobridores, inventores e investigadores deste universo que nos rodeia acelerou-se sensivelmente. Acabamos de sair de um século agitado, marcado pelo grande avanço científico e tecnológico e por uma enorme revolução nos costumes. Tudo o que era inquestionável passou a sê-lo, e até o conceito de matéria e as leis da física foram abalados. Descobrimos viver num universo relativo, e muitas de nossas precárias certezas se foram.

A moral passou a ser questionável, a estrutura familiar também, o trabalho faltou para muitos e para outros tantos deixou de ser satisfatório. Adquirimos até mesmo mais consciência de nossos próprios enganos e dos danos que causamos ao meio ambiente, da falha de nossas tentativas de estabelecer um estado de bem-estar duradouro que sempre foi nosso objetivo. Tanto criamos e fizemos, e não somos hoje menos desamparados que as gerações que nos antecederam. Nossa angústia não se aplacou.

De certa forma, perdemos definitivamente nossa ingenuidade — aquela que tínhamos quando nos lançamos à conquista de tudo que temos hoje. Quase parecemos ter esgotado nossa criatividade e nossas esperanças de alcançar o nível de satisfação a que chamamos felicidade. Até os jovens, tantas vezes, parecem estar olhando o futuro com mais ansiedade e menos expectativas positivas. Não se pode viver a juventude sem sonhos e ideais. Tudo isso se soma para aumentar nosso original estado de desamparo. Nosso mundo parece-nos ser um lugar pouco seguro para nós.

O desamparo é característico da condição humana. Ser humano já parece trazer em si o estigma da angústia. Sobre o desamparo humano
Introdução · O que é um terapeuta

O papel do terapeuta & da psicoterapia

A palavra carrega uma história antiga — e essa história ainda diz muito sobre o que estamos fazendo numa sessão.

O psicoterapeuta é um terapeuta no sentido mais amplo da palavra — um sentido que está esquecido, mas que no uso do termo não se perdeu por completo, porque a origem das palavras e sua estruturação de alguma forma marcam seu destino.

A palavra terapeuta na Antiguidade

Terapeuta, na antiguidade grega, designava aquele que, escolhendo a causa do guerreiro, colocava suas forças físicas, emocionais e espirituais a serviço de um guerreiro. Pátroclo era o terapeuta de Aquiles. Homero disse que o terapeuta é o duplo daquele a quem serve — é de quem, no fundo, ele retira suas forças. Ele também deve permanecer em estreita comunicação com o Senhor, se pretende guardar a ambos e manter-se eficiente.

A palavra também designava aquele que rendia um culto aos deuses e que, ligado às forças do céu, podia transmiti-las: os Essênios, depois de haver dado graças à Divindade, impunham suas mãos e eram denominados terapeutas. Os curadores filipinos, hoje, parecem ser o modelo desse tipo de terapeutas. Também era chamado de terapeuta aquele que, nas festas, colocava-se a serviço dos outros e animava os jogos. Enfim, era aquele que ministrava, com dedicação, cuidados em nome da medicina ou em seu próprio nome.

Hoje, o termo refere-se mais facilmente a um auxiliar da medicina do que ao próprio médico, e conota uma certa desigualdade em relação aos cuidados oficiais — um espaço de liberdade, de mistério e de esperança.

O terapeuta é uma pessoa purificada e bem sucedida ao ponto em que toda vontade de poder, toda necessidade de exercer um poder ou de ser reconhecida, desaparecem — uma pessoa que só atua em relação a seu paciente com fraternidade de alma e sensibilidade. No espaço da sessão ou no espaço do grupo, ele está lá, inteiramente lá: espelho e doador de energia, coador para a consciência em sua aventura interior.

Gerda Boyesen · 1985

Os objetivos do terapeuta

São objetivos do trabalho terapêutico: restabelecer o equilíbrio e a espontaneidade num ser maltratado por sua personalidade secundária; devolver a liberdade e a criatividade a uma consciência prisioneira do medo; permitir-lhe sua expansão em direção ao infinito, através e além do imaginário. Talvez ele faça escutar e entrever que entre a psique e o soma está “a personalidade por quem as orelhas escutam, os olhos veem, a língua fala, o intelecto compreende, a vida funciona”.

O trabalho de todo terapeuta é investir no amor e no auxílio a seus clientes para ir “do não-ser ao ser, da opacidade à transparência, da mortalidade à imortalidade” (Gerda Boyesen, 1985).

Os aspectos definidores da psicoterapia

A terapia é composta por aspectos como qualidade, intensidade e tipo de relação ou aliança terapêutica; frequência e duração; pessoas envolvidas; orientação terapêutica aplicada. Por exemplo, o processo de alta varia significativamente entre as orientações: enquanto em um processo psicanalítico a alta deve ser trabalhada sob o enfoque transferencial, em abordagens breves ela é estabelecida como plano de ação.

Segundo Zur (2007), os aspectos da psicoterapia englobam tanto fatores terapêuticos como fatores do relacionamento terapêutico:

A Modalidade
Individual, casal, família ou grupo — de curto prazo, longo prazo ou longo prazo intermitente.
B Intensidade
Várias sessões por semana, semanais, quinzenais ou mensais.
C População
Crianças, adolescentes ou adultos.
D Orientação teórica
Psicanalítica, humanística, terapia de grupo, psicoterapia corporal, sistêmica, cognitivo-comportamental ou eclética.
E Aliança terapêutica
Qualidade e natureza: segura, confiante, experimental — na base da neutralidade ou diretiva.
F Respeito
Respeito mútuo, empatia e confiança — versus desrespeito mútuo, desprezo, antipatia, medo, desconfiança.
Introdução · A faxina interior

Reforma íntima

“Mude você e mude o mundo.”

O que significa o termo reforma íntima?

A palavra reforma quer dizer “ato ou efeito de reformar, mudança, modificação, reformulação, forma nova”. Íntimo reporta “àquilo que está muito dentro, que atua no interior, muito cordial e afetuoso, amigo íntimo, que se passa ou efetua no interior da família, estreitamente ligado por afeição ou confiança; âmago, túnica”.

Por que não chamá-la de faxina?

A palavra faxina lembra “colocar o que está fora do lugar no lugar certo, organizar a bagunça”, ou seja: limpar o que está sujo. Colocando esse conceito no fator emocional, como é que fica? Limpar o que está sujo… até que ponto se deseja realmente organizar as bagunças? Porque requer muito investimento pessoal para ter as coisas no lugar certo.

No trabalho de terapia de aconselhamento psicanalítico, essas sujeiras aparecem explicitamente. E quando o paciente tenta colocá-las para fora para serem limpas, ele mesmo fica irritado, com muita raiva, demonstrando isso nas atitudes: chegando atrasado, olhando o relógio a cada momento como se aquele horário fosse uma tortura, pedindo licença para ir ao banheiro, devaneio, apatia, inércia do pensamento, não querendo entender o que está se passando. Muitas são as justificativas para se evitar a limpeza interna.

A reforma íntima tem a ver com a busca contínua do conhecimento para realização integral do ser humano, através de estímulos adequados à plena utilização da sua capacidade física, psíquica e espiritual. Tem tudo a ver com autoestima e com todas as dimensões de sua realização pessoal. O homem é um ser pré-determinado a incessante e eterna busca do afeto.

✦ ✦ ✦
Introdução · Quem pode ser analista

Análise leiga

Uma das polêmicas mais antigas — e mais decisivas — da história da psicanálise.

Chama-se análise leiga a psicanálise praticada por não médicos. Este termo, um dos mais polêmicos da Psicanálise, tem gerado muita controvérsia entre os psicanalistas desde os primórdios desta ciência, mas até o momento ainda não obteve uma solução final.

A discussão, inicialmente, girava em torno do fato de profissionais sem formação médica poderem praticar a psicanálise. Com o avanço da Psicologia a situação se modificou ainda mais — e hoje em dia podem-se considerar como analistas leigos todos aqueles profissionais que praticam a psicanálise sem possuírem uma formação nas áreas de medicina e psicologia.

Leigo é quem compreende um tratamento sem possuir o conhecimento e qualificações necessárias. Ninguém deve praticar análise se não tiver adquirido o direito de fazê-lo através de uma formação específica. Se essa pessoa é ou não é um médico, a mim me parece sem importância.

