As estratégias inconscientes que o Ego desenvolve para se proteger da angústia — da repressão clássica freudiana à identificação projetiva kleiniana e à forclusão lacaniana.
O Ego não vive em paz. Ele é constantemente assediado pelas pulsões do Id, pelas exigências do Superego e pelas demandas da realidade externa. Para não sucumbir a esse triplo cerco, desenvolve um arsenal de estratégias inconscientes — os mecanismos de defesa.
Do ponto de vista dinâmico, o Ego representa eminentemente — no conflito neurótico — o polo defensivo da personalidade. Põe em jogo uma série de mecanismos de defesa, motivados pela percepção de um afeto desagradável: o sinal de angústia. Quando o Ego percebe que uma representação interna — um desejo, uma fantasia, uma lembrança — é inconciliável com sua imagem de si, ele a recalca. Mas o material recalcado não desaparece: ele continua fazendo parte da psique e continua causando problemas.
Os mecanismos de defesa não são, em si mesmos, patológicos. Todos nós, sem exceção, recorremos a eles o tempo todo — para manejar pequenas frustrações cotidianas, para tolerar perdas, para sustentar a autoimagem, para conviver com o inconciliável. O que torna uma defesa patológica não é sua existência, mas seu uso excessivo, rígido ou inadequado à situação. Quando o mecanismo deixa de servir à adaptação e passa a impedir o contato com a realidade, ele se torna sintoma.
O conceito de defesa atravessa toda a obra freudiana — desde os primeiros textos sobre histeria, nos anos 1890, até a metapsicologia tardia. Mas foi Anna Freud, a filha de Freud, quem sistematizou o catálogo dos mecanismos numa obra de 1936: O Ego e os Mecanismos de Defesa. Anna Freud transformou observações dispersas de seu pai num inventário organizado — e abriu caminho para toda a Ego Psychology que dominaria a psicanálise norte-americana no século XX.
O Ego é a "massa dominante de representações" que é ameaçada por uma representação considerada inconciliável com ele — e por isso ele recalca. Freud descreve a repressão (1894), depois a regressão, a formação reativa, o isolamento, a anulação retroativa.
Para Freud, o Ego é, ao mesmo tempo, agente da defesa e parte interessada no conflito. Ele se defende daquilo que o ameaça, mas frequentemente ao custo de abandonar parte de si mesmo a um processo sobre o qual perde domínio.
Em O Ego e os Mecanismos de Defesa, Anna Freud catalogou os mecanismos descritos por seu pai e acrescentou outros — entre eles a identificação com o agressor, que viria a se tornar um dos conceitos mais influentes da psicanálise do trauma.
Sua obra inaugura uma psicologia centrada no Ego — preocupada com a adaptação, a defesa e a sustentação da personalidade — em contraposição ao foco freudiano original no Id e nas pulsões.
Antes mesmo de pensarmos cada mecanismo isoladamente, precisamos entender a sua função geral: a formação daquilo que Wilhelm Reich chamou de "couraça de caráter" — o endurecimento do Ego como resposta ao medo.
É o caso do indivíduo que apresenta temor ao castigo, consciente ou inconsciente — temor constantemente reativado pela conduta real dos pais e educadores. A formação da couraça de caráter, ou endurecimento no Ego, realiza-se com base em três processos fundamentais: associação, identificação e projeção.
É o caso do indivíduo que tem uma identificação com a realidade frustradora — especialmente com a figura paterna que representa essa realidade — constituindo um mecanismo de defesa do Ego. Freud observou indivíduos que tinham identificação com o agressor temido. Esse processo dá à "couraça de caráter" conteúdos cheios de sentido. O indivíduo obsessivo cria um bloqueio afetivo:
É o caso do indivíduo que vive se afirmando: "Devo exercer o autocontrole, como meu pai sempre me disse." E, num passo seguinte: "Devo preservar as possibilidades de prazer e conseguir que meu pai me seja totalmente indiferente."
