Teoria Psicanalítica · Curso completo
Aula seis de doze
Tema Sequência Emocional Subtemas Desejo Ódio Reparação Culpa Destruição
Aula VI
VI

Sequência emocional: do desejo à reparação

Uma cadeia de sete elos que vai do impulso original até a tentativa de reparar o estrago — e que Freud começou a formular em 1900 como base de toda análise psicanalítica.

IPP 07 · Capítulo 5 Duração estimada: 90 min
Abertura · Por que uma sequência?

A cadeia das emoções

As emoções humanas não acontecem em paralelo, isoladas umas das outras. Elas se sucedem em uma cadeia previsível — e essa cadeia, descoberta por Freud em 1900, é a base de toda a análise psicanalítica.

A pergunta que organiza esta aula é simples — e devastadora. Como é que alguém, partindo de um desejo legítimo, termina precisando se autopunir? Como é que o impulso amoroso se converte em ódio, o ódio em destruição, a destruição em culpa, a culpa em sintoma? E como é que, depois de todo esse percurso, ainda assim, surge a necessidade de reparar o que foi destruído?

A resposta da psicanálise é que essas emoções não estão soltas. Elas estão encadeadas. Uma é causa direta da próxima. O desejo, quando não satisfeito, gera frustração. A frustração, quando não tolerada, vira hostilidade. A hostilidade, quando posta em ato (real ou em fantasia), produz destruição. A destruição produz culpa. A culpa produz autopunição. E só ao fim de todo esse trajeto é que surge — quando surge — a necessidade de reparar.

Não é só sobre o bebê

Embora a cadeia se origine na infância — no encontro entre o bebê faminto e a mãe que tarda — ela não desaparece quando crescemos. Os adultos, quando não amadurecem emocionalmente, sentem da mesma maneira que um bebê: desejando, frustrando-se, odiando, destruindo. A estrutura arcaica das emoções infantis persiste ao longo de nossas vidas e interfere na mente adulta. É por isso que entender a sequência emocional é, no fundo, entender a vida psíquica.

O amor e o ódio lutam entre si na psique do ser humano; esta luta continua presente, de certa forma, pelo resto da vida do indivíduo — e pode se tornar uma fonte de perigos em suas relações cotidianas. Sobre a luta perene entre Eros e Tanatos
07
IPP 07 · Capítulo 5
A sequência emocional

Sete estações de um trajeto que todo psiquismo percorre — algumas vezes ao dia. Quando atravessamos bem, somos adultos. Quando travamos numa das etapas, ficamos doentes.

O termo sequência emocional é utilizado como modelo para designar uma série de emoções e sentimentos que formam uma cadeia, uma em consequência da outra. A sequência começou a ser formulada por Sigmund Freud em 1900 — e desde então, ela se tornou a base fundamental para o estudo e a prática da análise psicanalítica.

Os sete elos da cadeia
i
Desejo
o impulso original que move tudo
↓
ii
Frustração
quando o desejo não encontra resposta
↓
iii
Hostilidade
o amor que se transforma em ódio
↓
iv
Destruição
o ódio posto em ato — real ou fantasiado
↓
v
Culpa
o reconhecimento do que se destruiu
↓
vi
Auto-punição
a dor que se inflige a si mesmo
↓
vii
Reparação
a tentativa de refazer o que se rompeu

A compreensão da sequência emocional no quadro de análise — que pode reivindicar do analista conhecimento tanto técnico como teórico — é considerada de importância principal. É a chave para o trabalho clínico, porque é o mapa que permite localizar em que ponto da cadeia o paciente está travado.

A resistência do paciente contra a redução do material reprimido será expressa de várias maneiras: desejo, frustração, ódio, destruição, culpa, reparação e autopunição. O analista, que escuta serenamente, pode fazer uso do material trazido à luz pelo paciente de acordo com suas possibilidades.

Sigmund Freud · sobre a técnica analítica

i
Primeiro elo · o impulso original
Desejo
tudo começa aqui — e nada se entende sem isso
desejo
(ê), s.m. · do lat. desidiu
  1. Ato ou efeito de desejar.
  2. O que se deseja.
  3. Anseio (ato de padecer ânsias, ardente anelo, aflição, angústia, perturbação de espírito causada pela incerteza ou pelo receio).
  4. Cobiça (desejo sôfrego, veemente, de possuir bens materiais; avidez, cupidez, ambição desmedida).
  5. Apetite carnal — qualquer forma de movimento em direção a um objeto cuja atração espiritual ou sexual é sentida pela alma e pelo corpo.

Em qualquer concepção do homem existem noções fundamentais, que não podem ser delimitadas. Este é o caso do desejo na doutrina freudiana. O desejo é, em Freud, um daqueles conceitos-limite que organiza tudo sem poder ser, ele mesmo, plenamente definido.

A definição freudiana: a vivência de satisfação

A definição mais elaborada refere-se à vivência de satisfação, após a qual a imagem de uma lembrança indefinida de uma certa "imaginação" se conserva, associada ao traço de uma lembrança indefinida de uma necessidade — que leva o indivíduo a um estado emocional fora de controle.

