Alquimia das VirtudesBlog · por Isabella Becker
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Relações

A pessoa que nunca pede desculpa

Existe um tipo de gente que sempre sai da discussão sendo a vítima. Não é falta de educação — é uma arquitetura inteira montada para nunca ter que se olhar.

Por Isabella Becker · Alquimia das Virtudes

Você tenta falar de uma coisa que te machucou. Cinco minutos depois, está pedindo desculpa. Não sabe bem como chegou ali — só sabe que a conversa virou, em algum ponto, sobre o quanto você foi injusta em trazer o assunto.

Isso acontece com pessoas específicas. Sempre as mesmas. E depois de algumas vezes você começa a evitar certos temas, escolher palavras com pinça, ensaiar frases no chuveiro. A relação continua — mas você foi ficando menor dentro dela.

O que está sendo protegido

Admitir um erro parece uma coisa pequena. Para a maioria das pessoas, é: custa um constrangimento de trinta segundos e passa. Para algumas, custa muito mais — porque a imagem que elas têm de si mesmas não tem espaço para a frase "eu errei". Ela não cabe. Se coubesse, alguma coisa maior desabaria junto.

Então o erro precisa ir para outro lugar. E o lugar mais à mão é quem está na frente. Você trouxe o assunto na hora errada, com o tom errado, exagerando, remoendo coisa antiga. Em pouco tempo o assunto original sumiu e o que sobrou foi a sua conduta.

Não é que ela não queira pedir desculpa. É que pedir desculpa custaria caro demais.

O nome disso na Virtologia

Na Virtologia, o sistema do professor Eduardo Casarotto, esse mecanismo tem nome e endereço: orgulho. Não o orgulho do metido que se acha — esse é o mais fácil de identificar. O orgulho aqui é a estrutura que existe para que a pessoa nunca precise se ver como ela é. Ele não grita; ele reorganiza a realidade até que a culpa esteja sempre do lado de fora.

E por isso a conversa nunca chega a lugar nenhum. Você está discutindo um fato; a outra pessoa está defendendo a própria existência. São duas conversas diferentes acontecendo ao mesmo tempo, e só uma delas é sobre o que aconteceu.

O que muda quando você entende isso

Entender o mecanismo não conserta a outra pessoa. Nenhuma leitura conserta ninguém de fora — quem cede é quem cede, e isso não se faz por convencimento. O que a compreensão muda é o seu lado: você para de tentar ganhar uma discussão que não foi construída para ser ganha.

Aí a pergunta deixa de ser "como eu faço ela entender?" e passa a ser outra, bem mais difícil: o que eu ainda estou esperando daqui? Se a resposta for o reconhecimento — a frase que nunca vem, o pedido de desculpa que encerraria o assunto —, é essa espera que está te prendendo, não a pessoa.

A virtude que trabalha esse ponto não é a paciência de aguentar mais. É a humildade, e ela serve para você: enxergar a situação como ela é, sem a fantasia de que uma frase sua vai finalmente abrir o outro. E é a aceitação — que não é conformar-se, é parar de negociar com o que não está em negociação.

Uma ressalva importante: este texto descreve um padrão de comportamento, não um diagnóstico. Rótulo de transtorno não se dá em quem não está na sala, e muito menos pela internet. Se uma relação está te fazendo duvidar da sua própria percepção com frequência, isso por si só já merece ser conversado com alguém de confiança — de preferência um profissional.
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