A última aula do curso. O ofício do psicanalista: associação livre, atenção flutuante, transferência, interpretação. Como se faz, afinal, aquilo que Freud descobriu — e como se torna alguém capaz de fazê-lo.
Toda a teoria que percorremos nestas onze aulas serve a uma coisa: tornar possível a escuta clínica. Sem a teoria, a clínica é improviso. Sem a clínica, a teoria é literatura. As duas só existem juntas — e é por isso que a aula que fecha este curso é a aula sobre o ofício.
A psicanálise não é apenas uma teoria sobre o psiquismo. É também — e talvez sobretudo — um método de tratamento e uma prática profissional. Enquanto método de investigação, caracteriza-se pelo método interpretativo, que busca o significado oculto daquilo que é manifesto — por meio de ações e palavras, ou pelas produções imaginárias como os sonhos, os delírios, as associações livres, os atos falhos. Enquanto prática profissional, refere-se à forma de tratamento — a Análise — que busca o autoconhecimento, ou a cura que ocorre através desse autoconhecimento.
A característica essencial do trabalho psicanalítico é o deciframento do inconsciente e a integração de seus conteúdos na consciência. Isso porque são esses conteúdos desconhecidos e inconscientes que determinam, em grande parte, a conduta dos homens e dos grupos — as dificuldades para viver, o mal-estar, o sofrimento.
A finalidade deste trabalho investigativo é o autoconhecimento — que possibilita lidar com o sofrimento, criar mecanismos de superação das dificuldades, dos conflitos e dos submetimentos, em direção a uma produção humana mais autônoma, criativa e gratificante.
Sobre a aposta clínica da psicanálise
Compreender a psicanálise significa percorrer novamente o trajeto pessoal de Freud — desde a origem dessa ciência. Mas significa também algo mais: a cada nova análise que começa, é realizada novamente a experiência inaugurada por Freud no início do século 20 — a experiência de tentar descobrir as regiões obscuras da vida psíquica. Como escreve Mezan: "se ela foi realizada por Freud, não é uma aquisição definitiva da humanidade — mas tem que ser realizada de novo por cada paciente e por cada psicanalista".
É essa repetição — não-mecânica, sempre singular — que faz da clínica psicanalítica um ofício. Não uma técnica que se aplica, mas uma arte que se aprende fazendo, sob supervisão, depois de ter feito também a própria análise. Esta aula descreve as principais ferramentas desse ofício.
A técnica psicanalítica não nasceu pronta. Ela é o resultado de quinze anos de tentativa e erro de Freud — desde a hipnose aprendida com Charcot, passando pelo método catártico de Breuer e a técnica da pressão, até chegar, em 1900, à associação livre.
A associação livre é a essência da técnica psicanalítica. Mais que um procedimento, é uma postura — uma forma de o paciente se colocar em relação aos próprios pensamentos. O que parece simples é, na prática, a coisa mais difícil que se pode pedir a alguém: dizer tudo o que vem à cabeça, sem censura.
Em vez de incitar o paciente a dizer algo sobre algum assunto específico, pedi-lhe então que se entregasse a um processo de associação livre — isto é, que dissesse o que lhe viesse à cabeça, enquanto deixasse de dar qualquer orientação consciente a seus pensamentos. Era essencial, contudo, que ele se obrigasse a informar literalmente tudo o que lhe ocorresse à sua autopercepção — e não desse margem a objeções críticas que procurassem pôr certas associações de lado, com base no fundamento de que não eram irrelevantes ou inteiramente destituídas de sentido.
Sigmund Freud · sobre a regra fundamental
Não houve necessidade, escreve Freud, de repetir explicitamente a exigência de franqueza por parte do paciente ao relatar seus pensamentos — pois era pré-condição do tratamento analítico inteiro. Mas pode parecer surpreendente que o método da associação livre, levado a cabo sob a observação da regra fundamental da psicanálise, deva ter alcançado o que dele se esperava: o levar até a consciência o material reprimido que era retido por resistências.
Deve-se ter em mente que a associação livre não é realmente livre. O paciente permanece sob influência da situação analítica — muito embora nada esteja dirigindo suas atividades mentais para um assunto específico. Justifica-se presumir que nada lhe ocorrerá que não tenha alguma referência com sua situação. Sua resistência contra a redução do material reprimido será expressa de várias maneiras: desejo, frustração, ódio, destruição, culpa, reparação e autopunição.
A regra fundamental — dizer tudo o que vier à cabeça, sem censura, sem julgar relevante ou irrelevante, sem temer ser absurdo, vergonhoso ou inadequado. Tudo o que aparece é material para a análise. Aquilo que o paciente se esforça por reter é, justamente, o mais importante. A regra é simples de formular — e quase impossível de cumprir. É contra ela que opera toda a resistência neurótica.
O determinismo psíquico afirma que nada acontece por acaso na mente — tudo está relacionado com algo anterior. Os sonhos também estão sujeitos a essa regra. E é por isso que a associação livre funciona: porque, ao desligar a vigilância da consciência, abrimos espaço para que essas conexões inconscientes apareçam — desviadas, dissimuladas, mas reconhecíveis. A associação livre é o consciente abrindo mão de comandar — para que o inconsciente possa falar.