Nas palavras de Laplanche: "o desejo inconsciente tende a realizar-se, restabelecendo, segundo as leis do processo primário, os sinais ligados às primeiras vivências de satisfação". O desejo se encontra nos sintomas sob a forma de compromisso.

O desejo do bebê: ilimitado, sem objetivo definido

O bebê não sabe falar, pedir ou andar — mas consegue pensar e fantasiar em relação a tudo que sente e deseja. Mesmo que soubesse fazer tudo isso como um adulto, isto não teria fim: os desejos de um bebê são sem limites. Ele irá querer a atenção da mãe 24 horas por dia.

A criança possui desejo sem limites, contentando-se apenas com tudo o que se pode obter da mãe em relação ao afeto. Porém, não tendo ainda a capacidade de distinguir a fantasia da realidade, não possui um objetivo definido. Consequentemente, não consegue a satisfação completa, estando sujeita a sempre ter frustração. Ela não aceita o fato de perder o seio materno — a fonte da satisfação das suas necessidades — principalmente para um irmãozinho que acabou de nascer.

Para Klein, o primeiro amor do bebê é a mãe, mantendo um estreito relacionamento de desejo, amor e ódio. A mãe é, ao mesmo tempo, desejada e odiada com toda força e intensidade emocional. Muito no início, o bebê ama a mãe no momento em que ela satisfaz suas necessidades de alimentação — aliviando seus sintomas de fome e lhe oferecendo o prazer da satisfação ao chupar o peito, o conforto do calor e a segurança do seu colo.

ii
Segundo elo · quando o desejo não encontra resposta
Frustração
o real recusa-se a coincidir com o desejo

Quando o bebê sente fome, sede, frio, abandono, insegurança, dor, desconforto, ou anseia por carinho e atenção — e seus desejos não são atendidos pela mãe — a situação imediatamente se altera. O paraíso narcisista do desejo onipotente se rompe. A criança descobre que existe algo além dela: existe um outro que tem seu próprio tempo, suas próprias razões, e que pode tardar.

Ninguém parou para explicar à criança que nem todos os desejos podem ser realizados, e que, quando isso acontece, tende-se a aceitar esse desfecho com naturalidade. O resultado é o indivíduo sempre lutando para ver seus desejos realizados — e, quando não obtém o êxito, ao invés de aceitar serenamente este fato, sente, ao contrário, uma grande frustração.

A frustração é o ponto de partida da maturidade — ou de toda neurose. Quando tolerada, ela permite o crescimento: o bebê aprende que existe o outro, que existe o tempo, que existe a realidade. Quando intolerável, ela inicia o resto da cadeia destrutiva. Com o passar dos anos, as frustrações vão se multiplicando e se convertem em um estado de neurose depressiva. Fica-se com raiva quando não se consegue as coisas que se quer. Grita-se, revolta-se, xinga-se, chora-se — e o resultado é sempre o mesmo.

iii
Terceiro elo · o amor que vira ódio
Hostilidade
o impulso que se inverte sobre o objeto amado

Surge uma descarga de energia emocional fora de controle, com sentimentos de ódio e agressividade. A criança é tomada por impulsos de destruição interior da mesma pessoa que é o objeto de todos os seus desejos — e que, em sua mente, está ligada a tudo que está sentindo, seja bom ou ruim.

Esse é o ponto mais escandaloso da descoberta freudo-kleiniana: o ódio não é dirigido a um inimigo. É dirigido a quem se ama. A mesma mãe que é a fonte de toda satisfação se torna, no momento da frustração, a fonte de todo ódio. Não há contradição nisso para o psiquismo arcaico — apenas para a lógica adulta.

O ódio desgovernado: a raiva crônica

O ódio desgovernado é uma raiva crônica — e leva o psiquismo humano a ter sentimentos de ressentimento. Com o emocional inflamado, o instinto de destruição é inevitável: há vontade de destruir a si mesmo ou a outrem, gerando um medo incontrolável, consequência da insegurança de destruir ou não destruir.

O indivíduo neurótico tem uma forte preocupação consigo (egocentrismo), de querer fazer as coisas perfeitas — pois para ele o olhar dos outros é fundamental. Torna-se frágil em determinadas situações, com sensações de pânico e mal-estar: diante do chefe, do gerente, de personalidades destacadas, de situação financeira melhor. O corpo reage ficando corado, gaguejando, descontrolado. O simples fato de que alguém possa "pensar mal" é o suficiente para o Eu sentir-se ameaçado — e nesse processo a destruição já está sendo preparada como peça fundamental.

A dependência é sentida como algo perigoso, pelo fato de ela implicar na possibilidade de vir a sofrer frustrações muito dolorosas. É contra essas dependências que o ódio e a destruição se organizam.

iv
Quarto elo · o ódio em ato
Destruição
o ódio que se materializa contra o objeto

Desencadeada pelo sentimento de ódio, a destruição é a consequência da experiência de desapontamentos penosos. Quando o objeto de amor torna-se inesperadamente ausente — ou não mais de exclusividade — o sentimento se transforma em ódio, desencadeando o desejo de destruir o mesmo. Os impulsos amorosos se transformam em impulsos agressivos.

