Uma cadeia de sete elos que vai do impulso original até a tentativa de reparar o estrago — e que Freud começou a formular em 1900 como base de toda análise psicanalítica.
As emoções humanas não acontecem em paralelo, isoladas umas das outras. Elas se sucedem em uma cadeia previsível — e essa cadeia, descoberta por Freud em 1900, é a base de toda a análise psicanalítica.
A pergunta que organiza esta aula é simples — e devastadora. Como é que alguém, partindo de um desejo legítimo, termina precisando se autopunir? Como é que o impulso amoroso se converte em ódio, o ódio em destruição, a destruição em culpa, a culpa em sintoma? E como é que, depois de todo esse percurso, ainda assim, surge a necessidade de reparar o que foi destruído?
A resposta da psicanálise é que essas emoções não estão soltas. Elas estão encadeadas. Uma é causa direta da próxima. O desejo, quando não satisfeito, gera frustração. A frustração, quando não tolerada, vira hostilidade. A hostilidade, quando posta em ato (real ou em fantasia), produz destruição. A destruição produz culpa. A culpa produz autopunição. E só ao fim de todo esse trajeto é que surge — quando surge — a necessidade de reparar.
Embora a cadeia se origine na infância — no encontro entre o bebê faminto e a mãe que tarda — ela não desaparece quando crescemos. Os adultos, quando não amadurecem emocionalmente, sentem da mesma maneira que um bebê: desejando, frustrando-se, odiando, destruindo. A estrutura arcaica das emoções infantis persiste ao longo de nossas vidas e interfere na mente adulta. É por isso que entender a sequência emocional é, no fundo, entender a vida psíquica.
O amor e o ódio lutam entre si na psique do ser humano; esta luta continua presente, de certa forma, pelo resto da vida do indivíduo — e pode se tornar uma fonte de perigos em suas relações cotidianas.Sobre a luta perene entre Eros e Tanatos
Sete estações de um trajeto que todo psiquismo percorre — algumas vezes ao dia. Quando atravessamos bem, somos adultos. Quando travamos numa das etapas, ficamos doentes.
O termo sequência emocional é utilizado como modelo para designar uma série de emoções e sentimentos que formam uma cadeia, uma em consequência da outra. A sequência começou a ser formulada por Sigmund Freud em 1900 — e desde então, ela se tornou a base fundamental para o estudo e a prática da análise psicanalítica.
A compreensão da sequência emocional no quadro de análise — que pode reivindicar do analista conhecimento tanto técnico como teórico — é considerada de importância principal. É a chave para o trabalho clínico, porque é o mapa que permite localizar em que ponto da cadeia o paciente está travado.
A resistência do paciente contra a redução do material reprimido será expressa de várias maneiras: desejo, frustração, ódio, destruição, culpa, reparação e autopunição. O analista, que escuta serenamente, pode fazer uso do material trazido à luz pelo paciente de acordo com suas possibilidades.
Sigmund Freud · sobre a técnica analítica
Em qualquer concepção do homem existem noções fundamentais, que não podem ser delimitadas. Este é o caso do desejo na doutrina freudiana. O desejo é, em Freud, um daqueles conceitos-limite que organiza tudo sem poder ser, ele mesmo, plenamente definido.
A definição mais elaborada refere-se à vivência de satisfação, após a qual a imagem de uma lembrança indefinida de uma certa "imaginação" se conserva, associada ao traço de uma lembrança indefinida de uma necessidade — que leva o indivíduo a um estado emocional fora de controle.
Nas palavras de Laplanche: "o desejo inconsciente tende a realizar-se, restabelecendo, segundo as leis do processo primário, os sinais ligados às primeiras vivências de satisfação". O desejo se encontra nos sintomas sob a forma de compromisso.
O bebê não sabe falar, pedir ou andar — mas consegue pensar e fantasiar em relação a tudo que sente e deseja. Mesmo que soubesse fazer tudo isso como um adulto, isto não teria fim: os desejos de um bebê são sem limites. Ele irá querer a atenção da mãe 24 horas por dia.