É o caso do indivíduo que dirige a agressão que o mobiliza contra o Outro frustrador — e que, por sua vez, lhe produz sentimentos de culpa e angústia, e volta-a contra si mesmo. Um processo que mobiliza a maior parte da "energia agressiva", privando-o da possibilidade de expressão motora, criando uma aparência de caráter inibido.
Para Wilhelm Reich, o Ego utiliza a energia do próprio instinto contra as tendências à realização de atitudes reativadas. Esse processo retira certas quantidades de carga do impulso libidinal reprimido — que, portanto, perde capacidade para transpor a barreira da repressão. Desse modo, a formação da couraça de caráter do Ego provém como resultado da angústia por "temor ao castigo", às custas da energia do Id, e contendo as proibições da educação precoce.
O Ego é um pobre coitado que serve a três senhores severos e tem que harmonizar suas exigências. Esses três senhores são o mundo externo, o Superego e o Id.Sobre a posição do Ego
Antes que qualquer outro mecanismo entre em ação, a repressão já operou. É o ato fundador do inconsciente: afastar do consciente o que é inconciliável com ele, sem deixar de manter-lhe contato. Tudo o mais é variação dessa operação primordial.
A essência da repressão consiste em afastar uma determinada coisa do consciente, mantendo-a a distância, no inconsciente.
Sigmund Freud · 1915
A repressão afasta da consciência um evento, ideia ou percepção potencialmente provocadores de ansiedade — e impede, dessa forma, qualquer "manipulação" possível desse material. Entretanto, o material reprimido continua fazendo parte da psique, apesar de inconsciente. E continua causando problemas.
Freud observou os mecanismos de defesa na relação existente entre o psiquismo do indivíduo, mundo exterior, cultura e sociedade. Considerou que uma das características da evolução é a transformação paulatina da repressão externa em repressão interna — através da instância psíquica do Superego, que incorpora a repressão externa às suas "leis": crenças, valores e princípios.
A Psicanálise formulou o conceito de resistência (mecanismo de defesa) como sendo a estrutura-força que mantém a repressão no indivíduo. A Sociologia aproveitou o conceito já existente de preconceito, e o adotou como termo técnico — usando-o extensamente na interpretação dos fatos sociais.
Com este mecanismo de resistência, o indivíduo toma como suas próprias as restrições que lhe impõe a sociedade em que vive — impondo-as a si mesmo e aos outros. O que o torna incapaz de criticar a mesma sociedade, tornando-o passivo às normas que lhe foram impostas. A análise de Freud evidencia que a repressão que a sociedade exerce sobre os indivíduos deixa neles a marca do medo de ser feliz. Isto origina, por seu turno, desejos de agressão que a sociedade tem de conter — através das leis, do policiamento e das críticas.
A partir da repressão originária, o Ego desenvolve uma série de mecanismos especializados. Cada um responde a uma situação particular — e cada um deixa marcas características na vida psíquica do sujeito.
Negação é a tentativa de não aceitar na consciência algum fato que perturba o Ego. Os adultos têm a tendência de fantasiar que certos acontecimentos não são, de fato, do jeito que são — ou que na verdade nunca aconteceram. Este voo de fantasia pode tomar várias formas, algumas das quais parecem absurdas ao observador objetivo.
A notável capacidade de lembrar-se incorretamente de fatos é a forma de negação encontrada com maior frequência na prática psicoterápica. O paciente recorda-se de um acontecimento de forma vívida; mais tarde, pode lembrar-se do incidente de uma maneira diferente — e, de súbito, dar-se conta de que a primeira versão era uma construção defensiva.
Racionalização é o processo de achar motivos lógicos e racionais aceitáveis para pensamentos e ações inaceitáveis. É o processo através do qual uma pessoa apresenta uma explicação que é logicamente consistente ou eticamente aceitável para uma atitude, ação, ideia ou sentimento que causa angústia.