À regra fundamental do paciente (associar livremente) corresponde, do lado do analista, uma postura simétrica: a atenção flutuante. Não escutar buscando confirmar hipóteses; não escutar com a intenção de interpretar; mas escutar suspendendo o juízo — deixando que o inconsciente do analista escute o inconsciente do paciente.
Se a regra fundamental do paciente é dizer tudo o que lhe vem à cabeça, a regra fundamental do analista é uma versão complementar: escutar sem privilegiar nada do que ouve. Essa é a postura técnica que Freud chamou de "atenção flutuante".
O analista, que escuta serenamente — sem qualquer constrangimento, à torrente de associações, e que, pela sua experiência, possui uma ideia geral do que esperar — pode fazer uso do material trazido à luz pelo paciente de acordo com suas possibilidades. A descoberta da resistência constitui o primeiro passo no sentido de superá-la. Assim, o trabalho de análise implica uma arte de interpretação — cujo manuseio bem-sucedido pode exigir tato e prática.
A atenção flutuante exige, do analista, várias coisas que não se aprendem em livros:
O analista expõe o paciente à menor dose possível de compulsão, jamais permitindo que se perca contato com a situação corrente real — e garante em grande medida que nenhum fator da estrutura da neurose seja desprezado e que nada seja introduzido nela pelas expectativas do analista.
O analista escuta serenamente, sem qualquer constrangimento, à torrente de associações. A compreensão da sequência emocional no quadro de análise reivindica do analista conhecimento tanto técnico como teórico — é considerada de importância principal.Sobre a escuta clínica
Duas coisas atravessam toda sessão: o que o terapeuta faz com aquilo que ouve e o momento em que a sessão se fecha. A primeira se decide na escuta. A segunda, no processo do paciente.
O erro mais comum de quem começa é medir o trauma do outro pelo tamanho do próprio. O paciente conta que o primo pegou a bicicleta dele emprestada, furou o pneu e devolveu assim. O terapeuta escuta "está bom, e depois?" e não escutou nada. Pode ter sido exatamente ali que aquela pessoa parou de confiar, parou de emprestar as coisas, passou a evitar grupo. O volume não se dá; o volume se percebe. Quem dá o volume é o discurso do paciente e o corpo dele.
O corpo, aliás, desmente a fala. Enquanto a boca entrega a versão organizada, e ela vem assim, "ele não me devolveu a bicicleta, mas tudo bem, está tudo certo já", o corpo engasga, muda, se encolhe. Quem escuta só a frase escuta que está tudo certo. Quem gritou foi o corpo. A racionalização é difícil de escutar justamente porque tem desculpas muito lógicas, e é a lógica dela que engana o iniciante.
Daí a posição de trabalho: não acreditar no conteúdo, interpretá-lo. O paciente diz que não dá para confiar em ninguém na empresa dele e apresenta cinco justificativas boas. Responder "é mesmo, não dá mesmo" é acreditar, e acreditar encerra a investigação. A pergunta é outra: por que esse tema está sendo colocado à mesa agora?
Porque o tema é a passagem. O conteúdo recalcado não está quieto lá embaixo. Está sob pressão, batendo, querendo ser resolvido, e precisa de um buraco para pôr a cabeça para fora. Esse buraco é o assunto que o paciente traz. Se não se puxar naquele momento, ele volta para baixo.
Por isso o achado é o tema que se repete em contextos diferentes. Não dá para confiar em ninguém na empresa. Depois, não dá para confiar em ninguém na família. Depois, no grupo de primos. O conteúdo muda, o tema não. Vale ainda uma segunda régua, a do afeto: se houve emoção, há causa. Numa cena em que a filha se emociona, a mãe se emociona e o pai enche os olhos de lágrima diante de um jantar japonês, a conta não fecha pelo jantar. Ninguém chora porque gosta de sushi. Quando a emoção é desproporcional à cena narrada, a cena não é sobre o que ela parece ser.
Trauma é tudo aquilo para o que o ego não estava preparado. O tamanho não está na cena. Compare dois casos. Um homem de sessenta anos, quase um monge, que já lidou com a morte, já perdeu e já ganhou, perde a família inteira num acidente de trem. Uma criança de cinco anos, filha de uma mãe superprotetora que nunca a deixou dormir na casa da avó nem ir cedo para a escolinha, se perde por dez minutos no supermercado. A segunda cena é mais traumática. Para o cérebro, as duas mensagens são idênticas: vou ficar sozinho, perdi minha família. O que difere é a estrutura do ego que recebe.
Dor é o real, o que aconteceu de fato, agora. Um rim doendo, um dedo cortado, um pai que morreu hoje, uma demissão depois de vinte anos, um divórcio em curso. Sofrimento é dor mais resistência e não-aceitação, esticadas no tempo, e tem um marcador claro: já existe evitação. Um ano depois do divórcio, os amigos convidam para conhecer gente numa boa, e ele não vai, não entra em aplicativo, não quer conhecer ninguém. Angústia é o que não é real: a fantasia construída sobre a dor, ou sem dor nenhuma. "E se eu perder o emprego?", estando empregado. "E se eu me separar?", estando casado. Quem nunca se casou e evita a dor de um divórcio não tem sofrimento algum, tem angústia. Saiu do real, entrou na angústia.