Sigmund Freud

Freud era um defensor ferrenho da psicanálise leiga e da prática da psicanálise por não médicos. Foi mais além: pensava no ensino da Psicanálise como uma graduação, e sugeriu a fundação de uma Faculdade de Psicanálise, na qual várias outras disciplinas seriam ensinadas.

Sob esse aspecto, a única formação aceitável para um psicanalista é a que abrange o tripé:

Teoria
Conhecimento teórico-técnico sólido sobre o funcionamento do aparelho psíquico, da clínica e da história da disciplina.
Análise didática
A própria análise pessoal do candidato — passar pelo divã antes de sentar-se na poltrona do analista.
Supervisão
Acompanhamento sistemático dos primeiros atendimentos com um analista mais experiente.

Essa formação é oferecida por diversas instituições psicanalíticas espalhadas pelo mundo, com diversas filosofias para aceitar candidatos para iniciar uma formação em Psicanálise.

01
IPP 01 · Capítulo 1
O senso comum

Antes da ciência, antes da psicanálise, há um modo de saber que todo mundo usa sem perceber. Entender esse modo é o primeiro passo para entender a diferença que a Psicanálise faz.

O cotidiano e o conhecimento científico

Existe um domínio da vida que pode ser entendido como vida por excelência: é a vida do cotidiano. É no cotidiano que tudo flui, que as coisas acontecem, que nos sentimos vivos, que sentimos a realidade. Estou lendo um livro de Psicologia, logo mais estarei numa sala de aula fazendo uma prova e depois irei ao cinema. Tenho sede e tomo um refrigerante, sinto sono e luto para não dormir em aula, lembro-me de que havia prometido chegar cedo para o almoço. Todos esses acontecimentos denunciam que estamos vivos.

Já a ciência é uma atividade eminentemente reflexiva. Ela procura compreender, elucidar e alterar esse cotidiano a partir de seu estudo sistemático. Quando fazemos ciência, baseamo-nos na realidade cotidiana e pensamos sobre ela: afastamo-nos dela para refletir e conhecer além de suas aparências. O cotidiano e o conhecimento científico que temos da realidade aproximam-se e se afastam — aproximam-se porque a ciência se refere ao real; afastam-se porque a ciência abstrai a realidade para compreendê-la melhor.

Para compreender isso melhor, pense na abstração — no distanciamento e trabalho mental — que Newton teve de fazer para, partindo da fruta que caía da árvore (fato do cotidiano), formular a lei da gravidade (fato científico).

O que é o senso comum

Ocorre que, mesmo o mais especializado dos cientistas, quando sai de seu laboratório, está submetido à dinâmica do cotidiano, que cria suas próprias “teorias” a partir das teorias científicas — seja como forma de “simplificá-las” para o uso no dia-a-dia, seja como sua maneira peculiar de interpretar fatos. A dona de casa, quando usa a garrafa térmica, sabe por quanto tempo o café permanecerá quente sem fazer cálculo algum e desconhecendo as leis da termodinâmica. Quando alguém em casa reclama de dores no fígado, ela faz um chá de boldo — uma planta medicinal já usada pelos avós dos nossos avós — sem conhecer o princípio ativo de suas folhas.

Esse tipo de conhecimento que vamos acumulando no nosso cotidiano é chamado de senso comum. Sem esse conhecimento intuitivo, espontâneo, de tentativas e erros, a vida no dia-a-dia seria muito complicada. O senso comum percorre um caminho que vai do hábito à tradição: quando estabelecida, ela passa de geração para geração. Assim aprendemos com nossos pais a atravessar uma rua, a fazer um liquidificador funcionar, a plantar alimentos na época correta, a conquistar a pessoa que desejamos.

O senso comum como visão de mundo. O senso comum mistura e recicla saberes especializados e os reduz a um tipo de teoria simplificada, produzindo uma determinada visão de mundo. Quando usamos termos como “rapaz complexado”, “menina histérica” ou “neurótica”, estão sendo usados termos definidos pela Psicanálise científica — sem preocupação em traduzir as palavras usadas, e nem por isso deixa de ser entendido pelo outro.

Onde Freud entra

Na ciência psicanalítica, o objeto de estudo é o psiquismo, as emoções e os sentimentos humanos. A percepção ultrapassa os limites restritos dos órgãos dos sentidos, deixando espaço para fenômenos como introdução, empatia, identificação.

Sigmund Freud reconheceu a existência do psiquismo humano e das fantasias inconscientes, relacionadas aos desejos — que, por sua vez, são expressões de impulsos que nascem com a criança. Freud concluiu que os sintomas psíquicos não estavam direta e exclusivamente relacionados com os acontecimentos reais externos (o cotidiano), mas dependiam, em grande parte, da realização dos desejos. Ou seja, a fantasia psíquica seria tão importante quanto a realidade externa. No psiquismo, as experiências são criadas pelos significados impostos pelos temores e desejos inconscientes. Ao desviar a atenção dos acontecimentos externos em direção ao intercâmbio dinâmico do mundo real com os desejos e temores provocados pelos instintos, Freud inaugurou uma nova ciência: a Psicanálise.

02
IPP 02 · Capítulo 1
Filosofia — a arte de pensar

Antes da Psicanálise existir como ciência, foi a Filosofia que primeiro perguntou: o que é o homem? Por que sofremos? O que podemos conhecer?

A História da Filosofia, como toda divisão cronológica, é uma opção arbitrária de quem estabelece os pontos de ruptura para justificar as separações entre um período e outro. As caracterizações de um determinado período são úteis para uma sistematização didática — embora, ao mesmo tempo em que dão identidade e especificidade ao período, sirvam para simplificar e reduzir um determinado pensamento. Dialogando entre uma caracterização geral e as particularidades de cada filósofo, podemos identificar quatro grandes períodos.

Séc. VI a.C. — séc. V d.C.
Filosofia Antiga
Refere-se a um grupo diversificado, localizado desde o século VI a.C. na Jônia até os primeiros tempos da era cristã. Inclui os pré-socráticos ou “físicos” (Tales de Mileto e outros, que se interrogavam sobre a physis, a natureza, em busca da arché, o princípio); o classicismo grego; as filosofias helenísticas (estoicismo, epicurismo, ceticismo, neoplatonismo); e as primeiras elaborações da tradição cristã.
Tales · Sócrates · Platão · Aristóteles
Séc. V — séc. XV
Filosofia Medieval
Marcado pela instauração dos debates entre Nominalistas e Universalistas, e pela separação dos saberes em dois campos: a Teologia, que investigava sobre Deus, vista como superior; e a Filosofia, que abrangia todos os outros saberes. Tomás de Aquino foi um dos responsáveis pela cristianização do pensamento aristotélico e pela modernização das teorias do mundo cristão.
Agostinho · Tomás de Aquino
Séc. XV — séc. XVIII
Filosofia Moderna
Pulverização de temas e abordagens. O humanismo propôs a revalorização dos textos da Antiguidade. As perguntas sobre os fundamentos da realidade foram revestidas de questionamentos sobre o que é o conhecer e o papel do que se passou a chamar de “sujeito moderno”. Do cogito cartesiano aos princípios da experiência. Ao longo do XVIII, o Iluminismo desenvolveu suas críticas ao Antigo Regime.
Maquiavel · Descartes · Locke · Voltaire · Rousseau
Séc. XVIII — hoje
Filosofia Contemporânea
Hume e Kant estabelecem a grande crítica à metafísica que marca o início desse período. A partir do XIX é quase impossível estabelecer uma unidade efetiva: o pensamento hegeliano é duramente atacado por Marx e Engels — a ideia de que a Filosofia devia transformar o mundo, não apenas interpretá-lo. Ao mesmo tempo surge o Positivismo de Comte. No XIX estão também as origens do Existencialismo (Kierkegaard), que dará base a Sartre no século seguinte.
Kant · Hegel · Marx · Kierkegaard · Sartre

Esse percurso é o pano de fundo a partir do qual Freud — formado em medicina, leitor da filosofia antiga e do iluminismo — vai se erguer. A Psicanálise nasce no diálogo com essa tradição, herdando a pergunta filosófica pelo humano e respondendo a ela por outros meios.

03
IPP 03 · Capítulo 2
O que é Psicanálise

O próprio Freud deu várias definições. A mais clara está no verbete de enciclopédia que escreveu em 1922 e publicou em 1923.