Tanto a inexistência da fonte de satisfação como as suas destruições são conteúdos de fantasia da criança — e, posteriormente, do adolescente e do adulto, transformando-o em neurótico obsessivo.

O que a destruição visa

A destruição visa reduzir o indivíduo e o objeto a uma uniformidade e igualdade — em que não há destruição porque não há nada a destruir. Pode-se ver nisso uma das formas pela qual a destruição expressa o instinto de morte, cujo fim é criar o indiferenciado, o homogêneo, sem estrutura. Em último empenho: um objeto desprovido de qualquer substância ou existência.

As consequências da destruição no emocional doentio

No adulto, a destruição se manifesta de inúmeras formas — sempre como tentativa de aliviar a tensão interna projetando-a sobre algo externo:

Uso inadequado e abusivo de máquinasPrincipalmente o automóvel — que mata por ano mais do que a guerra do Vietnã. A chamada violência do trânsito.
Uso excessivo de bebida alcoólicaForma socialmente tolerada de autodestruição lenta.
Uso de drogas não legalizadasAnestesia para o conflito psíquico não resolvido.
Uso excessivo de drogas legalizadasVersão farmacêutica do mesmo mecanismo.
TabagismoCausa comprovada de várias formas de câncer — autodestruição autorizada socialmente.
Excesso do comer · gulaTentativa de preencher um vazio com um objeto que não é o desejado.
Falta de se alimentar · inaniçãoO outro lado da mesma moeda: destruir o próprio corpo recusando-lhe alimento.
Trabalho em excessoOu em condições desagradáveis — destruição mascarada de virtude.
Falta de vontade · preguiçaPara o trabalho, afazeres domésticos, estudos — destruição passiva por omissão.
Raiva crônicaContra pessoas, autoridades, fatos — leva ao infarto ou à morte lenta.
Descrença pela vidaPerda da fé — destruição do sentido.
Repugnância e rejeiçãoNão acolher, não admitir, recusar — destruição do vínculo.

O que essas formas têm em comum: todas são tentativas de destruir algo — o corpo, o tempo, o vínculo, o sentido — porque o sujeito não conseguiu destruir, em fantasia, aquilo que originalmente o frustrou. A destruição encontra um substituto.

v
Quinto elo · a fatura chega
Culpa
o reconhecimento do que se destruiu
culpa
s.f.
Conduta negligente ou imprudente, sem propósito de lesar, mas da qual proveio dano ou ofensa a outrem; falta voluntária a uma obrigação, ou a um princípio ético, delito, crime; transgressão de preceito religioso; pecado; responsabilidade por ação ou por omissão prejudicial, reprovável ou criminosa. Jurídico: violação ou inobservância de uma regra de conduta, de que resulta lesão do direito alheio.

A inteligência é o fato que distingue o homem do animal. Através dela, o homem toma contato com a realidade — com o meio ambiente que "domina" e consegue "sobreviver". Como ele é uma unidade constituída em partes distintas que se integram entre si, sofre interferências em seu comportamento através de alguns mecanismos de defesa. O ser humano utiliza a inteligência para formar uma ideia e uma imagem favorável de si mesmo — para se sentir bem e em paz.

Mas há uma necessidade básica, muito importante: a da autoaceitação. Não basta iludir-se ou iludir outrem. E é justamente aí que a culpa entra — quando o sujeito não consegue mais se manter ignorante do estrago que ele próprio causou. Quando reconhece, mesmo que parcialmente, que aquele ódio, aquela destruição, foram suas.

O sentir-se alguém "culpado" e "pecador" não prova que na realidade o esteja — como sentir-se alguém bem não prova que na realidade esteja bem. Friedrich Nietzsche

A culpa como herdeira do Édipo

Para a psicanálise, o sentimento de culpa origina-se na passagem pelo Complexo de Édipo. Por medo da perda do amor da figura de autoridade, deve-se evitar fazer ou desejar fazer a coisa má — mas o desejo continua, e por isso existe a culpa. Uma mudança importante acontece quando essa autoridade externa é internalizada pelo indivíduo: ninguém mais precisa lhe dizer "não". É como se ele ouvisse essa proibição dentro de si. Agora, não importa mais a ação para sentir-se culpado: o pensamento, o desejo de fazer algo mau, se encarregam disso.

E não há como esconder de si mesmo esse desejo pelo proibido. Com isso, o mal-estar instala-se definitivamente no interior do indivíduo. A função de autoridade sobre o indivíduo será realizada permanentemente pelo Superego — aquela instância nascida do Édipo, herdeira das proibições, dos limites e da autoridade. E a culpa é o seu instrumento mais eficaz.

vi
Sexto elo · a culpa em ato sobre si
Auto-punição
o sujeito se torna seu próprio carrasco

A necessidade de autopunição encontra facilmente a satisfação devido ao sentimento de culpa. Os sintomas mais frequentes que substituem a neurose, neste caso, são o casamento infeliz e uma doença orgânica justificada pela escolha imprudente no casamento — e a doença como "punição do destino".