A criança possui desejo sem limites, contentando-se apenas com tudo o que se pode obter da mãe em relação ao afeto. Porém, não tendo ainda a capacidade de distinguir a fantasia da realidade, não possui um objetivo definido. Consequentemente, não consegue a satisfação completa, estando sujeita a sempre ter frustração. Ela não aceita o fato de perder o seio materno — a fonte da satisfação das suas necessidades — principalmente para um irmãozinho que acabou de nascer.
Para Klein, o primeiro amor do bebê é a mãe, mantendo um estreito relacionamento de desejo, amor e ódio. A mãe é, ao mesmo tempo, desejada e odiada com toda força e intensidade emocional. Muito no início, o bebê ama a mãe no momento em que ela satisfaz suas necessidades de alimentação — aliviando seus sintomas de fome e lhe oferecendo o prazer da satisfação ao chupar o peito, o conforto do calor e a segurança do seu colo.
Quando o bebê sente fome, sede, frio, abandono, insegurança, dor, desconforto, ou anseia por carinho e atenção — e seus desejos não são atendidos pela mãe — a situação imediatamente se altera. O paraíso narcisista do desejo onipotente se rompe. A criança descobre que existe algo além dela: existe um outro que tem seu próprio tempo, suas próprias razões, e que pode tardar.
Ninguém parou para explicar à criança que nem todos os desejos podem ser realizados, e que, quando isso acontece, tende-se a aceitar esse desfecho com naturalidade. O resultado é o indivíduo sempre lutando para ver seus desejos realizados — e, quando não obtém o êxito, ao invés de aceitar serenamente este fato, sente, ao contrário, uma grande frustração.
A frustração é o ponto de partida da maturidade — ou de toda neurose. Quando tolerada, ela permite o crescimento: o bebê aprende que existe o outro, que existe o tempo, que existe a realidade. Quando intolerável, ela inicia o resto da cadeia destrutiva. Com o passar dos anos, as frustrações vão se multiplicando e se convertem em um estado de neurose depressiva. Fica-se com raiva quando não se consegue as coisas que se quer. Grita-se, revolta-se, xinga-se, chora-se — e o resultado é sempre o mesmo.
Surge uma descarga de energia emocional fora de controle, com sentimentos de ódio e agressividade. A criança é tomada por impulsos de destruição interior da mesma pessoa que é o objeto de todos os seus desejos — e que, em sua mente, está ligada a tudo que está sentindo, seja bom ou ruim.
Esse é o ponto mais escandaloso da descoberta freudo-kleiniana: o ódio não é dirigido a um inimigo. É dirigido a quem se ama. A mesma mãe que é a fonte de toda satisfação se torna, no momento da frustração, a fonte de todo ódio. Não há contradição nisso para o psiquismo arcaico — apenas para a lógica adulta.
O ódio desgovernado é uma raiva crônica — e leva o psiquismo humano a ter sentimentos de ressentimento. Com o emocional inflamado, o instinto de destruição é inevitável: há vontade de destruir a si mesmo ou a outrem, gerando um medo incontrolável, consequência da insegurança de destruir ou não destruir.
O indivíduo neurótico tem uma forte preocupação consigo (egocentrismo), de querer fazer as coisas perfeitas — pois para ele o olhar dos outros é fundamental. Torna-se frágil em determinadas situações, com sensações de pânico e mal-estar: diante do chefe, do gerente, de personalidades destacadas, de situação financeira melhor. O corpo reage ficando corado, gaguejando, descontrolado. O simples fato de que alguém possa "pensar mal" é o suficiente para o Eu sentir-se ameaçado — e nesse processo a destruição já está sendo preparada como peça fundamental.
A dependência é sentida como algo perigoso, pelo fato de ela implicar na possibilidade de vir a sofrer frustrações muito dolorosas. É contra essas dependências que o ódio e a destruição se organizam.
Desencadeada pelo sentimento de ódio, a destruição é a consequência da experiência de desapontamentos penosos. Quando o objeto de amor torna-se inesperadamente ausente — ou não mais de exclusividade — o sentimento se transforma em ódio, desencadeando o desejo de destruir o mesmo. Os impulsos amorosos se transformam em impulsos agressivos.
