Três conceitos distintos para falar daquilo que somos — do herdado ao adquirido, da couraça que protege ao si-mesmo que se realiza. De Reich a Cloninger, de Freud a Jung e Winnicott.
Personalidade, caráter e self não são sinônimos. São três modos diferentes de perguntar pelo mesmo enigma — quem é alguém? — e cada um responde a uma pergunta distinta.
Quando alguém pergunta "que tipo de pessoa você é?", está fazendo uma pergunta deceptivamente simples. Porque há, nessa pergunta, pelo menos três perguntas embutidas — e a psicanálise oferece três conceitos diferentes para respondê-las. Personalidade responde pela totalidade observável; caráter, pelos modos adquiridos de reagir; self, pela experiência subjetiva mais íntima do si-mesmo.
Esses três conceitos não se substituem. Eles se sobrepõem em camadas, e cada autor da psicanálise enfatizou um ou outro. Freud, Reich e os manuais modernos de psiquiatria descritiva (como o DSM) trabalham mais com personalidade e caráter. Jung, Winnicott, Kohut e os autores da psicologia analítica trabalham mais com self. Esta aula percorre os três — porque só com os três é possível entender a profundidade da questão.
O temperamento regula o que a pessoa percebe — enquanto o caráter modifica seu significado. Assim, a saliência e importância de toda experiência depende da interação deles.Sobre a estrutura da personalidade
Entenda-se como personalidade a totalidade das qualidades psíquicas herdadas (temperamento) e adquiridas (caráter). É uma soma — mas uma soma dinâmica, em que cada parte transforma a outra ao longo da vida.
Freud observou certas particularidades do caráter pela persistência de "tendências instintivas primitivas" do indivíduo — que são modificadas pelas influências do ambiente em que vive. É a organização dinâmica dentro do sistema psicobiológico do indivíduo que determina sua maneira única de interagir com o meio: componentes herdados interagindo de forma única com comportamentos desenvolvidos a partir da interação com o meio.
Características de personalidade são padrões duradouros de percepção, relação e pensamento acerca do ambiente e de si mesmo — e são exibidos numa ampla faixa de contextos sociais e pessoais. É essa estabilidade que torna possível dizer que alguém "é assim mesmo": há um padrão reconhecível, que se mantém ao longo do tempo e através das situações.
Quando a personalidade se torna patológica. É somente quando as características de personalidade são inflexíveis e inadaptadas, e causam um comprometimento funcional significativo, que elas constituem os transtornos da personalidade. A personalidade, em si mesma, não é patologia — ela só se torna patológica quando perde flexibilidade e capacidade adaptativa.
As experiências psíquicas adquiridas constituem os "traços de caráter" — os traços peculiares que fazem o indivíduo ser o que ele é. Forma-se pelas experiências do indivíduo, especialmente pela infância, e é modificável até certo ponto por novas experiências.
A diferença entre as qualidades herdadas e as adquiridas equivale à diferença entre temperamento (dotes e qualidades psíquicas constitucionais) e caráter.
Para Erich Fromm, as diferenças de temperamento não têm significado ético — ou seja, deve-se compreender que as características constitucionais de cada indivíduo, e a forma com que cada um lida com as situações afetivas no cotidiano, não estão ligadas aos defeitos de caráter. As diferenças de caráter, ao contrário, constituem um verdadeiro problema ético: são a expressão e o grau em que um indivíduo obtém êxito na realização da arte de viver.
A maior característica do caráter, sob o ponto de vista dinâmico, é aquela que pode ser vista por outrem e é facilmente observável por qualquer indivíduo — à qual denomina-se de "traços de conduta". Aquilo que o indivíduo faz e mostra para os outros.
É o tipo do indivíduo que é metido a ser valente e audacioso (traço de conduta), com mecanismo psíquico de colocar em risco a própria comodidade, a liberdade ou a vida. Neste caso, pode-se definir o traço de conduta como dirigido a atingir um objeto ou objetivo pré-estabelecido — sem que haja um impedimento para isso. Entretanto, deve-se analisar a motivação que movimenta cada indivíduo: os motivos dinâmicos e psíquicos que o levam a adotar determinado traço de conduta.
Para Wilhelm Reich, o conceito básico é de que a entidade fundamental no caráter não é um traço único, mas a organização total do mesmo — da qual deriva uma quantidade de traços de caráter. E devem ser interpretados como uma síndrome resultante de uma organização particular: a "orientação do caráter" para uma finalidade.