Foi pelo estudo de pacientes histéricos que Freud construiu inicialmente sua teoria, a psicanálise. As manifestações histéricas, além de dramáticas e espetaculares, eram enigmáticas. A intensidade, a relevância do sentido e o papel da energia levaram-no a ir além das influências externas, chegando à existência do inconsciente.

Conceitos clássicos como o complexo de Édipo, a importância da sexualidade, o trabalho psicanalítico valorizado pelo instrumento exclusivo da escuta, a singular técnica da associação livre e os efeitos da transferência advieram de uma profunda elaboração e imersão de Freud a partir do que a própria paciente de Breuer, Anna O., batizou de “cura pela fala” (em inglês, talking cure) — no tratamento que Breuer conduziu entre 1880 e 1882. Após décadas dedicando-se à estrutura psíquica humana, Freud organizou o campo da psicopatologia psicanalítica de diferentes formas em sua obra: de início, investigou o campo das neuroses; posteriormente, dirigiu seu olhar acurado às perversões e às psicoses.

Psicanálise é o nome:

  1. De um procedimento para investigação de processos mentais que, de outra forma, são praticamente inacessíveis.
  2. De um método baseado nessa investigação para o tratamento de distúrbios neuróticos.
  3. De uma série de concepções psicológicas adquiridas por esse meio e que se somam umas às outras para formar progressivamente uma nova disciplina científica.

— Freud, “Dois Verbetes de Enciclopédia”, 1923 [1922]

O inconsciente é o psíquico verdadeiramente real, tão desconhecido para nós em sua natureza íntima quanto a realidade do mundo externo, e tão incompletamente revelado pelos dados da consciência quanto o mundo exterior o é pelas informações dos nossos órgãos dos sentidos.

Sigmund Freud · A Interpretação dos Sonhos, 1900

Compreender a Psicanálise significa percorrer novamente o trajeto pessoal de Freud, desde a origem dessa ciência. A relação entre autor e obra torna-se mais significativa quando descobrimos que grande parte de sua produção foi baseada em experiências pessoais, transcritas com rigor em várias de suas obras, como A interpretação dos sonhos e Psicopatologia da vida cotidiana. Compreender a Psicanálise significa também repetir, em nível pessoal, a experiência inaugural de Freud e buscar “descobrir” as regiões obscuras da vida psíquica, vencendo as resistências interiores — pois, se ela foi realizada por Freud, “não é uma aquisição definitiva da humanidade, mas tem que ser realizada de novo por cada paciente e por cada psicanalista” (R. Mezan, 1982).

Três dimensões da Psicanálise hoje

Teoria
Um conjunto de conhecimentos sistematizados sobre o funcionamento da vida psíquica. Freud publicou uma extensa obra ao longo da vida, formulando leis gerais sobre a estrutura e o funcionamento da psique.
Método de investigação
Caracteriza-se pelo método interpretativo, que busca o significado oculto daquilo que é manifesto por meio de ações, palavras ou pelas produções imaginárias: sonhos, delírios, associações livres, atos falhos.
Prática profissional
A Análise — forma de tratamento que busca o autoconhecimento e a cura. Hoje, é usada também como base para psicoterapias, aconselhamento, orientação, trabalho com grupos e instituições.
04
IPP 04 · Capítulo 2
Medicina psicossomática

A ideia de que mente e corpo estão separados atravessou quase dois mil anos — até a psicanálise começar a costurá-los de volta.

As palavras gregas psique (alma) e soma (corpo) nomeiam aquilo que boa parte da tradição filosófica tratou como duas substâncias distintas. Esse dualismo — a separação entre a alma e o corpo — encontra em Platão sua formulação mais influente e predominou no Ocidente ao longo de quase dois milênios.

Com o desenvolvimento do estudo do pensamento, os fatos começaram a ser coletados e analisados objetivamente através de experimentação, submetidos ao raciocínio indutivo. Assim, a invocação das forças sobrenaturais — oriundas das crenças religiosas e das convicções metafísicas — foi sendo aos poucos afastada e substituída pelo pensamento científico (racionalismo). A Medicina, desde então, vem se desenvolvendo através de estudos experimentais e clínicos.

Somente no final do século passado as atenções se voltaram para a unidade do homem:

Não é um corpo, não é uma alma, é um homem. Montaigne

A noção de unidade

A Medicina Psicossomática é apoiada na essência da noção de unidade indivisível do ser humano: ele deve ser visto, entendido e abordado como um ser único, constituído de um corpo somático que interage intensamente com sua vida psíquica e emocional.

O soma (corpo) pode se definir como aquela parte do ser humano que pode ser vista e tocada, aquela que se vê e se toca nas outras pessoas. A psique (mente) seria a parte invisível ou intocável, mas que se sabe que existe e engloba tudo aquilo que é sentido, pensado, desejado, sonhado. Não se deve confundi-la com cérebro, que seria apenas a sede central onde operam as emoções, os sonhos e os pensamentos. O cérebro faz parte do corpo, uma vez que é concreto, podendo ser visto, tocado, medido, pesado. A mente é etérea: sabe-se que existe, visto que se confunde com o próprio Eu, mas não pode ser vista ou tocada.

De fora para dentro, ou de dentro para fora?

A noção e a importância do papel dos estados emocionais na gênese das doenças é antiga. Durante séculos e até Freud, admitia-se que as doenças eram causadas por agentes externos — vinham de fora para dentro, com exceção das doenças hereditárias e congênitas.

O advento da Psicanálise e sua progressiva aceitação revolucionaram esse conceito e introduziram um novo: em algumas doenças, os males do corpo constituíam uma mera expressão dos males da psique, ou seja, provinham de dentro da pessoa. A concepção clássica de doença psicossomática pode ser entendida como a influência dos fatores psíquicos “internos” nos distúrbios físicos.

O universo do distúrbio psicossomático se aplicou, passando a abranger doenças em todos os órgãos. Assim, a ideia de que “quase todas as doenças têm fundo psicossomático” vem conquistando um número cada vez maior de adeptos e ganha contornos de verdade científica, e não mais de mera especulação.

Em 15 de outubro de 1886, Sigmund Freud apresentou seu trabalho sobre “histeria masculina” na Sociedade de Medicina de Viena, no qual gerou intensas polêmicas. A partir de então, as maiores discussões nos Congressos Médicos e de Medicina Psicossomática foram em torno do tema “sexualidade e afetividade”.

05
IPP 05 · Capítulo 3
A descoberta da Psicanálise

As teorias científicas surgem influenciadas pelas condições da vida social. São produtos históricos criados por homens concretos, que vivem o seu tempo. Sigmund Freud foi um deles.

Sigmund Freud (1856–1939) foi um médico vienense que alterou, radicalmente, o modo de pensar a vida psíquica. Sua contribuição é comparável à de Karl Marx na compreensão dos processos históricos e sociais. Freud ousou colocar os “processos misteriosos” do psiquismo, suas “regiões obscuras” — isto é, as fantasias, os sonhos, os esquecimentos, a interioridade do homem — como problemas científicos. A investigação sistemática desses problemas levou Freud à criação da Psicanálise.

A gestação da Psicanálise

Freud formou-se em Medicina na Universidade de Viena, em 1881, e especializou-se em neurologia (neuropatologia). Trabalhou algum tempo no laboratório de Fisiologia de Ernst Brücke e deu aulas de Neuropatologia. Por dificuldades financeiras não pôde dedicar-se integralmente à vida acadêmica e de pesquisador. Começou, então, a clinicar, atendendo pessoas acometidas de “problemas nervosos”.

Obteve, ao final da residência médica, uma bolsa de estudo para Paris, onde trabalhou com Jean-Martin Charcot (1825–1893), neurologista francês — fundador da neurologia moderna e chefe do Hospital Salpêtrière — que estudava a histeria e a reproduzia por sugestão hipnótica. Em 1886, retornou a Viena e voltou a clinicar — seu principal instrumento de trabalho na eliminação dos sintomas dos distúrbios nervosos passou a ser a sugestão hipnótica.