Tanto a inexistência da fonte de satisfação como as suas destruições são conteúdos de fantasia da criança — e, posteriormente, do adolescente e do adulto, transformando-o em neurótico obsessivo.
A destruição visa reduzir o indivíduo e o objeto a uma uniformidade e igualdade — em que não há destruição porque não há nada a destruir. Pode-se ver nisso uma das formas pela qual a destruição expressa o instinto de morte, cujo fim é criar o indiferenciado, o homogêneo, sem estrutura. Em último empenho: um objeto desprovido de qualquer substância ou existência.
No adulto, a destruição se manifesta de inúmeras formas — sempre como tentativa de aliviar a tensão interna projetando-a sobre algo externo:
O que essas formas têm em comum: todas são tentativas de destruir algo — o corpo, o tempo, o vínculo, o sentido — porque o sujeito não conseguiu destruir, em fantasia, aquilo que originalmente o frustrou. A destruição encontra um substituto.
A inteligência é o fato que distingue o homem do animal. Através dela, o homem toma contato com a realidade — com o meio ambiente que "domina" e consegue "sobreviver". Como ele é uma unidade constituída em partes distintas que se integram entre si, sofre interferências em seu comportamento através de alguns mecanismos de defesa. O ser humano utiliza a inteligência para formar uma ideia e uma imagem favorável de si mesmo — para se sentir bem e em paz.
Mas há uma necessidade básica, muito importante: a da autoaceitação. Não basta iludir-se ou iludir outrem. E é justamente aí que a culpa entra — quando o sujeito não consegue mais se manter ignorante do estrago que ele próprio causou. Quando reconhece, mesmo que parcialmente, que aquele ódio, aquela destruição, foram suas.
O sentir-se alguém "culpado" e "pecador" não prova que na realidade o esteja — como sentir-se alguém bem não prova que na realidade esteja bem.Friedrich Nietzsche
Para a psicanálise, o sentimento de culpa origina-se na passagem pelo Complexo de Édipo. Por medo da perda do amor da figura de autoridade, deve-se evitar fazer ou desejar fazer a coisa má — mas o desejo continua, e por isso existe a culpa. Uma mudança importante acontece quando essa autoridade externa é internalizada pelo indivíduo: ninguém mais precisa lhe dizer "não". É como se ele ouvisse essa proibição dentro de si. Agora, não importa mais a ação para sentir-se culpado: o pensamento, o desejo de fazer algo mau, se encarregam disso.
E não há como esconder de si mesmo esse desejo pelo proibido. Com isso, o mal-estar instala-se definitivamente no interior do indivíduo. A função de autoridade sobre o indivíduo será realizada permanentemente pelo Superego — aquela instância nascida do Édipo, herdeira das proibições, dos limites e da autoridade. E a culpa é o seu instrumento mais eficaz.
A necessidade de autopunição encontra facilmente a satisfação devido ao sentimento de culpa. Os sintomas mais frequentes que substituem a neurose, neste caso, são o casamento infeliz e uma doença orgânica justificada pela escolha imprudente no casamento — e a doença como "punição do destino".
O ser humano em geral é guiado, desde criança, por certos conceitos ambivalentes que são introjetados pela psique em desenvolvimento como normas — verdadeiras vozes de comando, funcionando como estímulos tanto positivos como negativos:
Ninguém parou para explicar que nem todos os desejos podem ser realizados — e que, quando isso acontece, tende-se a aceitar esse desfecho com naturalidade. O resultado é o indivíduo sempre lutando para ver seus desejos realizados; e, quando não obtém o êxito, sente uma grande frustração que se converte, com os anos, em estado crônico de neurose depressiva.
O ser humano usa subterfúgios para impor suas vontades e conseguir o que teimosamente deseja. Com frequência, "fica doente" só para despertar a atenção de outrem, sintam pena e cedam aos seus desejos. Quantas vezes o indivíduo força as lágrimas a fim de que os demais venham socorrê-lo — o coitadinho que julga ser.
Mesmo assim, nem sempre os resultados são alcançados — e quando isso acontece, surge a autopunição como sintomas psicossomáticos: dor de cabeça, palpitações, falta de ar, insônia. O indivíduo torna-se cada vez mais nervoso, angustiado, insatisfeito e deprimido.