Usa-se a racionalização para justificar comportamentos quando, na realidade, as razões para esses atos não são recomendáveis.
Esse mecanismo substitui comportamentos e sentimentos que são diametralmente opostos ao desejo real. Trata-se de uma inversão clara — e, em geral, inconsciente — do verdadeiro desejo.
Como outros mecanismos de defesa, as formações reativas são desenvolvidas, em primeiro lugar, na infância. As crianças — assim como incontáveis adultos — tornam-se conscientes da excitação sexual que não pode ser satisfeita, e evocam consequentemente forças psíquicas opostas a fim de suprimirem efetivamente este desprazer. A supressão se dá pela construção de barreiras mentais contrárias ao verdadeiro sentimento sexual: a repugnância, a vergonha e a moralidade.
É um processo psíquico típico da neurose obsessiva, que consiste em isolar e excluir completamente do consciente um comportamento ou um pensamento — de tal maneira que as suas ligações com os outros pensamentos, ou com o autoconhecimento, ficam absolutamente interrompidas.
O isolamento manifesta-se em diversos sintomas obsessivos. Vemo-lo particularmente em ação no tratamento — onde a diretriz da associação livre, por lhe ser oposta, coloca-o em evidência.
O ato de atribuir a uma pessoa, animal ou objeto as qualidades, sentimentos ou intenções que se originam em si próprio é denominado projeção. A projeção é um mecanismo de defesa através do qual os aspectos da personalidade de um indivíduo são deslocados de dentro deste para o meio externo.
A ameaça é tratada como se fosse uma força externa — e a pessoa com projeção pode, então, lidar com sentimentos reais, mas sem admitir ou estar consciente do fato de que a ideia ou comportamento é dela mesma. Sempre que caracterizamos algo de fora de nós como sendo mau, perigoso, pervertido, imoral — sem reconhecermos que essas características podem também ser verdadeiras para nós — é provável que estejamos projetando.
Regressão é um retorno a um nível de desenvolvimento anterior, ou a um modo de expressão mais simples ou mais infantil. É um modo de aliviar a ansiedade — escapando do pensamento realístico para comportamentos que, em anos anteriores, reduziram a ansiedade.
Freud diferenciou o conceito de regressão em três espécies:
É o mais eficaz dos mecanismos de defesa — na medida em que canaliza os impulsos libidinais para uma postura socialmente útil e aceitável.
A energia associada a impulsos e instintos socialmente e pessoalmente constrangedores é — na impossibilidade de realização destes — canalizada para atividades socialmente meritosas e reconhecidas. A frustração de um relacionamento afetivo e sexual mal resolvido, por exemplo, é sublimada na paixão pela leitura ou pela arte.
É o mecanismo de defesa onde a pessoa substitui a finalidade inicial de uma pulsão por outra diferente — e socialmente mais aceita.
O deslocamento é muito corrente nos sonhos, onde uma coisa representa outra. Também se manifesta na transferência, fazendo com que o indivíduo apresente sentimentos em relação a uma pessoa que, na verdade, lhe represente uma outra no passado. Esse fenômeno — particularmente visível na análise do sonho — encontra-se na formação dos sintomas psiconeuróticos e, de um modo geral, em todas as formações do inconsciente.
As formações defensivas na neurose obsessiva precisam se especializar — e esse sujeito apresentará um campo florido de técnicas de disfarce para tentar ludibriar seu superego feroz.
O Ego do neurótico obsessivo terá de recorrer a defesas secundárias especializadas. A neurose obsessiva constrói um conjunto de outros sintomas, que são as defesas secundárias. Todas essas defesas se agrupam para combater o material reprimido — e acabam por construir as ações obsessivas, constituindo novas formações defensivas.