Em Viena, o contato de Freud com Josef Breuer, médico e cientista, também foi importante para a continuidade das investigações. Nesse sentido, o caso de uma paciente de Breuer foi significativo: Anna O. apresentava um conjunto de sintomas que a fazia sofrer — paralisia com contratura muscular, inibições e dificuldades de pensamento. Esses sintomas tiveram origem na época em que ela cuidara do pai enfermo. Em seu estado de vigília, Anna O. não era capaz de indicar a origem de seus sintomas — mas, sob o efeito da hipnose, relatava a origem de cada um deles. Com a rememoração destas cenas e vivências, os sintomas desapareciam.

Método catártico. Breuer denominou método catártico o tratamento que possibilita a liberação de afetos e emoções ligadas a acontecimentos traumáticos que não puderam ser expressos na ocasião da vivência desagradável ou dolorosa. Esta liberação de afetos leva à eliminação dos sintomas.

A descoberta do inconsciente

Freud passou a utilizar o método catártico e, aos poucos, foi modificando a técnica de Breuer. Abandonou a hipnose porque nem todos os pacientes se prestavam a ser hipnotizados; desenvolveu a técnica de “concentração”, na qual a rememoração sistemática era feita por meio da conversação normal; e por fim, acatando a sugestão de uma jovem anônima, abandonou as perguntas — e, com elas, a direção da sessão — para se confiar por completo à fala desordenada do paciente.

“Qual poderia ser a causa de os pacientes esquecerem tantos fatos de sua vida interior e exterior?”, perguntava-se Freud. O esquecido era sempre algo penoso para o indivíduo, e era exatamente por isso que havia sido esquecido. E o penoso não significava necessariamente sempre algo ruim — podia se referir a algo bom que se perdera ou que fora intensamente desejado.

Quando Freud abandonou as perguntas e deixou os pacientes dar livre curso às ideias, observou que muitas vezes eles ficavam embaraçados e envergonhados com algumas ideias ou imagens que lhes ocorriam. A esta força psíquica que se opunha a tornar consciente e a revelar um pensamento, Freud denominou resistência. E chamou de repressão o processo psíquico que visa encobrir e fazer desaparecer da consciência uma ideia ou representação insuportável e dolorosa que está na origem do sintoma. Estes conteúdos psíquicos “localizam-se” no inconsciente.

A primeira teoria da estrutura do aparelho psíquico

Da descoberta do inconsciente nasce a primeira tópica, que divide o aparelho psíquico em três sistemas:

Inconsciente
Sistema do aparelho psíquico regido por leis próprias de funcionamento. Por exemplo, é atemporal: não existem as noções de passado e presente.
Pré-consciente
Sistema onde permanecem aqueles conteúdos acessíveis à consciência. É aquilo que não está na consciência neste momento, e no momento seguinte pode estar.
Consciente
Sistema que recebe ao mesmo tempo as informações do mundo exterior e do mundo interior. Destaca-se o fenômeno da percepção, principalmente do mundo exterior, a atenção, o raciocínio.

A descoberta da sexualidade infantil

Freud, em suas investigações sobre as causas e o funcionamento das neuroses, descobriu que a maioria dos pensamentos e desejos reprimidos referiam-se a conflitos de ordem sexual, localizados nos primeiros anos de vida. Ou seja, na vida infantil estavam as experiências de caráter traumático reprimidas que se configuravam como origem dos sintomas atuais. As descobertas colocam a sexualidade no centro da vida psíquica, e é postulada a existência da sexualidade infantil. Estas afirmações tiveram profundas repercussões na sociedade puritana da época, pela concepção vigente da infância como “inocente”.

Os principais aspectos destas descobertas:

O corpo é erotizado, isto é, as excitações sexuais estão localizadas em partes do corpo, e há um desenvolvimento progressivo que levou Freud a postular as fases do desenvolvimento sexual: fase oral (a zona de erotização é a boca), fase anal (a zona é o ânus), fase fálica (a zona é o órgão sexual); em seguida vem um período de latência, que se prolonga até a puberdade e se caracteriza por uma diminuição das atividades sexuais. Finalmente, na puberdade, é atingida a fase genital, quando o objeto de erotização ou de desejo não está mais no próprio corpo, mas em um objeto externo ao indivíduo — o outro.

É na fase fálica, entre 3 e 5 anos, que ocorre o complexo de Édipo: a mãe é o objeto de desejo do menino, e o pai é o rival que impede seu acesso ao objeto desejado. Posteriormente, por medo da perda do amor do pai, o garoto “desiste” da mãe — esta é “trocada” pela riqueza do mundo social e cultural. O processo também ocorre com as meninas, sendo invertidas as figuras de desejo e de identificação (Freud fala em Édipo feminino).

A segunda teoria do aparelho psíquico

Mais tarde, Freud reformula sua teoria do aparelho psíquico — é a segunda tópica, que divide o aparelho em três instâncias:

Id
As características atribuídas ao sistema inconsciente, na primeira teoria, são, nesta teoria, atribuídas ao id. É regido pelo princípio do prazer.
Ego
É o sistema que estabelece o equilíbrio entre as exigências do id, as exigências da realidade e as “ordens” do superego. Procura “dar conta” dos interesses da pessoa. É regido pelo princípio da realidade. Suas funções básicas: percepção, memória, sentimentos, pensamento.
Superego
Origina-se com o complexo de Édipo, a partir da internalização das proibições, dos limites e da autoridade. A moral, os ideais são funções do superego. Seu conteúdo refere-se a exigências sociais e culturais.

Para compreender a constituição do superego é necessário introduzir a ideia de sentimento de culpa. O indivíduo sente-se culpado por alguma coisa errada que fez — ou que não fez e desejou ter feito. Considerada má pelo ego, mas não, necessariamente, perigosa ou prejudicial. Pode, pelo contrário, ter sido muito desejada. Por que então é considerada má? Porque alguém importante para ele, como o pai, pode puni-lo por isso. E a principal punição é a perda do amor e do cuidado dessa figura de autoridade. Por medo dessa perda, deve-se evitar fazer ou desejar fazer a coisa má — mas o desejo continua, e por isso existe a culpa.

Uma mudança importante acontece quando esta autoridade externa é internalizada pelo indivíduo. Ninguém mais precisa lhe dizer “não”. É como se ele “ouvisse” esta proibição dentro de si. Agora, não importa mais a ação para sentir-se culpado: o pensamento, o desejo de fazer algo mau se encarregam disso. Com isso, o mal-estar instala-se definitivamente no interior do indivíduo. A função de autoridade sobre o indivíduo será realizada permanentemente pelo superego.

Os mecanismos de defesa

A percepção de um acontecimento, do mundo externo ou do mundo interno, pode ser algo muito constrangedor, doloroso, desorganizador. Para evitar este desprazer, a pessoa “deforma” ou suprime a realidade — deixa de registrar percepções externas, afasta determinados conteúdos psíquicos, interfere no pensamento.

Mecanismos de defesa. São os vários mecanismos que o indivíduo usa para realizar essa deformação da realidade. São processos realizados pelo ego, inconscientes — isto é, ocorrem independentemente da vontade do indivíduo. Para Freud, defesa é “a operação pela qual o ego exclui da consciência os conteúdos indesejáveis, protegendo o aparelho psíquico”.

A Psicanálise e suas contribuições sociais

A representação social da Psicanálise ainda é bastante estereotipada — associada ao divã, ao trabalho de consultório excessivamente longo e só possível para pessoas de alto poder aquisitivo. Esta ideia correspondeu, durante muito tempo, à prática nesta área. Contudo, há várias décadas é possível constatar a contribuição da Psicanálise em várias áreas da saúde mental. Historicamente, vale lembrar: as contribuições de D. W. Winnicott, cujos programas radiofônicos durante a Segunda Guerra orientavam pais na criação dos filhos; de Anna Freud para a Educação; e, mais recentemente, de Françoise Dolto e Maud Mannoni para o trabalho com crianças e adolescentes em instituições.

Atualmente, os psicanalistas estão debatendo o alcance social da prática clínica visando torná-la acessível a amplos setores da sociedade. Estão voltados para a pesquisa e a produção de conhecimentos úteis para compreender fenômenos sociais graves: o envolvimento do adolescente com a criminalidade, novas (antigas?) formas de sofrimento — drogadições, anorexia, síndrome do pânico, a excessiva medicalização do sofrimento, a sexualização da infância. Aliás, o próprio Freud, em obras como O mal-estar na civilização e Reflexões para o tempo de guerra e morte, coloca questões sociais ainda atuais como objeto de reflexão.