Separar as quatro tem função clínica, porque cada uma produz um movimento próprio: uma gera desejo, outra gera evitação, outra gera ataque. E o que chega ao consultório é sempre o sintoma. A investigação é de onde ele veio.
Sintoma é tudo aquilo que se apresenta. A escolha das roupas, aonde se vai e aonde não se vai, o que se evita, a dor psicossomática, o discurso, a crítica, o desejo, o gosto por manga. O pai só era carinhoso quando ganhava manga; hoje o filho prefere sorvete de manga. Isso não é só uma escolha. A palavra que abre o sintoma é adaptabilidade: o sintoma é o sistema tentando se adaptar para sobreviver a algo que dói. A loira me deixou; meu tio dizia que loira não presta; se eu falar mal de loira, eu evito loiras; evitando, não sofro de novo aquela rejeição. Falar mal de loira é o sintoma, e é adaptação, não maldade.
E o tamanho do sintoma é proporcional ao despreparo do ego, não ao tamanho do trauma. Se a angústia é fantasia, o sintoma pode ser enorme sem nada de real por trás. A proporção é com o buraco do caráter, com o quanto ali não foi vivido. Daí a pergunta que acompanha a sessão inteira: isso é eu ou é sintoma? Não gostar de sair é personalidade ou é evitação? Querer ser advogado é o self falando ou é o sintoma buscando cobrir alguma coisa? Há dois movimentos a distinguir: para fora, buscar, ter e ser algo que cubra a dor; para dentro, evitar lugares, pessoas e comportamentos.
A sessão tem investigação, ensinamento e ação. Quando esses três estão elaborados, ela fechou, e o paciente sai com um plano para a semana. Existe um ponto em que o processo se completa: pegou-se a dor, pegou-se a memória, chegou-se ao ponto de fixação, fez-se o ensinamento e montou-se o plano de ação junto com o paciente. Nesse ponto ele entende, e a sessão acaba. Quem encerra a sessão é o paciente. Funciona como uma reunião: ninguém precisa anunciar quanto ela vai durar, todo mundo percebe quando o assunto desenrolou. Na média, isso leva em torno de duas horas.
Há uma situação em que o corte é obrigatório: quando o que está falando não é elaboração, é resistência. O paciente prolixo fala sem parar para controlar a sessão e não ser investigado. Não deixa perguntar, já mudou de assunto quando se tenta. Esse discurso não é elaboração, e o corte tem função, porque diz àquele cérebro que a resistência foi percebida. O corte vem com devolutiva: essa tagarelice toda dói, você não quer que eu investigue. E com acolhimento em seguida: você não quer porque dói, e isso é normal.
Fora daí, interromper uma elaboração real cobra caro. A resistência ganha a semana inteira para blindar aquela memória. Na sessão seguinte o paciente não retoma do ponto onde parou: retoma com mais resistência e mais racionalização no lugar da elaboração. Vale lembrar que a terapia não acontece só dentro da sessão. Ela corre a semana toda, nas relações e nas opiniões do paciente, e o conteúdo não para de se transformar. Por isso, às vezes, ele chega precisando de pouco, de uma síntese nova ou de outro ângulo, e quinze minutos bastam.
Não é o terapeuta que finaliza a sessão. É o paciente que finaliza a sessão.Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 2, aula 08 · 30/09/2024
Para que a associação livre e a atenção flutuante funcionem, é preciso um enquadre — um conjunto de condições materiais, temporais e simbólicas que sustentam a situação analítica. O setting é o que torna a clínica possível.
Esses elementos formam o que Bleger e os teóricos posteriores chamaram de "enquadre". Sua função é dupla: fornece estabilidade material para que o trabalho psíquico ocorra, e oferece, na própria estabilidade, um fundo contra o qual as oscilações do paciente se tornam visíveis. Quando alguém chega atrasado, falta, quer trocar de horário, esquece de pagar — não são apenas eventos triviais. São signos analisáveis, e a precisão do setting é o que os torna legíveis.
É o achado mais inesperado de Freud — e o mais difícil de aceitar. Na situação analítica, o paciente transfere para o analista sentimentos, expectativas e fantasias que originalmente diziam respeito a outras figuras de sua vida. O analista vira pai, mãe, irmão, amante, perseguidor — sem ter feito nada para isso. E é precisamente esse fenômeno, descoberto inicialmente como obstáculo, que se torna o instrumento principal do trabalho.
A transferência foi descoberta por Freud através da experiência traumática de Breuer com Anna O. — quando a paciente, ao final do tratamento, desenvolveu uma gravidez psicológica (pseudociese), afirmando que o filho era de Breuer. Breuer fugiu do caso. Freud, ouvindo o relato anos depois, entendeu o que ali se passara: Anna O. tinha transferido para Breuer o desejo originalmente endereçado a uma figura paterna.
Os bons resultados poderiam ser restabelecidos se uma reconciliação pudesse ser efetuada. Mas tal ocorrência demonstrou que a relação emocional pessoal entre terapeuta e a pessoa a ser observada era, afinal de contas, mais forte que todo o processo catártico — e foi precisamente esta sequência de fatos que deixava o tratamento fora de controle.