As frases que se escutam em casa

O ser humano em geral é guiado, desde criança, por certos conceitos ambivalentes que são introjetados pela psique em desenvolvimento como normas — verdadeiras vozes de comando, funcionando como estímulos tanto positivos como negativos:

"Tenha personalidade, seja forte"Eu deveria ser inabalável.
"Este menino é um burro mesmo, não entende nada, parece surdo"Eu sou idiota.
"Lute pelas coisas que deseja"Não há descanso permitido.
"Você nunca vai conseguir, você é mole"Eu não sou capaz.
"Nunca se dê por vencido"Desistir é fracassar.
"Pau que nasce torto morre torto"Eu sou irrecuperável.
"Homem não chora"Sentir é fraqueza.
"Ser mãe é padecer no paraíso"O sofrimento é o preço do amor.
"Se eu soubesse que você ia ficar desse jeito, eu não teria casado com você"Minha existência decepciona.
"Isso que é mulher, não a que eu tenho em casa"Eu não sou suficiente.

Ninguém parou para explicar que nem todos os desejos podem ser realizados — e que, quando isso acontece, tende-se a aceitar esse desfecho com naturalidade. O resultado é o indivíduo sempre lutando para ver seus desejos realizados; e, quando não obtém o êxito, sente uma grande frustração que se converte, com os anos, em estado crônico de neurose depressiva.

Os sintomas da autopunição

O ser humano usa subterfúgios para impor suas vontades e conseguir o que teimosamente deseja. Com frequência, "fica doente" só para despertar a atenção de outrem, sintam pena e cedam aos seus desejos. Quantas vezes o indivíduo força as lágrimas a fim de que os demais venham socorrê-lo — o coitadinho que julga ser.

Mesmo assim, nem sempre os resultados são alcançados — e quando isso acontece, surge a autopunição como sintomas psicossomáticos: dor de cabeça, palpitações, falta de ar, insônia. O indivíduo torna-se cada vez mais nervoso, angustiado, insatisfeito e deprimido.

O indivíduo passa a acreditar que seu estado emocional se deve ao fato de sua vida ser um inferno. A culpa cabe a outras pessoas que o cercam e aos problemas que surgem de todos os lados. Sente-se vítima de um destino cruel, injusto. Não lhe parece justo ter que suportar tanto sofrimento: uma esposa ou um marido incompreensivo; filhos desobedientes; um chefe explorador; má sorte; situação financeira precária; o cachorro que sempre está doente.

Acreditando não ter mais saída, o indivíduo chega a um estado de autopunição fora do controle que ele próprio acreditava ter. O Eu entra em conflito com seu senso crítico, questionando-se sobre tudo — sem chegar a nenhuma conclusão. A neurose depressiva por autopunição é um estado de humor melancólico e pessimista, uma sensação de esvaziamento da autoestima, sensação de amargura, frustração, ressentimento, incerteza, saturação, rotina.

O paradoxo da autopunição. O indivíduo está sempre tentando manter-se à disposição dos outros — servindo-os e atendendo-os — porque ele mesmo gostaria de ser servido e atendido. Reprime seus desejos e vontades, fantasias agressivas e impulsos de libertação, desprezando-os; e com isso acumula ressentimentos e desgostos, sem manifestá-los — para não perder a simpatia e o reconhecimento de outrem. É uma armadilha perfeita: quanto mais se pune, mais se acumula o que precisaria ser expressado.

vii
Sétimo elo · a saída possível
Necessidade de reparação
a tentativa de refazer o que se rompeu

Para Freud, a depressão é o luto da alma. Origina-se no senso de culpa decorrente do reconhecimento da própria hostilidade inconsciente e das fantasias agressivas contra os demais — principalmente contra aqueles que se ama. Desencadeia-se também como reação entre uma perda real ou imaginária de algo efetivamente importante, que representa amor ou segurança.

Por ser um estado progressivo, o depressivo vai arcar com nova crise, aumentando seu grau de autopunição. Mas a saída existe — e ela tem nome: reparação.

Para Melanie Klein, a luta entre amor e ódio — com todos os conflitos que o Eu provoca — começa no início da infância e continua ativa pelo resto da vida, na relação da criança com os pais. A diferença, na vida adulta, é que essa luta pode ser elaborada: pode-se reconhecer que se odiou aquilo que se amou, que se desejou destruir aquilo que se precisava preservar — e, a partir desse reconhecimento, agir para reparar.

O que é reparar

A reparação não é um cancelamento. Não é como se a destruição não tivesse acontecido. Reparar é, antes de tudo, reconhecer que houve dano — em fantasia ou em ato — e mobilizar a energia psíquica para refazer, na medida do possível, o vínculo que foi atacado.