06
IPP 06 · Capítulo 3
Cronologia de Freud

Uma vida em datas: do menino circuncidado em Freiberg ao velho exilado em Londres.

Um homem que tenha sido o favorito indisputável de sua mãe conserva por toda sua vida o sentimento de um conquistador, uma confiança no sucesso pessoal, o que muitas vezes o induz ao sucesso verdadeiro.

Sigmund Freud · sobre si mesmo

Filho mais velho do segundo casamento de Jacob Freud (40 anos) com Amalia Nathansohn (20 anos), que tiveram mais sete filhos: Julius, Anna, Rosa, Marie, Adolfine, Pauline e Alexandre. Freud foi circuncidado conforme o rito judaico, recebeu uma educação judaica não tradicionalista, aberta à filosofia do iluminismo, e demonstrou profundo interesse pelo estudo da história da Bíblia assim que aprendeu a ler.

1860
Freud, com 4 anos, muda-se com a família para Viena, em um bairro judeu.
1873
Aos 17 anos, inicia formação médica na Universidade de Viena. Sofre discriminação por ser judeu.
1878
Muda seu nome para Sigmund Freud.
1882
Conhece Martha Bernays. Josef Breuer cria o “método catártico” e trata de Bertha Pappenheim (Anna O.).
1885
Faz pesquisas em neurologia. Recebe bolsa para estudar com Charcot no Hospital Salpêtrière, em Paris.
1886
Casa-se com Martha e trabalha como neurologista. Apresenta seu trabalho sobre “histeria masculina” na Sociedade de Medicina de Viena.
1891
Publica seu primeiro livro: Sobre a concepção das afasias: um estudo crítico. Muda-se para o apartamento na Berggasse 19, atualmente Museu Freud. Morará ali até o exílio, em 1938.
1895
Lança Estudos sobre a histeria, com Breuer. Em 24 de julho, tem o inquietante sonho da Injeção de Irma.
1896
Morre Jacob Freud. Sigmund cunha o termo “psicanálise”.
1897
Analisa os próprios sonhos. Abandona a “teoria da sedução”.
1900
Publica A interpretação dos sonhos — marco maior do nascimento da psicanálise.
1901
Lança Psicopatologia da vida cotidiana.
1902
Funda a Sociedade Psicanalítica das Quartas-Feiras com Alfred Adler e Wilhelm Stekel.
1905
Publica o Caso Dora; Três ensaios sobre a teoria da sexualidade; Os chistes e sua relação com o inconsciente.
1908
Primeiro Congresso Internacional de Psicanálise em Salzburgo.
1909
Viaja com Jung e Ferenczi para Massachusetts, EUA, para ministrar Cinco lições sobre psicanálise na Clark University. Publica os casos do Pequeno Hans e do Homem dos Ratos.
1910
Segundo Congresso Internacional, em Nuremberg. É criada a Associação Psicanalítica Internacional (IPA), presidida por Jung.
1911
Publica o Caso Schreber. Primeira dissidência: Adler se afasta.
1913
Rompe com Jung em 6 de janeiro. Publica Totem e tabu.
1914
Lança A história do movimento psicanalítico, Introdução ao narcisismo e O Moisés de Michelangelo.
1918
Publica o caso do Homem dos Lobos.
1920
Lança Além do princípio do prazer — revisão da teoria pulsional. Propõe o conceito de pulsão de morte.
1921
Psicologia das massas e Análise do eu.
1923
Sai O Ego e o Id, propondo a “segunda tópica”. Primeira manifestação do tumor no maxilar.
1925
Lança Um estudo autobiográfico; escreve Inibições, sintomas e angústia (publicado em 1926), com a revisão da teoria da angústia.

A cronologia se estende até a morte de Freud em Londres, em 1939, após o exílio decorrente da ascensão nazista. Em 1938, ele deixa Viena com a família.

07
IPP 07 · Capítulo 3
A histeria

A doença das mulheres que falavam pelo corpo — e que mudou para sempre o que sabíamos sobre a alma.

A palavra histeria vem do grego hystéra, útero (ou ventre). A Antiguidade atribuía os sintomas a um suposto “útero errante” e acreditava que só as mulheres os manifestavam: paralisia, espasmos, sonambulismo, alucinações, perda da fala, dos sentidos, da memória. Da Idade Média ao início da Era Moderna, muitas dessas mulheres foram lidas como possuídas — e algumas, perseguidas como bruxas. (Vale a ressalva: a leitura “toda bruxa era uma histérica” é, em boa parte, uma reinterpretação retrospectiva feita no século XIX, no círculo de Charcot.)

Os especialistas da época observavam a histeria sob dois pontos de vista:

A A tese orgânica
Seria uma “irritação” dos órgãos femininos, que poderia ser tratada com pressão no ovário, com saco de gelo e intervenção cirúrgica no clitóris.
B A tese da simulação
Seria uma mera imaginação ou fingimento das mulheres.

Freud em Paris, com Charcot

Em sua primeira permanência na França, Freud se impressionou com as últimas investigações de Jean-Martin Charcot acerca da histeria: sobre a autenticidade das manifestações histéricas, a ocorrência frequente da histeria também em homens — e não somente nas mulheres, como se acreditava — e a produção de contraturas e paralisias histéricas por sugestão hipnótica, que manifestavam as mesmas características que os acessos espontâneos.

Além disso, a personalidade de Charcot foi determinante para Freud. Ao escrever para Martha, sua noiva, Freud comentou:

Charcot, que é um dos maiores médicos e um homem cujo bom senso beira o gênio, está simplesmente demolindo todos os meus objetivos e opiniões. Às vezes saio de suas aulas como quem sai de Notre-Dame, com uma ideia inteiramente nova sobre a perfeição. […] Nenhum outro ser humano jamais me afetou desse modo.

Freud, carta a Martha Bernays · 24 de novembro de 1885

Sendo Charcot um materialista, as explicações tinham que ser estritamente físicas, impedindo que Freud colocasse questões psíquicas para explicar o distúrbio. Freud desejava estabelecer a tese de que, na histeria, as paralisias e anestesias das várias partes do corpo achavam-se demarcadas de acordo com a ideia popular dos seus limites e não em conformidade com os anatômicos. Charcot concordou com este ponto de vista — mas não demonstrou interesse em aprofundar mais nas questões sobre a origem psíquica das neuroses. A ideia de Charcot de que a histeria não tinha nenhuma relação com órgãos sexuais femininos foi um avanço, mas fez com que Freud parasse, momentaneamente, de investigar a possível origem sexual de perturbações psicológicas.

Em abril de 1886, de volta a Viena, Freud abriu um consultório particular como médico neuropatologista. Diante das limitações da hipnose, foi se aproximando do contato com Breuer — e do caso que mudaria tudo.

08
IPP 08 · Capítulo 4
O caso de Anna O.

O caso fundador da psicanálise. Uma jovem de 21 anos. Um pai morrendo. E uma frase que vai dar nome a uma ciência: cura pela fala.

A paciente · 1880
Anna O.
Nome real: Bertha Pappenheim · 21 anos · Viena

Em 1882, Breuer contou a Freud um interessante caso de histeria. Tratava-se de sua paciente Anna O. Na ocasião em que adoeceu, em 1880, contava 21 anos de idade. Era dotada de grande inteligência e aprendia as coisas com impressionante rapidez e intuição aguçada. Possuía um intelecto poderoso, que teria sido capaz de assimilar um sólido acervo mental — embora não o recebesse desde que saíra da escola. Tinha grandes dotes poéticos e imaginativos, sob controle de um agudo e crítico bom senso. Um de seus traços essenciais de caráter era a generosa solidariedade. Seus estados de espírito eram sempre exagerados, tanto na alegria como na tristeza; era às vezes sujeita a oscilações de humor.

O começo da doença

Em 11 de dezembro de 1880, a paciente ficou acamada, e assim permaneceu até 1º de abril. Desde então começou a apresentar vários sintomas:

Os sintomas de Anna O.