Entre os mecanismos de defesa típicos da neurose obsessiva, encontramos a formação reativa, a anulação retroativa, o isolamento e o deslocamento. Os dois primeiros já vimos; vejamos agora o terceiro mecanismo característico:
É uma compulsão de tipo mágico, característica da neurose obsessiva — que consiste em "mecanismo psicológico pelo qual o sujeito se esforça por fazer com que pensamentos, palavras, gestos e atos passados não tenham acontecido". Para isso, utiliza um pensamento ou comportamento na direção oposta.
A anulação retroativa seria a tentativa de invadir o impulso — pelos rituais e cerimônias obsessivas — na tentativa de anular algo considerado ruim, seja feito, pensado ou fantasiado.
Na neurose obsessiva é encontrada pela primeira vez nos sintomas bifásicos, nos quais uma ação é cancelada por uma segunda — do modo que é como se nenhuma ação tivesse ocorrido, ao passo que, na realidade, ambas ocorreram. O obsessivo se esforça em "dissipar com um sopro" não meramente as consequências de um evento, mas o próprio evento.
Quando o medo é grande demais, o psiquismo encontra uma saída paradoxal: tornar-se aquele que provoca medo. Anna Freud descreveu esse mecanismo — e ele explica fenômenos que vão da repetição transgeracional do abuso à síndrome de Estocolmo.
A expressão identificação com o agressor não figura nos escritos de Freud — mas houve quem observasse que ele descreveu o seu mecanismo, particularmente a propósito de certas brincadeiras de criança, no capítulo III de Além do Princípio do Prazer. É um mecanismo de defesa isolado e descrito por Anna Freud em 1936.
O sujeito, confrontado com um perigo exterior — representado tipicamente por uma crítica emanada de uma autoridade — identifica-se com o seu agressor. Isso pode acontecer de três maneiras:
Daniel Lagache prefere situar a identificação com o agressor na origem da formação do ego ideal: no quadro do conflito de demandas entre a criança e o adulto, o sujeito identifica-se com o adulto dotado de onipotência — o que implica o desconhecimento do outro, a sua submissão, até mesmo a sua abolição.
Klein acrescenta ao arsenal freudiano dois mecanismos mais primitivos — operantes desde os primeiros meses de vida, característicos da posição esquizoparanoide. Eles explicam o que Freud, focado na neurose, deixou em aberto: a psicose e os estados-limite.
Os mecanismos de repressão, negação e recusa são operações mentais defensivas descritas por Freud — que têm por objetivo proteger o ego da ansiedade excessiva produzida pelo contato com uma experiência que não pôde ser assimilada. Todos estes mecanismos de defesa, ao eliminar conteúdos mentais (ideacionais ou afetivos) da consciência, interferem no acesso à realidade.
Klein acrescenta a estes mecanismos de defesa dois outros, ainda mais primitivos: a cisão e a identificação projetiva.
É a defesa mais arcaica de todas — operante desde os primeiros meses de vida. Consiste em separar radicalmente bom e mau, amado e odiado, dentro e fora, como se fossem categorias absolutas. O bebê faz isso com a mãe (seio bom × seio mau), e o adulto, em momentos de regressão, pode voltar a fazê-lo com pessoas e situações.
Sob tensão, o ego tende a separar-se — comumente segundo as linhas de clivagem dos objetos que foram assimilados. Contudo, processos mais ativos de cisão podem se dar com fragmentação considerável — assim como distúrbios do pensamento e de todas as outras funções.
É o protótipo do relacionamento objetal agressivo — representando um ataque a um objeto, ao forçar "partes do ego" neste, a fim de apoderar-se de seus conteúdos ou controlá-lo. Trata-se de uma fantasia distanciada da consciência, que traz consigo uma crença de que certos aspectos do self acham-se situados alhures.
Para Klein, a identificação projetiva constitui uma visão mais radical da projeção: parte do self é atribuída a um objeto. Parte do ego — um estado mental, como uma raiva indesejada, ódio ou outro sentimento mau — é vista em outra pessoa e completamente repudiada, negada.