Na clínica psicanalítica, a reparação é o que torna a análise possível: é só quando o paciente consegue reconhecer que ele próprio é parte do problema que ele pode começar a sair dele. Enquanto a culpa estiver sempre nos outros — no marido, na esposa, no chefe, no destino — não há reparação possível, e portanto não há saída da cadeia destrutiva.

A reparação é o trabalho do amor — e é por isso que o amor maduro, na psicanálise, nada tem a ver com o amor romântico. Amar é poder reparar o que se destruiu. Sobre a função reparatória
1937 · Klein e Riviere

Amor, ódio & reparação

Em 1936, Melanie Klein e Joan Riviere apresentaram uma série de palestras que se tornaria um dos livros mais importantes da psicanálise pós-freudiana — e que dá à sequência emocional seu nome mais lapidar.

1937 · A vida emocional do homem e da mulher civilizados
Amor, ódio e reparação

Em 1936, Melanie Klein e Joan Riviere apresentaram uma série de palestras sob o título de The Emotional Life of Civilized Men and Women — que acabou se tornando a base de um pequeno volume chamado Amor, ódio e reparação, publicado no ano seguinte.

As duas dividiram o assunto: Riviere falou do ódio, culpa e agressividade — e Klein falou de amor, culpa e reparação. Mais tarde, Klein aprofundou-se nos estudos dessa sequência emocional em bebês.

O bebê e a mãe: a relação fundadora

Para Klein, o primeiro amor do bebê é a mãe — mantendo um estreito relacionamento de desejo, amor e ódio. A mãe é, ao mesmo tempo, desejada e odiada com toda força e intensidade emocional. Muito no início, o bebê ama a mãe no momento em que ela satisfaz suas necessidades de alimentação — aliviando seus sintomas de fome e lhe oferecendo o prazer da satisfação ao chupar o peito, o conforto do calor e a segurança do seu colo.

Mas quando o bebê sente fome, sede, frio, abandono, insegurança, dor, desconforto — ou anseia por carinho e atenção — e seus desejos não são atendidos pela mãe, a situação imediatamente se altera. Surge uma descarga de energia emocional fora de controle, com sentimentos de ódio e agressividade.

O amor e o ódio lutam entre si na psique do ser humano. Esta luta continua presente, de certa forma, pelo resto da vida do indivíduo — e pode se tornar uma fonte de perigos em suas relações cotidianas. Não ocorrendo um crescimento emocional, os adultos sentem da mesma maneira que um bebê: desejando, sentindo frustração, odiando, destruindo.

A grande aposta clínica da psicanálise pós-Klein é justamente que, mesmo no adulto travado, é possível reabrir a sequência emocional — fazer com que o sujeito reconheça seus desejos, tolere suas frustrações, aceite seu ódio, repare suas destruições. A psicanálise é, em última instância, um trabalho de reparação.

1957 · O último grande texto kleiniano

Inveja & gratidão

Vinte anos depois de "Amor, ódio e reparação", Klein retorna ao tema — agora com uma intuição mais radical. Antes mesmo de a sequência emocional poder se desenrolar, há um afeto que pode envenená-la na origem: a inveja primária.

Há muitos anos venho me interessando pelas fontes mais arcaicas de duas atitudes que sempre nos foram familiares: a inveja e a gratidão. Cheguei à conclusão de que a inveja é um fator muito poderoso no solapamento das raízes do sentimento de amor e gratidão — pois ela afeta a relação mais antiga de todas, a relação com a mãe.

Melanie Klein · Inveja e Gratidão, 1957

Essas palavras dão início a um dos textos mais significativos de Melanie Klein — e também ao último dos seus trabalhos teóricos de maior importância: Inveja e Gratidão. Quando ela apresentava seus trabalhos na Sociedade Britânica de Psicanálise, os psicanalistas diziam educadamente "Sra. Klein, nós não entendemos o que a senhora diz" — e ela retrucava: "Mas minhas crianças e meus pacientes entendem..."

A inveja primária: o veneno na fonte

A inveja primária, como fantasia inconsciente, é um exemplo da aproximação entre pulsão de vida e de morte: a face escura e sem medida do desejo libidinal — da atração e da cobiça (pulsão de vida) — se combina a um aspecto vampiresco de destrutividade (pulsão de morte).

A pulsão de morte está na tendência a apropriar-se das qualidades do outro, a apagar sua importância, a suprimi-lo. Klein percebeu que, mesmo num bebê, esse mecanismo já opera — e ele solapa as raízes do sentimento de amor, porque o invejoso não consegue receber sem destruir o que recebe.

A face escura
Inveja primária

É a tendência a destruir o objeto bom — não por o odiar, mas justamente porque ele é bom. O invejoso não suporta que o outro tenha algo que ele não tem, e prefere destruir o que o outro tem a recebê-lo.

No bebê, isso se manifesta como ataque ao seio que alimenta: o bebê morde, recusa, vomita o que vem da mãe — porque não suporta que a mãe seja a fonte daquilo que ele depende.