O indivíduo passa a acreditar que seu estado emocional se deve ao fato de sua vida ser um inferno. A culpa cabe a outras pessoas que o cercam e aos problemas que surgem de todos os lados. Sente-se vítima de um destino cruel, injusto. Não lhe parece justo ter que suportar tanto sofrimento: uma esposa ou um marido incompreensivo; filhos desobedientes; um chefe explorador; má sorte; situação financeira precária; o cachorro que sempre está doente.
Acreditando não ter mais saída, o indivíduo chega a um estado de autopunição fora do controle que ele próprio acreditava ter. O Eu entra em conflito com seu senso crítico, questionando-se sobre tudo — sem chegar a nenhuma conclusão. A neurose depressiva por autopunição é um estado de humor melancólico e pessimista, uma sensação de esvaziamento da autoestima, sensação de amargura, frustração, ressentimento, incerteza, saturação, rotina.
O paradoxo da autopunição. O indivíduo está sempre tentando manter-se à disposição dos outros — servindo-os e atendendo-os — porque ele mesmo gostaria de ser servido e atendido. Reprime seus desejos e vontades, fantasias agressivas e impulsos de libertação, desprezando-os; e com isso acumula ressentimentos e desgostos, sem manifestá-los — para não perder a simpatia e o reconhecimento de outrem. É uma armadilha perfeita: quanto mais se pune, mais se acumula o que precisaria ser expressado.
Para Freud, a depressão é o luto da alma. Origina-se no senso de culpa decorrente do reconhecimento da própria hostilidade inconsciente e das fantasias agressivas contra os demais — principalmente contra aqueles que se ama. Desencadeia-se também como reação entre uma perda real ou imaginária de algo efetivamente importante, que representa amor ou segurança.
Por ser um estado progressivo, o depressivo vai arcar com nova crise, aumentando seu grau de autopunição. Mas a saída existe — e ela tem nome: reparação.
Para Melanie Klein, a luta entre amor e ódio — com todos os conflitos que o Eu provoca — começa no início da infância e continua ativa pelo resto da vida, na relação da criança com os pais. A diferença, na vida adulta, é que essa luta pode ser elaborada: pode-se reconhecer que se odiou aquilo que se amou, que se desejou destruir aquilo que se precisava preservar — e, a partir desse reconhecimento, agir para reparar.
A reparação não é um cancelamento. Não é como se a destruição não tivesse acontecido. Reparar é, antes de tudo, reconhecer que houve dano — em fantasia ou em ato — e mobilizar a energia psíquica para refazer, na medida do possível, o vínculo que foi atacado.
Na clínica psicanalítica, a reparação é o que torna a análise possível: é só quando o paciente consegue reconhecer que ele próprio é parte do problema que ele pode começar a sair dele. Enquanto a culpa estiver sempre nos outros — no marido, na esposa, no chefe, no destino — não há reparação possível, e portanto não há saída da cadeia destrutiva.
A reparação é o trabalho do amor — e é por isso que o amor maduro, na psicanálise, nada tem a ver com o amor romântico. Amar é poder reparar o que se destruiu.Sobre a função reparatória
Em 1936, Melanie Klein e Joan Riviere apresentaram uma série de palestras que se tornaria um dos livros mais importantes da psicanálise pós-freudiana — e que dá à sequência emocional seu nome mais lapidar.
Em 1936, Melanie Klein e Joan Riviere apresentaram uma série de palestras sob o título de The Emotional Life of Civilized Men and Women — que acabou se tornando a base de um pequeno volume chamado Amor, ódio e reparação, publicado no ano seguinte.
As duas dividiram o assunto: Riviere falou do ódio, culpa e agressividade — e Klein falou de amor, culpa e reparação. Mais tarde, Klein aprofundou-se nos estudos dessa sequência emocional em bebês.
Para Klein, o primeiro amor do bebê é a mãe — mantendo um estreito relacionamento de desejo, amor e ódio. A mãe é, ao mesmo tempo, desejada e odiada com toda força e intensidade emocional. Muito no início, o bebê ama a mãe no momento em que ela satisfaz suas necessidades de alimentação — aliviando seus sintomas de fome e lhe oferecendo o prazer da satisfação ao chupar o peito, o conforto do calor e a segurança do seu colo.