Bion estabeleceu ser complexa a diferença entre a identificação projetiva normal e anormal — dependendo do grau de violência na execução do mecanismo. A forma anormal evacua de modo violento um estado mental penoso. A forma normal introduz no objeto um estado mental como meio de comunicar-se com ele a respeito desse estado — e é fundamental para o desenvolvimento da capacidade de pensar.
Lacan propõe um mecanismo mais radical que a repressão e que a projeção — específico da psicose. Não é um conteúdo que retorna deformado: é um significante que jamais foi inscrito, e que retorna no real como delírio e alucinação.
Freud tentou explicar a formação do delírio utilizando a teoria da projeção — o que não se mostrou satisfatório, visto que, como ele mesmo afirmou, a projeção não é específica da paranoia e não tem a mesma função em todas as paranoias, podendo ainda ser observada na vida cotidiana dos neuróticos. Nessa época, Freud tentava usar mecanismos neuróticos para explicar a psicose.
Uma das maiores contribuições de Lacan à teoria das psicoses veio preencher essa lacuna: o conceito de forclusão — uma hipótese sobre o mecanismo psíquico de defesa presente na origem da psicose.
Lacan afirmou que não existe recalque na psicose. A forclusão não é um fenômeno observável, mas um mecanismo específico — muito mais radical que a projeção pensada por Freud.
"Forclusão" é um termo de origem jurídica — refere-se à cessação de um direito quando não exercido no devido prazo. Na psicanálise, denota um determinado tipo de incidência da função paterna na relação mãe-bebê. Lacan acentuou, assim, a importância da função paterna na estruturação do aparelho psíquico.
Nas neuroses, em que o recalque opera como um dos principais mecanismos de defesa, observamos o seu contraponto: o retorno do recalcado. Nas psicoses, encontramos o retorno do forcluído: o que é forcluído do Simbólico retorna no Real — como delírios e alucinações, sintomas clássicos das psicoses.
Para que a psicose se desencadeie, é preciso que o Nome-do-Pai — verworfen, forcluído, isto é, jamais advindo no lugar do Outro — seja ali invocado em oposição simbólica ao sujeito.
Jacques Lacan · 1988
Os mecanismos de defesa, em si, não são patológicos. Eles existem para preservar o psiquismo. Mas quando se cristalizam, quando se tornam rígidos, quando deixam de servir à adaptação — então se transformam, eles próprios, em sintoma.
Os mecanismos de defesa são inconscientes e automáticos. Eles operam sem que o sujeito perceba — o que é, ao mesmo tempo, sua eficácia e seu perigo. Quando os mecanismos de defesa não promovem a adaptação saudável e a preservação do bem-estar emocional, e continuam se manifestando automaticamente, podem ser interpretados como manifestações patológicas.
A distinção entre defesa normal e defesa patológica não está na natureza do mecanismo em si, mas em:
Na clínica, a tarefa do analista não é eliminar as defesas — elas são necessárias, e tentá-las desmontar abruptamente seria expor o sujeito a angústias intoleráveis. A tarefa é, antes, tornar consciente o uso das defesas: permitir que o paciente reconheça quando, como e por que recorre a elas — e, a partir desse reconhecimento, escolha de forma mais livre se quer continuar usando-as ou substituí-las por mecanismos mais flexíveis.
Klein e seus continuadores avançam uma posição radical: para eles, as pessoas não sofrem apenas de carências, traumas ou repressões. Elas sofrem também de falta de experiências emocionais que propiciem um desenvolvimento. A função terapêutica da interpretação só é efetiva se promove um insight. Através de sucessivos insights, o paciente vivencia uma gama variada de estados emocionais e se familiariza com diferentes aspectos de sua personalidade — tornando-se mais tolerante a estados psíquicos que até então evitava.