Não dou importância a um traço de caráter isolado — pois o que tem validade e significado é a forma geral de atuar, e a gênese do tipo de reação característica como um todo. A abordagem mais acertada baseia-se na explicação do que se denomina um traço fundamental de uma personalidade.
Wilhelm Reich · sobre o método caracterológico
Erich Fromm definiu o caráter como uma forma — relativamente permanente — pela qual a energia humana é canalizada nos processos de assimilação e socialização. "O caráter só é evidente na biologia que abrange todo o curso de uma vida, com possibilidades e decisões. Assim, já não tem importância o conteúdo ou a peculiaridade de um traço característico isolado."
Cloninger propõe que a personalidade decorre, estruturalmente, da interação multidimensional entre temperamento, caráter e psique — com quatro dimensões herdadas independentes que organizam o que sentimos e como reagimos.
Para Cloninger, há quatro dimensões hereditárias e independentes que compõem o temperamento — cada uma com seu polo alto e seu polo baixo, formando um espectro. Essas dimensões são o substrato biológico sobre o qual o caráter, depois, se constrói:
Em síntese. O temperamento regula o que a pessoa percebe — enquanto o caráter modifica seu significado. Assim, a saliência e importância de toda experiência depende da interação dos dois. "Apenas quando os traços de personalidade são inflexíveis e desadaptativos e causem significativo comprometimento funcional ou estresse subjetivo, eles constituem transtornos de personalidade" (DSM). A melhor maneira de entender essas condições, segundo J. Paris, é como amplificações de traços normais de personalidade.
Para Reich, o caráter é menos uma estrutura interna e mais uma armadura — uma camada que se interpõe entre o mundo exterior e o mundo interior, e cujo grau de flexibilidade decide se o sujeito é saudável ou neurótico.
Reich denominou os mecanismos de defesa de "couraça de caráter", com a ressalva de que esta não é totalmente "rígida" e "impermeável" — pois está atenuada por relações atípicas com o mundo exterior e por limitações não pertencentes ao caráter. Para ele, a couraça de caráter é o resultado do encontro crônico entre as exigências instintivas e a frustração do mundo exterior.
Toda vida se realiza como codeterminação de um mundo interior e de um mundo circundante. A formação da couraça de caráter se faz na personalidade que se encontra no limite entre o instintivo psíquico, físico e ambiente — no Ego do indivíduo.
Von Uexküll · citado por Reich
A "couraça" no traço de caráter é o elemento que se interpõe entre o mundo exterior e o mundo interior. Pode-se dizer que essa couraça tem uma flexibilidade — e é precisamente isso que permite estabelecer uma diferença entre caráter normal e neurótico. O grau de flexibilidade ou labilidade conserva uma relação proporcional direta com a saúde mental do indivíduo.
O Ego do "caráter normal" também possui uma couraça de caráter — mas não está entregue nem submetido a ela. Tem a elasticidade suficiente para adaptar-se às mais diversas situações. A elasticidade e a firmeza da couraça de caráter manifestam-se no fato de ser capaz de oferecer-se ao mundo e viver o presente momento — e depois, quando for necessário, afastar-se dele.
A couraça neurótica, ao contrário da saudável, é caracterizada por:
Quando a personalidade enrijece a ponto de tornar-se patológica, os manuais classificam os transtornos em três grandes grupos — o cluster "estranho" (A), o cluster "dramático" (B), e o cluster "ansioso" (C). Cada um tem seu temperamento predominante.
Os transtornos de personalidade surgem na infância ou adolescência e tendem a se manter estáveis ao longo da vida do indivíduo. Caracterizam-se por reações desarmônicas em vários aspectos da vida: afeto, impulso, relacionamento com outros. O padrão de comportamento é estável durante o tempo, não limitado ao episódio de uma doença mental. É mal-adaptativo, trazendo dificuldades para o indivíduo ou para os próximos.
Características comuns: estranheza, excentricidade e distanciamento afetivo e social. Temperamento predominante: baixa dependência de gratificação (desapegado, distante, frio, independente).
Características comuns: teatralidade, impulsividade e desajustamento social. Temperamento predominante: alta busca por novidade (explorador, impulsividade, extravagante, irritável).