É a pulsão de morte misturada à pulsão de vida — Eros contaminado por Tanatos na própria fonte do desejo.

A face luminosa
Gratidão

É a capacidade de receber o objeto bom sem precisar destruí-lo. Aceitar que existe um outro que tem o que eu não tenho, e que esse outro me dá algo — sem que isso seja humilhante, sem que isso seja insuportável.

A gratidão é a base do amor maduro. Sem ela, todo amor se transforma em dívida, em culpa, em destruição preventiva — porque o sujeito não consegue tolerar a posição de quem recebe.

Onde há gratidão genuína, há reparação possível. Onde há inveja primária, toda tentativa de reparação é minada na origem.

A grande aposta clínica

Para Klein e seus continuadores, as pessoas não sofrem apenas de carências, traumas ou repressões. Elas sofrem também de falta de experiências emocionais que propiciem um desenvolvimento/crescimento. A função terapêutica da interpretação só é efetiva se promove um insight — um reconhecimento do paciente de algo que estava operando nele sem que ele soubesse.

Através de sucessivos insights, o paciente vivencia uma gama variada de estados emocionais e se familiariza com diferentes aspectos de sua personalidade — tornando-se mais tolerante a estados psíquicos que até então evitava. Progressivamente, diz Hanna Segal, o paciente começa a conhecer não somente as suas pulsões e a natureza de sua relação com os objetos internos, mas igualmente o tipo de defesas que utiliza — e que lhe são específicas, fazendo dele o indivíduo que ele é.

Nessa perspectiva, conhecer-se é mudar. A dicotomia que existe entre cura e investigação, na qual analista e paciente se engajam, se for exitosa na produção de insights, conduz a mudanças — da mesma forma como as explorações dos grandes navegadores mudaram o mundo. É essa, no fim das contas, a aposta de toda a sequência emocional: que, ao trazer à luz o caminho que vai do desejo à destruição, seja possível encontrar também o caminho de volta — da destruição à reparação.

A inveja é um fator muito poderoso no solapamento das raízes do sentimento de amor e gratidão — pois afeta a relação mais antiga de todas, a relação com a mãe. Melanie Klein · 1957
Medida · A intensidade dos elos

A força que desce pela cadeia

A sequência explica o caminho. A força explica o tamanho. E o tamanho é o mesmo do primeiro elo ao último — o que permite ler para trás o que já aconteceu.

Antes de medir a cadeia, quatro elementos precisam estar na ponta da língua: fonte, força, finalidade e objeto. São os quatro elementos da pulsão, e sem eles não há como calcular a intensidade de nenhum elo.

O número desce inteiro

Numere a força de zero a dez. Se o desejo tem força oito, a frustração é oito, o ódio é oito e a destruição é oito. A força é constante e atravessa a sequência inteira.

Daí saem duas leituras clínicas, as duas retroativas. A primeira é pela intensidade: se o paciente roeu a unha, o desejo tinha o tamanho de roer a unha; se quebrou a casa inteira, o desejo tinha o tamanho de quebrar a casa. A única diferença entre roer a unha e quebrar um consultório inteiro é a força — a estrutura é idêntica. A segunda é pelo objeto: não se destrói qualquer coisa. Destrói-se o que carrega o simbólico da falta.

A frustração é o único ponto de desconto

Há um único estágio em que a força pode ser diminuída, e é a frustração. Enquanto ainda se está nela e o ódio ainda não se formou, um ego com competência de aceitação faz a força cair — e toda a sequência vem diminuída no grau que se conseguiu reduzir ali. Depois que virou ódio, não há mais desconto.

Isso não é otimismo. Ninguém fica feliz porque a mãe morreu. Entra-se na frustração de qualquer maneira; o que muda é o grau — daquele oito cai-se para outro número. É o que Freud tratou como flexibilidade e capacidade de aceitação diante da frustração.

Na frustração é o único estágio em que a gente tem a oportunidade de diminuir essa força. Se a minha força era oito no desejo e ele não aconteceu, se naquele estágio da frustração ele ainda não virou ódio… eu repenso e eu tenho aceitação. Aí toda a sequência vem diminuída. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 1, aula “Sequência Emocional” · 22/04/2024

Fase adulta não é maturidade

Os dois critérios são independentes e se confundem o tempo todo. Fase adulta é critério objetivo, de responsabilidade pela própria sobrevivência: moro sozinho, pago minha conta, ganho meu dinheiro. Um cantor de catorze anos que se sustenta já é adulto; alguém de quarenta morando na casa dos pais, com a mãe lavando a roupa e fazendo a comida, não é. Maturidade é critério de ego, e se mede exatamente na frustração: é a competência de aceitar quando a realidade veio contrária à expectativa e de reprogramar o desejo. Dá para ser adulto e imaturo, e dá para ser o contrário.

A cadeia não muda com o diagnóstico

A sequência é a mesma no neurótico, no bipolar, no esquizofrênico e no borderline. O que muda é o nível do sintoma: um roe a unha, outro quebra a casa, outro corta os braços, outro tenta o suicídio. O caminho até lá continua sendo desejo, frustração, hostilidade, destruição.