Progressivamente, diz Hanna Segal, o paciente começa a conhecer não somente as suas pulsões e a natureza de sua relação com os objetos internos, mas igualmente o tipo de defesas que utiliza. E é nessa familiarização — nesse conhecer-se — que a possibilidade de mudança se abre.
Conhecer-se é mudar.Sobre a função do insight na análise
Todo mecanismo de defesa tem a mesma arquitetura. Embaixo dele há sempre uma dor, um sofrimento ou uma angústia. Em cima dele há sempre uma justificativa aceitável. E no meio há um Ego que não sabe lidar com alguma coisa.
São três coisas diferentes, e confundi-las inviabiliza a leitura do caso. Atrás de qualquer defesa está uma das três.
Dor. É real e acontece agora. Pode ser física, como a coluna ou o estômago, ou emocional, como ser demitido e ser humilhado. A dor é o registro correto do momento: corresponde a algo que de fato aconteceu.
Sofrimento. É a dor esticada no tempo pela resistência. A dor aconteceu e não foi aceita, e o que se prolonga é a recusa. Os marcadores do sofrimento são sempre os mesmos três: resistência, não aceitação e longo prazo.
Angústia. Não é real. Vem do conflito interno, da neurose, da fantasia sobre o passado e sobre o futuro. "Será que eu vou ser humilhado?" — e nada aconteceu. O ataque de pânico é angústia. O ritual obsessivo também: se a almofada não for arrumada, nada acontece de fato.
O encadeamento funciona nos dois sentidos. A angústia sustentada por tempo suficiente vira sofrimento. A dor que não foi aceita vira angústia sobre o que ainda pode acontecer.
O nome da matéria já responde metade da pergunta: mecanismos de defesa do Ego. Falta decidir de que Ego se trata, e é do Ego inconsciente. Ele não faz muitas coisas. Faz três: a identificação, os mecanismos de defesa e a elaboração da angústia como sinal de alerta. As três existem para o mesmo fim, que é proteger o Ego e manter o Ego funcionando.
Isso levanta uma distinção fina. A identificação também é um movimento defensivo: busco o perfil da tia para me defender da mãe. Por que, então, ela não aparece na lista dos mecanismos de defesa? O critério de separação não é a função, porque as duas defendem. O critério é o que cada uma constrói. A identificação compõe a identidade e a personalidade. Os mecanismos de defesa não compõem identidade nenhuma: compõem a couraça.
A identificação com o agressor fica exatamente nessa fronteira, e é por isso que ela tem nome próprio. O traço copiado do agressor não entra na identidade, entra na couraça de caráter. Ele não é meu; está ali para me defender de alguém. Vale lembrar que agressor, aqui, não significa agressão física nem verbal: significa qualquer ameaça que o Ego não soube enfrentar, do avô que preferia os primos ao chefe que humilha em reunião. E o dano se completa quando a arma continua sendo usada onde o agressor não existe mais, no trabalho e dentro de casa.
Há uma formulação curta que serve para explicar o mecanismo a qualquer paciente. O Ego é o seu eu. Quando esse eu não sabe lidar com uma situação, ele se apavora e foge. Essa fuga é o mecanismo de defesa.
A consequência clínica é direta: todo mecanismo aponta para uma competência que o Ego não tem. Não basta perguntar qual defesa o sujeito usou. Pergunta-se para qual incompetência específica aquela defesa foi construída. É essa segunda pergunta que define o trabalho a fazer.
Daí decorre a definição de sintoma que organiza o resto: sintoma é toda adaptabilidade que o indivíduo faz para a falta de competência do Ego. Duas palavras o resumem, sobrevivência e adaptabilidade. A perna que falta é a falta; a muleta é o sintoma. Quem sofreu bullying na escola e nunca preparou o Ego para a exposição monta um sistema de evitações: não fala em público, não entra em certos grupos, não viaja com os amigos. Aquele conjunto de evitações é o sintoma.