Características comuns: ansiedade e apreensão. Temperamento predominante: alta esquiva ao dano (pessimismo, medo, timidez, fatigabilidade).
Personalidade é o que se vê de fora. Caráter é como se reage. Self é o que se experimenta como sendo si mesmo. É o conceito mais íntimo dos três — e o que mais resiste à definição objetiva.
Self — uma forma de experiência do si-mesmo que possibilite o surgir da subjetividade humana.
Em Freud, a palavra self (das Ich) é usada com conotações diferentes — como observa o tradutor da versão inglesa das obras freudianas:
Parece possível detectar dois empregos principais: um em que o termo distingue o eu (self) de uma pessoa como um todo (incluindo, talvez, o seu corpo) das outras pessoas — e outro em que denota uma parte especificamente caracterizada por atributos e funções especiais.
Sobre o uso freudiano do self
Para Heinz Kohut, as noções de self, ego, id, superego, personalidade e identidade refletem conotações conceituais diversificadas. Ego, id e superego representam, na linguagem psicanalítica, uma conceituação abstrata do aparelho psíquico — portanto, uma noção distante da experiência.
Já o self representa uma abstração mais próxima à experiência — pois se trata de "uma estrutura dentro da mente", catexizada com energia instintiva e com continuidade no tempo. Representações do self estão presentes não somente no id, no ego e no superego — mas também dentro de uma única instância da mente. Neste sentido, podem existir, lado a lado, representações contraditórias do self.
O self, assim, bastante análogo às representações de objetos, é um conteúdo do aparelho mental, mas não é um dos seus constituintes — isto é, não é uma das instâncias da mente. A noção de self, portanto, não pode ser confundida em psicanálise com a noção de ego — que é um conceito estrutural do aparato psíquico ligado à segunda tópica freudiana, cuja função é mediar as exigências do id, do superego e da realidade.
Em Jung, o self é mais do que uma estrutura psíquica — é a totalidade da pessoa, consciente e inconsciente, e ao mesmo tempo o ponto de chegada de toda a vida psíquica: o destino, a meta da individuação.
Na Psicologia Analítica, o termo indica o conjunto dos fenômenos psíquicos de um indivíduo. Por um lado, o self integra os objetos da experiência percebidos pela consciência com os fatores que ainda permanecem inconscientes. Jung, no decorrer de sua obra, dá várias definições de self:
Neste sentido, ele se contrapõe ao superego — que Jung define como lei geral. O ego pode estar em conflito tanto com o superego como com o self. O conflito do ego com a lei moral do si-mesmo gera um senso de inferioridade, que o si-mesmo tende a compensar na sua constante busca de equilíbrio — o que resulta numa ampliação da personalidade mediante a inclusão dos elementos inconscientes.
O self é uma estrutura dentro da mente, catexizada com energia instintiva. É um conteúdo do aparelho mental — mas não um dos seus constituintes.
Representações contraditórias do self podem coexistir lado a lado. O self é mais próximo da experiência do que ego, id ou superego.
O foco está na consistência e continuidade da experiência subjetiva ao longo do tempo.
O si-mesmo é o conjunto dos fenômenos psíquicos — integra a consciência com o inconsciente. É lei moral própria, contrastante com o superego (lei geral).
O ego se relaciona ao si-mesmo como o objeto ao sujeito: "como o inconsciente, o si-mesmo é o ser a priori do qual emana o eu".
É o ponto de chegada do processo de individuação — a meta da vida psíquica.
Criticando o intuito adaptativo à realidade cultural da psicanálise freudiana, Jung afirma que, por trás do homem, não temos a lei moral e tampouco a opinião pública — mas uma individualidade da qual ele é ainda inconsciente. Este substrato inconsciente é justamente o self, do qual o ego é o expoente na consciência.
Enquanto inconsciente, o si-mesmo corresponde ao superego freudiano. Mas, uma vez liberado das projeções, ele deixa de coincidir com as opiniões dos outros — e nos põe em contato com nosso verdadeiro eu. Neste sentido, o si-mesmo opera como unio oppositorum, união dos opostos — dando lugar à mais direta experiência do divino psicologicamente concebível.
Carl Gustav Jung
Há sofrimentos que não cabem na linguagem da neurose. Não são conflitos entre desejo e proibição — são fraturas mais profundas, na própria experiência de existir como alguém. Winnicott os chamou de distorções da organização meio-ambiente-indivíduo.