Por isso o cálculo diante de um quadro grave é o mesmo de sempre. Pergunta-se o que aquela pessoa desejava daquele pai que foi embora, daquela mãe que castra, daquele avô — e que não está acontecendo.

Definição · O segundo elo por dentro

Frustração é ausência de energia

A passagem da frustração ao ódio não é moral. É fisiológica, e tem uma ordem que se pode acompanhar passo a passo.

Perguntado o que é frustração, a primeira frase é: ausência de energia. O resto se deduz dessa definição.

  1. O desejo carrega energia libidinal, e essa energia produz movimento psíquico e físico.
  2. Frustrado o desejo, a energia é retirada. Sai do rosto, sai do corpo, sai de tudo.
  3. Sem energia, o indivíduo se sente frágil e desprotegido.
  4. O tronco cerebral lê fragilidade como ameaça e responde que precisa se defender.
  5. Por isso o elo seguinte é o ódio: ele é o mecanismo que vem cobrir o ego que a frustração deixou desprotegido.

Expectativa e inconformismo

Expectativa não é “eu gostaria que isso acontecesse”. É “isso deve acontecer”. É a tentativa de controlar o que deve acontecer, e por isso ela é dramática e inflexível: dentro dela já está embutido que aquilo vai trazer sentido, alegria e cobertura para a falta.

Daí o inconformismo, que é a posição de quem não aceita a frustração. A frase-assinatura é “a vida é injusta, não é justo isso comigo”. Ela denuncia a birra, a inflexibilidade e a criança que ainda não admite que o mundo tenha tempo próprio. E há uma regra ligada a isso: todo ponto de expectativa frustrado sem aceitação vira marca de ponto traumático no inconsciente. Esse ponto se desdobra em evitação, em reações compulsivas para baixar a ansiedade e em programação para que aquilo não se repita. O começo da neurose não está no desejo nem na falta. Está na não aceitação da falta.

Destruição é ódio em ação

Destruição é o ódio em ação. Nunca vai entender a destruição sem entender o ódio. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 1, aula “Sequência Emocional” · 22/04/2024

A destruição é o estado mental de ódio colocado no corpo, em movimento. E a lista do que conta como destruição é mais larga do que parece: quebrar o carro, destruir a casa, bater em alguém, quebrar objetos, cortar o próprio braço — e roer a unha. Em todos os casos é a mesma operação: jogar para o físico algo que está sendo destruído, seja o corpo do outro, seja o próprio corpo.

A automutilação

Há uma leitura corrente que diz que a pessoa se corta porque a dor física é maior do que a dor que ela sente. Não é isso.

A automutilação é destruição deslocada para o próprio corpo, e ela se desloca porque o superego não deixou destruir a figura visada — a pergunta que o aparelho faz e responde sozinho é se é possível destruir o pai. O lugar mutilado carrega o simbólico do que está sendo destruído: uma perna atacada fala de direção e de movimento. E há satisfação envolvida, porque a pulsão de morte também é pulsão, e toda pulsão tem a satisfação como finalidade.

Culpa · Da fatura às duas saídas

A culpa que se inventa

Existe uma culpa que se sustenta em fato e uma que se fabrica. Só a primeira responde a argumento — e é a segunda que chega ao consultório.

A culpa lógica é a culpa verdadeira, e exige três condições ao mesmo tempo: premeditada, consciente e livre. Cada uma se testa. Quem premeditou mas estava em surto não estava consciente. Quem premeditou e estava consciente, mas agiu sob ameaça à família inteira, não estava livre. Faltando qualquer uma das três, não é culpa lógica: é sentimento de culpa, e em psicanálise esse é exatamente o nome. É a culpa que o sujeito inventa para si ou compra de alguém.

Culpa ilógica não se trata com lógica

O inconsciente não entra em contradição lógica. Por isso argumento não desmonta sentimento de culpa.

Uma paciente trouxe a mãe doente para casa, brigou com ela, mandou-a embora — e a mãe piorou e morreu. O discurso que chega à sessão é: eu mandei minha mãe embora e ela piorou. O terapeuta que tenta trazer a paciente para a realidade, lembrando que a doença já estava lá e que o desfecho viria de qualquer jeito, não muda nada. A única via é outra: descobrir o desejo e trabalhar a aceitação do desejo. No caso, todos os desejos frustrados em relação àquela mãe, que agora se cristalizaram na morte.

Para achar o desejo serve a aula de português aplicada à sessão: quem é o sujeito da frase, quem é o vilão da frase, qual é o tema desse discurso.

Se é uma culpa ilógica, se é um sentimento de culpa — escreve bem grande — a única forma de cuidar disso é descobrir o desejo e trabalhar a aceitação do desejo. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 1, aula “Culpa” · 29/04/2024

A culpa imposta só cola onde já havia desejo frustrado

A regra é fechada: só se compra uma culpa imposta se já existe um desejo frustrado sobre aquele mesmo tema.