Freud · sobre por que abandonou a hipnose
Na relação terapêutica, as experiências traumáticas do passado exercem poderosa influência — por serem resgatadas no momento de estresse onde se processam os conflitos neuróticos. O sujeito revive suas experiências traumáticas comportando-se na situação atual de forma infantilizada, involuntária e sem estar plenamente consciente. Não é uma simples adaptação inconsciente: trata-se de colocar as mesmas condições do passado na atualidade.
Os efeitos do passado só se revelam porque as reações são ativadas através dos relacionamentos pessoais e interpessoais atuais — e isto é especialmente válido quando se trata de experiências traumáticas. Em uma análise, o recalcado retorna apresentando-se na transferência. O paciente repete, em vez de lembrar — mas repete com o analista, e isso permite, na relação, fazer o que a memória sozinha não consegue: elaborar.
O analista nunca corresponde à demanda transferencial — não porque seja indiferente, mas porque responder a ela destruiria a análise. O analista não vai amar quem o paciente quer ser amado, não vai punir quem o paciente quer ser punido. Mantém-se no lugar onde a transferência pode ser vista, falada, e finalmente desfeita. Esse lugar é, em si mesmo, terapêutico — porque permite ao paciente reencontrar, na pele do analista, conflitos antigos que ele já não conseguia mais lembrar.
Se o paciente transfere para o analista, o analista também responde com sentimentos próprios — afeto, irritação, tédio, desejo, proteção, raiva. Esses sentimentos formam o que se chama de contratransferência. Inicialmente vista como obstáculo a ser superado, foi reconhecida — sobretudo após Jung — como uma das ferramentas mais valiosas do trabalho clínico.
O analista é um ser humano. Como qualquer ser humano em relação prolongada e íntima com outro, desenvolve sentimentos em resposta àquilo que escuta e àquilo que o paciente projeta sobre ele. Esses sentimentos formam a contratransferência. Inicialmente, Freud a viu como um problema — algo a ser controlado, neutralizado pela própria análise do analista. Mas a tradição posterior reviu essa posição.
Jung foi o pioneiro no reconhecimento do papel fundamental do analista em um processo dialético — assim como priorizou a compreensão da contratransferência e seu emprego como instrumento analítico.
Sobre a virada junguiana
Hoje, na maioria das escolas analíticas — em particular as kleinianas e os pós-kleinianos —, a contratransferência é considerada um instrumento clínico essencial. O que o analista sente, sobretudo aquilo que parece desproporcional ou estranho ao seu próprio estado, é informação sobre o paciente. É frequentemente o que o paciente projeta no analista (identificação projetiva) e não consegue reconhecer em si mesmo.
Mas a contratransferência tem seus perigos. Caso o analista não tenha uma compreensão clara disto tudo, haverá alta possibilidade do risco do terapeuta vir a, patologicamente:
É por isso que a análise pessoal do analista é parte essencial de sua formação. Não para "curar" o analista — não há cura definitiva possível — mas para que ele conheça suas próprias zonas de cegueira e suas próprias compulsões transferenciais, e possa, na clínica, reconhecê-las quando elas aparecerem. Não para eliminá-las — mas para usá-las.
Três manejos sustentam a abertura de uma sessão. Sem eles, quem fala é a persona, a máscara que o paciente monta e leva ao consultório. Com os três firmes, o inconsciente transborda.
Uma sessão sem rapport, sem conexão ou sem permissão é uma conversa com o personagem. Máscara, escudo, versão apresentável. Não se está falando com o conteúdo que dói. É por isso que alguém atravessa anos de atendimento sem que se chegue a um diagnóstico: o personagem foi bem construído e nunca foi convidado a sair.
Com os três presentes, acontece o oposto. Num ambiente em que o paciente tem credibilidade no terapeuta, tem conexão e tem permissão, o inconsciente transborda, e os conteúdos vêm sozinhos. Bem feitos, os três permitem fechar um diagnóstico em uma sessão, inclusive com quem já passou anos em terapia sem chegar a nenhum.
Há um passo a passo, e ele é curto. Apareceu resistência, volta-se para a conexão e para a permissão. Aumenta-se a técnica da permissão, aumenta-se a conexão. Às vezes o que falta é o rapport. A pergunta de manejo é sempre a mesma: qual dos três está falhando? Resistência não é sinal de parar de investigar. É sinal de que um dos três pilares cedeu.
A permissão é a técnica que antecede a aceitação, e inverter essa ordem é um erro nomeado: querer trabalhar a aceitação da dor com alguém que ainda não admitiu que dói. Antes de aceitar, o paciente precisa de permissão para que a verdade saia.
O modo de fazer é simples de dizer e trabalhoso de sustentar. É normal doer. Pode doer, sim. É normal doer isso. E o reforço que devolve valor a quem está falando: você é um herói, porque os meus pacientes não conseguem, e nem eu. Vai-se permitindo e liberando até ele admitir que aquilo ainda dói. Aí, e só aí, começa a aceitação.
Permissão é também ausência de julgamento sobre a escolha que o paciente fez. Eu estou permitindo, eu não estou te avaliando nem dizendo que você fez besteira.