Racionalização é a desculpa lógica, dada de forma socialmente aceitável, para o próprio comportamento. Ela é montada no lugar do Superego, com a linguagem social, com as crenças, os valores e os princípios.
E ela não é um mecanismo ao lado dos outros. Ela é o revestimento obrigatório de todos. Atrás de uma negação há sempre uma racionalização. Para sustentar uma formação reativa, é preciso racionalizar alguma coisa. Nenhuma fuga se mantém de pé sem uma justificativa que o meio aceite. Quanto mais inconsciente o sujeito, mais tempo ele passa em mecanismo, e maior a fração do que ele diz que é racionalização. O treino de escuta que decorre disso é uma pergunta permanente: essa fala está justificando o quê?
Há um corolário fino aqui. A racionalização carrega o teor da verdade, porque o tema da desculpa é o tema do conflito. O médico incomodado com a secretária que aparece mais do que ele não diz "você está aparecendo mais do que eu". Diz "vem aqui me servir um café". O que se lê no discurso não é só a presença da racionalização, é o teor dela: uma imposição de poder, uma tentativa de restabelecer a simetria perdida. O homem de cinquenta anos que justifica a balada citando um estudo sobre hábitos jovens entrega o tema no próprio argumento, que é o envelhecimento. É nesse ponto que a psicanálise sai do que o paciente sente e vai para o que o paciente diz.
A justificativa merece, por isso, uma regra própria. Toda justificativa tem um mecanismo de defesa atrás. Justificar-se é uma forma de não assumir a responsabilidade, e é a posição da criança diante de quem cobra.
Disso vem um marcador de escuta. O sintoma vem sempre racionalizado, e o discurso da racionalização é o próprio sintoma: excesso de explicação, excesso de justificativa, excesso de prova. Nem todo discurso é sintomático, e convém marcar o contraponto: existem preferências e análises coerentes que não vêm de falta nenhuma.
O que me defende, me destrói.Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Módulo 1 · 20/05/2024
Três fenômenos que se parecem no comportamento e se separam por uma pergunta só. Confundi-los é o erro mais comum na leitura de um caso, e desfazer a confusão é mais simples do que parece.
Tome o mesmo personagem nos três casos e chame-o de João. O comportamento observável pode ser quase idêntico: o sujeito cobra, critica, aconselha, pressiona. O que muda é quem é o outro naquele momento.
A eficiência do mecanismo se mede pelo resultado. Na projeção, o João troca de carro, limpa a casa dele e organiza a vida dele. A minha continua exatamente igual.
As fontes são duas. A resistência gera mecanismos de defesa e a transferência gera mecanismos de defesa. O teste também funciona ao contrário: se o paciente apresentou um mecanismo, ele é resistente, mesmo que pareça inteiramente aberto e colaborativo. Resistência quase nunca é escandalosa.
Isso tem consequência sobre o momento de interpretar. Cutucar o mecanismo mexe na resistência; mexer na resistência aciona a transferência; e a transferência acionada produz uma de duas saídas. Ou um acting out, que é atuar no campo transferencial o que se atuava lá fora. Ou uma passagem ao ato, que é romper aqui com quem se queria ter rompido lá. Prever qual das duas está mais próxima faz parte do preparo da interpretação.
A interpretação óbvia, dita por um amigo na mesa do bar, encontra resistência. A mesma frase, dita no setting, atravessa. A diferença não está na frase, está na simetria. O paciente escuta porque colocou o analista naquela cadeira.
Daí um manejo constante: o paciente resistente vai tentar destituir o analista da cadeira. Ele presenteia, se iguala, provoca com um "mas você também faz isso". Aceitar o presente é aceitar virar amigo e perder o lugar de onde a fala funciona. A regra vale fora do consultório também. Se alguém te colocou naquela cadeira, mantenha a cadeira.