Na teoria winnicottiana — fruto de longos anos de consultório e de contato com pacientes adultos e crianças, inclusive psicóticos — alguns conceitos adquirem particular importância no processo de formação do self. Tratam-se das noções de primeira mamata teórica, criatividade, elemento feminino e elemento masculino, experiência da ilusão e objeto transicional.
Nesta fase precoce, se o meio-ambiente for invasivo — ou seja, se não houver uma adaptação ativa do meio às necessidades da criança — ocorre "uma distorção psicótica da organização meio-ambiente-indivíduo". E uma perda de sentido de self que só é recuperado por um retorno ao isolamento.
Quando o ambiente falha em sustentar o gesto espontâneo do bebê — quando exige que o bebê se adapte às necessidades da mãe, em vez do contrário — o bebê constrói um falso self sobre as ruínas do gesto espontâneo. Esse falso self é uma máscara funcional, capaz de operar no mundo, parecer normal e até bem-sucedido. Mas, por dentro, há um vazio crônico — porque o verdadeiro self ficou congelado, oculto, intocado.
Na linha psicanalítica, Gilberto Safra faz uma interessante análise das repercussões da cultura contemporânea sobre o psiquismo. A doença do self é uma das marcas das clínicas atuais — onde os sintomas neuróticos clássicos (conflito edípico, formação de sintoma, recalque) cedem espaço para queixas de vazio, desorientação, sensação de irrealidade, dificuldade de sentir-se vivo.
É nas condições nas quais uma criança é refletida pelos olhos amorosos da mãe que se torna possível a construção de uma segurança básica, um prazer pela vida, uma pulsão para o conhecer e um reconhecimento de que ela é útil, capaz e valorizada.Donald W. Winnicott
Para Winnicott, o self não cresce por análise teórica nem por interpretação intelectual. Ele cresce pela experiência de ser — e a forma privilegiada dessa experiência, do bebê ao adulto, é o brincar.
A criatividade, na perspectiva winnicottiana, está relacionada "com a abordagem do indivíduo à realidade externa", e é definida pelo ingresso criativo do indivíduo na vida — ligado à primeira abordagem criativa dos objetos externos. Podemos, portanto, falar de uma criatividade primária, cujo desenvolvimento depende do meio-ambiente.
Winnicott estabelece uma diferença nas relações de objeto, caracterizada por um relacionamento que transita entre os elementos masculinos e femininos — entre o relacionamento ativo e o relacionamento passivo.
Na sua relação com o seio materno, o bebê transita entre duas experiências: uma ligada ao impulso instintivo que o leva a satisfazer sua necessidade — e outra ligada ao próprio seio, que possibilita ao bebê "tornar-se o próprio seio, ou a mãe, no sentido que o objeto é o sujeito".
A criatividade é exercida no âmbito dos elementos femininos — na criação do objeto subjetivo, que é o objeto que ainda não foi repudiado como um fenômeno não-eu. Portanto, o sentimento de eu (o self) cresce somente na medida em que é experimentado um relacionamento baseado no sentimento de ser — baseado numa identificação primária, em que objeto e sujeito são um.
A relação de objeto baseada no elemento feminino é focalizada no ser.
Aquela baseada no elemento masculino, no fazer.
Evidentemente, nesta perspectiva, os elementos masculinos e femininos estão presentes tanto nos homens como nas mulheres. Uma mãe ansiosa, preocupada em "fazer" suas obrigações maternas, corre o risco de não possibilitar ao bebê esse encontro com o próprio ser que o constitui como self.
Na experiência da criatividade e na constituição do self, adquire particular importância o brincar. De fato, é no brincar que o indivíduo pode ser criativo — e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self). Neste sentido, Winnicott exclui que o self possa ser encontrado de outra forma.
Para Winnicott, a experiência do brincar não pertence só à criança — mas está ligada a qualquer atividade em que a criatividade primária busca expressão, inclusive na análise. Por isso ele afirma que:
O brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde. O brincar produz os relacionamentos grupais. O brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia. Finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como uma forma altamente especializada de brincar — a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros.