Há uma situação em que essa técnica decide o caso. O paciente decide algo dentro do processo, vou me separar, vou sair de casa, e a vida responde na direção oposta. Descobre-se uma gravidez. O carro bate sem seguro e o dinheiro acaba. Numa reunião marcada para tratar do divórcio, o marido abre dizendo que está com um câncer.
O cálculo que o cérebro faz é este: a terapia estava indo pela estrada A, a vida me mandou para a estrada B; se eu sou obrigado a ficar em B, tenho que largar A, e a terapia é parte de A. Por isso a primeira coisa que o paciente larga é a terapia. Ela costuma vir disfarçada de despedida educada: vou pedir uns dias, não é nada com você.
O que não se faz é dizer que não é hora de parar. O que se faz é ir junto. Você estava elaborando de um lado e agora vem uma gravidez, que confusão. É normal. A vida te deu um caminho, vamos entender o que ela está dizendo nesse caminho e elaborar bem esse caminho para você ficar bem nele. A vida veio para o B, o terapeuta vai junto para o B.
Numa cena dessas, o terapeuta ainda tem uma checagem a fazer em si mesmo. O pensamento aparece sozinho: será que eu a levei fundo demais, será que o problema é comigo? É esse o desvio a evitar. No campo transferencial, quem abriu os olhos do paciente vira o culpado, e o trabalho é reconhecer isso e voltar à análise fria do caso. Há um limite, e ele se declara: explica-se até certo ponto. Depois é a vida. O que resta é entender o que ela trouxe e o que há para elaborar ali.
A vida te deu um caminho. Vamos entender o que a vida está dizendo nesse caminho e vamos elaborar bem esse caminho para você ficar bem nele.Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 3, aula 08 · 24/02/2025
Freud identificou quatro formações privilegiadas em que o inconsciente se manifesta — quatro "vias régias" pelas quais o que está reprimido encontra acesso à consciência, mesmo que sob disfarce. São o material principal sobre o qual a clínica trabalha.
No caso da análise individual, o material de trabalho do analista são os sonhos, as associações livres, os atos falhos — os esquecimentos, as substituições de palavras, e outros pequenos descuidos. Em cada um desses caminhos de acesso ao inconsciente, o que vale é a história pessoal. Cada palavra, cada símbolo tem um significado particular para cada indivíduo, o qual só pode ser apreendido a partir de sua história — que é absolutamente única e singular.
Para Freud, o sonho é a "via régia para o conhecimento do inconsciente". Dormindo, produzimos estranhas histórias que parecem fazer sentido sem que saibamos qual. Freud, tratando dos sonhos, partia do princípio de que eles diziam algo — e com bastante sentido. Não, porém, o futuro.
A técnica: tomar as várias partes do sonho e fazer o sonhador associar ideias e lembranças a cada uma delas. Foi possível descobrir que os sonhos se relacionam com acontecimentos do dia anterior e com modos de ser infantis do sujeito.
Duas regras lógicas: a condensação (uma figura no sonho representa várias figuras fundidas) e o deslocamento (o sonho dá importância emocional maior a elementos secundários, encobrindo os realmente importantes).
Os atos falhos ocorrem por influência do inconsciente. Os esquecimentos, os lapsos de linguagem, os trocadilhos involuntários, o trocar de palavras, o pegar o objeto errado, o errar de endereço — todos esses pequenos descuidos cotidianos têm, segundo Freud, um sentido.
Freud observou que tais manifestações não ocorriam obrigatoriamente em pacientes com distúrbios histéricos, mas também ocorriam com indivíduos normais — manifestando-se como um lapso de memória. Daí formulou a teoria de que tais manifestações partiriam do "Sistema Inconsciente".
Na clínica, o ato falho do paciente é ouro: ele revela, em segundos, aquilo que páginas de associação livre dissimulariam. O que escapa, escapa porque queria sair.
O chiste (a piada, o trocadilho que arranca o riso) é, para Freud, uma das formas em que o recalcado encontra expressão socialmente aceitável. O que não pode ser dito diretamente — agressão, desejo sexual, ofensa — passa pela porta dos fundos da piada e se torna não apenas aceitável, mas aplaudido.
O bom chiste, segundo Freud, opera por condensação e deslocamento — exatamente como o sonho. A diferença é que o chiste é social: requer um terceiro para rir. O sonho é solitário.
Na clínica, quando o paciente faz uma piada — sobretudo sobre si mesmo, sobre o analista, ou sobre algum tema sensível — vale a pena prestar atenção. O que ele acabou de dizer rindo, ele não conseguiria dizer sério.
O sintoma é, ao mesmo tempo, aquilo que oculta e que revela o insuportável para o ego consciente. É a manifestação mais visível do conflito — e, paradoxalmente, a mais difícil de decifrar, porque seu sentido está cifrado.
O sintoma neurótico é entendido a partir de uma economia, ou seja, da relação entre energias: investimento, contra-investimento, hiperinvestimento de representações. É uma formação de compromisso: satisfaz parcialmente o desejo recalcado e ao mesmo tempo o esconde.
Decifrar o sintoma é tarefa central da clínica. Curar o sintoma sem compreendê-lo é apenas suprimir um sinal — e o conflito retornará por outra via.
O sonho chega ao consultório como um bloco. O trabalho começa desmanchando o bloco: cada palavra desce numa linha, cada elemento é investigado sozinho, e só no fim as peças voltam para dentro da história.