A sogra diz à viúva que o marido se matou porque tinha um casamento infeliz com ela. A frase só pega se a viúva ainda não aceitou aquela morte. Trabalhada a aceitação, a sogra fala e não gruda. O mesmo vale para a fala materna clássica — eu era linda, tinha carreira, e depois que engravidei tudo foi por água abaixo. Se o filho não tem desejos frustrados com aquela mãe, a frase não encontra onde se fixar. Se tem, encontra.

O erro de manejo correspondente é tentar resolver a culpa imposta discutindo a imposição: investigar a sogra, examinar se o casamento era mesmo infeliz. Isso não trata nada.

A culpa por êxito segue a mesma regra e acrescenta um mecanismo: ela aparece em relação a alguém que se ama, quando o próprio êxito humilha o outro. Nem todo mundo que ama sabe lidar com o sucesso de quem ama. Um marcador clínico costuma aparecer aí — crises de pânico que surgem exatamente quando a carreira começa a crescer, no grande projeto, na prosperidade, na exposição.

A culpa é pulsão, e a punição satisfaz

Quem julga é o superego. Na hora da culpa entram em jogo as crenças, os valores, os princípios, os totens e os tabus. O superego é o juiz.

A culpa mantém forma de pulsão, e portanto quer ser realizada: eu quero ser punido para me livrar dessa culpa. Como toda pulsão tem a satisfação por finalidade, a punição traz satisfação — e é por aí que se entende o sofrimento crônico que a pessoa não larga.

Mas a autopunição nunca extingue a culpa. Executar uma autopunição ou uma autossabotagem não elimina nada: o pagamento se repete enquanto o desejo não for aceito. As formas típicas de punição do culpado são a restrição e o isolamento. Uma viúva cujo marido se matou no quintal voltou a não sair de casa. A leitura é literal: se ela é culpada, ela tem que estar presa — então está presa em casa.

Reparar é a outra saída da mesma culpa

Não parece que eu vou reparar, que eu vou consertar tudo? Esquece essa ideia. A reparação ainda vem da culpa. Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 1, aula “Culpa” · 29/04/2024

São duas saídas para a mesma culpa. Pagar é a autopunição: fazer coisa ruim para si. Reparar é agradar: fazer alguma coisa pelo outro. As duas nascem no mesmo lugar. Quem está em reparação dá sinais reconhecíveis:

Não consegue dizer nãoA carona de duzentos quilômetros, a ajuda na mudança, o atendimento à meia-noite.
Excesso de necessidade de agradarA necessidade de agradar vem da culpa.
Não consegue receber elogioJustifica-se — “é porque eu pintei o cabelo”, “hoje deu tempo de lavar” — e fica desconcertada.
Não consegue receber presente“Não precisava disso, pelo amor de Deus.”
Discurso de indignidade“Eu não sou merecedor.” “Eu não sou capaz.”

Quando alguém fica constrangido diante de um agradecimento, há dois caminhos e só dois: ou é reparação, e existe uma culpa inconsciente sobre aquela pessoa ou aquela situação, ou é pudor de superego, e aquilo insinuou alguma coisa que o superego não autoriza. Do mesmo campo vem outra fórmula: a queixa é o choro do adulto. Queixa-se para que o outro venha agradar, em vez de dizer o problema.

Autossabotagem se mede pelo simbólico do sujeito

Nunca se julga autossabotagem pelo senso comum. Vai-se ao simbólico da pessoa: o que ela acredita que é vida e o que ela acredita que é morte.

Alguém aprendeu que vida boa é picanha com a gordura derretendo, e que alface faz mal. Quando essa pessoa larga a picanha e passa a comer alface, de fora parece uma boa escolha — mas ela está sabotando aquilo que acredita ser vida. O método é fazer duas listas com o paciente: tudo o que ele acredita que é bom e é vida, tudo o que ele acredita que é ruim e é morte. Depois se olha o que ele está fazendo.

As duas maiores autossabotagens são a procrastinação — o ato de delongar, espaçar ou deixar para depois — e o afastamento de quem se ama. Um mês sem ver o filho, sem dar um beijo, sem gravar um áudio: a pessoa sabe exatamente como destruir a relação, e destrói para se punir.

Só se trabalha o desejo

O paciente chega mostrando o final da cadeia: a autossabotagem, a culpa, a destruição, o ódio. Tudo isso é sintoma. Trabalhar qualquer um desses elos é perda de tempo, porque a cadeia reinicia enquanto o desejo frustrado continuar frustrado.

Há uma goteira no telhado. Troca-se o balde. Inventa-se um sistema para o balde escoar para fora. Troca-se a telha do lado errado. E a goteira lá em cima continua onde estava. Enquanto isso, o paciente arruma uma autossabotagem nova a cada vez que a anterior é resolvida.

A regra. Diante de qualquer elo da sequência, a pergunta volta ao começo: qual era o desejo, qual era o tamanho dele, e o que aconteceu quando ele não se realizou. É sobre o desejo que se fala — e é na frustração dele que a força ainda pode cair.

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