Mas quando o bebê sente fome, sede, frio, abandono, insegurança, dor, desconforto — ou anseia por carinho e atenção — e seus desejos não são atendidos pela mãe, a situação imediatamente se altera. Surge uma descarga de energia emocional fora de controle, com sentimentos de ódio e agressividade.
O amor e o ódio lutam entre si na psique do ser humano. Esta luta continua presente, de certa forma, pelo resto da vida do indivíduo — e pode se tornar uma fonte de perigos em suas relações cotidianas. Não ocorrendo um crescimento emocional, os adultos sentem da mesma maneira que um bebê: desejando, sentindo frustração, odiando, destruindo.
A grande aposta clínica da psicanálise pós-Klein é justamente que, mesmo no adulto travado, é possível reabrir a sequência emocional — fazer com que o sujeito reconheça seus desejos, tolere suas frustrações, aceite seu ódio, repare suas destruições. A psicanálise é, em última instância, um trabalho de reparação.
Vinte anos depois de "Amor, ódio e reparação", Klein retorna ao tema — agora com uma intuição mais radical. Antes mesmo de a sequência emocional poder se desenrolar, há um afeto que pode envenená-la na origem: a inveja primária.
Há muitos anos venho me interessando pelas fontes mais arcaicas de duas atitudes que sempre nos foram familiares: a inveja e a gratidão. Cheguei à conclusão de que a inveja é um fator muito poderoso no solapamento das raízes do sentimento de amor e gratidão — pois ela afeta a relação mais antiga de todas, a relação com a mãe.
Melanie Klein · Inveja e Gratidão, 1957
Essas palavras dão início a um dos textos mais significativos de Melanie Klein — e também ao último dos seus trabalhos teóricos de maior importância: Inveja e Gratidão. Quando ela apresentava seus trabalhos na Sociedade Britânica de Psicanálise, os psicanalistas diziam educadamente "Sra. Klein, nós não entendemos o que a senhora diz" — e ela retrucava: "Mas minhas crianças e meus pacientes entendem..."
A inveja primária, como fantasia inconsciente, é um exemplo da aproximação entre pulsão de vida e de morte: a face escura e sem medida do desejo libidinal — da atração e da cobiça (pulsão de vida) — se combina a um aspecto vampiresco de destrutividade (pulsão de morte).
A pulsão de morte está na tendência a apropriar-se das qualidades do outro, a apagar sua importância, a suprimi-lo. Klein percebeu que, mesmo num bebê, esse mecanismo já opera — e ele solapa as raízes do sentimento de amor, porque o invejoso não consegue receber sem destruir o que recebe.
É a tendência a destruir o objeto bom — não por o odiar, mas justamente porque ele é bom. O invejoso não suporta que o outro tenha algo que ele não tem, e prefere destruir o que o outro tem a recebê-lo.
No bebê, isso se manifesta como ataque ao seio que alimenta: o bebê morde, recusa, vomita o que vem da mãe — porque não suporta que a mãe seja a fonte daquilo que ele depende.
É a pulsão de morte misturada à pulsão de vida — Eros contaminado por Tanatos na própria fonte do desejo.
É a capacidade de receber o objeto bom sem precisar destruí-lo. Aceitar que existe um outro que tem o que eu não tenho, e que esse outro me dá algo — sem que isso seja humilhante, sem que isso seja insuportável.
A gratidão é a base do amor maduro. Sem ela, todo amor se transforma em dívida, em culpa, em destruição preventiva — porque o sujeito não consegue tolerar a posição de quem recebe.
Onde há gratidão genuína, há reparação possível. Onde há inveja primária, toda tentativa de reparação é minada na origem.
Para Klein e seus continuadores, as pessoas não sofrem apenas de carências, traumas ou repressões. Elas sofrem também de falta de experiências emocionais que propiciem um desenvolvimento/crescimento. A função terapêutica da interpretação só é efetiva se promove um insight — um reconhecimento do paciente de algo que estava operando nele sem que ele soubesse.