Antes do método, uma premissa. O sonho existe para proteger o sono, para que a pessoa não acorde. A consequência é imediata: quem está tranquilo não sonha. Dormir com saúde, num colchão bom, sem ansiedade nenhuma, produz noites sem sonho, e todo mundo tem várias delas.
Se o sonho protege o sono de alguma coisa, essa coisa é a ansiedade. E ansiedade é medo e desejo. O que aparece ali é sempre o recalcado: aquilo que não se admite, de que se tem vergonha, com o que não se sabe lidar, para o que não há recurso. Um desejo já conhecido, com o qual a pessoa já lida, não precisa aparecer no sonho. Daí o corolário: nenhum sonho é bonito. Ele é neurótico. E o sonho é sempre do presente. É a angústia do dia ou da semana que se expressa, e é por isso que o pesadelo recorrente da infância parou quando aquele assunto deixou de importar.
Toda a tradução se apoia numa distinção. Associação é algo vivido, pessoal, que não vale para mais ninguém: meu pai tomava sempre num copo branco, e quando sinto saudade dele eu tomo num copo branco. Copo é copo. Pelo simbólico, não tem nada a ver com pai. Representação é universal e simbólica. Trem é mudança de destino. Casa é família, principalmente a mãe, e uma casa se destruindo é a família se destruindo. Churrasco é reunião e relacionamento, e dentro disso proteção paterna. Picanha não é churrasco: picanha é status e dinheiro. Cruz é lei, regra, crença. Armário é o oculto, o inconsciente.
A regra de bolso que decide entre as duas é curta: se o paciente trouxe cena, é associação. Aí não se procura simbolismo nenhum.
Uma habilidade atravessa todos os passos: como perguntar. O recalcado foge. Se ele perceber que está sendo investigado, vem a resistência e a investigação trava. Por isso o tom é de conversa leve, e o paciente precisa esquecer que está em sessão. Vale entregar algo de si para descontrair, contar que a universidade era boa e que se assistia pouca aula. O tom de interrogatório fecha a porta: "como era na época da sua universidade? e esses amigos, qual a sua relação com eles?".
Um ex-padre relata o sonho inteiro numa frase: sonhei que estava rezando com a minha namorada. Fragmentação: reza e namorada. Só isso.
Investiga-se a reza. Como padre, era sempre ele quem rezava nos enterros. Quando o pai dele morreu, pediram que ele mesmo puxasse a oração diante do caixão, e ele fez, com todas as palavras bonitas. Depois disso passou quatro anos sem conseguir rezar, só conseguia de forma programada, para dar a missa. Reza, ali, é perda.
Investiga-se a namorada. Antes de ser padre ele namorava uma menina que terminou com ele. Foi uma das piores dores da vida dele, e foi logo depois disso que decidiu ser padre. Namorada, ali, é perda.
O elemento comum é a perda. A devolução foi uma frase: você está com medo de perder ela. E a resposta veio na hora: estou apavorado.
Treine em outra pessoa, nunca em si mesmo e nunca em quem você ama. Com filho, marido ou mãe o raciocínio trava, porque tudo passa pelo próprio eu. E analisar o próprio sonho até ensina o simbólico, mas não treina a habilidade que decide o trabalho: vencer a resistência do outro. As três habilidades a treinar são fragmentar, investigar o fragmento sabendo se é associação ou representação, e perceber sobre o que todas aquelas imagens separadas estão falando.
Há ainda o sonho provocado, para quando não se tem acesso a um tema. Em vez de esperar o sonho, provoca-se o símbolo: agora imagine uma caneta; e aí, o que você fez com a caneta? O paciente responde que aquela caneta era imprestável e que a jogou fora, e traduz-se o símbolo junto com o discurso em volta dele. Por que a palavra "imprestável" está na narrativa?
Quando o paciente atribui o sonho a uma mensagem espiritual, o procedimento é traduzir tudo primeiro, todas as associações e todas as representações. O objeto de trabalho da clínica é o recalque.
Cada palavra você vai fragmentar. Não é um bloco… Você tira o elemento do lado do sonho, traduz o elemento, e depois ele volta para dentro da história.Eduardo Casarotto · Curso de Psicanálise, Instituto Virtudes · Módulo 1, aula 05 · 11/03/2024
Em torno desse material — sonhos, lapsos, chistes, sintomas, associações — o analista intervém. Sua intervenção principal é a interpretação: a tradução do que está cifrado para a linguagem do consciente. Mas a interpretação não é exibição de sagacidade: é uma operação delicada, que pode tanto promover insight quanto provocar resistência redobrada.
A Psicanálise, enquanto método de investigação, caracteriza-se pelo método interpretativo — que busca o significado oculto daquilo que é manifesto, por meio de ações e palavras ou pelas produções imaginárias. Mas o trabalho de análise implica uma arte de interpretação, cujo manuseio bem-sucedido pode exigir tato e prática.
Uma boa interpretação não é a interpretação brilhante, mas a interpretação oportuna e mensurada. Pode ser sintetizada em alguns princípios:
Lacan formulou a interpretação de maneira própria: tomar o desejo à letra. Isto significa não traduzir o que o paciente disse para uma linguagem teórica genérica, mas devolver-lhe exatamente as palavras que ele usou — mas em outra cadeia significante. A interpretação lacaniana é, frequentemente, um corte, uma pontuação, uma repetição surpreendente. Não uma explicação.