  • Dor de cabeça occipital esquerda
  • Estrabismo convergente (diplopia)
  • Sensação de que as paredes vinham abaixo
  • Paralisia dos músculos anteriores do pescoço
  • Contraturas e anestesia do braço direito
  • Paralisia da perna esquerda
  • Posteriormente, paralisia de todo o corpo
  • Dois estados de consciência alternados
  • Desorganização funcional da fala
  • Perda quase total das palavras em alemão
  • Falar somente em inglês — sem perceber
  • Tosse nervosa diante de música rítmica
  • Recusa absoluta de beber água
  • Alucinações de cobras, caveiras e esqueletos

Os dois estados de consciência

Ela apresentava dois estados de consciência inteiramente distintos, que se alternavam de modo frequente e súbito, e que se tornaram cada vez mais diferenciados no curso da doença: num deles, ela reconhecia seu ambiente, ficava melancólica e angustiada, tinha alucinações e ficava “travessa” — isto é, agressiva, acusando as pessoas de fazerem coisas contra ela. Às tardes caía num estado de sonolência que durava até cerca de uma hora depois do pôr-do-sol. Então despertava e se queixava de que algo a estava atormentando, ficando repetindo “atormentando, atormentando”.

Quando Breuer adivinhou que ela estava reprimindo alguma ofensa e a obrigou a falar sobre o assunto, a inibição — que tornava impossível qualquer outra forma de expressão — desapareceu.

A morte do pai

No dia 5 de abril de 1881 morreu seu adorado pai. Durante a doença, só o viu em raros períodos curtos. Esse foi talvez o trauma mais grave que ela poderia ter experimentado: uma violenta explosão de excitação, entrando em profundo estado de choque que durou dois dias. Ao acordar, estava mais tranquila — mas a atitude negativa em relação aos parentes próximos foi se acentuando.

Dr. Breuer era a única pessoa que ela reconhecia. Enquanto conversava com ele, permanecia animada e em contato com as coisas. Surgiram fortes impulsos suicidas — e contra sua vontade, foi transferida para uma casa de campo nos arredores de Viena.

A invenção da “cura pela fala”

Breuer observou que, durante as alucinações diurnas, ela criava alguma situação ou episódio durante o qual murmurava algumas palavras. Quando a enfermeira repetia uma palavra ou uma frase enquanto ela alucinava, Srta. Anna imediatamente interrompia a alucinação e começava a retratar alguma situação ou a narrar alguma história. Momentos depois de concluir a narrativa, ela despertava mais acalmada.

Numa época de calor intenso, a paciente passou a sofrer de uma sede horrível, mas, sem que se pudesse explicar a causa, viu-se de repente impossibilitada de beber. Apanhava o copo, mas assim que o tocava com os lábios o repelia. Para amenizar a sede, vivia somente de frutas durante seis semanas. Após uma série de hipnoses, ela resmungou qualquer coisa a respeito de sua dama de companhia inglesa, a quem não se afeiçoava: fora certa vez ao quarto dessa senhora e vira o cãozinho dela — “criatura nojenta!” — bebendo num copo. Não tinha dito nada, pois quisera ser gentil. Depois de exteriorizar energicamente a cólera que havia contido, pediu para beber e bebeu sem qualquer dificuldade. A partir daí, esta perturbação desapareceu.

Foi assim que se chegou ao método terapêutico: os fenômenos histéricos desapareciam tão logo o fato que os havia provocado era reproduzido por hipnose. Suas paralisias espásticas e anestesias, os distúrbios da visão e da audição, as nevralgias, tosses, tremores e os distúrbios da fala foram, segundo as palavras da própria paciente, “removidos pela fala”. A esse método Breuer chamou de Catarse.

Removidos pela fala. Anna O. nomeando o método que mudaria a história da clínica

A repressão revelada

Devido à sua severa educação, a Srta. Anna reprimia diversos desejos. Durante uma discussão, reprimiu uma resposta à altura, e a raiva contida foi tão intensa que lhe provocou um espasmo de glote — e isto se repetia em todas as ocasiões semelhantes. Perdeu a capacidade de falar — como resultado do medo — após sua primeira alucinação à noite, reprimindo uma observação. Começou a tossir pela primeira vez quando, sentada à cabeceira do pai, ouviu o som de uma música para dançar vindo de uma casa vizinha. Sentiu um forte desejo de estar lá e foi dominada por impulsos de autorrecriminações. A partir de então, durante toda sua doença, reagia a qualquer música acentuadamente ritmada com uma tosse nervosa.

A transferência: o susto de Breuer

Com a melhora do estado psíquico, Breuer diminuiu a frequência de suas visitas para encerrar o tratamento. Mas Srta. Anna havia criado uma dependência à figura do médico. Após um longo período, Dr. Breuer foi chamado com urgência e encontrou a paciente novamente com alucinações, afirmando estar grávida — e que o filho era dele. A histeria havia tomado forças, criando sintomas de gravidez: produção de leite materno, inchaço no abdômen e contrações de parto.

Dr. Breuer, não sabendo lidar com esta situação, ficou extremamente chocado e afastou-se do caso por algum tempo. Viajou com sua esposa, justificando como uma segunda lua-de-mel.

Freud considerou extremamente interessante as observações de Breuer e começou a pesquisar entre seus próprios pacientes para ver se apresentavam as mesmas situações. Em 1893, em colaboração com Breuer, publicou o estudo preliminar Sobre os Mecanismos Psíquicos dos Fenômenos Histéricos; e em 1895 saiu o famoso Estudos sobre a Histeria.

Breuer, ainda traumatizado pelo susto que levou com Anna O., ao mesmo tempo em que discordava da orientação de Freud — cada vez mais dirigida para a sexualidade — abandonou definitivamente a nova ciência. Freud prosseguiu sozinho, com vigor redobrado, enfrentando as críticas mordazes e desdenhosas de todos os seus colegas.

Rigor histórico · o que veio depois

A “cura” que não foi bem uma cura

O relato acima é a versão fundadora da psicanálise — a que Freud ouviu de Breuer e consagrou. Mas a pesquisa histórica do século XX mostrou que ela idealiza o desfecho, e vale conhecer o que os documentos revelaram.

Anna O. não saiu curada em 1882. Poucas semanas após o fim do tratamento, Bertha Pappenheim foi internada no sanatório Bellevue, em Kreuzlingen (Suíça), ainda com a histeria, uma neuralgia facial intensa e dependência de morfina e de hidrato de cloral — estas duas iatrogênicas, isto é, causadas pelos próprios remédios que Breuer lhe dera. Foi o historiador Henri Ellenberger quem, em 1972, encontrou nos arquivos de Bellevue o prontuário original; Albrecht Hirschmüller publicaria os documentos por inteiro em 1978.

E a célebre cena da “gravidez histérica” com a fuga de Breuer? Ela não aparece no livro de 1895. Vem de cartas e conversas tardias de Freud (a Stefan Zweig, a Ernest Jones) e é hoje tratada como lenda de origem: não há documento da época que a confirme, e a cronologia não fecha — a filha caçula de Breuer, supostamente concebida na tal “segunda lua de mel”, nasceu antes do fim do tratamento.

Nada disso diminui a descoberta — ao contrário, mostra como uma ciência constrói (e às vezes embeleza) seus próprios mitos. E há uma justiça a fazer: longe de ser apenas “a paciente”, Bertha Pappenheim recuperou-se e tornou-se uma das grandes figuras da Alemanha — pioneira do trabalho social, feminista, tradutora de Mary Wollstonecraft e fundadora, em 1904, da Liga das Mulheres Judias. Morreu em 1936, muito respeitada, sem nunca ter admitido publicamente que fora Anna O.

Fontes: Ellenberger, The Story of “Anna O.” (1972); Hirschmüller, The Life and Work of Josef Breuer (1978); Borch-Jacobsen, Remembering Anna O. (1996).

09
IPP 09 · Capítulo 5
Da técnica da pressão à associação livre

O caminho do abandono da hipnose até a invenção da regra fundamental da psicanálise. E quem deu o último empurrão foi uma paciente.

Aos poucos, Freud abandonou a hipnose, procurando substituí-la por outro método. Ele tinha dúvidas em sua mente quanto ao emprego do hipnotismo, mesmo como meio para catarse. Uma delas: até mesmo os resultados mais brilhantes estavam sujeitos a ser de súbito eliminados, se sua relação pessoal com o indivíduo viesse a ser interrompida. Tal interrupção estava relacionada com a alteração da afetividade entre o terapeuta e seu cliente.

Os bons resultados podiam ser restabelecidos se uma reconciliação fosse efetuada — mas isso demonstrou que a relação emocional pessoal entre terapeuta e paciente era, afinal de contas, mais forte que todo o processo catártico, e foi precisamente essa sequência de fatos que deixava o tratamento fora de controle.

