A armadilha confortável de ser vítima
Ninguém escolhe conscientemente ser vítima. Mas existe um lugar — o de quem só sofre as circunstâncias — que consola por um instante e aprisiona pra sempre. Sair dele assusta, e liberta.
Antes de tudo, uma distinção que precisa vir primeiro: uma coisa é ter sido vitimizado — sofrer de verdade uma injustiça, uma violência, uma perda. Isso é real e merece acolhimento, nunca cobrança. Outra coisa, bem diferente, é a posição de vítima: um lugar interno onde nada é responsabilidade sua, tudo é culpa das circunstâncias, e a vida é algo que só acontece com você.
O que a posição de vítima consola
Esse lugar tem um conforto real, e é por isso que prende. De vítima, você não precisa se responsabilizar por nada, recebe cuidado e compreensão, e — o mais sedutor — não precisa mudar, porque o problema está sempre lá fora. É um alívio imediato. O detalhe cruel é o preço: ao entregar toda a culpa pro mundo, você entrega junto todo o seu poder.
Poder é diferente de culpa
A Virtologia, de Eduardo Casarotto, aponta a saída na virtude da responsabilidade — e aqui mora a confusão que trava todo mundo: responsabilidade não é culpa. Não é dizer “a culpa do que me aconteceu é minha”. É dizer “o que eu faço, a partir de agora, com o que me aconteceu, é comigo”. Uma te afunda no passado; a outra te devolve o presente.
Sair assusta — e vale
Largar o lugar de vítima dá medo, porque significa abrir mão do consolo e assumir o volante. Mas é aí que a vida volta a ser sua. Não porque o que te feriu deixou de importar, e sim porque você para de esperar que o mundo repare, e começa a construir. É o passo mais assustador e mais libertador que existe: trocar “por que isso aconteceu comigo?” por “o que eu vou fazer com isso?”.