A ética da psicanálise, em primeiro lugar, diz respeito à interpretação do desejo inconsciente — que implica o sujeito na responsabilidade de uma escolha. O limite disso está na incompatibilidade do desejo com a palavra, o que esboça a virtude alusiva da interpretação — que vai da interpretação definida como "tomar o desejo à letra" até a interpretação enquanto incidindo sobre a causa do desejo.
Sobre a ética da interpretação
Para Jung, qualquer ação, objeto, imagem ou palavra será simbólica desde que encerre, além de seu significado imediato e perceptível, outros aspectos inconscientes — ainda não perceptíveis, mesmo que possam ser pressentidos. O símbolo, enquanto vivo, comporta todo um significado impossível de ser melhor expresso. Por intermédio dele, poderão surgir defesas e dificuldades, mas também potenciais criativos do inconsciente, trazendo novas luzes para a consciência.
Jung introduziu a formulação denominada prospectiva: ou seja, toda análise deve ser seguida de uma síntese — pois, caso contrário, provoca um tipo de fragmentação e uma aparência de cura. Para Jung, mais do que o termo "cura", trata-se de realinhar a personalidade — de encontrar o sentido de vida que corresponda à autenticidade intrínseca do ser.
Contra todo o esforço analítico, há sempre algo que se opõe ao trabalho. Esquecimentos, silêncios, atrasos, interrupções, desvios, "não-ter-o-que-dizer", saídas precipitadas do tratamento — tudo isso forma o conjunto que Freud chamou de resistência. Reconhecê-la é o primeiro passo. Trabalhá-la é metade do tratamento.
A psicanálise formulou o conceito de resistência como a estrutura-força que mantém a repressão no indivíduo. Sob esse vértice, a resistência impede a experiência — e tem a capacidade de eternizar as meias-funções que desempenha, enraizando inúmeros tabus e críticas. A descoberta da resistência constitui o primeiro passo no sentido de superá-la.
A resistência aparece de muitas formas — algumas óbvias, outras sutilíssimas:
Algumas pessoas "mudam" para não mudar: vão a todas as consultas terapêuticas que a família, parentes e amigos indicam — durante anos — e continuam exatamente as mesmas. Essa resistência a mudanças psicoemocionais deve-se ao fato de que esse indivíduo teve relevantes sentimentos de perdas precoces; sente-se justificado em eternizar uma atitude que, a título de "gratificações", está particularmente muito sensível a fracassos e frustrações.
A resistência não é inimiga. É o sintoma traduzido para a relação analítica — é o conflito do paciente repetindo-se dentro da sessão. Trabalhá-la é trabalhar o sintoma. Por isso o analista não combate a resistência: ele a nomeia, a interpreta, e espera que o paciente, ao reconhecê-la, encontre nela uma porta.
Não basta ler Freud para ser psicanalista. A formação psicanalítica, desde sempre, organiza-se em torno de um tripé — três pilares que nenhuma sociedade analítica abre mão. Cada um responde a uma exigência específica do ofício.
Essa formação é oferecida por diversas instituições psicanalíticas espalhadas pelo mundo, com diferentes filosofias para aceitar candidatos. Freud foi mais além: pensava no ensino da psicanálise como uma graduação, e sugeriu a fundação de uma Faculdade de Psicanálise, na qual várias outras disciplinas (Antropologia, Sociologia, Mitologia, Filosofia) seriam ensinadas — porque a psicanálise se nutre de todas elas.
Freud foi um defensor ferrenho da psicanálise leiga — da prática da psicanálise por não médicos. Em sua opinião, leigo é "quem compreende um tratamento sem possuir o conhecimento e qualificações necessárias". Mas colocava ênfase na exigência de que "ninguém deve praticar análise se não tiver adquirido o direito de fazê-lo através de uma formação específica". Se essa pessoa é ou não é um médico, dizia Freud, parece-lhe sem importância.
Grandes personalidades do cenário psicanalítico foram analistas não médicos — muitos sem grau universitário: Melanie Klein, Anna Freud, Hanns Sachs, Ernest Kris, Hug-Hellmuth, James e Alix Strachey, August Aichorn, Joan Riviere. Em 1926, foi dado início a um processo em Viena contra Theodor Reik — proeminente membro não médico — acusado de "tratamento prejudicial" pela lei austríaca contra charlatanismo. Freud interveio energicamente e preparou rapidamente um pequeno livro: "A Questão da Análise Leiga" (1926).
Segundo Roudinesco, "a partir de 1945, com o desenvolvimento considerável da Psicologia e de seu ensino universitário nos grandes países democráticos, a questão da análise leiga colocou-se em novos termos. Maciçamente, a Psicanálise passou então a ser praticada não mais apenas por médicos ou psiquiatras, mas por psicoterapeutas que haviam recebido formação como psicólogos". Por isso, os psicanalistas reafirmam vigorosamente a existência de suas próprias instituições — as únicas capazes de definir os critérios da formação psicanalítica: análise didática, ensino teórico-técnico e supervisão.