D. W. Winnicott · "O Brincar e a Realidade"
Aqui está, talvez, a chave para a integração das três aulas finais deste curso: se a personalidade é o que se vê, e o caráter é como se reage, o self é o que se descobre — e só se descobre brincando. Quando o brincar falha (porque o ambiente foi invasivo, porque o gesto espontâneo foi sufocado, porque a couraça enrijeceu cedo demais), o self fica oculto, e o sujeito vive uma vida que, por mais bem-sucedida, sente-se irreal. Daí a importância clínica desses três conceitos juntos — para mapear, em cada caso, onde está a fratura, e onde ainda há, no sujeito, espaço para brincar.
Não existe traço bom nem traço ruim. Existe personalidade dentro do eixo e personalidade fora do eixo. Essa troca de critério transforma a avaliação de personalidade em instrumento diagnóstico, e não em rótulo descritivo.
O eixo é a configuração natural do sujeito. É quem ele é quando não está se defendendo de nada. Estar fora do eixo significa que, naquele ponto, não é a personalidade que está falando: é a experiência traumática, é a couraça, é a neurose. A pergunta clínica muda junto. Ela deixa de ser qual é o seu traço? e passa a ser onde você está fora do seu eixo?
Não existe bom e ruim no mundo. Existem personalidades. O que existe é a personalidade fora do eixo — e isso, sim, é ruim.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise · Módulo 2 · aula 13 · 18/11/2024
Um critério só não basta. É preciso estar no eixo e no meio da faixa. Alguém pode ser genuinamente otimista, e isso põe o traço no eixo certo, e estar no extremo do otimismo, e isso o tira do equilíbrio. Ser pessimista está certo; ser muito pessimista está ruim. Ser otimista está certo; ser muito otimista está ruim também. Daí a formulação que organiza toda a leitura: o exagero da personalidade já é transtorno, e o transtorno é um exagero de personalidade.
Uma personalidade real se distribui. A pessoa fica na alta em algumas dimensões e na baixa em outras, e o conjunto tem coerência interna. Quando todos os polos aparecem do mesmo lado, ou quando um polo destoa logicamente dos outros, aquilo é couraça e não personalidade.
O exemplo mais fácil de reconhecer: alguém que se descreve otimista, ousado e expansivo, e ao mesmo tempo fadigado. A fadiga ali não é traço. É evitação. Esse desencaixe é o atalho para achar onde estão a neurose, a evitação e a inibição, sem investigação prévia.
Todo sistema de evitação altera a personalidade aparente, e altera sempre no mesmo sentido: a evitação puxa o traço para a baixa. Alguém naturalmente explorador e extravagante que apanhou muito no dinheiro aparece cauteloso e indiferente. O trabalho clínico é identificar o que está sendo evitado, qual medo, qual aceitação não obtida, para devolver a pessoa ao próprio eixo.
Identificado o traço fora do eixo, pergunta-se sobre qual assunto a pessoa fica ali. Quando você está pessimista, você pensa em quê: dinheiro, segurança, violência, relacionamento? A resposta entrega o núcleo neurótico direto.
A personalidade verdadeira se enxerga melhor na faixa dos treze aos dezessete anos. Ali o sujeito está saindo da família e ainda não acumulou as couraças da vida adulta. Depois vêm empregos, casamentos e traumas, e as couraças se sobrepõem ao eixo. A ressalva é uma só: a janela não vale quando houve trauma muito precoce e severo.
Os traços não caem do céu. Montam-se pela sequência atitude, reforço, modificação, desprazer, a partir de como o meio reagiu em cada fase. A busca por novidades, por exemplo, se forma na exploração da fase anal: se a exploração foi incentivada ou castrada, se o novo era mostrado ou proibido, como a casa reagiu à descoberta do próprio corpo aos cinco anos.
O argumento contra a leitura moral dos traços é funcional. Há posições no mundo que exigem o polo chamado de negativo. Gestão de risco, contabilidade de impostos e corretagem conservadora exigem pessimismo, medo e cautela, e entregar o próprio dinheiro a um otimista ousado é péssima escolha. Vale também para a preguiça: não se encontra grande poeta nem grande criador que não seja preguiçoso, porque a preguiça faz parte do processo de criar.
Daí a regra operacional que se aplica a trabalho, casamento e ambiente. Dentro da própria personalidade se ganha energia. Fora dela se perde energia. Burnout, ansiedade paralisante, peso constante no trabalho: leia primeiro como incompatibilidade entre o perfil que a função exige e o perfil de quem a ocupa. Compare os dois antes de procurar qualquer outra causa.