Através de sucessivos insights, o paciente vivencia uma gama variada de estados emocionais e se familiariza com diferentes aspectos de sua personalidade — tornando-se mais tolerante a estados psíquicos que até então evitava. Progressivamente, diz Hanna Segal, o paciente começa a conhecer não somente as suas pulsões e a natureza de sua relação com os objetos internos, mas igualmente o tipo de defesas que utiliza — e que lhe são específicas, fazendo dele o indivíduo que ele é.
Nessa perspectiva, conhecer-se é mudar. A dicotomia que existe entre cura e investigação, na qual analista e paciente se engajam, se for exitosa na produção de insights, conduz a mudanças — da mesma forma como as explorações dos grandes navegadores mudaram o mundo. É essa, no fim das contas, a aposta de toda a sequência emocional: que, ao trazer à luz o caminho que vai do desejo à destruição, seja possível encontrar também o caminho de volta — da destruição à reparação.
A inveja é um fator muito poderoso no solapamento das raízes do sentimento de amor e gratidão — pois afeta a relação mais antiga de todas, a relação com a mãe.Melanie Klein · 1957
A sequência explica o caminho. A força explica o tamanho. E o tamanho é o mesmo do primeiro elo ao último — o que permite ler para trás o que já aconteceu.
Antes de medir a cadeia, quatro elementos precisam estar na ponta da língua: fonte, força, finalidade e objeto. São os quatro elementos da pulsão, e sem eles não há como calcular a intensidade de nenhum elo.
Numere a força de zero a dez. Se o desejo tem força oito, a frustração é oito, o ódio é oito e a destruição é oito. A força é constante e atravessa a sequência inteira.
Daí saem duas leituras clínicas, as duas retroativas. A primeira é pela intensidade: se o paciente roeu a unha, o desejo tinha o tamanho de roer a unha; se quebrou a casa inteira, o desejo tinha o tamanho de quebrar a casa. A única diferença entre roer a unha e quebrar um consultório inteiro é a força — a estrutura é idêntica. A segunda é pelo objeto: não se destrói qualquer coisa. Destrói-se o que carrega o simbólico da falta.
Há um único estágio em que a força pode ser diminuída, e é a frustração. Enquanto ainda se está nela e o ódio ainda não se formou, um ego com competência de aceitação faz a força cair — e toda a sequência vem diminuída no grau que se conseguiu reduzir ali. Depois que virou ódio, não há mais desconto.
Isso não é otimismo. Ninguém fica feliz porque a mãe morreu. Entra-se na frustração de qualquer maneira; o que muda é o grau — daquele oito cai-se para outro número. É o que Freud tratou como flexibilidade e capacidade de aceitação diante da frustração.
Na frustração é o único estágio em que a gente tem a oportunidade de diminuir essa força. Se a minha força era oito no desejo e ele não aconteceu, se naquele estágio da frustração ele ainda não virou ódio… eu repenso e eu tenho aceitação. Aí toda a sequência vem diminuída.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 1, aula “Sequência Emocional” · 22/04/2024
Os dois critérios são independentes e se confundem o tempo todo. Fase adulta é critério objetivo, de responsabilidade pela própria sobrevivência: moro sozinho, pago minha conta, ganho meu dinheiro. Um cantor de catorze anos que se sustenta já é adulto; alguém de quarenta morando na casa dos pais, com a mãe lavando a roupa e fazendo a comida, não é. Maturidade é critério de ego, e se mede exatamente na frustração: é a competência de aceitar quando a realidade veio contrária à expectativa e de reprogramar o desejo. Dá para ser adulto e imaturo, e dá para ser o contrário.
A sequência é a mesma no neurótico, no bipolar, no esquizofrênico e no borderline. O que muda é o nível do sintoma: um roe a unha, outro quebra a casa, outro corta os braços, outro tenta o suicídio. O caminho até lá continua sendo desejo, frustração, hostilidade, destruição.
Por isso o cálculo diante de um quadro grave é o mesmo de sempre. Pergunta-se o que aquela pessoa desejava daquele pai que foi embora, daquela mãe que castra, daquele avô — e que não está acontecendo.