Se o João ainda é o João, projeção. Se o João é uma terceira pessoa — pai, mãe, chefe, avô —, transferência. Se o João sou eu, contratransferência.Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Módulo 1 · 27/05/2024
Na sessão, o mecanismo raramente se apresenta com o nome que tem no catálogo. O que aparece é a organização construída em volta dele. E há defesas que a lista clássica não nomeia.
A negação não é encontrada de cara. O que se encontra é o plano montado para mantê-la. Não se trata de uma justificativa isolada: é uma elaboração de comportamento e de vida inteira, construída para que a negação nunca precise ser tocada. E esse plano aparece no discurso.
Uma mulher não se sente mais atraente para o marido. Não sabe como tocar no assunto, entra em negação e para de transar. Para sustentar isso, monta a vida em volta: trabalha até tarde, precisa caminhar de manhã, precisa levar o filho a algum lugar. E diz, com prazer, que adora tomar o café das sete da manhã. Sete da manhã era o horário em que o casal transava.
O manejo tem um roteiro: para, investiga, separa, analisa.
A chave que orienta toda essa escuta é curta: o discurso do paciente tem cara de fuga ou tem cara de busca. Nunca é sobre aquilo que ele está dizendo.
Há três assuntos macro dos quais quase todas as outras negações derivam: solidão, rejeição e morte. A investigação se organiza perguntando qual dos três aquele paciente não sabe enfrentar, e depois qual sintoma, qual discurso, qual ambiente e qual comportamento ele produz para não encostar naquilo. Uma variante frequente é a negação antecipada, que é negar preventivamente um problema que ainda não existe para não ter de lidar com ele caso exista. É o caso de quem não faz check-up, tendo sintoma ou não. Quem não sabe lidar com a morte não sabe lidar com a doença.
Negação prolongada tem preço no corpo. Pulsão não realizada é vontade não resolvida; vontade não resolvida é conflito não resolvido; conflito não resolvido é energia acumulada. Essa energia volta para o corpo e vira doença psicossomática. A mesma equação define a ansiedade: ansiedade é acúmulo de energia, e é daí que vêm o ataque de pânico e as fobias.
Na negação comum, o sujeito nega a coisa ruim: a dor, o sofrimento, a perda. Na negação inversa, ele nega a coisa boa — nega a solução.
A condição para que ela exista é o ganho secundário. A dor ou o sofrimento está rendendo alguma coisa: atenção, cuidado, afeto, dispensa de cobrança. Como é a situação ruim que produz esse retorno, resolvê-la significa perder o retorno. Então o sujeito sabota a saída.
É um mecanismo que só aparece em grupo. Reúna numa atividade conjunta e incomum várias pessoas que ocupam, cada uma no seu meio, o lugar de maior competência, e todas ficam subitamente incompetentes. Matemáticos excelentes erram funções simples. Chefs premiados, cozinhando juntos, erram o ponto da carne e perguntam como se descasca uma batata.
O cálculo é inconsciente e é defensivo. Se cada um levar a potência inteira para dentro da atividade, haverá embate pelo mesmo lugar. Para evitar o embate, o sujeito anula a própria potência. Não é falta de capacidade: é defesa.
Não perdoar é o Ego declarando que não sabe lidar com aquela injustiça. Em vez de lidar, ele recalca, e o que fica operando no lugar é ódio e mágoa mantidos vivos. Isso é negação. A cobrança que não foi feita a quem devia se transfere: para o marido, para o filho, para o trabalho.
Duas regras organizam o trabalho. A primeira: o perdão é sobre a memória, não sobre a pessoa. A reação é a uma memória interna, e não ao outro real que está lá fora. A segunda: nunca se calcula o mérito da pessoa para perdoá-la, porque quem calcula o mérito não perdoa.
Existe um plano para manter a negação. Quando vocês forem analisar os pacientes, o que vocês vão encontrar não é a negação de cara — vocês vão encontrar o plano.Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Módulo 1 · 20/05/2024