Quando eu trabalho dentro da minha personalidade, ganho energia. Quando eu trabalho fora da minha personalidade, eu perco energia. Lembrem dessa regra.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise · Módulo 2 · aula 13 · 18/11/2024
Trabalhar fora da própria personalidade é violência interna. Dentro da humanização, o nome técnico dessa mesma coisa é violência institucional.
Uma confusão clínica frequente: tomar a gratificação como sinal de que aquela atividade expressa o sujeito. São coisas separadas. Uma é o prazer de estar executando. Outra é o resultado que a execução produz aos olhos dos outros: aplauso, status, reconhecimento, fama. Quem está atrás do resultado paga o preço da exposição e da vergonha, e sai do eixo.
O diagnóstico que sai daí é direto. Por que esse projeto não anda? Porque o projeto está fora do eixo da personalidade de quem o carrega. A mesma pergunta cabe na formação: quero ser psicanalista para ser chamado de doutor e de intelectual, ou porque gosto de sentar com o outro e escutar?
Uma filha única criada entre adultos pode parecer socialmente tímida sem ser tímida. Ela sempre foi o centro, sempre teve garantia de aprovação e domínio do ambiente. Em ambiente que não gira em torno dela e onde não há garantia de aprovação, ela trava. Isso é condicionamento, não traço.
Há um segundo diferencial ali. O que parece reserva pode ser desinteresse pelo assunto, uma maturidade adquirida na convivência com adultos que torna a conversa social sem graça. Extroversão não obriga ninguém a falar com todo mundo. Dá para ser expansivo e falar só com quem se quer.
A leitura de traços muda de função quando entra um casal na sala. Ela deixa de descrever duas pessoas e passa a explicar as brigas que nenhuma das duas consegue nomear.
A amizade se faz por semelhança de personalidade. O casal se faz por oposição nos traços principais, porque é o oposto que traz equilíbrio. Dois criativos juntos costumam ter química forte, porque quem procura o igual está se apaixonando por si mesmo. Na vida prática dá conflito: falta praticidade, os dois ocupam o mesmo espaço, decidem do mesmo jeito e disputam a mesma cadeira. A ressalva é que não existe casal oposto em todos os traços. A inversão vale nos principais.
O erro central no atendimento de casal é exigir que o outro saia do eixo dele. A expectativa, aquele eu queria que ele me pegasse assim, que viajasse assim, que reagisse assim, foi construída a partir de como quem reclama funciona. Quem se olha pela lente da própria personalidade não enxerga que o outro já está entregando o melhor dele.
Quando você olha para a personalidade, ele está entregando o melhor dele. Exigir que ele saia desse eixo — ou ele vai se tornar uma outra pessoa para não te perder, ou vai dar muito conflito.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise · Módulo 2 · aula 13 · 18/11/2024
São essas as duas saídas quando a exigência se mantém: falso self ou conflito permanente. Há uma imagem que resume a alternativa saudável. Dois labradores no sofá é uma vida sem alegria. Dois pintinhos pulando é uma desgraça. A vida funciona com o labrador e o pintinho.
O resto é conversa: fetiches, acordos, combinados do dia a dia. Isso é prática, não estrutura, e não sustenta um tratamento.
O relacionamento de mais sucesso não é o do amor voraz. É o que se sustenta no quanto um conhece o outro: a neurose dele, as faltas, as fantasias, a vergonha, a loucura. Deixar-se conhecer é dizer em voz alta a própria cobrança. Eu sempre achei que minha mãe ia me dar amor de uma certa forma, ela nunca deu, e eu estou cobrando isso de você. Dita assim, a cobrança perde o gatilho, porque o parceiro passa a saber que ela não é sobre ele. Esse é o nível máximo de intimidade de um casal: poder falar da própria loucura e ser acolhido nela.
Um sonho conduzido, de base junguiana. Uma indução de relaxamento seguida de sete imagens arquetípicas, nas quais o sujeito é o personagem principal e caminha até o fim da história. O que se lê não é a imagem: é a forma, a cor, o tamanho, a posição, o que ele faz com cada uma e a frase exata que diz sobre ela.
Estatuto do instrumento.
O teste não é fonte da verdade sobre o paciente. Ele é material de discussão em sessão, ferramenta de enriquecimento da sessão. Nenhuma imagem que apareça nele vale como conclusão sobre alguém.