Toda prática que envolve a fala de um sujeito sobre seu sofrimento tem uma dimensão ética. A psicanálise formula a sua de modo específico — e é nessa formulação que ela se distingue tanto da medicina quanto da pedagogia ou da pastoral religiosa.
A psicanálise está em correlação com o momento da ciência moderna, sendo o sujeito da ciência a condição para a existência do discurso analítico. O sujeito, para a psicanálise, não é a consciência, não é a experiência, não é o sentido — ele está constituído por uma verdade. Prescrever remédios, ou promover o acesso a uma verdade causa do sofrimento? Essa pergunta aponta para uma ética — não a ética dos filósofos, mas uma ética da psicanálise.
Uma ética se anuncia, convertida ao silêncio pelo advento não do pavor, mas do desejo.
Jacques Lacan · Escritos
A ética da psicanálise, em primeiro lugar, diz respeito à interpretação do desejo inconsciente — que implica o sujeito na responsabilidade de uma escolha. O limite disso está na incompatibilidade do desejo com a palavra — o que esboça a virtude alusiva da interpretação. A interpretação vai da "tomada do desejo à letra" até a interpretação enquanto incidindo sobre a causa do desejo.
A ética do analisando pode ser formulada com a célebre fórmula freudiana: "Wo Es war, soll Ich werden" — "aí onde Isso era, deve advir Eu". Isto quer dizer que há ética onde há escolha, decisão — o que se manifesta de maneira exemplar na analogia feita por Lacan da depressão com a covardia moral.
A aposta ética da psicanálise. A análise não promete felicidade, não promete cura completa, não promete realização. Promete uma coisa só: que onde antes o sujeito era falado pelo seu inconsciente (passivo, repetitivo, sintomático), ele possa, gradualmente, vir a falar — assumindo a responsabilidade pelos próprios desejos, mesmo quando eles são inconfessáveis. É essa passagem do passivo para o ativo, do Es para o Ich, que constitui o trabalho analítico em sua dimensão ética.
Para Freud, isto significava algo radical: não há cura sem que o sujeito assuma seu desejo. Não basta o sintoma desaparecer; é preciso que o sujeito reconheça aquilo que, do seu inconsciente, o produzia — e decida, com pleno conhecimento, o que fazer com isso. Pode escolher continuar como estava. Pode escolher mudar. Pode escolher algo que ninguém antecipava. Mas escolhe. E é nessa escolha consciente que reside a única liberdade real possível — a liberdade interior, a única que a análise pode ajudar a conquistar.
Chegamos ao fim. Doze aulas, atravessando os fundamentos da psicanálise — do nascimento histórico da disciplina, com Charcot, Breuer e Anna O., até a clínica que se faz hoje. Mas o fim deste curso não é o fim do estudo, nem mesmo o começo dele. É apenas o ponto em que se tornou possível seguir adiante sem se perder.
Percorremos juntos: os fundamentos e o nascimento da psicanálise; as pulsões e os princípios do funcionamento mental; as duas tópicas do aparelho psíquico (consciente / pré-consciente / inconsciente, e Id / Ego / Superego); o desenvolvimento psicossexual e o Édipo; o narcisismo e a relação de objeto; a sequência emocional do desejo à reparação; a família, vínculos e sexualidade; os mecanismos de defesa; personalidade, caráter e self; civilização e cultura; a psicopatologia; e agora a clínica.
Cada uma dessas aulas conteve, é claro, apenas uma fração mínima do que há para conhecer. A psicanálise é um campo vasto — e a cada autor importante (Freud, Jung, Klein, Winnicott, Lacan, Bion, Kohut, Safra, Zimerman, e tantos outros) corresponderia um curso inteiro. O objetivo deste curso não foi esgotar o assunto, mas dar a base sobre a qual o estudo posterior pode se construir.
Mais que uma teoria, a psicanálise pode ser encarada como uma atitude ativa, exploratória e auto-examinadora — que leva o indivíduo a um apaixonado comprometimento com o ato de conhecer. Uma tal filosofia é a "missão" à qual Sócrates devotou e sacrificou a própria vida. Não é uma coleção de palavras ou mesmo um sistema de crenças explícitas — mas uma permanente integração entre pensamento, sentimento e ação.
A mágica da real filosofia é a mágica do exclusivamente humano ato de autoquestionamento — do ficar de frente à questão do si mesmo.
Needleman · 1982
A psicanálise é, antes de qualquer técnica, uma disposição interior. A disposição de não fugir do próprio inconsciente — e, num movimento solidário, de não fugir do inconsciente do outro. Essa disposição não se ensina; se cultiva. E se cultiva, sobretudo, fazendo: análise pessoal, escuta clínica, leitura paciente, supervisão, prática.
Para quem quer continuar, alguns caminhos:
O que percorremos juntos foi a base. O resto é continuar — sozinho ou em grupos, com livros ou com pessoas, em sessões formais ou em conversas informais. Cada um faz da psicanálise o que pode e o que precisa. Mas, sendo levada a sério, ela se torna uma forma particular de habitar o mundo: mais atento, mais escutante, mais consciente da fragilidade humana — a nossa e a dos outros.
E é essa, talvez, a melhor herança que essas doze aulas podem deixar.