Essa experiência ocorreu com uma de minhas pacientes mais dóceis, com a qual o hipnotismo me permitia minorar os sofrimentos, fazendo remontar seus ataques de dor a suas origens. Certa ocasião, ao despertar, lançou os braços em torno do meu pescoço. A entrada inesperada de um empregado nos livrou de uma situação penosa, mas, a partir daquela ocasião, houve um entendimento consciente de minha parte de que o tratamento hipnótico deveria ser interrompido. Senti, então, que havia apreendido a natureza do misterioso elemento que se achava em ação por trás do hipnotismo. A fim de excluí-lo, ou de qualquer maneira isolá-lo, foi necessário abandonar o hipnotismo.

Sigmund Freud · Um Estudo Autobiográfico, 1925

A técnica da pressão

Na tentativa de encontrar um substituto, Freud lembrou-se das várias experiências testemunhadas em Nancy com o Prof. Bernheim. Quando o paciente despertava de seu estado de sonambulismo, parecia haver perdido toda a recordação do que tinha acontecido durante a hipnose. Mas Bernheim afirmava que a lembrança se achava presente — insistia para que o paciente se recordasse, afirmava que ele sabia de tudo, que tinha apenas que falar, e ao mesmo tempo punha a mão na testa do paciente. Então as lembranças esquecidas de fato voltavam — de início de forma insegura, e finalmente com clareza.

Freud determinou que agiria da mesma forma com seus pacientes: a Técnica da Pressão. Sem dúvida, parecia um processo mais laborioso do que a hipnose, mas trazia resultados altamente instrutivos. Abandonou completamente o hipnotismo, conservando apenas o ato de pedir à pessoa que ficasse deitada no divã, enquanto ele ficava sentado ao lado, vendo-a sem ser visto.

Resistência e repressão

O que ocorria com as pessoas que se haviam esquecido de tantos fatos de suas vidas externas e internas, mas podiam, não obstante, recordá-los se uma técnica específica fosse aplicada? A observação forneceu uma resposta: o esquecido era sempre algo penoso para o indivíduo, e era exatamente por isso que havia sido esquecido.

Quando Freud abandonou as perguntas no trabalho terapêutico e deixou os pacientes darem livre curso às ideias, observou que muitas vezes ficavam embaraçados e envergonhados com algumas ideias ou imagens que lhes ocorriam. A esta força psíquica que se opunha a tornar consciente e a revelar um pensamento, Freud denominou resistência. E chamou de recalque — em alemão Verdrängung, que parte das edições brasileiras também verte como repressão — o processo psíquico, inconsciente, que visa encobrir e fazer desaparecer da consciência uma ideia ou representação insuportável e dolorosa, que está na origem do sintoma.

O salto: Emmy von N. e a associação livre

Foi Emmy von N. — a suíça Fanny Moser, tratada a partir de 1889 — quem deu o empurrão decisivo. Cansada de ser interrompida, pediu a Freud, sob hipnose, que parasse de perguntar de onde vinha isto e aquilo e a deixasse contar o que tinha a dizer. Freud acatou; e, aos poucos, foi abandonando a pergunta — e com ela a direção da sessão — para confiar por completo na fala da paciente. O passo seguinte — a “técnica da pressão” sobre a testa e a que Freud chamaria de sua “primeira análise completa de uma histeria” — viria com Elisabeth von R. (Ilona Weiss, 1892). Estava fundada a associação livre.

Freud ficou convencido de que as barreiras contra o recordar e o associar provinham de forças mais profundas, inconscientes, que funcionavam como verdadeiras resistências involuntárias. Isto constituiu uma marcante ruptura do sistema: Freud começou a cogitar que essas resistências correspondiam a repressões daquilo que estava proibido de ser lembrado — não só dos traumas sexuais realmente acontecidos, mas também daquilo que fora fruto de imaginação reprimida.

Tais descobertas constituíram a base principal da compreensão das neuroses e impuseram uma modificação do trabalho terapêutico. Meu objetivo era descobrir as repressões e suprimi-las através de um juízo que aceitasse ou condenasse definitivamente o excluído pela repressão. Considerando este novo estado de coisas, dei ao método de investigação e cura resultante o nome de psicanálise em substituição ao de catártico.

Sigmund Freud

A regra fundamental

Em vez de incitar o paciente a dizer algo sobre algum assunto específico, pedi-lhe então que se entregasse a um processo de associação livre — isto é, que dissesse o que lhe viesse à cabeça, enquanto deixasse de dar qualquer orientação consciente a seus pensamentos. Era essencial, contudo, que ele se obrigasse a informar literalmente tudo o que lhe ocorresse, e não desse margem a objeções críticas que procurassem pôr certas associações de lado com base no fundamento de que não eram irrelevantes ou destituídas de sentido. Não houve necessidade de repetir explicitamente a exigência de franqueza por parte do paciente, pois era pré-condição do tratamento analítico inteiro.

Sigmund Freud — sobre a regra fundamental

Pode parecer surpreendente que o método da associação livre, levado a cabo sob a observação da regra fundamental da psicanálise, deva ter alcançado o que dele se esperava: levar à consciência o material reprimido que era retido por resistências. Deve-se, contudo, ter em mente que a associação livre não é realmente livre. O paciente permanece sob influência da situação analítica, muito embora nada esteja dirigindo suas atividades mentais para um assunto específico. Justifica-se presumir que nada lhe ocorrerá que não tenha alguma referência com sua situação. Sua resistência contra a redução do material reprimido será expressa de várias maneiras: desejo, frustração, ódio, destruição, culpa, reparação e autopunição.

O analista, que escuta serenamente, sem qualquer constrangimento, à torrente de associações, e que, pela sua experiência, possui uma ideia geral do que esperar, pode fazer uso do material trazido à luz pelo paciente de acordo com suas possibilidades. A descoberta da resistência constitui o primeiro passo no sentido de superá-la. Assim, o trabalho de análise implica uma arte de interpretação, cujo manuseio bem-sucedido pode exigir tato e prática.

A psicanálise nasce no momento em que Freud cala, escuta — e descobre que o que escapa ao controle consciente do paciente é justamente o que precisa ser ouvido. Síntese da aula
Método · Como esta matéria se estuda

A estrutura, não a erudição

Há um modo de estudar psicanálise que enche a cabeça e não trata ninguém. E há o modo desta formação: entender como cada coisa é montada por dentro.

Freud fumava de vinte a vinte e cinco charutos por dia e falava seis línguas. São dados agradáveis de ouvir, e o cérebro gosta de história. Nenhum deles trata um paciente. Ninguém vai precisar dessa informação dentro de um consultório.

O que trata é outra coisa. Diante de um pânico, o que interessa é como o pânico se estrutura. Diante de uma fobia, como uma fobia se monta. Decorar a lista de transtornos e saber que existe nome técnico para o medo de trator não trata ninguém. Quem entende a estrutura pega qualquer fobia, inclusive as que não estão em lista nenhuma.

Se você entende da estrutura, você pega qualquer fobia. Qualquer fobia. Se você for bom nos fundamentos, eu consigo tratar a fobia. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Módulo 1 · 26/02/2024

Daí a ordem deste curso: primeiro os fundamentos e as estruturas, depois a lista de sintomas de cada quadro. Nunca o contrário. Quem começa pela lista termina com um vocabulário grande e uma clínica pequena.

Existe uma razão para isso. A mente é mais matemática do que parece: funciona por leis e por encadeamentos. É por isso que alunos vindos de áreas lógicas costumam ir bem aqui, porque a psique se lê como se lê uma linha de comando. Entendidas as regras, os cálculos saem. Quando um conceito ainda soa vago e filosófico demais, o problema não está no conceito: ou ele não foi entendido, ou não foi bem ensinado.

Dominar um autor pelo aparelho psíquico dele

Cada autor da psicanálise desenhou um aparelho psíquico. Pegar esse aparelho e entender de fato como ele funciona, peça por peça, função por função, é o caminho mais curto para o pensamento inteiro daquele autor. Quem sabe o aparelho sabe como o autor concebeu a obra.

O exercício material disso é a cartolina: desenhar o aparelho psíquico do autor e escrever, ao lado de cada peça, todas as funções dela. São muitas cartolinas ao longo da formação, e é assim mesmo que se faz.