A autoavaliação é tendenciosa e cega. O que está fora do lugar costuma ser justamente aquilo que a pessoa considera normal, e por isso não descreve como problema. Quem responde sobre si mesmo relata o que já sabe dizer de si, e é fora disso que o trabalho começa.
O melhor é responder em sessão, com o terapeuta conduzindo. Quando o teste chega respondido sozinho, o trabalho é conversar, estranhar e investigar antes de qualquer conclusão. Estranhar significa perguntar pelo que veio depressa demais, pelo que veio arredondado demais e pelo que não veio.
Toda crítica à precisão ou à utilidade do instrumento se avalia a partir daí. Ele não foi feito para dizer a verdade sobre alguém, e não julga nem aponta caminho de desenvolvimento. Foi feito para abrir conversa sobre o que a pessoa não traria por conta própria.
Estabelecido isso, o que o teste faz de específico é mudar o destinatário da pergunta. Ele não pede opinião sobre um tema. Ele pede uma imagem, e a imagem chega antes de a consciência ter tempo de arrumá-la. A leitura se aproxima da leitura de microexpressão corporal.
Por que esse teste é tão preciso? Porque eu não estou perguntando para você o que você acha sobre esse assunto. Eu estou perguntando diretamente para o inconsciente, sem passar pela consciência.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise · Módulo 1 · aula 07 · 18/03/2024
Ambiente e corpo. Sala sem barulho. Se houver ruído, fone de ouvido ou concentração para dentro. Corpo confortável e apoiado, sem nada incomodando. O aplicador espera o corpo cair: o sinal fisiológico de que a pessoa relaxou é o corpo soltar de forma visível. Enquanto não solta, o relaxamento continua. Só depois começam as imagens.
O que se pede antes de começar. Não controlar as imagens e não tentar adivinhar o significado. Quem racionaliza traz imagem consciente e perde o teste. A tradução vem logo em seguida, então não há motivo para decifrar durante. Deixar vir o primeiro pensamento e continuar andando. Pode-se levar, deixar, enterrar, chutar, fazer o que quiser com cada elemento. O sujeito é o personagem principal e precisa chegar ao fim da história.
A indução. Olhos fechados. Inspirar fundo, segurar cinco segundos, soltar bem devagar, nunca de uma vez. Repetir e manter essa respiração durante todo o teste. Soltar os músculos na ordem: ombros, barriga, costas, pernas, rosto, testa, sobrancelha. Então vêm as palavras, sempre estas:
Agora você vê uma floresta. Você vai entrar nessa floresta. E agora você vê uma trilha. Agora você vê uma xícara. E agora você vê uma chave. E agora você encontra um urso. Agora você encontra um muro. E agora você vê água. No seu tempo, pode abrir o olho.
Sequência fixa: floresta, trilha, xícara, chave, urso, muro, água.
Cinco regras de aplicação sustentam a validade do que for colhido:
É imprescindível anotar a narrativa exata. Enquanto o indivíduo ainda não sabe o significado da coisa, a frase que ele fala é exatamente o que o recalcado está querendo dizer sobre aquele simbólico.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise · Módulo 1 · aula 07 · 18/03/2024
Antes da tradução, uma triagem. Se a imagem que veio é uma cena vivida, a chácara da avó, um caminho real percorrido, aquilo não é representação simbólica: é associação. Traduz-se como se traduz um sonho por associação, e não pelo significado arquetípico. Falta de relaxamento aumenta a chance de virem associações.
Cada elemento tem uma forma central e variações que modulam a leitura. A xícara central é a xícara de chá inglesa, com pires, desenhada, dourada. A chave central é a chave de castelo, grande, antiga, dourada. Importam cor, tamanho, estado, quantidade, acessórios, e sobretudo se o sujeito leva o objeto consigo ou deixa para trás.
Floresta. A luz é alegria, e o sol é o arquétipo do divino. Lê-se quanto de sol está passando naquela vida. Densa e sem nenhuma luz indica posição depressiva: vida densa, triste, preocupada. Densa com frestas de luz é o normal do cotidiano, vida com problema, e quem viu isso está bem. Muito aberta, clara e dourada admite duas leituras opostas, e são os outros elementos que decidem qual delas se sustenta: otimismo e aceitação genuínos, ou negação e infantilização diante da realidade.