A passagem da frustração ao ódio não é moral. É fisiológica, e tem uma ordem que se pode acompanhar passo a passo.
Perguntado o que é frustração, a primeira frase é: ausência de energia. O resto se deduz dessa definição.
Expectativa não é “eu gostaria que isso acontecesse”. É “isso deve acontecer”. É a tentativa de controlar o que deve acontecer, e por isso ela é dramática e inflexível: dentro dela já está embutido que aquilo vai trazer sentido, alegria e cobertura para a falta.
Daí o inconformismo, que é a posição de quem não aceita a frustração. A frase-assinatura é “a vida é injusta, não é justo isso comigo”. Ela denuncia a birra, a inflexibilidade e a criança que ainda não admite que o mundo tenha tempo próprio. E há uma regra ligada a isso: todo ponto de expectativa frustrado sem aceitação vira marca de ponto traumático no inconsciente. Esse ponto se desdobra em evitação, em reações compulsivas para baixar a ansiedade e em programação para que aquilo não se repita. O começo da neurose não está no desejo nem na falta. Está na não aceitação da falta.
Destruição é o ódio em ação. Nunca vai entender a destruição sem entender o ódio.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 1, aula “Sequência Emocional” · 22/04/2024
A destruição é o estado mental de ódio colocado no corpo, em movimento. E a lista do que conta como destruição é mais larga do que parece: quebrar o carro, destruir a casa, bater em alguém, quebrar objetos, cortar o próprio braço — e roer a unha. Em todos os casos é a mesma operação: jogar para o físico algo que está sendo destruído, seja o corpo do outro, seja o próprio corpo.
Há uma leitura corrente que diz que a pessoa se corta porque a dor física é maior do que a dor que ela sente. Não é isso.
A automutilação é destruição deslocada para o próprio corpo, e ela se desloca porque o superego não deixou destruir a figura visada — a pergunta que o aparelho faz e responde sozinho é se é possível destruir o pai. O lugar mutilado carrega o simbólico do que está sendo destruído: uma perna atacada fala de direção e de movimento. E há satisfação envolvida, porque a pulsão de morte também é pulsão, e toda pulsão tem a satisfação como finalidade.
Existe uma culpa que se sustenta em fato e uma que se fabrica. Só a primeira responde a argumento — e é a segunda que chega ao consultório.
A culpa lógica é a culpa verdadeira, e exige três condições ao mesmo tempo: premeditada, consciente e livre. Cada uma se testa. Quem premeditou mas estava em surto não estava consciente. Quem premeditou e estava consciente, mas agiu sob ameaça à família inteira, não estava livre. Faltando qualquer uma das três, não é culpa lógica: é sentimento de culpa, e em psicanálise esse é exatamente o nome. É a culpa que o sujeito inventa para si ou compra de alguém.
O inconsciente não entra em contradição lógica. Por isso argumento não desmonta sentimento de culpa.
Uma paciente trouxe a mãe doente para casa, brigou com ela, mandou-a embora — e a mãe piorou e morreu. O discurso que chega à sessão é: eu mandei minha mãe embora e ela piorou. O terapeuta que tenta trazer a paciente para a realidade, lembrando que a doença já estava lá e que o desfecho viria de qualquer jeito, não muda nada. A única via é outra: descobrir o desejo e trabalhar a aceitação do desejo. No caso, todos os desejos frustrados em relação àquela mãe, que agora se cristalizaram na morte.
Para achar o desejo serve a aula de português aplicada à sessão: quem é o sujeito da frase, quem é o vilão da frase, qual é o tema desse discurso.
Se é uma culpa ilógica, se é um sentimento de culpa — escreve bem grande — a única forma de cuidar disso é descobrir o desejo e trabalhar a aceitação do desejo.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 1, aula “Culpa” · 29/04/2024
A regra é fechada: só se compra uma culpa imposta se já existe um desejo frustrado sobre aquele mesmo tema.