As funções do ego

Um exemplo do que essa exigência muda na prática. O ego se divide em dois: ego inconsciente e ego consciente. Cada um tem funções próprias.

Ego inconsciente
Sistema de ansiedade, identificação e mecanismos de defesa. São operações que acontecem fora do alcance do juízo crítico.
Ego consciente
Mobilidade, juízo crítico, comunicação e sintetização. É a parte do ego que percebe, avalia, fala e junta as informações.

Agora a frase que todo mundo repete: aquela pessoa teve um surto psicótico. O que é um surto psicótico? É a perda do ego consciente. Quem não sabe o que cada ego faz apenas decorou a frase.

Quem sabe, sabe o resto junto. Sabe qual função exatamente o paciente perdeu. Sabe por que ele está mais inconsciente. Sabe quem está mandando naquele momento e com que mão entrar. É a diferença entre abrir um motor sabendo quais peças pararam e abrir um motor sem conseguir nomear o defeito.

Origens · Quem depositou a semente

Freud não é o pai da psicanálise, é a mãe

A ideia de uma segunda mente é muito mais velha que Freud. O que ele fez foi outra coisa, e é essa outra coisa que funda a clínica.

A suspeita de que existe em nós algo que decide sem nos consultar atravessa a filosofia inteira. Está em Platão e em Aristóteles. Está no texto bíblico, na frase de Paulo: “não faço o bem que quero, e faço o mal que não quero”. É uma descrição exata do inconsciente, escrita muito antes de a palavra existir.

Freud não foi o primeiro a analisar. Foi o primeiro a estruturar. Mostrou como esses mecanismos funcionam, ligou o sintoma à causa, percebeu que aquele sintoma vinha de um recalque. Deu nome às peças, desenhou o encaixe entre elas e transformou o conjunto em metodologia e em caminho de tratamento.

Eu falo que ele não é o pai, ele foi a mãe. Ele fez a gestação de algo. Mas essa semente já é uma semente velha. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Módulo 1 · 26/02/2024

O pai foi Breuer

Se Freud gestou, alguém depositou a semente. Foi Josef Breuer: médico mais velho, mais bem estabelecido, que encaminhava pacientes a Freud e que o mandou estudar com Charcot. Sem Breuer não há Anna O., não há método catártico, e Freud não tem diante de si o material que o obrigou a pensar.

A cura pela chaminé

Há um detalhe do tratamento de Bertha Pappenheim que costuma passar batido. Breuer tentava hipnotizá-la. Queria primeiro fazê-la dormir, para então começar a hipnose. Ela não queria dormir. Mandou o médico se calar e disse que se curava pela palavra: não precisava dormir para que seus conteúdos saíssem.

O nome foi dela. Chamou aquilo de cura pela chaminé, a fumaça que sai enquanto se fala. Quem criou a cura pela palavra foi a própria paciente. Ela ensinou o método ao médico, e não o contrário.

O silêncio que funda a clínica

Vale medir a cena. Viena, começo da década de 1880. De um lado, um homem, médico, bem-sucedido, dono de todo o poder social daquele quarto. Do outro, uma jovem paciente histérica. Ele tinha tudo para dizer que quem mandava ali era ele.

Ele calou. Disse a ela que continuasse falando e ficou de fora, observando como cientista, entendendo que alguma coisa estava acontecendo. A psicanálise nasce nesse silêncio. Nasce quando o médico abre mão da própria autoridade e a consulta passa a ser conduzida pelo que a paciente tem a dizer.

Delimitação · Onde cada campo trabalha

Três campos, uma ordem

Psicanálise, psicologia e behaviorismo não disputam o mesmo terreno. Cada um olha uma camada, e existe uma ordem entre elas.

Psicanálise
Estuda os conteúdos inconscientes. É sobre o não sabido: o que eu não sei sobre mim, o que está recalcado e o modo como isso reaparece no sintoma.
Psicologia
Estuda o que eu sei sobre mim. Trabalha o conteúdo que já está mais próximo da consciência.
Behaviorismo
Olha o indivíduo pelo comportamento, de forma consciente. Por isso se liga de perto às estruturas de caráter e de personalidade.

Quando o sintoma é psicanalítico. São psicanalíticos os sintomas psicossomáticos, comportamentais ou de ideia que fogem da realidade. A pessoa está vivendo uma realidade e aquele sintoma não condiz com ela. Quando não condiz, vem do inconsciente.

A ordem do tratamento

A sequência do trabalho não é negociável. Cada etapa só se sustenta sobre a anterior.

  1. Investigar o inconsciente, o saber sobre o não sabido.
  2. Encontrar os pontos de fixação.
  3. Entender a construção do caráter.
  4. Estruturar esse caráter.
  5. Fazer com que esse caráter vença a primitividade do inconsciente.
  6. Tornar o indivíduo mais consciente.

Vista assim, a briga entre escolas perde o sentido. A psicanálise guerreou uma vida inteira com quem estava do outro lado, cada um afirmando estar certo. Os dois estão certos: o que existe é uma ordem, e nela vem primeiro uma coisa e depois a outra. O behaviorismo entra como aliado quando o assunto é estrutura de caráter, comportamento e o indivíduo em ação. A neurologia entra para explicar o tronco cerebral, o sistema límbico e o neocórtex.

O que se fortalece

Vale reler o aparelho freudiano em termos de força relativa. O id é o desejo. O ego é o eu. O superego são os valores, as crenças e os princípios, ou seja, a regra. Quando a regra é mais forte que o eu, quem manda na casa é o superego. Pais controladores, sociedade controladora, religião controladora, e o desejo recalcado o tempo todo. É aí que começam os quadros de ansiedade, de pânico e de TOC. Excesso de recalque.

A psicanálise leu isso e atacou o superego: quebrar a regra para deixar o desejo sair. Muitos tabus caíram, e o impacto social foi enorme. O problema apareceu depois. O ego continuou fraco, e o que saiu no lugar da regra não foi o eu. Foi o id. Uma sociedade que quebrou tabus e seguiu vazia, sem saber quem é e sem viver um propósito.

A régua. Qualquer escolha de vida está certa desde que quem decida seja o ego. O critério clínico não é o conteúdo da escolha, é a instância que decide. Um ego forte, competente e maduro pode decidir o que bem entender. O que não pode é decidir o superego, e não pode decidir o id.

Por isso o trabalho é fortalecer o ego, e fortalecer significa dar competência a ele. Estudam-se as estruturas de caráter, as estruturas de personalidade e as faltas para descobrir uma coisa: que competência aquele ego não tem. Ele não consegue dominar o próprio superego, não consegue dominar a própria primitividade, não consegue elaborar quais desejos podem e quais não podem ser realizados.

A clássica mergulha no inconsciente e entende os conteúdos. Aqui se mergulha, se entende, e depois se volta com uma tarefa: deixar de ser inconsciente. Parar de funcionar a partir da falta e do trauma, e passar a funcionar a partir da consciência. Quem entende quem é passa a ser movimentado pelo próprio propósito.

Para que serve saber tudo isso

O intelecto é uma forma de poder, como o dinheiro, a fama e a força. Quem estuda para cobrir uma falta com o intelecto, para poder dizer que é psicanalista ou para mostrar o quanto sabe, escolheu o caminho errado. Autoconhecimento é legítimo. Título e discurso não são a mesma coisa que autoconhecimento.

Aprender, aprender, aprender sem servir a ninguém tem nome: obesidade intelectual. É ego, arrogância e orgulho ocupando o lugar do estudo. E há uma contradição particular no analista formal demais: ele é, por profissão, quem mais entende de linguagem, de superego e de mal-estar na civilização. Deveria ser o último a falar difícil só para não ser criticado.

O conhecimento tem que servir ao outro. Se o conhecimento não servir ao outro, caminho errado, esquece isso. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Módulo 1 · 26/02/2024
Para ir além · fontes desta aula

Bibliografia

As leituras em que esta aula se apoia — e por onde seguir.

Fontes primárias

História e comentário

Leia também
O aparelho psíquico : as duas tópicasPsicanálise e Autores Teoria psicanalíticaPsicanálise e Autores O Aparelho Psíquico da VirtologiaConsciente e inconsciente não são lugares, são estados — e o destino do sistema depende da força do Ego e do seu…