Trilha. Reta é objetividade. Curva e sinuosa é enrolação e procrastinação, e o nível de curva é o nível de enrolação. Larga é criatividade, muitas opções de solução. Estreita é pouca opção, e pode ser reta e estreita ao mesmo tempo: objetivo, com uma solução só. Descida é ansiedade, resolve na base do desespero. Subida é sofrimento e vitimismo, pouca responsabilidade sobre a própria vida. O tamanho da subida é o tamanho do drama que não precisava.
Xícara. O vínculo nasceu em torno da comida, e o convite para um café nunca é sobre o café. Com pires é parceria, normalmente o parceiro amoroso. Pires de coleção diferente indica estranheza: estou acompanhada de alguém diferente de mim, que não partilha a minha cultura. Sem pires é não enxergar parceria, ou relação em forma primitiva, de uso. Levar a xícara é querer levar para a vida aqueles vínculos e aquele jeito de se vincular; não levar é recusar a pessoa ou o jeito, e é preciso investigar qual dos dois. Xícara maior que a pessoa significa que os relacionamentos são maiores do que ela: quem resolve a vida dela são os vínculos, e ela aceita esse controle. Xícara alegre é ver os relacionamentos com bons olhos. Deixar a xícara no instante em que aparece a chave é escolher trabalho e ambição no lugar do vínculo.
Chave. A chave abre portas, e as portas são oportunidades. Dourada indica maior prosperidade e capacidade de vislumbrar grandeza. Prata, bronze e envelhecida indicam menos aceitação do dinheiro, ausência de cultura de prosperidade, dinheiro visto como sujo. O tamanho acompanha a cor. Levar ou não levar é levar ou não a ambição para a vida. Correntinha na chave é o simbólico da crença, e costuma marcar não pertencimento em relação ao dinheiro, aquilo que aparece como o dinheiro é do outro. Chave dentro da xícara indica que a prosperidade viria do vínculo: quem tem que me bancar é o meu parceiro.
Urso. O normal e saudável é ter medo do urso e passar por ele. O medo reconhece que problema é problema, e passar é lidar. Abraçar o urso, fazer carinho, andar de mãos dadas com ele indica estar abraçado ao problema, e pode ser um problema simbólico ou uma pessoa concreta. Isso não significa que a pessoa seja má: o filho autista é o problema da vida daquela mãe sem ser mau. Urso de pelúcia, panda ou filhote brincando indica infantilização diante dos problemas e mecanismo de negação. Não escutar a palavra urso indica negação: o cérebro apagou o tema, e a leitura só vale se a emissão vocal foi igual à das outras palavras. Abafar o urso com a xícara significa que, diante de um problema, quem resolve são os relacionamentos.
Muro. Passar por cima é lidar com a perda e com a morte, e costuma vir acompanhado de um entendimento espiritualizado dentro da própria religião. Ficar em cima do muro é estar em processo: estudando, questionando, em terapia, ainda sem chegar. Contornar pelo lado, passar pela ponta ou abrir uma porta é subterfúgio, e não conta como passar. Abrir uma porta no muro com a chave é usar trabalho, dinheiro ou compras para não lidar com a perda. Água impedindo a chegada ao muro indica crença religiosa atravessando o luto. Vale lembrar que perda não é só morte: um convite recusado já é perda, e o sistema que lida com as perdas mínimas do dia a dia é o mesmo que lida com as grandes.
Água. A quantidade é o tamanho da pulsão sexual e do desejo. O movimento é energia, e o saudável é fluxo, com o rio corrente como forma clássica. A cor é pudor: cristalina indica ausência de pudor sobre o sexo, turva ou barrenta indica pudor ou algo ruim associado à própria vida sexual, com toda a escala entre os dois. Entrar na água é falta, é querer o que não se tem. Contemplar sem entrar, tranquilo, indica pulsão realizada e vida sexual satisfeita. Beber com a xícara é ter prazer apenas a partir do parceiro, o que aparece em quem não se permite o autoprazer. Beber com a mão é autoprazer, ou o desejo de poder se dar prazer sem depender do outro. Se o que a pessoa conta da própria vida sexual contradiz a imagem, o teste não se invalida: o inconsciente mostra o desejo, não a prática. Investiga-se o que ela de fato sente sobre a própria vida sexual.