A sogra diz à viúva que o marido se matou porque tinha um casamento infeliz com ela. A frase só pega se a viúva ainda não aceitou aquela morte. Trabalhada a aceitação, a sogra fala e não gruda. O mesmo vale para a fala materna clássica — eu era linda, tinha carreira, e depois que engravidei tudo foi por água abaixo. Se o filho não tem desejos frustrados com aquela mãe, a frase não encontra onde se fixar. Se tem, encontra.
O erro de manejo correspondente é tentar resolver a culpa imposta discutindo a imposição: investigar a sogra, examinar se o casamento era mesmo infeliz. Isso não trata nada.
A culpa por êxito segue a mesma regra e acrescenta um mecanismo: ela aparece em relação a alguém que se ama, quando o próprio êxito humilha o outro. Nem todo mundo que ama sabe lidar com o sucesso de quem ama. Um marcador clínico costuma aparecer aí — crises de pânico que surgem exatamente quando a carreira começa a crescer, no grande projeto, na prosperidade, na exposição.
Quem julga é o superego. Na hora da culpa entram em jogo as crenças, os valores, os princípios, os totens e os tabus. O superego é o juiz.
A culpa mantém forma de pulsão, e portanto quer ser realizada: eu quero ser punido para me livrar dessa culpa. Como toda pulsão tem a satisfação por finalidade, a punição traz satisfação — e é por aí que se entende o sofrimento crônico que a pessoa não larga.
Mas a autopunição nunca extingue a culpa. Executar uma autopunição ou uma autossabotagem não elimina nada: o pagamento se repete enquanto o desejo não for aceito. As formas típicas de punição do culpado são a restrição e o isolamento. Uma viúva cujo marido se matou no quintal voltou a não sair de casa. A leitura é literal: se ela é culpada, ela tem que estar presa — então está presa em casa.
Não parece que eu vou reparar, que eu vou consertar tudo? Esquece essa ideia. A reparação ainda vem da culpa.Prof. Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 1, aula “Culpa” · 29/04/2024
São duas saídas para a mesma culpa. Pagar é a autopunição: fazer coisa ruim para si. Reparar é agradar: fazer alguma coisa pelo outro. As duas nascem no mesmo lugar. Quem está em reparação dá sinais reconhecíveis:
Quando alguém fica constrangido diante de um agradecimento, há dois caminhos e só dois: ou é reparação, e existe uma culpa inconsciente sobre aquela pessoa ou aquela situação, ou é pudor de superego, e aquilo insinuou alguma coisa que o superego não autoriza. Do mesmo campo vem outra fórmula: a queixa é o choro do adulto. Queixa-se para que o outro venha agradar, em vez de dizer o problema.
Nunca se julga autossabotagem pelo senso comum. Vai-se ao simbólico da pessoa: o que ela acredita que é vida e o que ela acredita que é morte.
Alguém aprendeu que vida boa é picanha com a gordura derretendo, e que alface faz mal. Quando essa pessoa larga a picanha e passa a comer alface, de fora parece uma boa escolha — mas ela está sabotando aquilo que acredita ser vida. O método é fazer duas listas com o paciente: tudo o que ele acredita que é bom e é vida, tudo o que ele acredita que é ruim e é morte. Depois se olha o que ele está fazendo.
As duas maiores autossabotagens são a procrastinação — o ato de delongar, espaçar ou deixar para depois — e o afastamento de quem se ama. Um mês sem ver o filho, sem dar um beijo, sem gravar um áudio: a pessoa sabe exatamente como destruir a relação, e destrói para se punir.
O paciente chega mostrando o final da cadeia: a autossabotagem, a culpa, a destruição, o ódio. Tudo isso é sintoma. Trabalhar qualquer um desses elos é perda de tempo, porque a cadeia reinicia enquanto o desejo frustrado continuar frustrado.
Há uma goteira no telhado. Troca-se o balde. Inventa-se um sistema para o balde escoar para fora. Troca-se a telha do lado errado. E a goteira lá em cima continua onde estava. Enquanto isso, o paciente arruma uma autossabotagem nova a cada vez que a anterior é resolvida.
A regra. Diante de qualquer elo da sequência, a pergunta volta ao começo: qual era o desejo, qual era o tamanho dele, e o que aconteceu quando ele não se realizou. É sobre o desejo que se fala — e é na frustração dele que a força ainda pode cair.